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domingo, maio 15, 2005

Devore Seul

Lucia Malla tarda mas não falha. Prometi escrever sobre Seul há uns dias, e eis que a promessa hoje será parcialmente cumprida. Por morar aqui, há mais aspectos a serem abordados do que sonha nossa vã filosofia. Falar de tudo é praticamente impossível, por isso vou-me ater a algumas considerações.

Mas antes de falar da cidade propriamente dita, eu gostaria de repetir um comentário que fiz num post do Smart Shade of Blue essa semana, depois de uma longa discussão entre algumas pessoas sobre modelos econômicos de sucesso, onde alguém citou a Coréia do Sul e comparou com o modelo adotado pelo Brasil:

"Na minha humilde opinião de moradora local: o sucesso da Coréia do Sul como Tigre Asiático representa a vitória da economia de grandes corporações privadas. O país é praticamente regido/governado por 5 grandes corporações, que empregam uma parcela considerável da população economicamente ativa: LG, Hyundai, Samsung, SK Telecom e Posco (siderúrgica).

Agora se isso é sustentável a longo-prazo, e quais as razões que fizeram com que as corporações fossem a "temática" escolhida do governo para o desenvolvimento sócio-econômico como um todo (...), aí, eu já nao sei te dizer."

"(...) é difícil comparar Coréia do Sul e Brasil, em termos de projetos de desenvolvimento. Porque vai uma hora esbarrar na filosofia oriental de viver e ser: os coreanos são muito mais preocupados com a coletividade do que com o individualismo, com a tradição e manutenção do bem-estar do todo que a efemeridade do eu - isso a gente percebe no dia-a-dia, em atitudes pequenas como pegar o metrô ou ver as crianças voltando da escola. Eles largam qualquer noção de individualismo pelo bem da coletividade. Coisa que eu acho muito difícil de vislumbrar no Brasil."


Ao que o Smart respondeu:

"(...) A Coréia escolheu o caminho que, em economia do desenvolvimento, chamamos "campeões nacionais". Um dos problemas do Brasil é que nosso modelo de desenvolvimento _ o de substituição de importações _ jamais gerou a escala necessária para criar grandes corporações; das empresas brasileiras, só a Petrobrás e talvez hoje a Vale apareçam nas listas das maiores empresas do mundo. Na Coréia e no Japão, e na China de hoje, a aposta no mercado exportador permitiu uma acumulação de capital muito maior. Resultado: nossas empresas são nanicas, e costumam muito mais ser alvo de compra por empresas estrangeiras do que embriões de multinacionais brasileiras. (...) com a internacionalização o locus decisório das prioridades de investimento se move para fora do País."

Seul aéreaSeul - museu nacional
Vista aérea de Seul (as montanhas ao fundo estão na mais próximas à zona desmilitarizada); ao lado, prédio do Museu Nacional da Coréia.

E a pergunta é: o que isso tem a ver com Seul? Tem bastante a ver. Sem entender essa perspectiva econômica da cidade e do país (e isso vale pra qualquer lugar do mundo), fica difícil uma boa assimilação do enigma que cada cidade impõe. E Seul é um grande enigma da Esfinge para quem chega vindo de um país ocidental, seja lá qual for. A começar pela língua, que te dá a sensação de "Lost in translation", passando pela organização dos endereços, pelo comportamento das pessoas, pela cultura oriental. Num primeiro momento, senti-me completamente perdida como nunca havia estado antes. "Decifra-me ou te devorarei." Percebendo isso, tratei de me empenhar em decifrar aos poucos cada mistério da cidade, tentando ao máximo ver a lógica coreana de decisões, o quanto o sucesso econômico influenciava neste ou naquele aspecto, qual a história presente por trás de um hábito ou de uma rua, o efeito da escolha pelas grandes corporações no subconsciente das pessoas ou na perspectiva de futuro. Hoje, sinto-me confortável andando por lá. Não a decifrei completamente, deixei-me devorar aos poucos.

Atualmente, não chego a me sentir turista em Seul, mas também não sou local. Um meio-termo agradável, que me traz alguns benefícios e alguns prejuízos. Moro numa cidade-satélite, a cerca de 40 minutos de metrô do centro de Seul. Portanto frequento a cidade nos fins-de-semana ou quando algum evento especial aparece. Aliás, locomoção não é um grande problema por aqui, pois o sistema de metrô é excelente, te leva para qualquer canto da cidade. São 10 linhas com inúmeras interseções, e em todas as estações há sinais em inglês, bastando apenas prestar atenção para os nomes similares de alguns lugares - por exemplo, existe Sincheon e Sinchon (fala-se da mesma forma), obviamente estão situadas em lados bem opostos, e obviamente também eu algumas vezes já fui parar no lugar errado.

COEX MallInsadong
Predio SeulArtista de rua - Seul
Modernidade no World Trade Center Seoul e no centro da cidade, contrastando com as ruazinhas estreitas em Insadong, área de comércio tradicional, onde um artista de rua coreano nos remete à paciência típica oriental.

Uma vez nas ruas, Seul parece ser igual a qualquer outra metrópole: prédios modernos, letreiros luminosos, muitas pessoas andando apressadas, trânsito pesado, um certo fog no ar e ruído. Além daquele estilo próprio que só uma grande urbe possui. Mas... tem algo a mais. Tem esse mistério oriental, essa sensação de parado no tempo mas com o tempo andando aceleradamente. É um paradoxo, mas a cidade é composta de vários momentos de choque entre opostos: o novo e o velho, o moderno e o tradicional, o fácil e o difícil, o cheio e o vazio, ruas estreitas que desembocam em avenidas muito largas. Em cada esquina uma dessas contradições maravilhosas, que só dão mais sabor à tentativa de decifrar a cidade.

