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segunda-feira, dezembro 27, 2004

O Anel de Fogo do Pacifico

Anel de fogo do Pacífico
Mapa do Anel de Fogo do Pacífico e placas tectônicas adjacentes, mostrando a área atingida pelo terremoto de domingo. (Papi e mami, como podem ver, estamos bem longe!)

No último domingo, o sul da Ásia foi atingido por um terremoto de 8.9 (update: magnitude 9.0) na escala Richter, e desde o momento em que aconteceu, começamos a acompanhar as notícias da tragédia. No meio daquele mar de informações fluindo ao mesmo tempo, lendo alguns jornais brasileiros e americanos, comecei a perceber uma confusão generalizada sobre a causa do terremoto e seus tsunamis, e principalmente, sobre a localização do problema. Vários jornais referiram-se à região de Sumatra como parte do "Anel de Fogo do Pacífico", uma região instável e de intensa atividade sísmica e vulcânica. Já tinha um post mais ou menos pronto sobre o assunto ANTES da tragédia, mas reformulei-o e adiantei a "publicação" bloguística - se é que podemos classificar uma curiosidade exacerbada por vulcões e eventos sísmicos como "publicação". Acho que o que melhor explica essa curiosidade é que eu sou de sagitário (signo do fogo) e embora não acredite em astrologia, pode ser que o mito do homem-centauro seja o responsável pelo meu fascínio por vulcões. Quem sabe…

Chama-se “Anel de Fogo” à região de intensa atividade vulcânica e sísmica que circunda a placa tectônica do Oceano Pacífico (veja o mapa acima). Essa placa é circundada pelas placas de Nazca, Filipina, de Cocos, Antártica, Indo-australiana, Norte-americana e uma pequena (mas importante) borda com a placa da Eurásia. (Alguns geólogos e afins incluem a região de Java como parte do Anel de Fogo, embora não necessariamente na fronteira com a placa do Pacífico. Enfim, problemas de conceito, que existem aos montes na ciência.) As placas, juntas, formam um quebra-cabeça montado e em movimento sobre a superfície da Terra. Em toda essa região de encontro de placas tectônicas, a fissura da junção das mesmas gera vulcões em atividade, terremotos com frequência acima do normal, e as pessoas que moram por ali estão sempre ameaçadas por essa atividade natural, esperando o próximo grande evento. Uma instabilidade vinda direto do centro da Terra em ebulição e a qual, por mais que nossa superioridade cerebral queira, não temos controle absolutamente algum. Acho instigante viver assim, sabendo que de nada adianta nesse caso o poderio bélico do sr. Bush, a puxa-saquice patente do sr. Blair, ou as investidas terrorismo-fantástico do sr. Bin Laden. Nem mesmo as orações do Papa ou preces budistas. O Anel de Fogo do Pacífico não liga para nenhum deles, e continua sua atividade de acordo com suas próprias leis… (Sim, eu provavelmente tenho alguns parafusos a menos.)

No domingo (26/dezembro), aconteceu imprevisivelmente um terremoto de 9.0 na escala Richter na ilha de Sumatra, Indonésia – o quinto maior deste século. O terremoto deixou muitos mortos na Indonésia e em outros 6 países asiáticos. A vibração do tremor gerou ondas enormes (os famosos tsunamis, que na costa viram maremotos) que viajaram pelo oceano Índico e devastaram com força total ilhas na Tailândia, na costa da Índia, na Malásia, Bangladesh, ilhas Maldivas e principalmente o Sri Lanka. Milhares de pessoas mortas e mais um sem número desabrigadas. Fico triste pelas pessoas que são pegas de surpresa num evento desses, mas sabemos o quão inevitáveis são terremotos e explosões vulcânicas na região do Anel de Fogo e adjacências. Na fronteira da placa do Pacífico ocorrem o maior número de erupções e terremotos do planeta - na região do Kamchatka (norte da Rússia, que um dia ainda sonho visitar), das ilhas Aleutian (Alasca), na costa oeste do Canadá e EUA, os vulcões da ilha Norte da Nova Zelândia, da Papua Nova Guiné, a fossa das ilhas Marianas e os vulcões do Japão. Entretanto, Sumatra, no conceito que escolhi para definir o Anel de Fogo nesse blog (nossa, agora eu me senti uma garota super-poderosa: Powerpuff save the world!) NÃO está no Anel de Fogo, e sim sobre a fissura entre a placa da Eurásia e a placa Indo-australiana. E por quê ela tremeu tão forte no domingo?

A razão real é desconhecida. Pode ter sido um efeito indireto da pressão da placa do Pacífico em expansão, afinal é essa atividade expansiva para o lado do Kamchatcka/ Japão que gera instabilidade na região de fronteira entre placas por todo o Anel de Fogo. (A placa do Pacífico nessa região está submergindo na placa da Eurásia.) Provavelmente, o terremoto de domingo foi mais um “assentamento” (dos grandes, dessa vez) de placas refletindo indiretamente a expansão da placa do Pacífico. Mas veja bem, PROVAVELMENTE. Pode ter sido também uma movimentação das placas locais, uma tensão entre a Eurásia e a Indo-Austrália simplesmente. (Update: O deslize entre as placas foi de 15m e a placa da Indo-Austrália está submergindo na da Eurásia.) A ciência não responde a isso com precisão no momento. Mas responderá em breve, após o acontecido. Prever, difícil ainda.

