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sexta-feira, dezembro 31, 2004

2005 chegou!

Finalmente viramos o ano. Balanço? Já fiz o meu pessoal, profissional e "artístico". 2004 ficou marcado pela nova vida na Coréia do Sul, pelo desafio da língua e do choque cultural, pela submersão na diabetes, pela entrada no mundo blogueiro, pelos novos amigos - e pela manutenção dos antigos com muito mais carinho. Detalhes maiores aos poucos vão aparecendo nos posts futuros.

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Nossa festa de Ano Novo foi super-light, tranqüila no quentinho do lar aquecido. Champanhe, maçãs e a tão sonhada pasta a 4 queijos (queijo é uma raridade para esses lados orientais). Não fomos a uma festa a qual fomos convidados, e resolvemos que o dinheiro que seria gasto na mesma teria outro destino. Minha consciência agradeceu.

Quanto a tradições coreanas de Ano Novo, uma parte dos coreanos se amontoa em engarrafamentos a caminho do mar do Japão (que eles chamam de Mar do Leste) para ver o nascer do Sol no dia 01/jan e rezar para um melhor ano que se inicia. O Homem do Tempo garante que estará nublado, portanto com visibilidade ruim para o nascer do sol. Alternativa? No centro de Seul à meia-noite, um grupo de figurões toca um gongo gigante, bem tradicional. Shows ao vivo de artistas famosos coreanos também rolam nessa cerimônia do gongo. Mas os -8 C (sem o fator vento) não me animaram: vimos pela TV. Minha consciência agradeceu de novo.

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Ano Novo, blog novo. Nem tanto, vai. As coisas não mudam tanto assim de um dia pro outro. Apenas adicionei alguns links novos na barra aí do lado, por razões totalmente subjetivas:

1) Alexandre (LLL), pois estou participando do Clube de Leituras dele - esse mês estamos lendo "Crime e Castigo", do Dostoievsky. Ainda não comecei e tenho esperanças de que conseguirei acabar a tempo. Além do mais, eu considero o LLL quase um portal de literatura.
2) Felicia Luisa, pois tenho visitado bastante a dona do blog...
3) Mad Tea Party, um blog para românticos, como a própria DaniCast sugere - e eu sou uma romântica.
4) Explorador deitado na rede, um blog novo de aventuras náuticas à la Amyr Klink - precisa dizer mais?

Ou seja: nada de muito novo no front. Ou quase nada.

E a promessa de pelo menos 2 interessantes viagens em 2005. Aguardem cenas dos próximos capítulos durante o ano!

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Um 2005 que se inicia cheio de paz, experiências novas e saúde para todos. Tin-tin!

E muitos sonhos, pois sem sonhos não viajamos - e sem viagens, não vivemos.

Tudo de bom sempre.

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quarta-feira, dezembro 29, 2004

Microscopicas viagens que alegram meu dia

Depois de muitas tentativas no laboratório, eis que hoje meu presente de fim de ano chegou.

Agora 2005 pode começar à vontade.

Fibroblasto 40XAdipocito 600X
Esquerda: células pré-adipócitas de camundongo vistas sob microscópio, aumento de 40X. Direita: as mesmas células, já como adipócitos (ou carinhosamente apelidados por mim de "gordócitos"), aumento de 600X. Tudo que está em vermelho é gota de gordura dentro da célula. Apesar de parecerem que não, foram tratadas com o mesmo corante vermelho.

Só para explicar um pouco essa viagem (Se achar que é biologia demais para sua cabeça, pule imediatamente para o próximo parágrafo.): adipócitos são células que acumulam gordura. Quando nascemos, temos em grande parte pré-adipócitos (imaturos), que com o passar do tempo e da ação de uma série de hormônios, transformam-se em adipócitos maduros e começam a acumular gordura naturalmente. Todos nós, sem exceção, mesmo magros, temos uma camada de gordura necessária sob a pele, que ajuda principalmente no isolamento térmico. E quando comemos demais... bem, todos sabem o que acontece com o excesso de gordura: eles entram nos seus "gordócitos", que se enchem - para tristeza da maioria das pessoas! Mas essas células também são um excelente modelo para estudos de diabetes tipo 2, pois as células de gordura são um dos alvos de ação da insulina, por onde normalmente inicia-se a deficiência metabólica característica da diabetes... E eu trabalho no meio dessa confusão de conceitos e idéias. Esse processo de maturação (que é feito por adição de um coquetel de substâncias e onde estávamos quebrando a cabeça) faz parte do início do projeto. (Finalmente conseguimos que o processo de maturacao funcionasse!) Obesidade - e consequente aparecimento de diabetes tipo 2 - é uma situação infelizmente corriqueira, fruto em geral do nosso sedentarismo e dos nossos hábitos alimentares esdrúxulos. Nem todo obeso será diabético, e nem todo diabético é obeso, que isso fique bem claro também.

Ciência é isso aí. Tentativas frustradas mil, um acerto: uma vibração de alegria dos seus (2) neurônios, um sorriso no rosto e energia para continuar - e bola pra frente que um novo ano vem aí, cheio de mais experiências e perguntas para serem vividas. E com suor e sorte, boas respostas também.

(Pelo menos nesse - literalmente - maremoto de más notícias e tragédias bombásticas de fim de ano, uma boa notícia no meu mundinho particular asiático.)

Tudo de bom sempre. E feliz 2005 para todos, caso eu só apareça agora em janeiro!

P.S.: Tem maluco pra tudo nessa vida mesmo...

segunda-feira, dezembro 27, 2004

O Anel de Fogo do Pacifico

Anel de fogo do Pacífico
Mapa do Anel de Fogo do Pacífico e placas tectônicas adjacentes, mostrando a área atingida pelo terremoto de domingo. (Papi e mami, como podem ver, estamos bem longe!)

