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segunda-feira, julho 04, 2005

Manila musical

"Being absorbed in the sound."

Sendo absorvido no som. Essa frase estava na camiseta de um músico filipino, que tomando seu copo de chá gelado num quiosque esperava pela vez de tocar num dos vários palcos existentes na orla de Manila, a interessante e iluminada Baywalk.

Manila foi uma excelente surpresa no trajeto das férias - digo surpresa porque não tínhamos plano algum de parar por lá, se não fosse o fato das conexões aéreas esdrúxulas que conseguimos terem nos forçado a uma pernoite. E que pernoite! Chegamos às 3:30 da tarde de sábado, e depois de instalados no hotel, resolvemos dar uma volta pela cidade. Eu já tinha ouvido falar da região de Intramuros, mas nunca havia prestado muita atenção nas informações sobre o lugar e achava que era apenas um sítio histórico afastado da cidade. Ledo engano: ao chegar, percebemos que Intramuros é um bairro inteiro histórico de Manila, circundado por um enorme muro de pedras - e quem morava dentro dessa muralha morava "intramuros", daí o nome. Era a área onde os espanhóis do passado viviam, e a arquitetura colonial que vemos no Brasil repete-se aqui nos casarios transformados hoje em mini-shoppings, restaurantes e museus. Mas o que achei mais legal da região de Intramuros é o muro em si: virou point de juventude. A molecada reúne-se depois da escola/faculdade em cima da muralha antiga, vendo a cidade de cima no melhor estilo. Alguns fazem piquenique, outros tem discussões de aulas, uma boa parte paquera e, acidentalmente um casal de turistas brasileiros perdidos é avistado por lá.

Predio colonial em IntramurosEm cima do Intramuros
Um prédio colonial no bairro histórico de Intramuros, com a típica arquitetura colonial ibérica, e eu sentadinha em cima da muralha. Repare que atrás de mim um grupo de filipinos jovens está batendo um papo. O prédio com uma torre ao fundo é o Museu Nacional das Filipinas.

De Intramuros, fomos caminhando até o píer do parque da orla, onde os filipinos levam suas crianças para brincar e onde restaurantes de comida típica fazem a delícia de qualquer turista. Os preços são inacreditavelmente baratos, e jantamos por lá: um pancit canton (espécie de noodles de trigo frito no que imagino ser óleo de coco, com vegetais) e sinigang na isda (sopa meio azedada de peixe, um sabor muito peculiar mas que achei sinceramente estranho). Pancit delicioso, e no geral, na maior parte do tempo nas Filipinas comemos muito bem. A culinária deles é rica, verdadeira fusão de estilos (com maior destaque para a influência espanhola e chinesa, é claro), e cheia de temperos como tamarindo, calamansi (um limãozinho típico), dalandan (mexerica), alho, vinagre e afins. O prato nacional é o Adobo, feito com galinha embebida numa mistura de temperos banhada a molho de soja de sabor indescritível. Dá fome só de pensar!

BaywalkNight no Baywalk
Dois momentos do Baywalk à noite que mostram a boa diversão na orla filipina, um calçadão repleto de bandas por todos os lados.

Depois da janta, o passeio continuou pelo calçadão da orla de Manila, o chamado Baywalk. E foi lá que meu encantamento elevou-se a níveis insustentáveis. A cada 200m, um palco (vimos uns 10 pelo menos). Em cada palco, uma banda de garagem. Em cada banda, um talento formidável. Em cada talento, o espelho da identidade (e da qualidade!) musical filipina. Sons, sendo absorvidos por todos os poros, como já anunciava a camiseta do músico. Um desbunde musical dos melhores. Já havia assistido a um show de uma banda filipina em Seul muito bom (cover do Queen), e meu namorado já havia também me alertado para a qualidade dos covers vindos de lá, dos seus tempos de mochileiro na Indonésia. Porque a música filipina não se define: o país é tão misturado em suas influências, que a música só podia mesmo refletir essa miscelânea. Só que, ao invés de inventar algo novo a partir da fusão (como os brasileiros fizeram e fazem inúmeras vezes), eles preferiram se aperfeiçoar em copiarem os seus ídolos. Muitas vezes superam os mesmos: os covers filipinos estão sem sombra alguma de dúvida entre os melhores do planeta, em qualquer estilo que você queira imaginar. Vimos uma banda feminina cantando "I will survive" e músicas da Sade que, sem brincadeira, por alguns segundos eu achei que era a própria Sade que lá estava. Mas tinha palco pra tudo, com bandas revezando-se a cada hora: banquinho & violão, reggae, sintetizadores anos 80, r & b, pop... qualquer estilo musical, eles fazem cover - e cover bom.

