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segunda-feira, janeiro 31, 2005

"Crime e castigo"

Como previsto, não terminei de ler “Crime e Castigo” pro Clube de Leituras do blog do Alexandre. Estou lá pela página 160, mais ou menos no meio da segunda parte do livro. E estou gostando muito. Já fui uma boa leitora de clássicos na adolescência, mas depois que mergulhei na ciência de cabeça, meu tempo para tal delícia se resumiu muito – e passou a faltar paciência, às vezes.

Nesse ponto, o clube de leituras foi um incentivo perfeito para que eu voltasse a ler classicos. Valeu demais, Alexandre! Mesmo sem terminar, vai aí minha opinião pelas metades. E para os que estiverem a fim de ver o que está rolando, visite o fórum de discussão do livro: diversão e cultura certa.

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Minha impressão de “Crime e Castigo”, do Dostoievsky, é boa. Estou lendo uma tradução em inglês (o que em parte justifica minha demora em ler), sem nenhuma nota do tradutor (tenebroso isso) e com umas frases meio “singulares” – não sei se Dostoievsky usava por exemplo o termo “niggers on plantation” visto que escravos negros não eram comuns na Rússia daquela época – ou eram, não sei. O livro começa meio monótono – embora eu tenha gostado do capítulo de abertura, o segundo e o terceiro foram bem chatos. A leitura comecou a fluir mais a partir do recebimento da carta da mãe do personagem principal, Raskolnikov. Mas quando você chega na segunda parte, fica um ar meio “Alice no País das Maravilhas”, meio alucinação, delírio. Ainda estou tentando entender se o cara é louco varrido ou se é muito looser mesmo.

De qualquer forma, embora “Crime e Castigo” se passe na Rússia do século XIX, não me senti totalmente levada para lá. Achei a composição dos personagens, cenas e todo o resto muito mais “universalizada” que localizada. Não dá pra viajar pra Rússia, mas dá pra viajar na maionese da cabeça do Dostoievski e seus personagens.
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Eu sempre achei os povos do Leste Europeu tristes. Não tristes de horríveis, não. Tristes de melancolia, um ar de quem está em depressão sistêmica. Já morei com uma búlgara, namorei um russo, trabalhei com outros russos, húngaros e cazaquistaneses (está certo isso?), e conheci checos e croatas. Todos, sem exceção, têm um ar triste. Na minha santa ingenuidade, eu creditava essa característica à vivência sob o regime socialista que todos passaram e/ou herdaram de suas respectivas famílias, que os fazia temer as críticas e desconfiar de todos. E na minha cabecinha de minhoca o socialismo entristecia.

Depois que achei um estudo da ONU ranqueando os 10 países com pessoas mais tristes, e 7 deles eram no Leste Europeu, o que era antes uma mera impressão fixou-se na minha cabeça como realidade. Mas por quê? Por que eram todos tristes? Agora, lendo sobre a vida de Dostoievsky (na versão que estou lendo tem uma pequena biografia de 20 páginas no início) e lendo “Crime e Castigo”, despertei a percepção de que a tristeza dessas pessoas não pode ser por causa do comunismo, porque parece que ela já existia naquela época, quando socialismo ainda era um sonho a ser realizado. E aí a busca pela razão dessa tristeza ficou mais complexa. Será que é genética ou memética? A forma como as pessoas do Leste Europeu encaram os obstáculos da vida, será que tem a ver com menor produção de serotonina, ou algo do gênero? Pode ser besteira, mas no momento, quero me convencer que é uma diferença genética que gera essa tristeza generalizada. Porque se for genético, vai apenas fazer parte da maravilhosa diversidade da espécie humana, e de alguma forma essa característica teve um valor adaptativo e pôde ser mantida na população – então confere alguma vantagem, sei lá eu qual. Mas se for apenas cultural... qual a vantagem seletiva que isso traria?

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Fiz esse post sem ler o comentário de absolutamente nenhum participante do Clube de Leituras sobre o livro. Agora, vou comecar meu passeio dostoievskiano pela cabeça dos outros...

Tudo de bom sempre.

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