No último domingo, o sul da Ásia foi atingido por um terremoto de 8.9 (update: magnitude 9.0) na escala Richter, e desde o momento em que aconteceu, começamos a acompanhar as notícias da tragédia. No meio daquele mar de informações fluindo ao mesmo tempo, lendo alguns jornais brasileiros e americanos, comecei a perceber uma confusão generalizada sobre a causa do terremoto e seus tsunamis, e principalmente, sobre a localização do problema. Vários jornais referiram-se à região de Sumatra como parte do "Anel de Fogo do Pacífico", uma região instável e de intensa atividade sísmica e vulcânica. Já tinha um post mais ou menos pronto sobre o assunto ANTES da tragédia, mas reformulei-o e adiantei a "publicação" bloguística - se é que podemos classificar uma curiosidade exacerbada por vulcões e eventos sísmicos como "publicação". Acho que o que melhor explica essa curiosidade é que eu sou de sagitário (signo do fogo) e embora não acredite em astrologia, pode ser que o mito do homem-centauro seja o responsável pelo meu fascínio por vulcões. Quem sabe…

Chama-se “Anel de Fogo” à região de intensa atividade vulcânica e sísmica que circunda a placa tectônica do Oceano Pacífico (veja o mapa acima). Essa placa é circundada pelas placas de Nazca, Filipina, de Cocos, Antártica, Indo-australiana, Norte-americana e uma pequena (mas importante) borda com a placa da Eurásia. (Alguns geólogos e afins incluem a região de Java como parte do Anel de Fogo, embora não necessariamente na fronteira com a placa do Pacífico. Enfim, problemas de conceito, que existem aos montes na ciência.) As placas, juntas, formam um quebra-cabeça montado e em movimento sobre a superfície da Terra. Em toda essa região de encontro de placas tectônicas, a fissura da junção das mesmas gera vulcões em atividade, terremotos com frequência acima do normal, e as pessoas que moram por ali estão sempre ameaçadas por essa atividade natural, esperando o próximo grande evento. Uma instabilidade vinda direto do centro da Terra em ebulição e a qual, por mais que nossa superioridade cerebral queira, não temos controle absolutamente algum. Acho instigante viver assim, sabendo que de nada adianta nesse caso o poderio bélico do sr. Bush, a puxa-saquice patente do sr. Blair, ou as investidas terrorismo-fantástico do sr. Bin Laden. Nem mesmo as orações do Papa ou preces budistas. O Anel de Fogo do Pacífico não liga para nenhum deles, e continua sua atividade de acordo com suas próprias leis… (Sim, eu provavelmente tenho alguns parafusos a menos.)

No domingo (26/dezembro), aconteceu imprevisivelmente um terremoto de 9.0 na escala Richter na ilha de Sumatra, Indonésia – o quinto maior deste século. O terremoto deixou muitos mortos na Indonésia e em outros 6 países asiáticos. A vibração do tremor gerou ondas enormes (os famosos tsunamis, que na costa viram maremotos) que viajaram pelo oceano Índico e devastaram com força total ilhas na Tailândia, na costa da Índia, na Malásia, Bangladesh, ilhas Maldivas e principalmente o Sri Lanka. Milhares de pessoas mortas e mais um sem número desabrigadas. Fico triste pelas pessoas que são pegas de surpresa num evento desses, mas sabemos o quão inevitáveis são terremotos e explosões vulcânicas na região do Anel de Fogo e adjacências. Na fronteira da placa do Pacífico ocorrem o maior número de erupções e terremotos do planeta - na região do Kamchatka (norte da Rússia, que um dia ainda sonho visitar), das ilhas Aleutian (Alasca), na costa oeste do Canadá e EUA, os vulcões da ilha Norte da Nova Zelândia, da Papua Nova Guiné, a fossa das ilhas Marianas e os vulcões do Japão. Entretanto, Sumatra, no conceito que escolhi para definir o Anel de Fogo nesse blog (nossa, agora eu me senti uma garota super-poderosa: Powerpuff save the world!) NÃO está no Anel de Fogo, e sim sobre a fissura entre a placa da Eurásia e a placa Indo-australiana. E por quê ela tremeu tão forte no domingo?

A razão real é desconhecida. Pode ter sido um efeito indireto da pressão da placa do Pacífico em expansão, afinal é essa atividade expansiva para o lado do Kamchatcka/ Japão que gera instabilidade na região de fronteira entre placas por todo o Anel de Fogo. (A placa do Pacífico nessa região está submergindo na placa da Eurásia.) Provavelmente, o terremoto de domingo foi mais um “assentamento” (dos grandes, dessa vez) de placas refletindo indiretamente a expansão da placa do Pacífico. Mas veja bem, PROVAVELMENTE. Pode ter sido também uma movimentação das placas locais, uma tensão entre a Eurásia e a Indo-Austrália simplesmente. (Update: O deslize entre as placas foi de 15m e a placa da Indo-Austrália está submergindo na da Eurásia.) A ciência não responde a isso com precisão no momento. Mas responderá em breve, após o acontecido. Prever, difícil ainda.

Entretanto, muitas vezes existem indícios de explosões vulcânicas ou grandes tremores, através de alguns sinais na crosta. Mas, mais importante que isso no caso do terremoto de domingo, foi o poder de percepção da formação do tsunami - infelizmente pobre, no sul da Ásia. No Pacífico, a maioria dos países diretamente ligados com problemas constantes de terremotos, vulcões e tsunamis possuem sistema de alarme geral, e quando um terremoto acontece no mar, rapidamente já se localiza a direção do tsunami e as cidades costeiras são avisadas. Isso pode dar de alguns minutos a horas de evacuação - um tempo precioso que pode salvar muitas vidas. Lembro que no Hawai'i todas as primeiras segundas-feiras do mês entre 10h e meio-dia um alarme ensurdecedor tocava (e ainda toca) por todas as ilhas, treinando para uma possível situação de emergência. Mas enfim, esse sistema não existia no Índico, e acrescente a isso uma das áreas mais densamente povoadas do planeta, e temos a receita perfeita para uma catástrofe.

A Terra ainda não é um planeta totalmente formado, e embora habitemos quase todos os recantos desse mundinho, ele ainda precisa de “espaço e liberdade” para terminar de desenvolver-se. Como um adolescente sendo pressionado a fazer vestibular para Direito quando quer mesmo é fazer para Música e ser um popstar. Pressionamos o planeta de todas as formas, extinguindo espécies, alterando ecossistemas, poluindo e gerando mais gente, tudo em nome de nossa melhor qualidade de vida. E é essa mensagem que, como o adolescente pressionado, os terremotos, vulcões e tsunamis dão de revide: ainda estão no controle do que acontece em nossas vidas tão pequenas, e eles ainda serão popstar por muito tempo. Pelo menos no Anel de Fogo do Pacífico.

Lava
A força que mata é a mesma que constrói... Lava escorrendo do vulcão Kilauea, no Hawai'i, que está no centro da placa do Pacífico, mas não é do anel de fogo!

E muitos se perguntam: se sabemos que vulcões e terremotos causam destruição e morte em níveis catastróficos, por que pessoas ainda moram em regiões próximas a eles???

