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sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Na Zona Desmilitarizada (DMZ)

Carimbo de DorasanCarimbo da estação de Dorasan no passaporte, simbólico da ida ao DMZ.

Como já havia citado anteriormente, a Coréia do Sul é um país acessível apenas por mar ou ar, embora esteja numa península no nordeste da Ásia. E esse impedimento de acesso por terra dá-se pela razão mais simples (ou complexa, como preferirem o nível da discussão) do mundo: o vizinho de cima é a Coréia do Norte.

Desde o armistício da Guerra da Coréia na década de 50 - armistício, sim, pois em tese a guerra não acabou ainda, não houve um tratado de paz assinado muito menos uma rendição de um dos lados - a península está dividida em duas, e numa maneira grosseira de ver a situação, representa a última fronteira da quase extinta Guerra Fria: o vizinho do Norte comunista, e a "ilhada" do Sul, capitalista.

dmz guaritadmz ponte
Entre cercas de arame farpado duplas, uma guarita vigia a fronteira da DMZ do lado sul-coreano. Ao lado, a chamada "Ponte da Liberdade", por onde em tese os norte-coreanos ganhariam a liberdade - tenho certeza que o Bush adora esse nome de ponte...

De posse dessas informações geopolíticas básicas, acrescido do fato de que o vizinho do Norte decidiu sair das conversações de desarmamento sobre seus brinquedinhos nucleares há 2 semanas sem mais nem menos, partimos sábado passado para uma aventura na chamada Zona Desmilitarizada (em inglês, DMZ), região de 5 km de largura na fronteira das 2 Coréias. Em Seul, disseram-nos que a única forma de visitar a região era com um pacote turístico de um dia, informação que depois percebemos ser uma meia-verdade, pois todos os micro-ônibus de tour param numa estação chamada Imjingak, e agrupam-se em alguns poucos mega-ônibus, que terão permissão para entrar a área. Em tese, você pode pegar um carro ou trem e chegar até esse ponto, comprar ingresso pro ônibus "agregador" e visitar a DMZ. Embora chamada de Zona DESmilitarizada, é muito bom lembrar que a região está sob comando militar 100% do tempo, e você está sendo SEMPRE vigiado por um rifle. Portanto, nada de gracinhas.

Enfim, ficamos com o tour, que embora de natureza essencialmente política (ninguém vem pra DMZ achando que vai ver castelos e pessoas descontraídas ou uma natureza maravilhosa, né?), estranha pela ausência de discussão. As informações são passadas pelo guia com zelo e sem excessos. Imprensei à beça o coitado com inocentes perguntas socio-econômico-políticas de curiosidade mallística, e depois fiquei pensando que se um daqueles meus companheiros de excursão/soldados americanos fosse um agente da CIA, pode ser que eu nesse momento esteja sendo perseguida por sei lá eu o quê sem nem saber! Viagem na maionese...

Bom, de Imjingak, o mega-ônibus começa a andar e você passa por um posto militar, onde obrigatoriamente mostra o passaporte (sim, parece que estamos saindo do país, mas não estamos), e entra na DMZ propriamente dita. O tour é bem restrito. Como tudo ali é área militar, poucas "atrações" são visitadas, e em boa parte delas você é proibido de tirar fotografias. O ápice do tour é andar por um dos túneis que foi encontrado no fim da década de 70 e estava sendo escavado pelos norte-coreanos para uma futura invasão do Sul. Um túnel super-úmido, baixinho e fundo, bem fundo. Ao total, até hoje descobriram 4 túneis na fronteira, e o exército sul-coreano/norte-americano estima que hajam mais uns 20 por aí. Uma peneira essa DMZ.

dmz dorasan stationdmz soldados
Próxima parada: Pyongyang! No dia que um trem sair com esse destino da estação de Dorasan, o mundo com certeza será um lugar melhor, e teremos mais esperança no futuro... Ao lado, soldados no Observatório de Dora, de onde ficam de butuca nos vizinhos do Norte.

Do túnel vamos pra o Observatório de Dora, onde podemos ver a mais alta bandeira hasteada do mundo (da Coréia do Norte, é claro) e a cidade-propaganda da Coréia do Norte: uma cidade toda falsa, ninguém mora lá, mas era usada no passado para "atrair" sul-coreanos que quisessem mudar-se para a "tranquila e feliz vida" no vizinho do Norte. Além disso, dá pra ver um pedaço da terceira maior cidade Coréia do Norte, e a cidade de Panmunjom, onde as negociações de paz são feitas. As fotos dessa vez são permitidas, mas altamente monitoradas, e de ângulo algum você consegue registrar a enorme cerca de arame farpado da DMZ. E precisa de uma lente telefoto daquelas pra conseguir enxergar qualquer coisa do lado de lá.

E a última parada do tour é na estação de trem de Dorasan, que está sendo construída pela Coréia do Sul para, no evento de uma possível reunificação, ligar Seul à Europa, por trem através da Trans-Siberiana. Já pensou? Eu vou querer fazer essa viagem!! E a primeira parada depois de Dorasan será... Pyongyang, a capital da Coréia do Norte!

Enfim, depois de dar adeus a essa região tensa e problemática, como boa "malla" não consegui ficar sem discutir política. E me fiz várias outras perguntas, e conversei com André, e li um pouco mais. Sabemos que os coreanos querem no fundo a reunificação, a ninguém interessa isso mais que eles. Mas a situação na península é delicada, pois reunificam-se, e aí? Sob que regime político? Aceitar o capitalismo bushista é a última coisa que o seu Kim do Norte quer - e com uma certa razão, viu... E a China, nessa história toda? É o país que mais ajuda financeiramente a Coréia do Norte, em troca de... sabe-se lá o quê! (Aliás, os brasileiros podem visitar a Coréia do Norte entrando pela China, nunca pela Coréia do Sul. Americanos, NEVER NEVER.)

Fato é: o cara tem um exército enorme (de famintos) e a única arma que ele tem pra não ser escrachado, escurraçado da mesa de negociações do planeta são as bombas nucleares. Enquanto a prepotência do discurso da D. Rice continuar imperando, Seul continuará em alerta, visto que é o alvo perfeito (13 milhões de habitantes!) para um devaneio neurótico do "Grande Líder".

Tudo de bom sempre. Assim espero.

Viajando na maionese...

- O dono da Hyunday é um norte-coreano. Não sei se ele fugiu ou migrou simplesmente pro Sul de alguma forma, mas foi ele quem financiou a construção da rodovia que liga as duas Coréias, por onde a Coréia do Sul envia diariamente muita comida, medicamentos e materiais de construção para os "irmãos" do Norte.

- Durante o feriado de Ação de Graças (que aqui é em setembro), as famílias separadas pela política podem se rever por 3 dias. A cada ano esse encontro intercala-se: um ano em Seul, outro ano em Pyongyang. É a única chance para muitos de rever familiares próximos. E a TV adora ficar no ar com cenas de choro entre famílias...

- Se você está interessado em ver um bom filme sobre a situação das Coréias, veja "JSA - Joint Security Area". Filme do sul, que assisti com legendas em inglês. Fala de neutralidade, e é um soco no estômago pros dois lados dessa moeda corroída.

- O lado bom da DMZ: como a região está intocada a mais de 50 anos, cheia de minas terrestres, os únicos que têm passe-livre são animais e sementes de plantas. Várias espécies ameaçadas estão tranquilinhas da silva, crescendo e se multiplicando nesse mega-parque ecológico forçado...

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