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quarta-feira, julho 13, 2005

Sobre cartilagem de tubarao

Ufa! Saiu o artigo que eu sonhava ver no Pubmed. Está na revista Cancer do início de julho, uma revista científica indexada, de impacto calculado para 2003 em 4.017, e uma das melhores dentre as que tratam do assunto câncer.

(Parênteses: Pra quem não sabe, as revistas científicas são avaliadas de acordo com seu “fator de impacto”, um número calculado que leva em consideração a quantidade de vezes que a revista é citada por outros artigos, assim como o número de artigos publicados, entre outros parâmetros. O cálculo é feito por uma associação, a Thomson ISI, e os números não estão à disposição gratuitamente na internet. Algumas instituições de ensino utilizam o fator de impacto para avaliar o currículo de seus funcionários (e candidatos a tal) valorizando publicações em revistas acima de um valor de impacto X – no Brasil em geral, 2. Esse número vai de 0 a 52 (dados de 2003), com a Nature, a Cell e a Science tendo fator de impacto em torno de 30, boa parte das revistas em torno de 10, e uma imensa maioria abaixo de 2. O número grosseiramente reflete quantos leitores em potencial um artigo publicado numa revista qualquer terá. E é claro que esse método tem falhas. Fim do parênteses.)

Pois bem, eis que um grupo baseado em Minnesota (com colaboradores do Nebraska, Dakota do Sul e do Norte, Kansas, Flórida e Illinois, nos EUA) finalmente pôs um fim à lenda da cartilagem de tubarão, fazendo um estudo sério e elegante financiado pelo Instituto Nacional do Câncer americano, com pacientes acometidos de câncer de mama e cólon que se trataram com cartilagem. Veja que lindo:

“RESULTS: Data on a total of 83 evaluable patients were analyzed. There was no difference in overall survival between patients receiving standard care plus a shark cartilage product versus standard care plus placebo. Likewise, there was no suggestion of improvement in quality of life for patients receiving the shark cartilage, compared with those receiving placebo. CONCLUSION: This trial was unable to demonstrate any suggestion of efficacy for this shark cartilage product in patients with advanced cancer.”
(O grifo é meu.)

Repetindo: Não houve diferença alguma na sobrevivência geral entre os pacientes tratados com cartilagem de tubarão e os pacientes tratados com placebo.. Bem claro, não?

Os defensores do uso da cartilagem de tubarão - principalmente os vendedores de cartilagem - sempre vinham com a mesma história ao debater a eficácia do produto com pesquisadores: não havia um estudo que indicasse que a cartilagem era inócua. Ou seja, não havia um argumento contra. (Por mais estranho que soe, essa é a mesma falácia que o ID usa ainda para questionar a evolução, por exemplo.) A base científica da idéia de que cartilagem seria um agente anti-câncer era a meu ver fraquíssima: de que tubarões vivem no planeta há milhões de anos e têm baixo índice de desenvolvimento de câncer. Como são peixes cartilaginosos, provavelmente é a cartilagem que os protege, certo? Errado! Isso é um sofisma, algo como dizer: ora, vivemos no planeta há alguns milhares de anos, não morremos de ataque alienígena, somos humanos, os únicos seres vivos com cérebro desenvolvido, então deve ser nosso cérebro privilegiado que nos previne disso. Vamos então isolar o componente cerebral que nos protege de alienígenas: matamos boa parte dos humanos, transformamos o cérebro em pó e vendamos as pessoas que querem se proteger de ataques alienígenas! Pois é, mas mesmo frente a esse tipo de argumento, os cientistas, ecólogos e afins ficavam sempre com aquela cara de tacho, porque no fundo uma coisa era verdade: não havia mesmo estudos que comprovassem o contrário. Havia sim estudos defendendo, estudos publicados em revistas obscuras de impacto nulo (perto de zero) e bem exaltados pelos interessados na venda, para embasar suas viagens na maionese. Isso quando não eram assumidos fatos não afirmados pelos estudos: algo como maçãs a partir de laranjas. Ou quando extrapolavam dados obtidos em coelhos para humanos sem o minimo de precaução. E, com isso, vendem o produto com suporte "científico". Não, mil vezes não!! Toda vez que você vir qualquer “comprovacao científica” de algo que cheira à picaretagem, dêem uma olhada por cima na revista ou nos números do estudo e como o mesmo foi feito. Se a pessoa que quer te vender um produto de uso medicinal qualquer não quiser te mostrar um estudo – pra ser verdadeiramente científico, ele tem que estar, pelo menos em resumo, publicado na rede gratuitamente – desconfie. Vá ao santo Google. Procure mais informações claras. Pergunte ao médico. Não acredite de primeira, exerça sempre seu bom senso.

Pode não ter muito impacto agora esse artigo (e a maior parte das pessoas pode achar ainda uma perda de tempo), mas pelo menos, essa história engambelatória da cartilagem de tubarão parece estar mais próxima de um fim, depois desse artigo na Cancer. Parabéns ao grupo que arregaçou as mangas e o desenvolveu.

Os tubarões - esses seres vivos fundamentais à manutenção do ecossistema marinho - mesmo estando alheios às confusões e predações humanas, agradecem a iniciativa.

Tudo de bom sempre.

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