A resposta é simples. Catástrofe é o lado que a mídia se ocupa de mostrar das regiões vulcânicas ou em atividade tectônica – o lado “mau”. (É preciso deixar claro que vulcões e atividades sísmicas andam lado a lado, de mãos dadas.) Entretanto, regiões próximas a vulcões inevitavelmente:

- Têm solos mais férteis, pois as erupções fazem ressurgir à superfície toneladas de lava, com elementos químicos e riquezas minerais que tornam o solo rico e melhor para a agricultura.
- São potenciais áreas de turismo. Muitas fontes geotermais de “água quente” espalhadas pelo mundo e que atraem turistas para banhar-se e chafurdar-se nas lamas “milagrosas”, estão na realidade em locais de fissura de placas. E as montanhas vulcânicas são um local único para caminhadas e montanhismo, pelo formato peculiar e pela geologia local.
- Geram mais empregos. Onde há potencial turístico e solos aráveis, pessoas estarão mais propensas a assentarem-se e produzir mais, portanto essas regiões terão mais comércio, formação de cidades e atrairão mais pessoas. Dinheiro, sempre dinheiro…
- São fonte de energia. Alguns países utilizam-se de usinas geotermais para produção de energia elétrica, uma fonte limpa (Nova Zelândia e Islândia, por exemplo), vinda direta da fonte de calor intermitente existente na região do encontro de placas.

E esse é o lado “bom” dos vulcões.

Tudo de bom sempre...


Viajando na maionese…

- No Anel de Fogo estão situados 75% dos vulcões dormentes e em atividade do planeta.
- Existem aproximadamente 1500 vulcões em atividade no planeta.
- Para os “lava junkies” como eu, o website Volcano World tem uma lista atualizada dos vulcões em erupção na Terra. Vale dar uma olhadinha por lá antes de planejar uma viagem… quem sabe você não será brindado com um banho de lava para sair bem na foto?
- Morávamos na borda da cratera dormente do Punchbowl por um ano, no Hawai’i. Aliás, muitas pessoas ainda moram lá, pois é um bairro como outro qualquer no centro de Honolulu. O vulcão Punchbowl é classificado como “dormente em vias de extinção”, portanto oferece risco quase zero para a população local. Milhões de pessoas no planeta vivem ao redor de crateras, cones e caldeiras vulcânicas – muitas sem nem saber.
- A formação dos vulcões do Hawai’i é um processo único no mundo, chamado “Hot Spot”: um buraco no meio da placa do Pacífico que libera magma intermitantemente e foi o formador em tempo geológico das ilhas havaianas. Uma nova ilha já está em formação submersa no Oceano, aos sul da Grande Ilha do Hawai’i, mostrando aos cientistas o local exato do “Hot Spot”. Isso é lindo!
- Tremores secundários ainda estão acontecendo na área do terremoto de domingo.
- (Update colado e modificado do Alexandre) O que é a boa informação... A Wikipedia está com tudo sobre o terremoto de domingo atualizado e em momento algum fala do Anel de Fogo do Pacífico! Jornais brasileiros, aprendam a ler e buscar informações em fontes como essa!
Update do update em 31 de dezembro: alguem acrescentou na mesma Wikipedia a informacao de que a Indonesia faz parte, sim, do Anel de Fogo do Pacifico, baseado em outro mapa, que nao leva em consideracao as placas tectonicas, e sim as regioes de intensa atividade vulcanica da regiao. Eu jah nao sei mais nada. Cada um decide qual conceito mais lhe apetece, com bom senso e logica, por favor.

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domingo, dezembro 26, 2004

Bonito?? Lindo!!

Ano passado, há exatos 365 dias, estava eu tendo meu primeiro contato com o Mato Grosso do Sul. Uma viagem dessas sonhadas, e planejadas, e desenhadas, e tudo o mais. Queríamos ver bichos pantaneiros, a vegetação, fazer snorkel nos rios cristalinos de Bonito, ver a raia (Potamotrygon reticulatus) que por uma dessas maravilhas da evolução é de água doce. Queríamos aproveitar o máximo desse pedaço do Brasil antes de submergir na cultura coreana. Imagine o choque: saímos praticamente do Pantanal para Seul. Lembro ainda chegando a Seul cheia de picadas de mosquito nas pernas (mais de 50, com certeza) e muito queimada de sol.

BonitoAquario Natural de Bonito
Aquário Natural do Rio Sucuri, um verdadeiro jardim embaixo d'água, e o choque de dois mundos: terrestre e aquático na descida do Rio da Prata.

Nossa primeira parada foi Bonito, no Mato Grosso do Sul, onde eu estava ansiosa para mergulhar nos rios da região. Bonito não faz parte da bacia pantaneira, estando na serra da Bodoquena, e devido ao alto índice de calcário no solo, as impurezas presentes na água precipitam junto ao calcário, num processo de filtragem natural que nos presenteia com as águas cristalinas que vimos lá. Visibilidade de dezenas de metros! Em água doce no Brasil?? Raridade total. A flutuação pelos rios Sucuri e da Prata foi uma das experiências aquáticas mais inesquecíveis que passei, e depois de visitar um número razoável de lugares pelo planeta, considero Bonito um caso único no mundo. A vegetação aquática, adicionada ao número de peixes, transformam a região num mega-aquário natural, onde ecoturistas podem sentir-se como um peixe por algumas horas. Ao fim da descida do rio da Prata, ainda pudemos ficar de queixo caído com o "vulcão", uma nascente borbulhante enorme há uns 5 metros de profundidade, onde ao pormos a mão temos a sensação vibrante de um mini-vulcão em erupção. Bonito não só é lindo, como também é um exemplo de organização turística e ecológica. Os guias locais são treinados com perfeição biológica e explicam a todos as peculiaridades daquele frágil ecossistema. Uma pérola da qual os brasileiros podem se vangloriar perante qualquer turista mundial. Temos Bonito, e vale a pena.

De Bonito, fomos ao Pantanal sul, em Mato Grosso do Sul, já na borda da imensa bacia que é o ecossistema pantaneiro. Confesso que, desde os tempos de colégio até as aulas de Ecologia pesadas da faculdade, nunca tinha entendido bem a idéia do que era o Pantanal, suas estações de cheia e vazante, todo aquele alagadiço. Precisei ir, ver pra crer e entender porque a planície depende do regime de chuvas, depende do rio Paraná, depende de uma linha super-tênue de equilíbrio que mantém tudo em perfeita harmonia. As interações ecológicas são frágeis por aquelas bandas. Qualquer deslize do clima ou da intervenção humana pode ser fatal para um grupo qualquer de animais e/ou plantas da região.

Por-do-solJacares
Pôr-do-sol no Pantanal Sul, com o cambará, a palmeira-símbolo do Pantanal, e os jacarés passeando no quintal da fazenda em que ficamos...

No Pantanal, tomamos conhecimento de problemas típicos, e o primeiro foi a provável abertura do rio Paraná à navegação. Querem tornar o rio Paraná 100% navegável, para que a produção agrícola da região mato-grossense (principalmente a soja) possa escoar para os portos do sul mais facilmente. Se isso acontecer, o ecossistema do Pantanal inteiro estará ameaçado, pois a bacia DEPENDE do regime do rio Paraná para sua saúde ambiental - a bacia secará, basicamente. O velho dilema: razões econômicas X razões ambientais, como de praxe. É ver quem vence essa parada.

