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quarta-feira, junho 01, 2005

Educaçao coreana: verdades e surrealidades

Ainda na era Paleozóica deste blog, o Fernando me perguntou sobre como era o sistema educacional na Coréia do Sul pois havia lido uma reportagem no Washington Post sobre a pressão que os estudantes coreanos sofrem para serem os melhores. Foi mais ou menos na mesma época em que saiu uma reportagem de capa da Veja no Brasil sobre o mesmo tema (na edição de 16/fevereiro/2005, infelizmente inacessível para quem não tenha assinatura paga). Prometi escrever sobre o assunto assim que tivesse essa Veja em mãos, pois leria a reportagem e poderia comparar com as opiniões que angario por aqui. Pois bem, a Veja chegou pelo correio semana passada, depois de longo e nada tenebroso inverno. E eis a minha opinião geral, 100% passível de discussão.

Há alguns anos eu não pegava uma revista Veja de papel. Confesso que me incomodou um pouco no início. O primeiro fato que me chamou a atenção foi a (falta de) qualidade do papel e da impressão, comparada às revistas que leio por aqui. O segundo fato foi logo na seção "Carta ao Leitor" dessa edição, uma foto da repórter responsável pela matéria da capa no castelo de Gyeongbokgung em Seul - infelizmente não tenho como mostrar a foto aqui. Mas das duas, uma: ou a foto foi tirada às pressas e não passou por um crivo técnico (entenda-se Adobagem ou Photoshopada) ou era uma montagem bem-feita - e aí teve uma adobagem feita nas coxas. Sim, porque a repórter está mais desbotada que todo o resto da foto, as tonalidades de preto não batem, a iluminação não condiz, e a sombra dela contradiz a sombra do palácio. A explicação surreal pro fenômeno seria que dois sóis levemente separados estivessem no céu no momento do clique. E ainda vivemos na Terra, não no planeta de Luke Skywalker, certo? O terceiro fato que me incomodou foi uma tabela vista ao folhear rapidamente no Guia de Saúde sobre tipos de colesterol: a tabela está completa e biologicamente ERRADA. Como isso é publicado??? Será que não houve revisão? (Diga-se de passagem, tabela nunca foi o forte da Veja.)

Passado o impacto inicial, pus-me a ler a reportagem sobre as "lições que o Brasil deveria aprender com a educação coreana". Gostei muito de saber os números e estatísticas sobre a Coréia, principalmente em comparação com o Brasil, informação que eu não compilaria sozinha por divertimento. A reportagem inteira é um grande elogio ao sistema coreano, ao investimento maciço em educação básica que foi feito pelo país há mais de 20 anos, e que hoje recolhe excelentes frutos, através de desenvolvimento tecnológico. Até o ponto negativo colocado do sistema é visto com olhos brandos: a alta taxa de suicídio juvenil rivaliza com o Japão, mas não é maior que o do vizinho, assim como o fato de ainda existirem castigos físicos caso os alunos falhem. Esses problemas não merecem mais de um parágrafo para a Veja, afinal a matéria é sobre as benesses do sistema. Jornalismo "imparcial" é isso aí.

É fato que a Coréia soube sair do buraco do subdesenvolvimento com um planejamento e força de vontades titânicas. Aplicar uma parte substancial do capital em educação básica foi crucial para o sucesso da economia e da sociedade como um todo. Além disso, investir em ensino profissionalizante, erradicar o analfabetismo, e principalmente pagar bem os professores primários, sem dúvida, foram medidas acertadas que trouxeram (e trazem) benefícios múltiplos. Isso o Brasil deve realmente copiar.

Entretanto, ao terminar de ler a reportagem, fiquei mais curiosa sobre a educação aqui, e comecei a perguntar às pessoas com quem convivemos o que elas achavam. Existe uma unanimidade em se dizer que o ensino público aqui é ruim, fraco. "Ahn??? Como é que é???" Depois do que eu havia lido, essa informação parecia vinda de um outro planeta Coréia.

Arte infantil no metro de SeulFamily education
Alunos de escola primária expõem seus desenhos numa estação no centro de Seul; ao lado, educação familiar, também extremamente valorizada pela tradição coreana.

