Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

quinta-feira, agosto 18, 2005

Nos confins de Caixa-Prego*

Quantos já ouviram alguém insultar outra pessoa mandando pra Caixa-Prego? Ou desprezar um lugar dizendo: "É pior que em Caixa-Prego..." Ou então afirmar que um lugar é muito loooonge dizendo: "Ih, é nos confins de Caixa-Prego..."

Boa parte das pessoas que falam assim provavelmente nunca estiveram em Caixa-Prego. Como é um lugar cujo nome soa "depreciativo", associa-se Caixa-Prego à pobreza, sertão, seca, e todas as mazelas negativas de um povoado. Nada mais errado: Caixa-Prego fica na Bahia, mais especificamente na Ilha de Itaparica - essa mesma, a do resort chique. É a última cidade da pequena rodovia que você pega ao sair do ferry-boat que cruza de Salvador até lá. Tem um manguezal bem interessante, pelo menos aos meus olhos de bióloga. E tem praia. Não é paradisíaca de água cristalina, mas é praia (de mangue), e está valendo.

Cresci ouvindo minha vó contar histórias de Caixa-Prego. Meu avô viveu na próxima Nazaré das Farinhas, e vovó nessa época via Caixa-Prego como uma espécie de cidade-resort: era o destino de "férias na praia". As lembranças de vovó e de minha mãe (criança na época) sempre me enchiam os ouvidos de curiosidade para esse lugar de nome tão engraçado. Afinal, o que se passava na cabeça de alguém para dar o nome de Caixa-Prego a uma cidade?

(Cidades pequenas em geral orgulham-se de singularidades interessantes. Pois Nazaré das Farinhas orgulha-se hoje de ser a terra do Vampeta.)

O tempo passou, e quase 2 anos atrás tive a oportunidade de visitar a Ilha de Itaparica. Tínhamos alugado um carro, e rodávamos pela Bahia, num calor escaldante de dezembro. Uma viagem "on-the-road". Após alguns dias subaquaticamente desiludidos em Salvador, decidimos atravessar a Baía de Todos os Santos no ferry-boat. Fugíamos para Itaparica com o objetivo de chegar a alguma praia snorkelável. Ao sair do ferry, pegamos a rodovia e fomos. Fomos, fomos, fomos. A rodovia acabou, e de repente, eis que eu me via no lugar das memórias tão agradáveis de vovó: Caixa-Prego.

Parecia que as histórias de vovó estavam todas vivas ali, cristalizadas pelo tempo, que de certa forma não havia passado. A única alusão à modernidade que vi foram alguns equipamentos eletrônicos num bar: TV, vídeo, aparelho de som. E uma antena parabólica, no telhado de uma casa. A cidade ainda é pequena, minúscula. Era uma segunda-feira, aproximadamente 2 da tarde, e as pessoas estavam sentadas nas calçadas, proseando despretensiosamente. A maré estava baixa - e parece que Caixa-Prego vive em função da maré: é ela que traz o peixe, o marisco, o caranguejo, o barquinho cheio. Não precisamos andar muito para achar o portinho de onde os barcos de pesca saíam. E achar o mangue, de onde algumas pessoas informaram que saem tours. A área de Caixa-Prego é conhecida como "pantanal baiano", um nome pomposo cuja única pretensão deve ser atiçar os curiosos para um manguezal ameaçado. A causa é válida, penso. O mangue de lá é peculiar.

Mangue de Caixa-PregoCaranguejos
Mangue de Caixa-Prego e suas árvores de raízes aéreas (como de qualquer mangue), maravilhas da adaptação. Além dos caranguejos pelo chão, é claro.

Estacionamos o carro e embrenhamo-nos no mangue. Todo mangue é único aos olhos dos biólogos, e o de Caixa-Prego não é diferente. Ficamos um tempo lá, fotografando e observando. As adaptações que as plantas de mangue desenvolvem ainda hoje, passadas as inúmeras aulas e cursos de campo, me tiram o fôlego, assim como a imensa quantidade de caranguejos que habitam esse ecossistema. Centenas e centenas deles, saindo e desaparecendo no lamaçal, em todas as cores, um verdadeiro chão vivo.