Não há endereço como no ocidente: rua tal, número X, bairro Y. Não, aqui o sistema é completamente diferente, resquício da época das dinastias, e muito mais confuso. Cada casa do bairro tem um número, e o endereço passa a ser bairro tal, número X. Só. Nada de nome de ruas ou avenidas nas calçadas. Um bairro, como todos sabem, é formado por inúmeras ruas, e daí dá pra imaginar a confusão que é achar um endereço. Para dar boas pistas, a cidade possui mapas com referências em todas as estações de metrô, e pasmem, quando queremos achar um local, as pessoas dão dicas tipo: ao lado do prédio que tem o MacDonald's, após o muro do Palácio, etc. E isso é levado a sério. Em coreano faz mais sentido essa confusão, mas para um ocidental desavisado, pode se tornar impossível em inglês - dependerá da sua persistência em decifrar a cidade. Ela já está te devorando aos poucos.

Museu de arte modernaTroca da guarda - Seul
Painel permanente no Museu de Arte Moderna de Seul, contrastando com a tradição da troca da guarda no antigo Palácio Real de Gyeongbokgung.

Seul é cortada pelo rio Han, local de lazer e divertimento para a população. O rio é incrivelmente limpo, há passeios turísticos no verão, e em suas margens está o imponente prédio do Parlamento e um dos estádios olímpicos da cidade, além de alguns prédios modernos como o 63, onde fica o cinema IMAX que eu adoro. A maior parte da cidade está ao norte do rio, indo em direção à Coréia do Norte, e o palácio do Governo, um prédio estrategicamente escondido nas montanhas, está a poucos quilômetros da zona desmilitarizada (DMZ). Um esquema de segurança mais-que-especial guarda a área, e fotos são terminantemente proibidas a quarteirões de distância. Seul também hospedou as Olimpíadas em 1988 e foi uma das cidades da Copa do Mundo vencedora de 2002, e por causa disso todas as placas de sinalização da cidade são bilíngues, embora a população fale um inglês sofrível em geral.

Cada bairro de Seul tem uma característica peculiar e aqui cito alguns - os mais interessantes pra mim, talvez: Insadong é uma área bem turística, com cafés e lojinhas de artefatos tradicionais; Gangnam é a Quinta Avenida, onde as lojas de grife mais sofisticadas estão; Yongsan é um mega-shopping-feira de venda de produtos eletrônicos de primeira linha; Itaewon é a área dos gringos, onde os estrangeiros se encontram e onde a base americana está instalada; Jongno-gu, a área administrativa, onde estão o palácio do Governo, as embaixadas de vários países, o antigo palácio real; Apujeong é o point chic-alternativo, onde os artistas estão - eles estão também concentrados na região de Jongno; Namdaemun é onde todas as ajumás se encontram para comprar o ginseng nosso de cada dia. E outras raízes, plantas medicinais, e temperos esdrúxulos/exóticos, que enriquecem a culinária coreana. Aliás, se você tiver um dia em Seul apenas, não deixe de conhecer o Namdaemun, porque lá está a essência da cultura coreana tradicional.

Ritual budista em SeulArquitetura coreana
Cena de um ritual budista no centro de Seul; ao lado, detalhe arquitetônico do telhado de um palácio coreano tradicional - as cores definitivamente me impressionam nesse estilo.

Os bairros são apenas nomes, eu sei, mas dão uma leve idéia de como a cidade se divide. A cada esquina desses bairros, sempre aparecerá algo para te deixar com uma pulga atrás da orelha, um questionamento tipo: o que será que esse coreano está fazendo/ testando/ comendo/ pensando? Invariavelmente, em todos esses locais, as pessoas estarão falando ao celular, esse artefato sem o qual 100% da população coreana não vive. (O celular é uma instituição, assim como mp3 players, dvd players de mão, palms, e todo o aparato tecnológico imaginável.) E como não há criminalidade alguma, as pessoas ficam à vontade para usar seus eletrônicos em todos os cantos e recantos da cidade, sem medo.

MetroOnibus em Seul
Cena chavão no metrô: alguém com a central de jogos e diversões (entenda-se o celular) em mãos; ao lado, um cartaz publicitário do novo livro do Paulo Coelho num ônibus em Seul.

Mas aí vem a pergunta: e qual a característica marcante de Seul? O que faria um turista vir a essa cidade? Não há pergunta mais difícil que essa para mim. Hoje, depois de viver a cidade em vários âmbitos, tento vislumbrar a atração máxima - e não acho. Não há um Cristo Redentor, uma Torre Eiffel, um Coliseu. Existem alguns palácios interessantes, museus, mas nada que seja um cartão-postal característico pro mundo, nada que venda a cidade num pacote de agência de viagens. O charme da metrópole Seul está nesse mistério que paira no ar, nesse momento perdido no espaço-tempo, nas esquinas abarrotadas de gente, no comportamento dos coreanos, no não entender absolutamente nada do que se está falando ao seu redor. E isso tudo, só provando/vivenciando é que as pessoas conseguem entender. Deixa a Esfinge Seul te devorar - eu garanto que vale a pena.

Tudo de bom sempre.



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P.S.: Hoje começa mais um ciclo de discussões do Clube de Leitura do LLL. O livro da vez é "Dom Quixote" de Miguel de Cervantes. Com sinceridade, Dom Quixote foi um personagem que não me impressionou. Li o livro aos 19 anos - e como diz o Rei Açúcar neste post, pode ser que a idade da leitura tenha me influenciado a não gostar tanto do livro. Achei enfadonho e cheguei no final do livro decepcionada. Acho que, embora eu goste de viajar na maionese, prefiro a lucidez do Sancho Pança.

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