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segunda-feira, janeiro 24, 2005

Ilha de Jeju (ou Cheju)

Para os brasileiros, Jeju foi apresentada na Copa do penta, quando o Brasil derrotou a China na primeira fase no estádio da ilha. Estádio bem moderno, mas modesto em tamanho. Como eu já morava no exterior na época da Copa, não tenho noção alguma das asneiras ditas pelo Galvão Bueno sobre a ilha e seus aspectos turísticos ao narrar o jogo, mas com certeza seria divertido hoje ver um replay desse momento globífero.

Essa foi minha segunda ida à ilha de Jeju, no sul da Coréia do Sul, destino número 1 dos coreanos em férias. A razão dessa predileção? O clima ligeiramente mais ameno que no resto da península, as atrações vulcânicas naturais, a cultura um pouquinho diferente da coreana peninsular, e o fascínio que ilhas despertam em geral nas pessoas – nesse item, falo por mim, é claro. Além disso, Jeju é local de muitas conferências nacionais e internacionas, propiciadas principalmente pela imponência arquitetônica do Centro de Convenções.

Jeju tem 2 cidades principais: Seogwipo (ao sul) e Jeju-si (ao norte), separadas pelo monte Halla, vulcão no centro da ilha, cuja cratera é um lago e cujo pico está quase sempre coberto de neve. Quando fomos em maio/2004, ficamos em Seogwipo, pois íamos mergulhar por lá – de acordo com guias da Coréia, o melhor lugar para tal aventura. Não posso dizer nada de outros pontos coreanos, mas que as ilhas de Monseom e Seopsom são um espetáculo subaquático, ah! isso são! A água é estupidamente gelada, mas valeu a hipotermia: a quantidade surpreendente de corais moles, a curiosidade de um peixe-leão, os coloridos nudibrânquios, as diferentes lulas e águas-marinhas... um show de diversidade num pedaço onde achávamos antes estar completamente pescado/explorado em condições quase de deserto submerso. Nada como ter um espírito de Sao Tomé na veia para descobrir algo novo. Se tem credencial de mergulho e um dia visitar a Coréia, não perca essa chance.

Em maio, final de primavera no hemisfério norte, passamos as manhãs embaixo d’água, e as tardes andando pela bucólica Seogwipo. Cidade de interior, com muito movimento pesqueiro, pouco trânsito de carros, e muitas casas – uma raridade arquitetônica na Coréia peninsular, onde temos a sensação de que todos moram em apartamentos. Pudemos visitar a cratera do Ilchibong à beira-mar com uma vista estonteante do mar do Japão, e admirar 2 cachoeiras: uma dentro de um parque bem turístico (lotado de turistas chineses), e a outra derramando sua cascata principal direto no mar – de acordo com os coreanos, a única na Ásia, mas depois descobrimos que existem outras no Japão e na China – viva Policarpo Quaresma e seu ufanismo exagerado.

Peixe-leaoilchibong crater, jeju
O peixe-leão que nos perseguiu em um dos mergulhos, e uma vista da cratera do Ilchibong, com o mar do Japão ao fundo.

Na viagem do fim-de-semana passado curtimos o outro lado da ilha. Desta vez, ficamos em Jeju-si, e o tempo estava frio (~5°C), o que nos impediu qualquer contato com a água do mar. Além disso, no sábado choveu muito, melando alguns passeios. Mas conseguimos entrar na caverna Manjanggul, uma caverna de lava, essa confirmadamente a maior visitável do mundo: 13 km de extensão! Em alguns momentos, o diâmetro da caverna minimizava nossa existência, e em outros tornava-se claustrofóbico. Ao final da trilha que estava aberta – entenda-se sem desabamentos recentes ou outros inconvenientes – um pilar de lava de 7m de altura, resultado de um buraco do solo que permitiu o gotejamento da lava que escorria por cima. Inacreditável.

