Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

sexta-feira, julho 29, 2005

Greve nas nuvens

Hoje completa-se o 12º dia de greve dos pilotos da Asiana Airlines, uma das grandes companhias aéreas coreanas, responsável por boa parte do tráfego nacional e internacional na terra de Confúcio.

(Parênteses: A Asiana Airlines pertence ao grupo da Star Alliance, do qual a Varig também faz parte. Sua concorrente número 1 na Coréia é a Korean Air. Pessoalmente prefiro o serviço da Korean. Fim do parênteses.)

Embora a greve seja um fato que interesse apenas aos coreanos, resolvi devanear um pouco no assunto - que, sem querer, relaciona-se diretamente com a atividade mallística predileta: viajar. Da Coréia do Sul só se sai pelo ar ou pelo mar - lembre-se que por terra, tem que atravessar a Coréia do Norte, o que ainda é impossível, apesar dos animadores esforços recentes para a construção de uma ferrovia ligando as 2 capitais coreanas. Interessantemente, neste momento, estamos um pouco "ilhados" no mundo - é claro que há um certo exagero na afirmação, visto que a Korean Air não está em greve. Mas gostei de vislumbrar essa condição utópica depois de tanto refletir sobre o que vem acontecendo no mundo... e nada concluir, é claro.

Os pilotos em greve são apenas os sindicalizados - aqui na Coréia você se sindicaliza se quiser, não é obrigatório. E 50% dos pilotos, aproximadamente, o são. Eles reivindicam melhores salários, mais flexibilidade de horários, mais participação nas decisões gerenciais da empresa, e principalmente, melhores seguros de saúde. A administração da empresa está inflexível, e curiosamente (ou talvez por causa dessa inflexibilidade, não sei) o valor das ações da Asiana só tem aumentado. Isso mesmo: a companhia está mais valorizada no mercado. Mesmo depois de cancelar quase todos os vôos domésticos - apenas vôos para a ilha de Jeju ao sul estão funcionando parcialmente. Entretanto, ontem começaram a cancelar vôos internacionais, por falta de pilotos para suas aeronaves. Veja bem, isso em julho e agosto, periodo de férias e, de acordo com dados da própria Asiana, época de maior lucro. Os vôos cancelados são rotas importantíssimas como Seul-Los Angeles, Seul-Taipei, Seul-Sidney e Seul-Nova Iorque, e são alguns dos mais lucrativos para a empresa. Além de toda a bagunça pra turistas e viajantes profissionais a mercê de vagas em outros aviões, muitos vôos de carga também foram cancelados. E com isso, produtos de exportação fundamentais para a saúde da economia do país estão "encalhados" em terra: semicondutores, celulares, computadores e monitores de cristal líquido, para citar apenas alguns. E pode ser que com isso, as ações da Asiana comecem a cair. Até lá, tudo é meio cinzento para a economia em geral desse tigrinho asiático.

Recentemente, com esse hype de notícias sobre aviação por aqui, saiu também uma reportagem dizendo que os pilotos coreanos em geral não sabem bem o inglês, e tiveram notas baixas num teste aplicado pelo órgão regulamentador da aviação internacional - mesmo os pilotos que fazem rotas internacionais saíram-se de maneira pífia. Essa reportagem me deixou cabreira: e se acontece um problema qualquer e o piloto precisa se comunicar com a torre de controle em um país estrangeiro? Como ele faz?

A gente nunca pára pra pensar, quando entra num avião, na tarefa que estamos delegando ao piloto. Praticamente entregamos nossas vidas nas mãos dele durante o tempo de vôo, e nesse caso, eu diria que sua responsabilidade é quase equivalente a de um médico. Ao ser transportada de um lugar X para Y, penso em trocentos detalhes diferentes, mas raramente tento saber as condições de trabalho dessas pessoas tão importantes, as condições físicas em que estão trabalhando, sua capacitação prévia. Assumimos que se ele está ali, é porque tem competência para tal - o que na grande maioria dos casos, é verdade. Mas...será que o piloto dormiu direito aquela noite? Será que está estressado, com problemas pessoais? Será que tem dor de cabeça? Quantos vôos seguidos ele fez? É claro, existem normas internacionais para várias questões relacionadas ao trabalho no espaço aéreo (todas minimizando o estresse possível para o piloto exercer sua atividade), mas mesmo assim, de vez em quando lemos uma reportagem sobre algum piloto ou outro tripulante em deslizes pra lá de perigosos. Como verificar qual a real posição da empresa perante a saúde de seus empregados? Se a empresa realmente cuida para ter o melhor serviço? Como treina seus pilotos?

A greve da Asiana me fez parar pra pensar nessas condições todas as quais os pilotos estão submetidos. A gente descobre então que existem mais "viagens", literalmente entre o céu e a terra, do que sonha nosso vão planejamento de férias.

Tudo de bom sempre.

******************************************

P.S.: Uma pequena curiosidade "de aviação": um dos melhores vôos que fiz na vida foi de Auckland para Seul, no ano passado, pela Air New Zealand. Ok, várias razões tornaram esse vôo maravilhoso, como o bom tempo, a visão perfeita de várias ilhotas do Pacífico e um estoque infindável de guloseimas deliciosas. Mas curiosamente, nesse vôo a tripulação de cabine era toda feminina. Nunca havia visto isso antes: em geral pilotos, co-pilotos e afins são homens, a profissão é essencialmente masculina. Entretanto, dessa vez, eram só mulheres. E o vôo deslizou como uma pluma pelos céus, cruzando os hemisférios... Pilotas aprovadíssimas!

Marcadores: ,