Logo comecei a me situar. A educação coreana festejada, modelo para o mundo, é extremamente tecnológica, voltada para o afunilamento do conhecimento. Desde cedo, tenta-se descobrir qual a melhor aptidão da criança e incentivá-la a desenvolver ao máximo essa aptidão. Dessa forma, temos profissionais excelentes, pois eles foram treinados a o serem desde sempre. Especialistas, principalmente em qualquer área ligada à tecnologia. Entretanto, é a base do ensino geral, aquela que ensina os fundamentos de uma célula por exemplo, ou os meandros da história crítica, que é lamentável no ensino coreano - e razão principal pela qual a maior parte dos coreanos sonha em mandar os filhos estudarem nos EUA a qualquer custo. (Pra aprender inglês também, outra deficiência que será amenizada com o tempo.)

Para aprender um pouco mais e melhorar seu afunilamento, a maior parte das crianças são colocadas em escolas de reforço privadas, os Hagwons, onde aulas específicas de matérias como matemática, ciências, inglês e artes são incorporadas ao considerado "falho" sistema público de ensino. Vale ressaltar que os hagwons são um grande negócio em termos financeiros, além de responsáveis por trazer hordas de estrangeiros de língua inglesa para cá - o melhor professor de inglês é aquele que fala inglês desde sempre, essa é a idéia. Entretanto, conversando com alguns desses professores, percebemos que o hagwon nada mais é que a extensão da escola, no sentido de memorização. Aperfeiçoar-se, nesse caso, significa decorar mais e mais, adquirir destreza e agilidade de raciocínio tecnológico.

O estudante coreano da escola básica portanto não aprende a pensar, raciocinar de maneira confrontativa, crítica, nem mesmo no hagwon. O ensino é todo baseado em memorização, decoreba, do prezinho à pós-graduação. Eles sabem desmontar e montar de novo qualquer iPod, dão de 10 X 0 em qualquer estudante de outro país em Olimpíadas de Matemática, mas se você pergunta a opinião deles sobre aquecimento global, por exemplo, não vai ouvir mais que meia dúzia de palavras-chavões relembradas fracamente de algum parágrafo memorizado, se muito. Nada se discute, tudo se ouve de um mais velho ou lê-se num livro: aquilo é verdade absoluta, está certo. E a realidade é que essa visão não podia estar mais distorcida do mundo que vivemos.

Devido ao passado político de corrupção e subdesenvolvimento, o coreano é paradoxalmente muito politizado em assuntos internos. Os diversos conflitos que de vez em quando pipocam em Seul entre estudantes e polícia são reflexo dessa politização desatrelada de ensino crítico - ou do anti-americanismo que vem crescendo de uns tempos pra cá. Não me perguntem como a cabeça de alguém funciona sabendo política sem discutir suas bases ideológicas a fundo, mas parece ser o que existe aqui.

De forma alguma, quero desmerecer com esse post a educação na Coréia. Sem dúvida, o projeto educacional como um todo é vencedor, só facilitou o incrível desenvolvimento que vemos aqui, e é digno de muitas palmas. A filosofia oriental de valorização do trabalho e do saber também não podem ser rejeitadas na discussão de porquê o sistema funcionou. Mas, se esse modelo deve ser seguido pelo Brasil, é preciso que os pequenos erros que eles próprios vêem sejam analisados e levados em consideração, para que se tenha uma educação de qualidade no nosso país, já tão castigado pela falta da educação básica de qualidade.

Tudo de bom sempre.

Coreaninho com celularPasseata anti-EUA
Duas cenas muito comuns em Seul: criança com seu próprio celular em mãos, e passeatas de protesto - a da foto especificamente anti-americanos.

Viajando na maionese um pouco mais...

- Outra reclamação comum do sistema educacional entre coreanos é que as crianças têm pouco tempo para brincar, informação que eu discuto um pouco, dada a quantidade de crianças que todos os dias a tardinha estão no playground do condomínio em que moramos. E lendo livros no balancinho é que elas não estão...

- Um efeito colateral da atual preferência por uma educação mais "ocidentalizada" é o fato de valorizar-se em demasia quando as crianças aprendem/ouvem música clássica (Beethoven, Bach, etc.), jazz, ou então vão a teatros, óperas e afins. Como se isso fosse o único parâmetro de medição do grau de cultura de um povo. Aliás, o que é cultura mesmo?

- Todas as escolas coreanas têm um tamanho mínimo de área livre, de acordo com o tamanho da área construída. É lei. Criança não pode ficar confinada igual gado, pois isso afeta o aprendizado também.

- Esse humilde bloguinho (e sua reportagem sobre o Lula na Coréia) foi citado de forma delicada e agradável na coluna desta semana do Gravatá, no jornal O Globo. Senti-me honrada e agradeço à lembrança ao Gravatá. Eu, uma sentimentalóide de carteirinha, fiquei profundamente tocada pelo gesto.

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