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quinta-feira, abril 07, 2005

A (r)evolucao de Lucio

No início, era a sopa primordial. E nela estavam as moléculas que um dia, aleatoriamente misturadas, formaram as moléculas da vida, usando as superfícies rochosas como catalisadores de reações químicas básicas do processo. Eis que depois de alguns milhões de anos, surgiu a primeira célula, a protocélula. Muito simples, sem complexas elaborações. Evoluiu. Sofreu pressões. Até que um dia o mundo estava povoado de bactérias, derivadas dessa protocélula. E da bactéria para os seres humanos, mais pelo menos 3 bilhões de anos se passaram. Sempre o mesmo processo: aparece uma mutação ao acaso, confere um maior valor adaptativo ao ser vivo, é selecionada (ou não), passa aos descendentes, fixa-se na população. Esse processo,going on and on and on, é a forma pela qual chegamos aqui, hoje, Homo sapiens sapiens, nesse mundo azul. É o processo de evolução natural.

Embora pareça simples, a teoria da Evolução é a idéia mais bombardeada da ciência desde que Darwin a cunhou após sua viagem de volta ao mundo no navio Beagle - Darwin era um sortudo por poder viajar a torto e a direito. Mas essa idéia, base de qualquer pensamento biológico (desde porque o olho existe passando pela origem da vida e pela extinção dos dinossauros, para citar casos mais famosos), é atacada por todos os lados possíveis - e os impossíveis também.

Quando entrei na faculdade de Biologia na Universidade Federal de Viçosa, no interior de Minas Gerais, eu não tinha a menor idéia da responsabilidade que eu estava abraçando para mim. Entender o fato da Evolução, e principalmente saber lidar com as críticas a essa teoria de forma sensata e científica, são talvez os desafios máximos dos bons biólogos, aqueles que fizeram e fazem a diferença na história da biologia e das grandes descobertas.

Em meu terceiro período na faculdade (aquele em que você é bombardeado por bioquímicas e estatísticas da vida), apliquei (correção: candidatei-me) para uma bolsa de estudos num programa da CAPES que conhecia pouco, chamado "Programa Especial de Treinamento". Um grupo de 12 estudantes do curso reuniam-se na tentativa de empenhar-se na melhoria do curso como um todo, através da organização de atividades extra-curriculares, no final melhorando a qualidade do profissional que sairá formado dali como um todo. Objetivos pra lá de vagos, mas encarei o desafio, e fui aceita no grupo. E aí conheci um professor chamado Lucio.

O Lucio era o tutor deste grupo, o líder que direcionava as idéias. Algo como o "grande guru". Para os alunos do curso de Biologia daquela faculdade, era também o carrasco professor de Evolução Natural, disciplina que reprovava aos montes. Quando nos encontrávamos com alunos de biologia de outras universidades, sempre nos falavam que Evolução era matéria "fácil", e por muito tempo, essa contradição me incomodava. Por que para todo mundo era fácil e em Viçosa, com o Lucio, era aquele mata-mata? E é aí que entra a Evolução em si.

Lucio é um professor peculiar. Em sua visão evolutiva não só da vida natural como da vida humana em sociedade, ser biólogo é um processo irreversível. Cada aluno do curso é uma espécie de "mutação", que surgiu ao acaso em sua sala de aula. Com o passar do tempo (no caso do semestre), o valor adaptativo de cada um vai aparecendo na forma de notas, discussões em sala de aula, seminários. E o professor precisa exercer uma pressão natural para que os mais adaptados sejam selecionados, e suas idéias sobre biologia possam, então, fixar-se na população, sob a forma de um bom biólogo. Portanto, em sua mente evolutiva brilhante, ele é o responsável por essa pressão natural, ele faz-se de predador voraz. Cabe aos alunos adaptar-se: adquirindo camuflagens especiais, aumentando sua "prole" de conhecimentos, não interessa a estratégia. Para evoluir na Evolução, os estudantes precisavam adaptar-se.

De certa forma, apenas depois que cursei sua disciplina, no quinto período, passei a me considerar bióloga. (Passei raspando, diga-se de passagem: média era 60, fiz 62 pontos). Porque minha adaptação ao processo da sua aula foi a de aumentar a "prole" de conhecimentos - passei a devorar livros sobre evolução como bebia café, em quantidades abissais. Era Dawkins, Gould, Wilson, Futuyma, Mayr... Esses homens e suas mentes maravilhosas passaram a fazer parte do meu dia-a-dia, e de certa forma, assimilei o pouco que sei da teoria da Evolução a partir dos textos brilhantes deles. A filosofia de Lucio, por mais carrasca e despropositada que soe, era a que mais refletia a própria teoria de Darwin, e foi a que me proporcionou entender melhor a biologia em si. Não sei se Lucio fazia isso consciente, mas que ele se sente responsável por cada diploma que sai daquele curso... ah! sente sim. E isso é bom.

Lucio foi o melhor professor que tive na vida estudantil. Ele ainda está lá em Viçosa, fazendo pressão natural sobre os alunos do curso... afinal, ser selecionado é a forma de fixar-se como biólogo, mas evoluir é um fato, sempre.

E hoje, é seu aniversário. Parabéns, Lucio! Obrigada pela verdadeira Revolução que você criou em nossas cabecinhas desvairadas, com suas perguntas sem resposta, mostrando que a vida é isso aí, a maravilha do mistério, da boa argumentação e do questionamento.

Tudo de bom sempre para o hoje grande amigo Lucio Campos.

Lucio e cia ltda
Essa foto foi tirada num casamento em Viçosa. Eu estou abraçada ao Lucio. Os 2 indivíduos da esquerda são casados, e participaram da andarilhação-roubada pelo sul da Bahia no Ano Novo/2000, que contei no post anterior. O amigo mais à direita morava na Carolina do Norte, EUA, e é um desencanado companheiro de viagens pelo MSN. E eu fico sonhando com o dia em que poderemos nos sentar de novo em volta de uma mesa, contar "causos", dar risadas e levemente demonstrar o quanto nos orgulhamos de ter sido laboratórios (r)evolutivos do Lucio.

P.S.: Além de professor de Evolução Natural, Lucio é um dos geneticistas de abelhas mais respeitados do país. Um verdadeiro abelhudo mesmo...

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