(Parênteses: Um detalhe que me alegrou foi perceber que a música de qualidade duvidosa não tem vez nas Filipinas. Qualquer estação de rádio vai tocar pelo menos um grupo de rock decente. Os táxis que pegamos todos tinham músicas legais. O cara do hotel em que ficamos revelou (assim que dissemos que éramos brasileiros) que tinha cds da família Morelembaum (!!!) e adorava Tom Jobim. Não ouvi em momento algum qualquer acorde que entrasse irritante nos meus ouvidos - e olha que eu sou uma chatonilda para sons... E pra variar, saí de lá com mais uns cds pra minha já extensa coleção. Fim do parênteses.)

Banda feminina no BaywalkBanda em Baywalk
Duas bandas apresentando-se no calçadão do Baywalk, sendo uma delas 100% feminina, um barato!! As meninas mandaram bem demais! E Manila nos dá o exemplo de que a fartura de escolha musical revela bons talentos.

A cena musical filipina é das mais efervescentes, principalmente por causa dessa obsessão nacional pelo cover de qualidade. Usando a fórmula matemática: uma noite em Manila de presente + um casal louco por novidades musicais + músicos empenhados em serem e soarem bons + locais agradáveis pra apresentação gratuita + clima gostoso de verão na cidade + povo alegre + participação do público de forma construtiva, temos então uma das mais divertidas noitadas dos últimos tempos, com essa esbanjação total musical de ir de palco em palco passeando, dançando, rindo e percebendo o quanto o filipino nos remete ao brasileiro no que tange à alegria de viver, mesmo sabendo das suas agruras do dia-a-dia - que não são poucas, afinal estamos falando de um país extremamente pobre, com um PIB pior que Bósnia ou Paraguai, com 40% da população abaixo da linha de pobreza e um índice de desemprego acima dos 10%. Um país afundado em corrupção, extremamente católico, e com um povo nota 10, simples e alegre. (Lembra algum outro lugar?) Talvez essa combinação não favoreça o turismo global de alguma forma...

Guitarrista filipinoGlorieta
Um guitarrista filipino tocando no Hard Rock Café - onde terminamos a noite - e ao lado, a face moderna da Glorieta, bairro moderno no centro de Manila.

Alias, foram pouquíssimos os turistas que vimos por lá - praticamente a sensação reinante é de que éramos os únicos, a não ser quando andamos à noite pelo distrito dos bancos, a Glorieta, onde os grandes hotéis de cadeias americanas também estão, e muitos shopping centers com as lojas mais requintadas que vocês quiserem imaginar. Locais estéreis, de arquitetura moderna, como manda o figurino dasluniano de viver, e que não podia ser mais contraditório perante a condição real do país vista no improviso das casas de tapume. Apesar de Manila ser uma cidade grande, tive a sensação de que não é uma rota do turismo das mais prediletas. Pergunto-me a razão... Será pela pobreza patente de seu povo vista sem dó nem piedade nas inúmeras favelas da cidade? Será que as pessoas que visitam as Filipinas querem apenas reclusar-se em outras ilhas do país, mais pacatas e paradisíacas? Será que é por causa da situação atual de confusão política - o marido de Gloria Arroyo, presidente filipina, se auto-exilou no exterior semana passada após inúmeras denúncias de corrupção e aceitação de dinheiro para atividades escusas; as massas populares pedem impeachment da presidente (pela terceira vez na história filipina recente!), e o congresso se divide ao meio frente a tanta sujeira. (Qualquer semelhança com a história politica recente de uma nação sul-americana é mera coincidência.) Será que é por medo de terrorismo? Pra quem não sabe, as Filipinas são o pior país do mundo para exercer o jornalismo - apenas em 2004, 13 jornalistas foram assassinados por razões relacionadas a reportagens que fizeram. Se você olhar também nas páginas da CIA sobre as Filipinas ou do Departamento de Estado Americano, achará a recomendação expressa de que americanos não visitem o país, devido ao risco de terrorismo pela existência de grupos separatistas muçulmanos na ilha de Mindanao (ao sul) e de comunistas em guerrilha que lutam pela igualdade social nas áreas rurais. Um pouco de conversa para ruminantes adormecerem pelo alto grau de exagero, eu acho. Mas é fato que foi esse grupo separatista do sul que há alguns anos sequestrou uns mergulhadores europeus em Sipadam, na Malásia, e ficou com eles em cativeiro por mais de ano. Enfim... não vimos nada de anormal nas ruas do país, nenhuma insurreição, protesto ou algo que o valha. Apenas uma briga de namorados adolescentes - será que isso conta pras estatísticas do medo? Vimos sim, um povo simpático, sorridente e simples, muito simples, que deixa a gente com aquela sensação de que eles é que sabem tirar prazer das pequenas coisas da vida. Ouvindo uma boa banda cover num bar do Baywalk, é claro.

Tudo de bom sempre.

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