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domingo, junho 05, 2005

Fernando de Noronha: exemplo para o mundo

Hoje é dia Mundial do Meio Ambiente, uma data definida pela ONU para reflexão sobre o impacto humano no lugar que vivemos, a Terra, nos mais variados âmbitos. Acho importante que haja uma data especial para isso, embora devêssemos teoricamente pensar todos os dias no ambiente. Mas já que tantos outros problemas desvinculados do problema ambiental também assolam o mundo, na prática pelo menos um dia de conscientização já é algo a se comemorar.

Não gosto do termo "meio ambiente", porque pra mim é redundante: ou é ambiente, ou é meio; os dois juntos dão a impressão errônea de "metade do ambiente". (Conservar só metade??) Meu professor de Ecologia da faculdade também não gostava, e pedia sempre para usarmos um ou outro. Entretanto, meio ambiente é o termo português que se popularizou. No fundo, se as pessoas entendem o que é o ambiente, os problemas que enfrentamos e a necessidade de preservação ou desenvolvimento sustentável, já é o suficiente, em minha opinião. O termo usado vira semântica.

Poderia aqui citar vários problemas de conservação, as lutas infinitas que diferentes grupos travam em defesa do ambiente, a importância da Ecologia no nosso dia-a-dia, etc. Por exemplo, o tema da UNEP (órgão da ONU responsável por gerir a proteção ambiental) deste 05/junho é "Cidades Verdes - plano para o planeta". Alertar sobre um planejamento urbano adequado - que no final das contas melhore a qualidade de vida do ser humano sem prejuízo ambiental - é um dos desafios do mundo atual que merece melhor avaliação e mais opções. Muito interessante, sem dúvida.

Entretanto, prefiro não discutir problemas hoje, escrever sobre o que para mim é um dos exemplos mais positivos de boa conservação ambiental sustentada no planeta: o arquipélago de Fernando de Noronha.

Vista aérea de NoronhaPortinho de Noronha
Vista aérea do arquipélago de Fernando de Noronha; ao lado, o Portinho da Vila dos Remédios, de onde os pescadores e barcos de mergulho saem diariamente para suas aventuras no mar...

O projeto do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha (que compreende 2/3 da ilha principal) nasceu em 1988, numa idéia luminosa do IBAMA. Nesse mesmo ano, o arquipélago passou a ser jurisdição do Estado de Pernambuco, e desde então tem se mostrado um dos maiores exemplos de como fazer uma boa política de conservação funcionar.

Fui a Fernando de Noronha em 2003, 5 dias a passeio, e estava louca para conhecer a ilha e com olhinhos e perspectivas de bióloga, entender um pouco de como esse projeto de conservação funcionava. Uma viagem sonhada ao paraíso ilhéu brasileiro. Ilhas são em geral ecossistemas limitados, e quando são povoadas, existe uma forte tendência ao surgimento de problemas gerais, como lixo e obtenção de água potável, que se não forem bem administrados, levam a um caos sem limites (vide o exemplo das Ilhas Marshall, no Pacífico). Estava curiosa para ver como essa ilha brasileira funcionava.

Assim que chegamos no aeroporto da ilha, fomos logo pagar a taxa de permanência - um preço salgado pros moldes brasileiros, mas que é absolutamente necessária para a boa manutenção desse sistema de desenvolvimento sustentado. O número limitado de visitantes em Noronha também traz benefícios: fica mais fácil gerenciar problemas típicos humanos, como consumo de água e electricidade, geração de lixo, e também permite um certo "isolamento" que dá ao turista em alguns recantos aquela sensação libertadora de ilha deserta.

Também logo percebi que o nível de engajamento da população nos desafios ambientais da ilha era muito forte. Todos sabiam explicar de forma satisfatória a importância da preservação. É claro, a chave do sucesso do programa de conservação de lá é esse: envolvimento da população! A maior parte das pessoas tira seu sustento de atividades ligadas ao turismo ou à proteção ambiental do Parque. Mas o IBAMA teve preocupação especial com os pescadores, dando atividades alternativas ou viabilizando a pesca não-predatória, de forma que eles não sentissem o impacto do projeto de preservação de forma drástica. Na realidade, uma vez que a preservação de certas áreas começa, o número de animais marinhos tende a subir, o que só beneficia a pesca de qualidade sem destruição ambiental. O pescador passou a ver a importância de preservar no seu próprio bolso.