À tarde, visita a um vilarejo típico que recebe dinheiro da UNESCO para ser preservado: Seongeup. Cada quintal revelando um aspecto do modo de vida secular das pessoas que por ali passaram. Mais tarde, ao visitar o Museu Folclórico e de História Natural em Jeju-si, pudemos entender melhor como essas pessoas interagiam nos idos dos séculos passados naqueles locais. Uma casa era composta de várias “mini-casas”, cada uma com um ambiente. Nas mais simples, a cozinha estava próxima à sala de estar. Uma casa separada geralmente funcionava como quarto e banheiro. Outra casa servia de estábulo, e no meio do quintal, os potes com comida (leia-se kimchi) fermentando em pimenta durante o inverno. Mais coreano, impossível.

jeju, korean traditional villagejeju lava tube
Organização de uma residência tradicional de Jeju, e o pilar de lava que gotejou na caverna Manjanggul.

Domingão, tempo melhor, pudemos andar mais ao ar livre pelo lado oeste da ilha. Primeira parada na encosta de Jusangeollidae. Sem brincadeira, o lugar parece ter sido cortado por uma guilhotina de tão padronizado que é. Mas não foi, e isso pra mim foi a atração mais exótica que visitei. Adorei os paredões recortados em hexágonos perfeitos. Em certas áreas, parecia que a prefeitura tinha pavimentado o costão de tão perfeito que as pedras/paralelepípedos eram! Nesses momentos é que eu grito bem alto: eu amo vulcões! Só mesmo esse fogo mágico para permitir beleza tão indescritível no planeta. Eu sei, eu sei, tragédias humanas ocorrem também, e eu não esqueço disso. Mas o que fica é tão bonito...

Após o costão, rumamos para o parque de Cheonjeyeon, com 3 cachoeiras: uma seca, outra fraca, e uma linda, com direito a arco-íris, ponte asiática e pagoda coreana no final, pra ficar bem na foto. Cachoeiras mais que civilizadas, portanto, com escadaria de acesso e todo conforto possível.

cliff, jeju islandcachoeira em jeju
Costão de Jusangjeollidae, e sua paisagem altamente ordenada. Ao lado, a cachoeira seca do parque de Cheonjeyeon. O reflexo dá uma noção da perfeição natural do recorte do terreno.

De lá, pro Parque de Esculturas de Jeju, uma surpresa no roteiro: sinal de arte contemporânea num local onde nos sentimos tão “parados no tempo”. As esculturas eram todas de artistas coreanos, com estilos ocidentalizados ou não. Bem a minha cara, o que eu gosto de ver em exposição. Gostei de uns ovos espalhados pelo jardim, achei a idéia interessante.

(Parênteses não muito a ver: Jesús Soto, meu escultor atual predileto, morreu semana passada. Fiquei triste. Ainda tinha esperanças de vê-lo de perto. Uma pena, a arte perdeu um expoente lúdico. E ganhamos suas obras para a “eternidade” humana. Fecha parênteses.)

Pra fechar o dia com chave de ouro, fomos a um jardim de Bunjae (fala-se “bundjé”), comumente conhecido como bonsai. Aliás, bonsai é o nome japonês, e dada a rivalidade inerente entre Coréia e Japão, é claro que eles não iam manter o mesmo nome, afinal eles não mantém o mesmo nome nem pro convencionado Mar do Japão, que dirá literais pequenezas como bonsais! Disputas à parte, o jardim foi um deslumbre. Primeiro, árvores de mais de 100 anos do tamanho do meu braço. Segundo, carpas coloridas fluorescentes, resultado de misturas genéticas frankestéricas valorizadas por aquaristas e afins. Terceiro, uma paz incrível no lugar. E por último e não menos importante, verdadeiras frutas e flores nas árvores pequenininhas, impressionante! Sou analfabeta nível Mobral em bunjaes/bonsais, embora ache-os bonitos, e gostei de aprender que muito mais que manter uma árvore pequena, o bunjae/bonsai é a arte de manter a planta de uma forma esteticamente agradável. Sempre os galhos ordenados, e quando eles se tombam todos para um lado enovelados, estão entrando em harmonia plena. Onde a botânica encontra a arte oriental.

bungjaeharibong
Um bunjae florido! Os melhores perfumes, nos menores frascos... Ao lado, um Haribong, estátua tradicional de Jeju feita de rocha vulcânica.

E depois desse refresco mental, nada como voltar pra casa e retomar com novo fôlego as preocupações do dia-a-dia.

Tudo de bom sempre.

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