Outro problema (esse inusitado) foi-nos comentado por um pantaneiro - aquele homem típico das planícies pantaneiras que sabe cavalgar melhor que muito hipista: o coreano Reverendo Moon (vocês lembram dele? O "dono" de uma seita religiosa na década de 80/90...) tem uma propriedade enoooorme na divisa com o Paraguai onde pretende construir um hotel/resort para turistas asiáticos. Ele espertamente há pouco tempo comprou uma propriedade enooorme do outro lado da fronteira, no Paraguai. Somadas as duas propriedades, ele possui uma área de fronteira entre Brasil e Paraguai que não possui leis alfandegárias e muito menos vigilância, pois é propriedade privada!!! Não é uma loucura isso? Em tese, ele pode passar o que quiser para dentro dos 2 países, cruzando por sua fazenda. Essa história me deixou estupefata por um tempo - ainda me deixa, quando páro pra pensar.

AguapeRaia de água doce
Os aguapés verde-intenso da região pantaneira, e a raia de água doce, beleza que o isolamento geográfico permitiu florescer nas águas brasileiras...

Tirando esses problemas, tivemos momentos divertidos por aquelas bandas, principalmente gastronômicos... A melhor costela que já comi na vida, uma cachaça deliciosa, a comida caseira que tanto sentimos falta no momento. Aquele tempero que só o pessoal na roça sabe fazer. Engordei uns bons quilos por lá, feliz da vida. Que dieta, que nada! Eu quero é comer bem...

E vimos alguns animais típicos: tuiuiús, jacarés, piranhas, sapos, pererecas, insetos, e a tão sonhada raia. E as plantas: ipês, ninféias, aguapés... Uma diversidade estonteante, um clima de paz e sossego, um lugar sagrado, um templo darwinista. O Brasil tem o Pantanal, e isso já vale a pena.

Tudo de bom sempre.

PS: A foto-banner deste blog aí em cima sou euzinha descendo o rio Sucuri... Explorando o desconhecido...

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sexta-feira, dezembro 24, 2004

Natal na Coreia do Sul e Verao em Cracovia

IMG_0015 Seul
Presépio à la Coréia, com um casal de confucionistas típicos fazendo o papel de José e Maria. Foi sem dúvida a maior bizarrice religiosa/cultural que presenciei no Natal por aqui. O presépio estava montado no hall de um hotel em Seul, e talvez isso dê um desconto na estranheza da coisa.

O Natal na Coréia do Sul é uma experiência que eu classificaria como surreal. Para aqueles que não curtem muito o espírito natalino, talvez Seul (ou uma cidade mais pro interior, como Ansan, onde moro) seja o local ideal. Existem, é claro, manifestações ocidentais do Natal - árvores, figuras de Papai Noel enfeitadas, vendedores com gorros vermelhos, etc. Mas nada muito exagerado, tudo na mais precisa discrição coreana. Aliás, nem parece que é Natal.

(Parênteses: isso me faz lembrar um filme tipo Sessão da Tarde que passa com frequência demasiada aqui, mas não lembro o nome, e podia entrar na lista dos 100 piores do Rafael... O filme é com Michael Douglas no papel de presidente dos EUA, e ele se apaixona por uma ecoxiita do segundo escalão. Enfim, mas a parte que me lembrei é no jantar de Natal da Casa Branca, 2 assessores do presidente (um deles o Michael J. Fox) conversam sobre política e afins, e uma terceira assessora chega e fala: "Vocês não conseguem parar de falar de política nem no jantar de Natal?" E o Michael J. Fox fala: "Natal? É Natal?" E o outro cara responde: "Você não recebeu o memorando?" É uma piada sem graça de doer, mas eu adoro. Sinto-me no momento como se também não tivesse recebido o memorando informando que é Natal. Fim do parênteses.)

Embora o povo coreano seja muito cristão (o que eu acho esquisitíssimo), não há a tradição de reunião familiar, comer peru - mesmo porque essa ave é raridade nos supermercados por essas bandas - comprar e dar presentes. Tudo é meio que "copiado" dos ocidentais, e sem identidade. E sem muita relevância. Coletando informações com colegas de trabalho, descobri que a única tradição de Natal prevalescente é ir a igreja no dia 25. Só.

Não iremos à igreja, mas conseguimos achar umas coxas de peru num mercado de importados e a Cyntia me deu uma receita de salpicão. Essa será nossa discreta janta de Natal. Afinal, o Natal está tão apagado por aqui, que esse menu já está é pra lá de brilhante.

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Nesse fim de ano, embora do outro lado do planeta para a maioria de meus amigos, tive a oportunidade de participar de 2 amigos Xs virtuais (cresci no ES, lá se fala Amigo X, não amigo oculto ou amigo secreto). Hoje (finalmente!) arrumei tempo para homenagear as 2 pessoas que me presentearam com tanta delicadeza e doçura. Como bem disse o Guilherme: "dezembro é o seguinte..."

O primeiro amigo X foi entre amigos meus do Brasil, e a Patrícia (vulga Pati Maçãzinha) me tirou, e mandou de presente uma apresentação no Powerpoint linda com fotos dos meus tempos de faculdade, e frases que me tocaram profundamente. Adorei demais, pois me ao ver os slides, me senti numa viagem no tempo, de volta aos corredores da UFV, e principalmente de volta às festas loucas que rolavam na minha república nos tempos de faculdade. Eu amo fotografia, e um presente fotográfico/nostálgico foi a melhor coisa que poderia ter chegado para mim! A Pati era 2 anos mais velha que eu no curso de Biologia, e fazíamos parte juntas do PET-Bio (Programa Especial de Treinamento), um programa da CAPES que garantia uma bolsa de estudos às custas de tarefas que colaborassem com a melhor formação do biólogo. Não sei se colaboramos na formação de biólogos, mas com certeza muito nos divertimos com aquela galerinha.

presente da alinepresentes da aline - cracovia
Meus presentinhos queridos vindos da Aline... direto da Cracóvia!!

O segundo amigo X foi o blog da Denise, e nesse eu tirei a Alessandra (que fez um texto lindíssimo para mim no blog dela) e a Aline, do blog "Era uma vez um verão em Cracóvia" me tirou. Havia pedido de presente de amigo X uma caneca do lugar em que a pessoa estivesse, pois gosto de canecas e gosto de lugares. (Tanto que tenho um blog sobre lugares/viagens, não é mesmo?) A Aline não só mandou uma caneca muito legal como adicionou/enriqueceu o presente com um pingente de coração, um dragão em miniatura, um cartão da Cracóvia (que já está devidamente colocado na minha geladeira, que é coberta por postais de lugares diferentes) e principalmente, um mapa/caderno de informações da Cracóvia... Bem, nunca estive por lá, o que por si só já me deixou extremamente animada. Agora fiquei mais com gostinho na boca ainda. E fuçando pelo blog dela, descobri que ela tem um cachorro chamado Ousama, que tem até um fotolog - me deu uma vontade enorme de fazer o mesmo pro Catupiry!

