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segunda-feira, março 21, 2005

Mosquito para prefeito

Está rolando na blogosfera uma discussão sobre voto nulo. As discussões estão centralizadas no blog do Idelber, mas alguns outros blogs já manifestaram também sua opinião. E eu, como sempre atrasada, vou dar meu pitaco somente agora.

Da minha parte, pouco posso dizer. Já não voto há muito tempo - não por protesto, mas simplesmente por nunca estar no meu domicílio eleitoral quando uma eleição se realiza. E nunca tive também saco pra trocar de domicílio, o que em parte é falha minha. Mas apresento-me sempre que vou na minha cidade para a já tradicional justificativa.

(Parênteses: Alguns diriam que, porque me ausento nas eleições, não posso fazer crítica alguma ao governo, não tenho esse direito. Será mesmo? Nos outros quase 200 países em que o voto não é obrigatório as pessoas não pensam bem assim... Voto obrigatório é minoria no mundo, vale lembrar, e eu sou totalmente favorável ao fim desse dever que contribui para a eleição dos mesmos coronéis de sempre. Fim do parênteses.)

O fato foi em Vila Velha, Espírito Santo, meu domicílio eleitoral. Quando? Na minha transição entre criança e aborrescente. Presenciei o que para mim foi o fato mais ilustrativo do que o voto nulo pode gerar. Aí vai minha história. (Tentarei narrar sem muitos julgamentos, pois sinceramente não tenho opinião formada a respeito.)

Era 1988. O prefeito de Vila Velha com mandato para terminar em 1989 havia morrido. O vice-prefeito, por razões jurídicas (não me lembro direito a história), não podia assumir - algum entrave surreal do sistema. Assumiria então o presidente da Câmara de Vereadores. Entretanto, essa figura estava em processo de cassação. O município estava literalmente sem prefeito, e então foram convocadas imediatamente eleições-tampão para a vaga. Os candidatos tiveram pouco tempo para campanha.

Na época, a cidade passava por um problema muito sério de mosquitos. Tinha mosquito pra todo lado, em todos os bairros, e quando chegava de tardinha, não dava nem pra sair de casa direito, porque a nuvem de insetos tomava conta. Algo como uma versão entomológica de "Os pássaros" de Hitchcock. Não tinha mosquiteiro, detefon ou paciência que desse jeito. Lembro-me de ter as paredes brancas do quarto todas manchadas de sangue das chineladas, mãozadas e fronhadas dadas na parede para matar os bichos. Esse problema, obviamente, não havia surgido de uma hora pra outra, e há muito a população já reclamava de toda forma. (Pra quem nunca foi a Vila Velha, a cidade tem um valão cortando no meio, onde o esgoto da cidade é despejado. Antes, esse valão era a céu aberto, hoje é fechado em parte por galerias. Um nojo fedido agora escondido.) Enfim, o saco encheu coincidentemente na mesma época que o prefeito morreu. E aí, alguém teve a magnânima idéia de votar no mosquito para prefeito da cidade, como forma de protesto. A idéia foi muito bem aceita por toda a população, de todas as classes - o mosquito era um problema geral, nos bairros pobres e nos bairros chiques, passando por todas as nuances da classe média. Só se falava no mosquito, e os políticos sempre meio descrentes de que aquela mobilização era real.

Dia de eleição. Todo mundo vota, e começam as apurações... Só dava mosquito. O danado do inseto teve mais de 80% dos votos! Ou seja, na prática, a maioria dos votos foram anulados. Mas a eleição não podia ser anulada, por toda a peculiariadade da situação. De qualquer forma, a população mostrou abertamente a indignação pelo problema mal-resolvido da cidade.

Com mais de 50% dos votos válidos (que eram os 20% restantes), foi eleito o prefeito Magno Pires, do PT - que aliás fez uma das piores administrações que o município já teve. Entretanto, a primeira providência do prefeito foi passar o fumacê geral pela cidade, para pelo menos aliviar e mostrar que entendeu muito bem o recado que o povo deu. E permitir uma boa noite de sono para os vilavelhenses.

Tudo de bom sempre pra Vila Velha, essa cidade tão bizarra.

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