Além disso, outra atividade primorosa é a exibição de palestras noturnas diárias na sede do IBAMA. A ilha não tem muitas opções de lazer à noite, e uma boa propaganda levou à popularização dessas palestras: elas viraram point de juventude e paquera saudável. Nada melhor que aliar diversão com conscientização ecológica. As palestras são sobre diversos aspectos da ilha, explicações sobre as diferentes espécies animais que lá habitam e são alvo de conservação mais rigorosa (golfinhos rotadores, tartarugas marinhas, tubarões, etc.). São claras, em linguajar lúcido, acessível a todos, e muito bem articuladas pelos biólogos envolvidos.

A qualidade dos biólogos que estão em Noronha é outro ponto de elogios. A eficiência com que eles conseguem envolver a população local nas estratégias de preservação é inacreditável. Eu particularmente fiquei emocionada quando um ilhéu me citou o nome em latim de uma das espécies de tartaruga marinha. E não é só isso: as pessoas têm conhecimento sobre o comportamento dos bichos, a sazonalidade de algumas espécies, até formas de reprodução (com nomenclatura biológica!) são recitadas de forma clara pelas pessoas. Biologia no dia-a-dia das pessoas, o sonho de qualquer educador ambiental.

Tartaruga-verde nascendoGolfinhos rotadores
Duas espécies simbólicas dos programas conservacionistas exemplares em Noronha: a tartaruga marinha (a da foto é uma tartaruga-verde nascendo na Praia do Leão) e os golfinhos rotadores.

E como bióloga/viajante, gostaria de ressaltar algumas peculiaridades de Fernando de Noronha que me chamaram a atenção...

- A clareza da sinalização e cuidados com as diferentes trilhas da ilha. É praticamente impossível se perder por lá, e a qualidade da orientação permite investidas no mato até ao mais urbano dos turistas, permitindo a todos o acesso a vegetação. Poder experimentar de forma saudável o ambiente é uma boa forma de conscientização.

- O reduzido número de turistas estrangeiros. Talvez tenha sido a época em que fui, mas esperava muito mais estrangeiros - principalmente europeus, que são mais mochileiros em geral. Considerando o exemplo de desenvolvimento sustentado e refúgio ecológico que a ilha é, tenho certeza que atrairia muitos ecoturistas, principalmente nas épocas do ano menos visitadas por brasileiros. Se um estrangeiro me perguntasse uma dica de turismo ecológico no Brasil (ô, pergunta difícil de responder!) eu diria Fernando de Noronha.

- O trabalho de conservação dos diferentes projetos, principalmente o Tamar na Praia do Leão, e o dos Golfinhos Rotadores, na Baía dos Golfinhos. A seriedade e eficiência com que esses projetos são desenvolvidos mostra um amadurecimento na consciência ecológica marinha nacional - ao ponto das embarcações não reclamarem sequer da proibição de se aproximar da Baía dos Golfinhos. Isso por exemplo não existe no Havaí, o outro local no planeta onde os golfinhos rotadores tendem a se agrupar num local específico, e onde os barcos chegam bem próximos aos animais. Se por um lado aproximar-se de um golfinho pode gerar mais consciência ambiental e ecológica, por outro lado, pode estar perturbando seu comportamento natural (os golfinhos que se aproximam em geral são os machos, tentando desviar a atenção do "invasor" das fêmeas que ficam mais afastadas do grupo).

- A regulamentação do IBAMA levada à sério quanto ao horário de visitação (de acordo com a maré), ao tempo de estadia e ao número de banhistas na praia do Atalaia, um aquário natural rico em vida marinha, de águas cristalinas, onde se pode snorkellar em meio a cardumes de peixes coloridos. A existência de pequenas regras, como a proibição do uso de nadadeiras, mostra o quão detalhada é a preocupação ambiental do IBAMA, em prol da biodiversidade ali existente.

Cardume de cocorocasPraia do Atalaia
Um cardume de cocorocas nas águas de Noronha, cristalinas como as da praia da Atalaia (ao lado), verdadeira piscina natural.

A fauna e a flora de Fernando de Noronha provavelmente agradecem todo esse esforço que deve ser visto como um orgulho do Brasil perante o mundo.

Tudo de bom sempre para os ecossistemas do planeta.

Baía dos PorcosEntardecer em Noronha
Dois Irmãos, um dos símbolos de Fernando de Noronha, em dois momentos: visto da trilha que vai para a Baía dos Porcos, e ao entardecer na praia da Cacimba do Padre (point surfista).

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