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quinta-feira, abril 28, 2005

Pat Metheny continua experimentando

Ando muito atrasada com esse blog (e os dos amigos). No meio dos vários múltiplos afazeres dos últimos dias, terça passada ainda arrumei tempo à noite para ir realizar mais um sonho - pela quarta vez! Fui ver no LG Arts Center, em Seul, o show do Pat Metheny Group, da turnê "The Way Up". Show, aliás, que estava sendo gravado (e nas próximas 4 apresentações durante essa semana) para produção de um DVD. Algo como "Live in Seoul", sei lá.

É impossível para mim não comparar com os shows anteriores que fui dele, em BH, Rio de Janeiro e Boston, de diferentes turnês. Cada um com sua característica peculiar. O show do Rio em 1995, da turnê "We Live Here" tinha Armando Marçal (filho da Portela) na percussão, e na platéia aparentemente toda a sua família, pois não paravam de salvar o grande músico. Esse show do Rio também ficou na memória como o maior caô que consegui dar num show, quando por confusão do segurança do antigo Metropolitan (que achou que eu era fotógrafa oficial da casa por causa da máquina e do bleizer vermelho) assisti ao show com meus amigos na primeira fila, onde só os convidados de honra estavam - inclua aí Sonia Braga e Milton Nascimento, por favor. Embora ainda na era filme, as fotos ficaram quase-perfeitas dada a distância, desnecessário dizer.

No show de Boston, em 2002, da turnê "Speaking of now", foi a vez do próprio Metheny e o Lyle Mays, seu pianista amigo de fé e irmão camarada, sentirem-se em casa, visto que ambos moraram naquela cidade no passado. Embora sem fotos, neste show, a platéia era em boa parte de amigos do próprio Pat, o que colaborou para que ele nos presenteasse com um show longuíssimo, sem fim, onde a platéia de certa forma interagiu mais.

Esse show de terça, em Seul, foi marcado por um experimentalismo inovador - que é o que para mim caracteriza o bom músico, a capacidade de acompanhar a evolução da música geral como um todo e incorporando ao seu estilo original o que há de melhor na inovação, não tentando se adequar a nova música. Se minha opinião antes já era de que o Pat Metheny (e suas guitarras mágicas) era o segundo melhor músico vivo do mundo (o primeiro é o Hermetão, lógico!), agora eu tenho mais que certeza disso.

Ao chegarmos ao LG Arts Center com meia hora de antecedência ao show, ouvimos uma música de fundo que parecia muito a introdução de "Music for 18 musicians", do Steve Reich, aquela música incessantemente monossilábica, que irrita a alma, e cuja magia está exatamente na irritação crescente: a música não parava, e deu 8 horas da noite, e o Pat Metheny entra no palco, começa a tocar sozinho, e a música atrás irritando sem parar, e eu já querendo gritar pra alguém desligar aquele som ("que insensibilidade desse pessoal!"), e o cara lá tocando a guitarra dele, quando de repente, toda a banda entra pela entrada da platéia tocando aquele barulho irritante, o que me fez cair a ficha de que o show havia começado desde o momento em que eu pisei no local, e aí a banda começou a tocar em conjunto, e o show chama-se "The Way Up" porque as músicas não param, são sequenciais, e estão sempre numa harmonia crescente, acordes crescentes, e o disco tem apenas 4 músicas e no show todas ficam interligadas, sem paradas, e o que as interliga é esse som irritante contínuo, que não para em momento algum, vários solos maravilhosos de todos os intrumentos, bateria, baixo, teclados, xilofones, percussão, e a música crescendo acompanhando agora o painel com um céu que nunca chega ao fim, ou a foto de um prédio que nunca termina, ou a foto de uma emersão subaquática que nunca chega na superfície, é claustrofóbico, e a música em si nunca chega a um ponto, um porquê, uma razão, continua o som crescendo, aquela inflexão de ondas que deixa a todos hipnotizados, uma viagem sem fim, estou dentro da toca do coelho da Alice, estou no labirinto do Minotauro, estou presa no epicentro de um furacão, é por isso que chama "The Way up", o tempo todo indo pra cima, a música não para, a música não para, a música não para, a música nunca chega, até a música culminar num clímax que leva àquela música de fundo irritante, que após 68 minutos, finalmente... para. Ufa.

Esse experimentalismo da continuidade foi a primeira vez que vi no trabalho do Pat Metheny. Os fãs de carteirinha vão me dizer que o "Zero Tolerance for Silence" (disco minimalista ao extremo) já era esse tipo de experimentação, ou que a própria música "We Live Here" de 95 era assim, pois havia um momento crescente que de repente acabava como um trovão. Mas eu vou dizer que o que eu ouvi é algo completamente novo. É algo Reichiano, eu diria até que com uma influência direta do "Quarteto de Helicópteros" do Stockhausen. É algo mais, algo de músico que está antenado com os diversos experimentalismos musicais. Algo de gênios. (Apaixonada pela música do Pat? Eu??)

Ao fim dessa primeira parte do show, finalmente ele chega ao microfone para as poucas palavras de sempre - Pat Metheny é um dos tímidos mais chavões do meio musical. Fala da gravação do DVD em Seul, fala da nova banda (com um brasileiro desconhecido na percussão), fala o mínimo de coreano. E começa a parte do show que acho que a maioria ali estava esperando. A hora de ouvir as canções mais famosas, mais batidas. Hora de ouvir o bruxo Lyle Mays e seus dedos-árvores em um piano e 2 teclados conectados a laptops (Macs, claro) promover os momentos emocionantes. Hora de ver Pat detonar uma guitarra quíntupla. Hora de chorar (mais uma vez) ao ouvir "Last train home" - a parte em que os xilofones se concatenam não tem como segurar a emoção.

Porque a boa música também é aquela que te faz chorar de felicidade. E se o céu existe, e se algum dia depois de morrer, a gente vai pra lá, é com "First circle" e "Last train home" que somos recepcionados no portão de entrada.

Tudo de bom sempre. Com música no coração.

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O sorriso no rosto. A banda de multiinstrumentistas do céu. Momento pesado metal em que até o inter-galáctico Lyle Mays pega na guitarra e manda ver. O show continua, e não pode parar.

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