Confesso que embora tenha pedido a caneca, gostei mais de ganhar um livreto sobre a Cracóvia. Não que não tenha gostado da caneca, mas a curiosidade sobre um novo lugar que me apossou no momento em que abri o livreto... parece que a Aline leu a minha alma viajante! Fui "obrigada" a devorar as dicas e já sonhar com uma possível "passada básica" por lá em algum momento da vida. Já tinha ouvido de amigos alemães que a Polônia era um lugar muito bonito de se visitar, mas nunca estive muito atraída. Pois bem, Aline, você conseguiu... agora vou "viajar" na idéia de um dia conhecer a Cracóvia!

Quando isso acontecerá, não posso afirmar ainda. Mas que vai acontecer... ah, isso vai! (Será que se eu acrescentar esse pedido de última hora na minha lista de Papai Noel ele escuta e me atende?)

Tudo de bom sempre. E Feliz Natal a todos que me acompanham nessas linhas viajantes!

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quarta-feira, dezembro 22, 2004

Mais sobre o Crichton

Ok, eu havia me prometido só postar algo aqui sobre o Natal na Coréia nesses dias. Vou escrever amanhã sobre isso, pode deixar. Mas não pude passar em branco sobre essa informação, principalmente depois do que escrevi sobre o Michael Crichton (veja abaixo).

Afinal, HOJE está na Nature uma série de reportagens sobre aquecimento global e o mal-fadado livro do Michael Crichton sendo massacrado por uma batelada de cientistas de renome num blog sobre o tema, iniciado dias após o lançamento do livro de Crichton. O blog foi organizado por cientistas figurões do campo de aquecimento global. Parece que eles compraram a briga mesmo, e a Nature não vai deixar esse assunto passar batido.

Acho que mesmo sem ler o livro, não dei tanto furo assim.

;-)

Tudo de bom sempre.

(Amanhã eu entro no clima de Natal, ok?)

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A viagem de Crichton

Li isso ontem no blog da Nature (infelizmente em inglês, galera). É uma análise crítica sobre o novo livro de Michael Crichton, "State of Fear", em que ele afirma que todo o alarme sobre aquecimento global é puro exagero dos cientistas. E afirma isso baseado em relatórios mal-interpretados por ele mesmo. Ou seja, com o intuito de criar uma boa história de ficção, ele passou por cima da ciência - embora sempre que possível parece se basear nela para argumentar algo no livro. Tudo bem, eu nunca gostei muito do Michael Crichton mesmo, desde "Jurassic Park". Suas analogias científicas naquele livro sobre teoria do caos foram fracas, além de sua "ressurreição" de dinossauros. Mas era uma novela, uma ficção, então valia o entretenimento.

Mas parece que não entendi o recado, e agora vem mais essa.

Só torço para uma coisa: que Sr. George W. Bush (e seus assessores) não leia esse livro. Porque aí... estamos no sal. Bye-bye, Kyoto, forever.

Discordar é algo positivo, pois geralmente descobrimos uma nova faceta de um problema. Gosto quando pessoas discordam de mim com argumentos convincentes. Na hora, posso até berrar, ficar puta, etc. Mas depois, deitada no meu travesseiro, principalmente depois de uma noite de sono, com certeza se a coerência do argumento e a lógica (não sofismas!) forem patentes, é claro que minha opinião será reavaliada. Isso chama-se contruir um pensamento. E a ciência usa essa forma de trabalhar. Você tem uma tese, alguém pode soltar uma antítese te contestando, e chega-se a uma síntese. Mas querer que construamos algo com argumentos pelas metades e cheios de furos... principalmente depois da quantidade enorme de experimentos que provam que o aquecimento global é, sim, uma dura e triste realidade.

Michael Crichton pisou na bola feio dessa vez.

Tudo de bom sempre.

PS.: Vale ressaltar que eu não li o livro do Crichton "State of Fear" ainda, portanto minha opinião é totalmente passível de mudança... Baseei esse texto no que li na coluna da Nature, uma revista científica de renome mas que também é passível de erros - e acreditar nessa fonte pode se mostrar um erro no futuro. É pagar pra ver.

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segunda-feira, dezembro 20, 2004

Vila que eh Velha ate no nome

Aproveitando esses dias nostálgicos/saudosos próximos ao Natal, decidi prestar uma homenagem à minha querida Vila Velha (ES). Cidade onde fui criança e aborrescente, e onde até hoje encontro meu "cantinho" no Brasil. Nasci no Rio de Janeiro, mas sou de Vila Velha...

Sou do tempo em que Vila Velha não tinha nem calçamento na rua da praia, que dirá calçadão. Chegar a Vitória era uma aventura, e nunca íamos à capital a não ser por razões de emergência vital. Era apenas uma cidade-dormitório de Vitória. A Vila Velha da minha infância era pequena, cidade praiana com mentalidade de interior, poucos moradores, e todo mundo estudava no Colégio Marista, no São José ou no Pingo de Gente. Eu estudei no Marista, por toda a minha vida. A base de minha educação foi lá, naqueles corredores enormes, naquele prédio de arquitetura rococó (?) mal-feita, com professores de quem guardo boas lembranças. E quando matávamos aula na escola, íamos para a praia, ver a galerinha surfar e tomar uns caldos nas (pequenas) ondas da Praia da Costa. Teve a época do violão na praia, já adolescente, quando idolatrávamos o Legião Urbana e a banda Soldados do Acaso (só amigos que tocavam nela), e quando jogávamos todas as tardes um vôlei de praia sagrado, em times de quanto-mais-gente-mais-divertido pra cada lado. Verões inesquecíveis de intensa qualidade de vida. Éramos muito felizes e não sabíamos.

Praia da Costa, Vila Velha
Praia da Costa com Morro do Moreno ao fundo, foto tirada em 2003.

Mas Vila Velha, como toda cidade praiana, um dia despontou no horizonte visionário de algum empreeiteiro, que viu ali um futuro promissor de turismo. E começaram-se as obras. Lembro de um período em que definia minha casa como "um prédio antigo cercado de construções de prédios novos por todos os lados". Vivíamos numa ilha naquele mar de ferros, tijolos, areia e concreto sendo descarregado diariamente para os terrenos vizinhos. Hoje, Vila Velha parece até uma mini-Santos, com um paredão de prédios altos na orla, e poucas são as frestas por onde os habitantes do "centro da cidade" podem respirar a brisa do mar.

