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terça-feira, abril 05, 2005

Mallices de viagem

A Janice, uma simpática estudante de jornalismo da Unesp-Bauru, me escreveu um email pedindo que eu fizesse um texto contando/exemplificando algumas frustrações de viagens, para ser publicado num jornal-laboratório chamado Contexto. Decidi compartilhar o texto aqui no blog, já que o tema condiz.

“Viagens em geral são momentos de expectativa. Seja qual for a razão da viagem, preparamo-nos para aquela situação de certa forma ansiosa. Para alguns, organização extrema; para outros, quanto mais improvisado, melhor. Entretanto, nada é mais frustrante que quando aparecem alguns probleminhas na viagem, independente da forma como encaramos a mesma… Ressalto porém que o que pode ser um problema para mim, não o é para outra pessoa – essas nuances variam individualmente, e cada um deve ter em sua cabeça a idéia do que seria a viagem ideal para comparação pessoal. O importante é saber identificar o problema e agir para sua solução de alguma forma.

Numa concepção totalmente pessoal, divido os problemas em a) aqueles que você cria; e b) aqueles que criam para você. Esses problemas todos podem ser subdivididos em: de logística, de serviços ou de localização. Essa divisão tem me ajudado em alguns momentos a solucionar alguns imprevistos, e acho muito útil – pelo menos para mim. Tentarei dar alguns exemplos que já vivi, e como encarei naquele momento.

1. Problemas que criamos:

Quando viajo, tento entrar no “espírito” da coisa, mesmo que seja uma viagem para negócios ou coisa que o valha. Entretanto, algumas vezes me deparei com situações inusitadas, e tive uma reação inexperiente, infantil, confusa. Ou então não fui com a cara do lugar, e começo a inventar um monte de problemas – somos imperfeitos, e essa é uma reação típica: inventar desculpas esfarrapadas, gerando problemas “mallas”.

Logisticamente, lembro sempre da viagem do Ano Novo de 2000 (o “revéillon do milênio”) quando decidi fazer algo “diferente" – olha, desde então eu tenho um pé atrás com essa coisa de fazer algo diferente… Decidi que ia fazer a trilha do Descobrimento, numa celebração pessoal dos 500 anos de descoberta do Brasil. É uma caminhada de 100 km, pela praia, no litoral sul da Bahia, mais especificamente de Prado até Arraial D’ajuda. 5 dias de caminhada, em pleno verão escaldante. Consegui convencer 6 malucos amigos a embarcar nessa roubada (2 deles alemães), e no dia 27/dez/99 saímos à pé de Prado, meio que no improviso. Logística quase inexistente. Não sabíamos ao certo se íamos acampar em todos os lugares, não sabíamos se teríamos água potável pelo caminho… Fomos, simples. Primeiro dia: tranquilo, de Prado até Cumuruxatiba. Segundo dia: andamos menos, mas paramos na praia mais linda que eu já vi: Barra do Caí. Alguns pés já reclamavam dos calos, do tênis roçando na areia da praia que entrava e grudava cada vez que cruzávamos um riacho. E aí está o problema que eu havia criado: antes da viagem, disse a todos que andar de chinelo seria uma loucura, e aconselhei que viessem de tênis! Na areia??? Nada mais insano, mas eu-sem-noção não imaginava o quão insano seria. O pior é que todos acataram minha sugestão… O resultado disso é que no último dia, já a caminho de Trancoso, quando chegamos em Curuípe, a decisão foi unânime: abortar a caminhada e pegar uma carona qualquer até Arraial. Foi o que fizemos, sem arrependimento, pois 2 amigos já estavam sangrando pelos pés. Problema gerado da minha incompetência logística.

Outra situação que lembro foi quando perdi um vôo Boston-Nova Iorque – sendo que de NY eu embarcaria num vôo pro Brasil, era dezembro, época de Natal, tudo lotado. Cheguei com 3 horas de antecedência no aeroporto de Boston, despachei minha bagagem, e fui… comer tranqueiras com meus amigos americanos! Estava me despedindo deles, então decidimos sentar e jogar a última conversa do ano fora. Essa conversa estendeu-se, chegaram outros amigos, e logo estava rolando uma pequena festa no bar do aeroporto, com direito a risadas altas e apostas pro Ano Novo. De modo que, quando eu saí do bar, passei pelo raio X e finalmente cheguei no portão de embarque, vi aquela cena de “Casseta & Planeta”: o avião indo embora, e eu dando tchauzinho pelo vidro… De acordo com a aeromoça, eles me chamaram inúmeras vezes pelo alto-falante, mas você acha que com música e conversa alta com amigos, eu ia perceber alguma coisa? Estava totalmente desencanada… E agora? Fui conversar civilizadamente com a mulher do balcão, implorei por uma vaga, tomei um sermão, mas valeu: a American Airlines tinha vaga no próximo vôo que ia para Nova Iorque, e embarquei com 1 hora e meia de atraso, não perdendo o avião pro Brasil. Mas de qualquer forma, displiscência minha total.

Quero voltar a Florença, na Itália, cidade que gostei mas que me decepcionou por esperar muito mais. Problema da minha cabeça: minha expectativa era muito grande. Criei uma Florença que não existia. E saí de lá fugida, porque um inimigo poderoso me venceu: as baratas do albergue que fiquei. Durante a noite, era impossível dormir, porque as baratas passeavam por todos os lugares, um nojo. Detesto baratas, terminei apressando minha visita e indo embora antes do esperado porque não aguentava mais pisar naquela gosma babenta. Paciência de mochileira também tem limite, principalmente depois de 72h acesas direto.


