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sexta-feira, julho 08, 2005

O limite do metro

O atentado ao metrô de Londres mobilizou a imprensa mundial - com total razão, pois foi um evento extremamente triste, que merece ser refletido e providências precisam ser tomadas - , além de mostrar o quão volátil é a segurança de um sistema de transporte público de massa (e eu diria em qualquer lugar do mundo, não só em Londres). A facilidade com que uma pessoa pode plantar bombas dentro de um vagão é preocupante e neurotizante.

E nesse momento, eu não poderia deixar de comentar um pouco sobre o sistema de metrô de Seul. Sem dúvida, um dos mais eficientes do mundo. A maior parte dos coreanos usa o sistema de metrô para ir a qualquer lugar da cidade e dos arredores. São 10 linhas com frequência invejável, preço mínimo de 900 wons (cerca de 90 centavos de dólar). Como moramos no subúrbio, o mínimo que pagamos de metrô é 1300 wons - razoável. Algumas estações nevrálgicas intersectam 3 linhas, como Jongno-3-ga e Dongdaemun (área de mercado de rua tradicional). A estação de Sadang também é das mais movimentadas, assim como a estação Central de Seul. Sempre tudo lotado, raras são as vezes em que pegamos o metrô completamente vazio. O quão seguras são as estações? Não sei. A polícia coreana não é ostensiva em geral; ela é eficiente, mas não a vemos quase, exceto nas imediações da embaixada americana. Esconde-se bem, a polícia. Também, pra quê aparecer, numa cidade com índice de criminalidade quase nulo? No site do metrô, existe um link sobre como lidar em situações de ataque terrorista, uma providência que provavelmente surgiu após o ataque psicopata em Tóquio. Além de tudo isso, o metrô é um excelente palco armado para grandes reflexões antropológicas - como qualquer metrô no mundo. Pego-me constantemente imaginando como será a vida daquelas pessoas que estão ali no vagão comigo...

Em geral, estão com seus celulares em mãos, mandando mensagens instantâneas, falando com alguém, ouvindo música pelo celular ou simplesmente jogando - ultimamente, a vertente "ver filmes em celular" parece estar na moda, e tenho visto alguns jovens já nessa nova onda. Numa sociedade onde virtualmente 100% da população tem celular (pelo menos essa é a sensação que temos), nada mais normal. Além disso, existem aquelas "figuras" tradicionais de metrô: o vendedor de guarda-chuvas (em dias de chuva, porque em dias de sol, ele vende viseiras-leque) ou de escovas de dente (ainda me pergunto o que leva alguém a comprar uma escova de dente no metrô...), alguns poucos pedintes - porque afinal, é uma humilhação das piores possíveis numa sociedade oriental mendigar qualquer coisa -, os jovens universitários, os homens de negócio apressados e enternados, as ajumás com suas mochilinhas nas costas, os gringos como a gente (facílimos de serem identificados), e nos fins de semana, muitas crianças. Uma ampla variedade de estereótipos, mas todos com a marca "Coréia" estampada de alguma forma. Sem dúvida, interessante.

Criancas no metroVendedora de raizes
Saida pela direitaVendo filme no celular
Cenas cotidianas do metrô de Seul: um grupo enorme de crianças de uma escola (no metrô lotado, como sempre); uma ajumá vendendo raízes medicinais na estação de Sadang; o alerta para saída pela direita na próxima estação - que também é mostrado em inglês, para nossa tranquilidade; e um jovem universitário vendo filmes pelo celular.

Mas eis que nessa semana, além da preocupação que surgiu com o metrô em questões de segurança, outra notícia esteve em voga nos jornais coreanos sobre um desses fatos do cotidiano de muita gente: "sujeiras" de cachorro pela rua.

Vamos ao fato, que foi hoje relatado inclusive no Washington Post (infelizmente só para assinantes a reportagem, mas também foi citado no Boing Boing e no Poop Report, que são abertos):

Uma jovem coreana estava com seu cachorrinho no metrô de Seul. O animal, em certo momento, fez suas necessidades no chão do trem. A menina não se moveu um milímetro para limpeza, e várias pessoas que estavam no mesmo vagão começaram a se manifestar. De acordo com testemunhas, à medida que as pessoas reclamavam com a "menina-do-cachorro", ela foi ficando mais agressiva. E é aí que vem o poder da tecnologia. Um rapaz que estava nesse vagão começou a tirar fotos de tudo aquilo com seu celular - inclusive da cena após a menina ter deixado o vagão, quando um senhor idoso agachou-se e limpou a sujeira do cachorro. O fotógrafo oportunista imediatamente enviou as fotos da menina e da querela armada em Seul para um website popular coreano (sob pseudônimo, é claro), e em menos de uma hora e após troca intensa de mensagens instantâneas e postagens em blogs, a menina já estava sendo reconhecida pelas ruas de Seul (principalmente por causa da bolsa e do relógio que usava na hora) como a "dog-poop-girl". E óbvio, as pessoas começaram a fuçar mais. Descobriram seu nome em poucos dias, e seu passado foi todo esmiuçado, com depoimentos e tudo. Sua vida foi posta em público, e seu nome foi literalmente pra lama virtual. Consequências da chacota nacional: a menina teve que se retirar da universidade que frequentava após ser alvo de tanto bate-boca, o nome de seus pais foi revelado e também motivo de reprovação social, e o incidente virou primeira página em todos jornais coreanos, assim como na TV.

Pensemos sob a perspectiva oriental de vida: o nome da família é tudo por aqui. O respeito à instituição "família" é muito mais rigoroso que nos países ocidentais, por mais que saibamos ainda ter uma certa rigidez. Divórcio aqui ainda é motivo de vergonha, veja bem. Talvez o duplo desrespeito da menina (por não limpar a sujeira, e por deixar que um senhor de idade por fim o fizesse) tenha colaborado para a resposta raivosa da comunidade em geral. Sim, porque a foto espalhou-se pela rede como um meme dos mais pegajosos.

E no momento, na Coréia, o debate prevalescente é: qual é o limite para o "jornalismo do cidadão"? Até que ponto invadir a privacidade de alguém é válido para reportar um fato? E no caso das fotos em blogs londrinos, reportando histórias e visões pessoais dos atentados? Como fica? Difícil chegar a um consenso. Numa sociedade como a coreana tão ligada a valores - a cena do idoso limpando a sujeira do cachorro por educação esteve zilhões de vezes na TV - e ao mesmo tempo tão avançada tecnologicamente, acho que impôr um limite a esse jornalismo torna-se cada vez mais dicotômico a esses valores existentes.

O limite da nossa privacidade num vagão de metrô com a atual tecnologia disponível parece ser realmente muito tênue.

Tudo de bom sempre.

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P.S.: Esse post foi apenas uma pequena pausa nos relatos filipinos, não se preocupem. A história não acabou. :-)

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