Mas a maré começou a subir, e tivemos que nos apressar para voltar ao portinho. Lá, um rapaz pintava sua canoa. Outros barcos de pesca, parados, esperando a hora certa de saírem para a pescaria - o povoado vive basicamente da pesca de subsistência. Esbarramos numa casa de telhado hilário: será que moraria ali um alucinado ou um curioso? Vários objetos feitos de maneira artesanal funcionavam como birutas coloridas. Exótico, no mínimo.

Andando de volta pro carro, um grupo de pescadores orgulhava-se de 3 lagostas enormes pescadas, esperançosos de que os forasteiros (nós) se interessassem em comprá-las. Exibiam os crustáceos na grama lateral da rua de terra de frente pro mangue. Trocamos meia-dúzia de palavras e continuamos andando.

Barcos de pesca em Caixa-PregoPraca do Pau Mole
Barcos de pesca no portinho de Caixa-Prego, esperando pela subida da maré; ao lado, a famosa desconhecida praça do Pau Mole, ponto de encontro das gerações que se cruzam por lá...

Foi aí que eu vi a praça principal da cidade: a Praça do Pau Mole. Pequena, apenas uns bancos embaixo de uma árvore enorme. Homens jogavam baralho (ou seria dominó?), rindo, divertindo-se, deixando o tempo passar. Mas o tempo parado, parado. O tempo não passava!

Uma melancolia tomou conta de mim. A Caixa-Prego das memórias de vovó parecia mais viva... Talvez seja ainda a que eu via ali com meu olhos, do mesmo jeitinho que ela sorridentemente me contou quando criança. Caixa-Prego, assim como a lembrança da vovó, parou no tempo. Num tempo passado. Cristalizado.

Quais serão as preocupações no dia-a-dia daquelas pessoas? E as perspectivas?

Saí de lá com a certeza de que havia finalmente visitado o passado dos meus antepassados.

Entendi o porquê do nome ter virado escárnio, sem ninguém precisar me explicar. Caixa-Prego fica nos confins do tempo. E o único meio de transporte até lá é um coração com saudade.

Tudo de bom sempre.

*Qual a grafia correta de Caixa-Prego? Nao sei. Na pagina do governo da Bahia fazendo uma busca, aparecem duas formas: Caixa-Prego e Cacha Prego. Entao eu deixo a vontade de voces, para cada um decidir a que melhor lhe apetece.

___________________________________

UPDATE: Na caixa de comentários desse post, muitas pessoas comentaram sobre a existência de Caixa-Prego no Piauí. A expressão "ir pra Caixa-Prego" estaria referindo-se a essa cidade piauiense, não à cidade baiana. Como pesquisadora inata, fui pesquisar e procurei por algo no Google. O que achei:

- Existe um livro de ficção de Herberto Sales em que parte da estória se passa no vilarejo de Caixa-Prego, no Piauí. É uma obra de ficção. Esse vilarejo ainda existe? Não sei, nada no Google aparece por aquelas bandas.

- Não há município de Caixa-Prego listado no site do Governo do estado do Piauí, com nenhuma das grafias cabíveis - mas até aí, pode ser apenas uma cidade ou vilarejo. Só exclui a municipalidade nesse caso, não o status de existência. A Manu afirma que Caixa-Prego fica próximo a Picos, no Piauí. Picos existe. Eu acredito então na Manu.

- Há uma agência do Unibanco filial "Caixa-Prego"... no Paraná! Perto da região de Cascavel. Teríamos então 3 supostas Caixa-Pregos no Brasil!!

- Como só conheci a Caixa-Prego da Bahia, fiquei curiosa por fotos das demais. Quem as tiver, ou souber de um site, ou mais informações sobre essas outras Caixa-Prego, se não for incômodo, será que pode me enviar um email?

Desde já, fico grata aos meus amigos leitores por terem indiretamente me feito pesquisar e aprender mais! Viva a caixa de comentários! :-)

Marcadores: ,