2) Problemas que criam para a gente:

Em geral, esses são melhor exemplificados por serviços contratados que não condizem com nossas expectativas. E nesse caso, eu não vou me esquecer NUNCA da viagem para Fernando de Noronha, em 2003. Não pela viagem em si, que foi maravilhosa – o lugar é um pequeno pedaço de paraíso mesmo -, mas pela empresa que contratamos para fazer os mergulhos. Que desilusão! Mergulho já não é uma atividade barata por natureza, diga-se de passagem. Portanto, você morrer numa grana e ser mal-tratada… é o fim! A história foi assim: no pacote de 5 dias para Noronha, eu e meu namorado incluímos 4 mergulhos para cada um através da Atlantis Divers, uma das maiores equipes da ilha, negociação feita através de uma agência de turismo. Temos nosso equipamento pessoal, exceto tanques e lastros de chumbo, portanto os mergulhos ficariam mais baratos sem o aluguel do equipamento básico. Ok, primeira saída pro mar: o barco da Atlantis é o maior e o de melhor infra-estrutura pra mergulho do portinho da Vila dos Remédios. Respiramos aliviados. Mas não por muito tempo: logo percebemos que o barco estava lotado, umas 15 pessoas iam mergulhar ao mesmo tempo, e tinham apenas 2 mergulhadores-guia para aquela galera toda! O problema não eram os poucos guias, o problema foi a regra irrestrita de que ninguém poderia ficar para trás em momento algum, por motivo de segurança. (Acrescido do guia ser um idiota completo, contando mil vantagens a viagem de barco inteira, se achando o último biscoito do pacote, o único gostosão do planeta Terra.) Ok, aceitamos aquilo, afinal com segurança em mergulho recreacional não se brinca, e com muita gente embaixo d'água a probabilidade de acontecer algum imprevisto aumenta. Entretanto, quando descemos, a história foi bem a esperada pelos mais experientes turistas-mergulhadores: o guia não conseguia ficar com todo mundo sob controle, simplesmente era muita gente de uma vez só na água. Além disso, o guia não dava tempo suficiente para apreciarmos a vida marinha em volta. Aquilo foi me dando uma raiva tão grande… eu estava ali para aquilo, ver os corais, peixes, e tem um babaca descontrolado fazendo sinal o tempo todo para a gente correr??? Correr para quê, se o barco estava acima da gente?? Quando o ar estivesse acabando, era só emergir! A sensação que tivemos é que eles tinham um plano X de ir de lugar Y a Z, e se não fossem não seriam pagos ou algo que o valha por completo, então “tínhamos” que ver aqueles lugares – independente se no lugar anterior tinha um tubarão maravilhoso passando… Ver sem observar, se é que me entendem. E pra terminar a história, em um dos mergulhos eu comecei a subir por falta de lastro pra me manter no fundo, e bem, nem precisa falar que quem me socorreu nessa situação foi uma outra menina nada a ver com o pato, e não o babaca do guia, que obviamente estava ocupado, apressando os demais para nadar em círculos ad eternum, ou se mostrando o bam-bam-bam pra umas menininhas que mergulhavam com a gente. Bom, depois de feitos nossos mergulhos e identificados os problemas básicos daquela operadora, decidimos que iríamos mergulhar nos próximos 2 dias com outra equipe, e contratamos a Águas Claras (a mesma que levou Fernando Henrique Cardoso em seu mergulho de batismo). Que diferença de serviço!! Menos pessoas no barco, mais atenção = mais segurança! O guia era um amor de pessoa, não só mostrava animais para a gente no fundo, como esperava com a maior paciência meu namorado tirar fotos de tudo que passava na frente da lente… mergulhamos praticamente com um guia pra nós dois, e um guia para outro casal, situação mais que perfeita quando queremos segurança e contemplação da vida marinha.

Tartaruga verdeFrade
Duas maravilhas da vida marinha que estávamos perdendo com a correria em Noronha... Detalhe: esse peixe-anjo simplesmente "grudou" na gente, e ficou fazendo mil poses por um tempão num mergulho à tarde com a Águas Claras. Fico imaginando se a gente ia ter podido curtir ao meaximo essa interação se tivéssemos com a pressa da Atlantis no nosso cangote... Divagações, apenas.

Deixei para o final a constatação de que há infelizmente lugares que penso nunca mais voltar na vida, de tão desanimadores que foram. Ou talvez voltaria de passagem, na esperança eterna de que melhoraram um pouco sequer. Um deles é Caxambu. Fui inúmeras vezes para lá a serviço: da primeira vez, foi até legalzinho, um lugar novo, mas nas demais, foi ficando evidente que o serviço da cidade não está preparado pro turista: garçons mal-educados em todos os hotéis e restaurantes, atraso na maior parte dos serviços, enfim, uma tristeza. E a cidade era entediante, nada pra fazer, nada valorizado.

E no fim de todas essas experiências frustrantes, apesar de tudo, não diriam que foram ruins. Depende da sua cabeça, da forma como você encara a situação, de seu espírito esportivo na hora. Se você souber estabelecer seus limites e identificar os problemas assim que eles surgem, antes que se tornem gigantescos, são os primeiros passos para uma viagem adequar-se sempre ao que você espera, e não frustrar suas expectativas.

Afinal, viajar é preciso; viver não é preciso.”

Tudo de bom sempre.

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