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sábado, março 12, 2005

Ilhas Marshall - o pais detonado pela bomba

Há uns dias atrás, eu recebi por email um texto retirado desse site, contando sobre a política que o governo dos EUA aplicaram nas Ilhas Marshall, um grupo de atóis minúsculos (atol = topo de uma cadeia vulcânica submersa no oceano) no meio do Pacífico. Difícil imaginar que no meio de um “paraíso tropical” daqueles tantos problemas brotaram dessa forma.

RongelapCasas em Majuro
Vista aérea de parte do atol de Rongelap, onde as cinzas da bomba atômica caíram. Ao lado, habitação típica das enormes famílias de Majuro: containers.

As Ilhas Marshall são um país desconhecido para a maioria dos mortais do planeta. Em plena zona equatorial, a altitude máxima do conjunto de atóis é de 3 metros – isso mesmo, 3 metros. Será o primeiro país a desaparecer caso as previsões de degelo das calotas polares se tornem reais – e já estão se tornando. Em um espaço de 70 km quadrados, espremem-se 60,000 pessoas, sendo que a maioria delas no atol-capital, Majuro. O país é dotado de praias de areia branca e recifes de corais de biodiversidade estonteante, ilhotas remotas e coqueiros mil, em plena Micronésia, características que transformariam o país num excelente destino turístico de milionários, como é Fiji, o Taiti ou as Maldivas. Mas não é bem assim, graças ao tio Sam. Eu explico.

Na década de 50, em plena guerra fria, os EUA projetavam suas bombas atômicas contra os comunistas da vez. Para testar a eficiência de tal armamento, “decidiram” (entenda-se como quiser a forma como essa decisão foi feita) realizar os testes no atol de Bikini – esse mesmo que deu nome à peça mais aclamada do vestuário das brasileiras. Bikini fica ao norte do país, e sua população lá vivia tranquilamente, em situação de subsistência. Pescavam em quantidades normais sem destruição do ambiente. Os americanos por razões estratégicas ("defenderem as ilhas Marshall contra os japoneses invasores") fizeram uma base militar no atol de Kwajalein, maior atol do país. E de lá começaram a arquitetar os testes em Bikini, um lugar remoto dos demais lugares do planeta, onde provavelmente ninguém reclamaria de tal evento bombástico.

(Parênteses: o atol de Kwajalein é todo ele uma base americana. Ainda hoje, testes de escudos antimísseis são realizados em "Kwaji" - como é carinhosamente chamado pelos militares de plantão. Lá, americanos vivem como em uma cidade nos EUA, com todo o conforto possível. Os marshalheses que lá viviam anteriormente foram praticamente expulsos, e hoje habitam um atol minúsculo vizinho, onde se amontoam em casebres menores ainda, sem perspectiva de vida, e trabalham em sua maioria, na base, como subempregados dos americanos. Fim do parênteses.)

2 bombas atômicas foram detonadas em Bikini na década de 50. Em uma delas, devido aos ventos reinantes no momento da explosão, as cinzas caíram todas sobre o vizinho atol de Rongelap, que por sua vez também teve que ser evacuado a posteriori – a população local foi drasticamente afetada por altos índices de câncer de tiróide, efeito da radiação da bomba. E todas essas pessoas que lá estavam sendo bombardeadas por radiação foram transferidas para o atol-capital, Majuro, onde a maioria se encontra até hoje. De repente, todos tiveram que ir morar em Majuro.

MajuroLixo em Majuro
Vista aérea de um resquício limpo do atol de Majuro, e o lixo que é jogado no lago central do atol, dentro do recife de coral, sem dó nem piedade.

Pois bem, imagine um atol de 30 milhas de extensão e menos de 100 m de largura – uma tripa de país, basicamente. Isso é Majuro. E como bem ressalta o texto do email, lixo é o que se vê por toda parte, fruto da política americana pós-Bikini. Para compensar a realocação das pessoas de um atol para outro, os EUA mandaram (e ainda mandam) substanciais quantias de dinheiro para o povo marshalhês, como forma de “perdão” (?) pelo que foi feito com seus atóis durante os testes atômicos – dinheiro que hoje já se estende à presença de uma base militar, ao uso do atol como depósito, etc. E o povo marshalhês, por sua vez, cheio de dindin no bolso e sem aconselhamento adequado, foi devorado pelo capitalismo selvagem americano: começaram a comprar e consumir de tudo, gerando lixo em quantidades alucinadas. E onde jogar todo esse lixo? Bem, num país minúsculo, sobra pouco espaço – o lago central do atol foi a opção mais lógica. Transformaram uma área de recifes de corais pristinos em lixão. E hoje ainda recebem também lixo urbano americano, devido a um acordo assinado com os EUA, o maior parceiro de “comércio” dos marshalheses. Tudo por dinheiro, já dizia o Sílvio Santos.

Só que a degradação ambiental gerada pela presença em massa do lixo, a desestruturação do seu modo de vida anterior, mais a super-população numa área tão restrita, e a fácil entrada de renda americana (ah! Acrescente a isso também a presença mórmon impedindo uso de métodos contraceptivos para as mulheres), tornaram os marshalheses um povo sem perspectiva, sem visão de futuro, cheio de filhos sem empregos e educação decente. Índices de suicídio que em nada lembram os de um país nos trópicos, dito paradisíaco. Não há recursos de sobrevivência para todos, e a solução rápida é: fazer mais filhos para aumentar a possibilidade de angariar mão-de-obra para mais caça a recursos. Como já me foi dito por uma pesquisadora italiana que lá trabalha, se você der 3 galinhas e um galo para eles, eles terão comida para uma semana. Ninguém vai pensar em a partir dessas galinhas, guardar os ovos para ter mais galinhas no futuro, reproduzi-las, comercializá-las ou coisa que o valha. Vão simplesmente matar e comer. Porque foram acostumados assim, era isso que faziam com os peixes coletados em seus atóis em situação sustentada no passado. E estenderam essa “regrinha de vivência” para a era pós-Bikini, com a população aglomerada em casas de caixote. Estão quase sem esperança de viver e não sabem disso. Mas a que isso nos interessa, não é mesmo? "Apenas" mais uma cultura destruída nesse mundão, nada de mais.

E o que mais impressiona é que a fauna marinha também luta por sua sobrevivência ali, no monte de lixo, mesmo nessas condições, e muitas vezes ainda vence - aos trancos e barrancos.

Garoto marshalhesMarshalhesa
Será que essas crianças sabem do futuro (ou da falta de) que as aguarda?

Esse é um relato de uma experiência americana que não deu muito certo.

Tudo de bom sempre.

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Viajando na maionese...

- De acordo com estudos recentes, os índices de radiação em Rongelap são menores que em Nova Iorque.

- As Ilhas Marshall são o único país do planeta onde o limite de águas internacionais é de apenas 5 milhas. Em geral, até 200 milhas a partir do litoral é considerado território de um país, mas lá o limite é bem menor. Isso permite que embarcações de diversas bandeiras (asiáticas principalmente) pesquem à vontade e depletem na maioria das vezes os recifes de corais da região.

- Um grupo de pesquisadores de diversos países luta pelo estabelecimento de alguns desses atóis como área de proteção ambiental. Correndo contra o relógio para salvar o ecossistema único do lugar, antes que o lixo tome conta de tudo.

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