Gosto muito de Vila Velha, mas não poupo também duras críticas, principalmente ao crescimento desordenado que aconteceu e gerou poluição, trânsito e lixo. Ultimamente, a violência também vem despontando como um problemão por aquelas bandas. E mesmo sendo hoje uma cidade de quase 300,000 habitantes, ainda guarda uma mentalidade interiorana, onde as pessoas parecem todas se conhecer de alguma forma etérea. Será que essa dicotomia é um mal único ou outras cidades enfrentam o mesmo dilema?

Para um visitante forasteiro, a tradicional subida ao Convento da Penha é tudo o que resta a se fazer na cidade - além de passeios a shopping, que francamente, não fazem meu estilo. Hoje vou a Vila Velha para ficar com meus pais, rever alguns (poucos) amigos que ainda estão por lá - a maioria não aguentou a mentalidade bairrista e interiorana e desertou, espalhando-se mundo afora - e curtir o saudosismo de lembrar uma época que não volta, e que deixou saudade.

O nome é auto-explicativo: a Vila que é Velha. Parte do passado. Mas dá uma saudade!

Tudo de bom sempre.

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Alguém por favor me tira dessa onda nostálgica que me invadiu nesses dias!!!!

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sábado, dezembro 18, 2004

Malla versao 3.0

Hoje é dia de "software update". Lucia Malla versão 3.0 acabou de ser lançado no mercado, e vai ficar assim por mais um ano. Como o Ruindows, chegará num ponto do espaço-tempo desse ano em que vai necessitar de melhorias, porque afinal muda o design, muda a casca do programa, mas por dentro, é sempre a mesma "coisa".

E é por isso que eu uso Macintosh.

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ADORO ANIVERSÁRIOS!

Sempre me satisfiz muito celebrando o meu aniversário e o dos amigos - falou que era aniversário e eu sempre dava um jeitinho de acomodar na minha agenda. Gosto de lembrar, enviar cartões, gritar "Eeeeeeeeeeeee!!!" e cantar a velha musiquinha.

Mas no meu aniversário eu gosto mesmo é de estar com meu amor e com meus amigos, pensar neles todos com o coração cheio - e ouvir o "Birthday Concert" do Jaco Pastorius, pra mim uma das obras-primas desse baixista virtuose que nos deixou abruptamente e hoje toca seu baixo mágico para São Pedro. Para nossa felicidade, o Jaco também já fez no passado algum aniversário especial: foi tão especial que ele gravou em cd e hoje temos o privilégio de ouvi-lo. E eu tenho o privilégio de embalar meu aniversário ao som dele.

(Para os interessados, tenho o "Happy Birthday" dele em mp3, quem estiver a fim me dê um toque que envio com prazer.)

Normalmente no dia do meu aniversário eu dou muitas risadas, como bem (sim, porque nem só de café vive Lucia Malla), e faço o que bem entender, o que estiver na telha. Esse ano, ficarei em casa, curtindo meus dois gatinhos queridos, o Felis catus catupiriensis e o Homo sapiens andresium. Mas já paguei uns micos também.

Em 2001 passei o dia 19/dez voando de Boston para São Paulo, com escala em Miami. As 3 horas de vôo entre Boston e Miami, mais a minha apreensão, o frio de Boston, as mil e uma malas, somadas ao início da era pós-11 de setembro (as empresas aéreas ainda estavam se ajustando à nova realidade), me deram um chilique. Cheguei no balcão da American Airlines em Miami, às 6 da tarde, podre de cansada, e reclamei, reclamei, reclamei da vida com o "aeromoço". Falei que era meu aniversário e que estava tendo o pior aniversário da vida por causa da desorganização deles (exagero que depois valeu a pena). Resultado: me puseram na business class "de presente", e eu, que deveria ter 1 dólar na carteira naquele momento, pude desfrutar das regalias dos ricos. Ah! Que presente de aniversário!! Pelo menos dormi a viagem inteira, tranquilamente - e tomei muito vinho.

Mas chega de histórias, que toda essa nostalgia que bate em mim nesse período do ano uma hora tem que acabar. Mas enquanto não acaba, vou é curtir meu aniversário na Coréia, que ninguém é de ferro!

Egoistica/narcisisticamente falando:

FELIZ ANIVERSÁRIO PARA MIM!

Viajando total na maionese: Quem quiser me dar um presente de aniversário, aí vai meu pedido: faça algo ecológico hoje - só hoje, depois vocês podem voltar à vida normal de acordo com a consciência de cada um. E só uma dessas coisas já está bom. Exemplos de presentes:

- Não coma atum (que é pescado predatoriamente).
- Regue sua plantinha da sala, pois ela também merece viver feliz.
- Jogue o lixo no lixo - e se possível, recicle o que puder.
- Não ande de carro. Vá à pé ou use o transporte público, caso precise sair de casa nesse domingo.
- Leia um livro bom, que te abra a cabeça e faça você pensar melhor sobre nosso futuro.
- Se der, plante uma árvore (esse presente é difícil, eu sei).
- Pare de reclamar. Faça algo pelo seu problema. Todo mundo tem problemas, eu poderia aqui desfiar uma vida inteira de miserabilidade e momentos limites (não foram poucos, meus amigos antigos e fiéis sabem disso), mas prefiro lidar com isso no meu íntimo e focar esforços para as coisas que me levarão pra frente, não para trás (isso quem me ensinou foi a Cyntia). Mandar uma mensagem positiva para as pessoas nos faz bem, e no final ajuda a ultrapassar os problemas. Se você cumprimentar seu vizinho de maneira cordial, já me presenteou por hoje!
- Faça uma piadinha - mesmo sem graça - para alguém. Dar risadas é muito bom!
- Ouça: "First Circle" do Pat Metheny, ou "Round Midnight" (versão do Hermeto Pascoal em "Festa dos Deuses" - de quebra ouça o discurso do Hermeto ao final do disco) ou "G-Spot Tornado" do Frank Zappa (versão do disco "Yellow Shark"), ou o disco "Aura" do Miles Davis, ou "Toada" do Boca Livre, ou o disco ao vivo do Yamandú Costa com Thiago do Espírito Santo no baixo mágico e Edu Ribeiro na batera encantada. E lembre-se de abrir o coração para essas músicas "da alma". Se ao final de qualquer uma dessas músicas, você der um sorriso (ou chorar de felicidade, para os mais emotivos como eu), já me presenteou, ok?
- Viaje para algum lugar. Nem que seja para o distrito ao lado de onde você mora. Percorrer o mesmo caminho de forma diferente também é uma das VIAGENS às quais me acostumei. Sempre tem algo novo a descobrir nos velhos caminhos...