Entretanto, muitas vezes existem indícios de explosões vulcânicas ou grandes tremores, através de alguns sinais na crosta. Mas, mais importante que isso no caso do terremoto de domingo, foi o poder de percepção da formação do tsunami - infelizmente pobre, no sul da Ásia. No Pacífico, a maioria dos países diretamente ligados com problemas constantes de terremotos, vulcões e tsunamis possuem sistema de alarme geral, e quando um terremoto acontece no mar, rapidamente já se localiza a direção do tsunami e as cidades costeiras são avisadas. Isso pode dar de alguns minutos a horas de evacuação - um tempo precioso que pode salvar muitas vidas. Lembro que no Hawai'i todas as primeiras segundas-feiras do mês entre 10h e meio-dia um alarme ensurdecedor tocava (e ainda toca) por todas as ilhas, treinando para uma possível situação de emergência. Mas enfim, esse sistema não existia no Índico, e acrescente a isso uma das áreas mais densamente povoadas do planeta, e temos a receita perfeita para uma catástrofe.

A Terra ainda não é um planeta totalmente formado, e embora habitemos quase todos os recantos desse mundinho, ele ainda precisa de “espaço e liberdade” para terminar de desenvolver-se. Como um adolescente sendo pressionado a fazer vestibular para Direito quando quer mesmo é fazer para Música e ser um popstar. Pressionamos o planeta de todas as formas, extinguindo espécies, alterando ecossistemas, poluindo e gerando mais gente, tudo em nome de nossa melhor qualidade de vida. E é essa mensagem que, como o adolescente pressionado, os terremotos, vulcões e tsunamis dão de revide: ainda estão no controle do que acontece em nossas vidas tão pequenas, e eles ainda serão popstar por muito tempo. Pelo menos no Anel de Fogo do Pacífico.

Lava
A força que mata é a mesma que constrói... Lava escorrendo do vulcão Kilauea, no Hawai'i, que está no centro da placa do Pacífico, mas não é do anel de fogo!

E muitos se perguntam: se sabemos que vulcões e terremotos causam destruição e morte em níveis catastróficos, por que pessoas ainda moram em regiões próximas a eles???

A resposta é simples. Catástrofe é o lado que a mídia se ocupa de mostrar das regiões vulcânicas ou em atividade tectônica – o lado “mau”. (É preciso deixar claro que vulcões e atividades sísmicas andam lado a lado, de mãos dadas.) Entretanto, regiões próximas a vulcões inevitavelmente:

- Têm solos mais férteis, pois as erupções fazem ressurgir à superfície toneladas de lava, com elementos químicos e riquezas minerais que tornam o solo rico e melhor para a agricultura.
- São potenciais áreas de turismo. Muitas fontes geotermais de “água quente” espalhadas pelo mundo e que atraem turistas para banhar-se e chafurdar-se nas lamas “milagrosas”, estão na realidade em locais de fissura de placas. E as montanhas vulcânicas são um local único para caminhadas e montanhismo, pelo formato peculiar e pela geologia local.
- Geram mais empregos. Onde há potencial turístico e solos aráveis, pessoas estarão mais propensas a assentarem-se e produzir mais, portanto essas regiões terão mais comércio, formação de cidades e atrairão mais pessoas. Dinheiro, sempre dinheiro…
- São fonte de energia. Alguns países utilizam-se de usinas geotermais para produção de energia elétrica, uma fonte limpa (Nova Zelândia e Islândia, por exemplo), vinda direta da fonte de calor intermitente existente na região do encontro de placas.

E esse é o lado “bom” dos vulcões.

Tudo de bom sempre...


Viajando na maionese…

- No Anel de Fogo estão situados 75% dos vulcões dormentes e em atividade do planeta.
- Existem aproximadamente 1500 vulcões em atividade no planeta.
- Para os “lava junkies” como eu, o website Volcano World tem uma lista atualizada dos vulcões em erupção na Terra. Vale dar uma olhadinha por lá antes de planejar uma viagem… quem sabe você não será brindado com um banho de lava para sair bem na foto?
- Morávamos na borda da cratera dormente do Punchbowl por um ano, no Hawai’i. Aliás, muitas pessoas ainda moram lá, pois é um bairro como outro qualquer no centro de Honolulu. O vulcão Punchbowl é classificado como “dormente em vias de extinção”, portanto oferece risco quase zero para a população local. Milhões de pessoas no planeta vivem ao redor de crateras, cones e caldeiras vulcânicas – muitas sem nem saber.
- A formação dos vulcões do Hawai’i é um processo único no mundo, chamado “Hot Spot”: um buraco no meio da placa do Pacífico que libera magma intermitantemente e foi o formador em tempo geológico das ilhas havaianas. Uma nova ilha já está em formação submersa no Oceano, aos sul da Grande Ilha do Hawai’i, mostrando aos cientistas o local exato do “Hot Spot”. Isso é lindo!
- Tremores secundários ainda estão acontecendo na área do terremoto de domingo.
- (Update colado e modificado do Alexandre) O que é a boa informação... A Wikipedia está com tudo sobre o terremoto de domingo atualizado e em momento algum fala do Anel de Fogo do Pacífico! Jornais brasileiros, aprendam a ler e buscar informações em fontes como essa!
Update do update em 31 de dezembro: alguem acrescentou na mesma Wikipedia a informacao de que a Indonesia faz parte, sim, do Anel de Fogo do Pacifico, baseado em outro mapa, que nao leva em consideracao as placas tectonicas, e sim as regioes de intensa atividade vulcanica da regiao. Eu jah nao sei mais nada. Cada um decide qual conceito mais lhe apetece, com bom senso e logica, por favor.

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