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domingo, dezembro 26, 2004

Bonito?? Lindo!!

Ano passado, há exatos 365 dias, estava eu tendo meu primeiro contato com o Mato Grosso do Sul. Uma viagem dessas sonhadas, e planejadas, e desenhadas, e tudo o mais. Queríamos ver bichos pantaneiros, a vegetação, fazer snorkel nos rios cristalinos de Bonito, ver a raia (Potamotrygon reticulatus) que por uma dessas maravilhas da evolução é de água doce. Queríamos aproveitar o máximo desse pedaço do Brasil antes de submergir na cultura coreana. Imagine o choque: saímos praticamente do Pantanal para Seul. Lembro ainda chegando a Seul cheia de picadas de mosquito nas pernas (mais de 50, com certeza) e muito queimada de sol.

BonitoAquario Natural de Bonito
Aquário Natural do Rio Sucuri, um verdadeiro jardim embaixo d'água, e o choque de dois mundos: terrestre e aquático na descida do Rio da Prata.

Nossa primeira parada foi Bonito, no Mato Grosso do Sul, onde eu estava ansiosa para mergulhar nos rios da região. Bonito não faz parte da bacia pantaneira, estando na serra da Bodoquena, e devido ao alto índice de calcário no solo, as impurezas presentes na água precipitam junto ao calcário, num processo de filtragem natural que nos presenteia com as águas cristalinas que vimos lá. Visibilidade de dezenas de metros! Em água doce no Brasil?? Raridade total. A flutuação pelos rios Sucuri e da Prata foi uma das experiências aquáticas mais inesquecíveis que passei, e depois de visitar um número razoável de lugares pelo planeta, considero Bonito um caso único no mundo. A vegetação aquática, adicionada ao número de peixes, transformam a região num mega-aquário natural, onde ecoturistas podem sentir-se como um peixe por algumas horas. Ao fim da descida do rio da Prata, ainda pudemos ficar de queixo caído com o "vulcão", uma nascente borbulhante enorme há uns 5 metros de profundidade, onde ao pormos a mão temos a sensação vibrante de um mini-vulcão em erupção. Bonito não só é lindo, como também é um exemplo de organização turística e ecológica. Os guias locais são treinados com perfeição biológica e explicam a todos as peculiaridades daquele frágil ecossistema. Uma pérola da qual os brasileiros podem se vangloriar perante qualquer turista mundial. Temos Bonito, e vale a pena.

De Bonito, fomos ao Pantanal sul, em Mato Grosso do Sul, já na borda da imensa bacia que é o ecossistema pantaneiro. Confesso que, desde os tempos de colégio até as aulas de Ecologia pesadas da faculdade, nunca tinha entendido bem a idéia do que era o Pantanal, suas estações de cheia e vazante, todo aquele alagadiço. Precisei ir, ver pra crer e entender porque a planície depende do regime de chuvas, depende do rio Paraná, depende de uma linha super-tênue de equilíbrio que mantém tudo em perfeita harmonia. As interações ecológicas são frágeis por aquelas bandas. Qualquer deslize do clima ou da intervenção humana pode ser fatal para um grupo qualquer de animais e/ou plantas da região.

Por-do-solJacares
Pôr-do-sol no Pantanal Sul, com o cambará, a palmeira-símbolo do Pantanal, e os jacarés passeando no quintal da fazenda em que ficamos...

No Pantanal, tomamos conhecimento de problemas típicos, e o primeiro foi a provável abertura do rio Paraná à navegação. Querem tornar o rio Paraná 100% navegável, para que a produção agrícola da região mato-grossense (principalmente a soja) possa escoar para os portos do sul mais facilmente. Se isso acontecer, o ecossistema do Pantanal inteiro estará ameaçado, pois a bacia DEPENDE do regime do rio Paraná para sua saúde ambiental - a bacia secará, basicamente. O velho dilema: razões econômicas X razões ambientais, como de praxe. É ver quem vence essa parada.

Outro problema (esse inusitado) foi-nos comentado por um pantaneiro - aquele homem típico das planícies pantaneiras que sabe cavalgar melhor que muito hipista: o coreano Reverendo Moon (vocês lembram dele? O "dono" de uma seita religiosa na década de 80/90...) tem uma propriedade enoooorme na divisa com o Paraguai onde pretende construir um hotel/resort para turistas asiáticos. Ele espertamente há pouco tempo comprou uma propriedade enooorme do outro lado da fronteira, no Paraguai. Somadas as duas propriedades, ele possui uma área de fronteira entre Brasil e Paraguai que não possui leis alfandegárias e muito menos vigilância, pois é propriedade privada!!! Não é uma loucura isso? Em tese, ele pode passar o que quiser para dentro dos 2 países, cruzando por sua fazenda. Essa história me deixou estupefata por um tempo - ainda me deixa, quando páro pra pensar.

AguapeRaia de água doce
Os aguapés verde-intenso da região pantaneira, e a raia de água doce, beleza que o isolamento geográfico permitiu florescer nas águas brasileiras...

Tirando esses problemas, tivemos momentos divertidos por aquelas bandas, principalmente gastronômicos... A melhor costela que já comi na vida, uma cachaça deliciosa, a comida caseira que tanto sentimos falta no momento. Aquele tempero que só o pessoal na roça sabe fazer. Engordei uns bons quilos por lá, feliz da vida. Que dieta, que nada! Eu quero é comer bem...

E vimos alguns animais típicos: tuiuiús, jacarés, piranhas, sapos, pererecas, insetos, e a tão sonhada raia. E as plantas: ipês, ninféias, aguapés... Uma diversidade estonteante, um clima de paz e sossego, um lugar sagrado, um templo darwinista. O Brasil tem o Pantanal, e isso já vale a pena.

Tudo de bom sempre.

PS: A foto-banner deste blog aí em cima sou euzinha descendo o rio Sucuri... Explorando o desconhecido...

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