Puxa, essa lista é longa, não? Abusei da galera! Mas é só hoje.

Tudo de bom sempre - hoje principalmente.

1978
Aos 4 anos, com meus pais num restaurante, de cara amarrada sei lá porque. Foto nostálgica: um dia eu já fui assim.

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Bye-bye 20's

Hoje é meu último dia com 29 anos. Estou ainda curtindo o resto que me falta dos meus "20 e poucos anos". Não quero de forma alguma largar essa década mágica, que muito me ensinou.

Estou reflexiva, pois chegar aos 30 era uma idéia muito remota em minha mente - e acho que nunca me preparei para tal dia. Mas ele está chegando, finalmente.

Posso dizer que durante meus 29 anos de estrada, minha vida tem sido comum, como a da maioria das pessoas: alegrias, tristezas, perdas, glórias, aprendizado, micos. Muitos micos. Uma vida como outra qualquer. Uma vida vivida intensamente.

Parte pequena dos meus sonhos se realizou, outra grande parte ainda está rondando por aí, em algum recanto do meu subconsciente, esperando o momento para dar o bote.

Sem dúvida, viajei muito - física e mentalmente. Entrei nos 20 anos em 19/dez/1994, em Viçosa, MG, onde fazia faculdade. Na época, uma menina imatura e ridícula, que achava que podia mudar o mundo aos gritos de "Viva o DNA!". Uma sucessão de 10 alegres aniversários depois, encontro-me do outro lado do mundo, nos confins da Coréia do Sul. Ainda acho que às vezes sou ridícula e imatura, mas fazer o quê? Talvez isso faça parte de mim mesmo, e mesmo com 80 anos, ainda me ache ridícula e imatura. E gritando: "Viva o DNA!".

Pus meu pé em 4 continentes, além de ter conquistado os ares e os mares, da forma que queria. Morei em lugares inusitados, perdi para o tempo uma criatura muito amada, quase perdi outra - que por sorte se recuperou bem. Conquistei amigos diferentes, reforcei amizades inabaláveis. Conheci o amor verdadeiro. Nesses 10 anos, fui a shows de jazz (e não-jazz!) que sonhava aos 16, ouvi surpresas musicais que me instigaram, dei muita risada e chorei bastante. Vi muito desenho animado e muitos pores-do-sol. Tomei muito café e comi muita maionese - bom, acho que isso não mudará muito. Em síntese, VIVI o que deu para viver, dentro das minhas limitações.

E esse aglomerado de células que juntas chama-se "EU", será que já começou a viver nos 30, antes de mim?

Tudo de bom sempre.



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quarta-feira, dezembro 15, 2004

Isso precisa acabar

André voltou ontem da expedição científica nas Ilhas Marshall. E trouxe más notícias.


Tubaroes sem barbatana em Majuro
Caminhonete carregada de tubarões mortos com as barbatanas cortadas em Majuro, capital das Ilhas Marshal. A revolta: provavelmente essas carcaças serão jogadas no lixo, pois a única coisa valorizada do bicho é a maldita barbatana. E essa é uma atividade ILEGAL.

Essa matança precisa acabar.

A pergunta que não quer calar: será que se cortássemos as pernas dos indivíduos que colaboram com esse tráfico de barbatanas e assim eles não pudessem mais andar, portanto não conseguiriam se alimentar mais e morreriam de fome... será que essas pessoas entenderiam o problema?

Presente de Natal utópico (infelizmente) para a Lucia Malla:

Papai Noel, traz consciência ecológica pros asiáticos! Pelo menos para que eles não sejam os responsáveis número 1 pelo desaparecimento desse grupo FUNDAMENTAL ao equilíbrio do ecossistema marinho no planeta. Porque, no final das contas, sem tubarão = sem vida adequada ao ser humano nas futuras gerações... lembrem-se disso.

Barbatana de tubarão não é afrodisíaco nem aqui nem na China - muito menos lá.

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segunda-feira, dezembro 13, 2004

Kia ora: entre kiwis, samambaias e maoris

Antes de mais nada, quero agradecer a todos que deixaram desejos de boa viagem e comentários legais nos 2 últimos posts. Só ontem li tudo e fiquei encantada com as palavras de todos, valeu mesmo!

E já vou começar a narrar como foram meus 10 dias de férias na Nova Zelândia... O problema é que tem tanta coisa pra contar que vou fazer o seguinte: hoje vou (tentar) escrever mais geralzão da viagem, e com o tempo vou detalhando mais. Acho que vai ficar meio informativo demais. Não sou agente de viagens vendendo pacotes e tenho medo que esse post fique meio assim, por isso não sei se vai ficar bom, mas vamos lá. Ah, preparem-se para enrolar a língua com os nomes maoris dos lugares...

new zealand pohutukawa treete papa - welllington - new zealand
Pé de pohutukawa, a árvore de Natal da Nova Zelândia, e museu Te Papa em Wellington.

A Nova Zelândia é mais um sonho que realizei. Sempre fui louca para conhecer esse país isolado, principalmente porque na faculdade de Biologia estudei que a flora das ilhas era ímpar e peculiar por causa do isolamento geográfico, e por razões darwinianas (?), a Nova Zelândia apresenta essa singularidade no grau máximo: mais de 80% da flora é endêmica. Vem daí o início do sonho...

E também, fui visitar amigos de outros carnavais. Um casal maravilhoso que conheci em Boston nos idos de 2001, e que hoje moram em Auckland – John é neozelandês e Claudia é alemã, casaram-se em abril e são o casal mais “New York” que já conheci. John foi meu “mentor” intelectual em selenoproteínas e Macintosh nos duros tempos de frio bostoniano. Pessoas fantásticas, que me acolheram como irmã e fizeram da minha estadia a mais prazeirosa possível. O café da manhã na casa deles incluía até suco de beterraba com cenoura, meu favorito!

john e claudia - beterrabaauckland skyline
John & Claudia com o delicioso suco de beterraba matinal e vista de Auckland, a cidade dos veleiros!

Minha viagem começou em Auckland, onde fiquei 2 dias conhecendo e visitando a “city of sails”. Fomos no aquário de Kelly Tarlton, cujo “must” é a fauna antártica. Passeios por Mission Bay, contemplação do Ranitoto (ilha vulcânica na baía de Auckland), cafés singelos acompanhados de “New Zealand pie” – cada uma mais gostosa que a outra: comi uma torta de galinha com cranberries e queijo brie que vou te contar... MARAVILHOSA!

Fizemos a trilha de Arataki nas montanhas Waitakere, a noroeste de Auckland, onde comecei a ter contato com a flora neozelandesa: uma quantidade infindável de samambaias (símbolo do país), e plantas que eu nunca havia visto na vida, com adaptações as mais loucas possíveis. E árvores endêmicas para mim “novas”, como o kauri e a pohutukawa, também chamada de “New Zealand Christmas tree” porque floresce em vermelho intenso em dezembro. Ambas as árvores produzem um mel delicioso, que tive o prazer de provar.

De Auckland, peguei um ônibus de mochileiros, e comecei a andarilhação pela ilha Norte. No ônibus, aquela zona típica de mochileiros – pessoas de todos os lugares do planeta, ligadas pelo desejo comum da aventura e da busca do desconhecido, o que é totalmente a minha praia.

Primeira parada: Whitianga, na península de Coromandel, costa leste. Fizemos uma pequena trilha que chega na praia de Cathedral Cove, um lugar lindíssimo e muito parecido com a Tailândia, de acordo com meus companheiros de busão. O mar azul foi uma tentação ao mergulho de scuba, mas o preço absurdo da aventura rapidamente me trouxe de volta a realidade, assim como a água gelada do mar – mais o preço, confesso. É duro ser dura.

cathedral cove, whitiangamaori, new zealand
Na praia de Cathedral Cove e um maori tocando sua flauta mágica…

Segunda parada: Rotorua, cidade no centro-leste da ilha norte. Famosa pelas fontes termais e gêiseres, é uma região em constante ebulição vulcânica, e foi o lugar que eu mais curti da viagem – vou reservar um post inteiro pros vulcões da área e pras aventuras em Wai-o-Tapu, Waimangu e Whakarewarewa. Pude ver o kiwi, ave noturna símbolo da Nova Zelândia e em vias de extinção, exposta num museu de Rotorua. Lá tive também contato com a cultura maori pela primeira vez, e como interessada de carteirinha pela cultura polinésia em geral, saber de arquitetura à organização social dos maoris era tudo que eu queria . Muitas características em comum com os havaianos (comida cozida na areia, papel da mulher-progenitora-educadora e do homem-caçador na sociedade guerreira, excelente senso de navegação, língua apenas oral, sem escrita, etc.), mas pude captar algumas diferenças também: casas enterradas na areia como proteção ao frio (no Hawai’i isso não é necessário), uso de flautas como instrumento musical e nenhuma percussão (são o único povo polinésio que não desenvolveu música percussiva), vestimentas feitas com fibras, e não folhas verdes e flores, entre outras características. O alfabeto maori é um pouco maior que o havaiano (que só tem 13 letras), mas o vocabulário tem raízes comuns, como “wai”, que tanto em maori quanto havaiano significam “água”.

(Just for fun, estudei língua e costumes havaianos por um ano – o manjado HAW 101 - por isso minha comparação exagerada com aquela cultura. E mais detalhes sobre isso também já está anotado no caderninho pra um próximo post, ok?)

Em Rotorua, fiz outra (excelente) trilha, a do Waimangu Valley, que passa por crateras em atividade do vulcão Tarawera, sendo a cratera do Inferno com o azul-esverdeado mais lisérgico que eu já vi (devido ao minerais da região e ao pH acidésimo). Nessa trilha, também esbarrei com aves e plantas endêmicas da Nova Zelândia, uma verdadeira aula de Evolução e Geologia ao vivo e a cores.

Terceira parada (rápida, só pra constar): Matamata, também conhecida como Hobbiton. Sim, tinha que ter uma referência ao “Lord of the Rings” nessa viagem... A cidade mudou de nome para Hobbiton depois do filme! Dá pra crer nisso?

hobbiton - new zealandinferno crater
Galera do busão em Hobbiton e a cratera do Inferno em Rotorua – atenção, a borda dessa cratera é natural, não é cimento! E essa cor não é Adobe Photoshop.

Quarta parada: Wellington, capital da Nova Zelândia, e conhecida pelos ventos... E como venta por lá! Desencanei do pente enquanto estive por lá. Em Wellington, visitei o museu Te Papa (ou Museu da Nova Zelândia), um primor de arquitetura, organização, coleção e informação. Já visitei alguns museus americanos e europeus com a mesma proposta do Te Papa, mas confesso que me impressionei demais com ele. É simplesmente o melhor museu sobre um país que eu já vi. Conta TUDO da Nova Zelândia, desde informação geológica a antropológica, passando por ciência, costumes, artes e política, entre outros assuntos. E nesse museu, mais uma (boa) surpresa da viagem: a coleção de ossos de “beaked whales” ou baleias-de-bico. Chamou-me atenção o detalhamento da coleção, em assunto tão específico. Não resisti à investigação: fui atrás do biólogo responsável do museu, e em menos de 1 hora estava sentada conversando com Anton Van Helder, um dos maiores especialistas em baleias-de-bico do mundo, discutindo sobre as baleias, e mostrando algumas fotos do André para identificação mais apropriada. Sabe quando criança ganha pirulito e fica toda feliz? Assim estava ele, com brilho infantil nos olhos, ao ver as fotos da baleia-de-bico que a expedição do ano passado encontrou nas Ilhas Marshall. De acordo com ele, a espécie que André fotografou é muito difícil de ser vista, e ele próprio, há muitos anos estudando o assunto, nunca havia visto sequer uma viva. Enfim, vir para Wellington como turista e terminar conhecendo um biólogo renomado foi uma surpresa das melhores que a viagem reservou.

Baleia-de-bico
A tão falada foto da baleia-de-bico...

Além dessa surpresa, Wellington ficou registrada na minha memória como uma cidade aconchegante, de arquitetura arrojada no limite certo, pessoas sorridentes e vibração noturna vulcânica de cidade cosmopolita.

Última parada: Auckland de novo, para visita a vinhedos da região norte, passeios pela praia de Omaha, e despedida dos amigos que me acolheram tão bem. E que já deixaram saudade...

“Kia ora”, saudação maori com mesmo sentido que o aloha havaiano ou o já famoso hermetiano: tudo de bom sempre, pra todos. :-)

PS: Vale ressaltar que os vôos me produziram fotos okzinhas também... consegui uma foto aérea do Monte Fuji (Japão) legal, além dos cones vulcânicos Ngauruhoe e Ruapehu na região central da Nova Zelândia, e de um atol em Niue (Pacífico sul). Viva!
Monte Fuji, JPMonte Ngauhuro, Nova Zelandia

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quinta-feira, dezembro 02, 2004

Viajei!

Fazendo justiça (??) à "temática" (????) do blog (!!!!!), fiz minha mochila e pus o pé no aeroporto de Incheon - porque afinal não dá para sair da Coréia do Sul por terra, embora ela seja uma península.

Volto daqui a 10 dias.

Até lá, tudo de bom sempre.

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