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quinta-feira, setembro 15, 2005

He'enalu 'oe!*

Começou. Ontem bateu o primeiro swell no North Shore do Hawai'i, o vento que traz de muito longe (do Japão, geralmente) a primeira leva de grandes ondas pro mais famoso point de surfe do planeta. Aquele swell que abre a temporada de boas ondas dos grandes campeonatos mundiais do circuito WCT, aquele swell que é o mais aguardado porque é o primeiro depois de um longo e tenebroso verão sem ondas. Afinal, é no inverno que as ondas gigantes perfeitas quebram em Pipeline, Waimea Bay e Sunset Beach - as mecas do surfe mundial, para onde os melhores surfistas profissionais convergem entre novembro e março. Posso imaginar o trânsito complicado na Kamehameha Highway, única via de acesso a essas praias...

PipelinePipeline
Momentos em Pipeline: Ondas quebrando no início da temporada de surf com a cena típica da galera se preparando pra enfrentar as ondas enormes. Reparem nas placas avisando para não entrar na água - em dias de surfe alto, apenas pessoas com prancha são permitidas na água. Nada de banhistas valentões, expressamente proibido.

Para sorte dos surfistas kama'ainas (nativos ou locais) e dos haoles (os de fora) que lá estão nessa temporada, o South Shore também foi agraciado com belas formações no mesmo dia devido a tempestades formadas no Pacífico sul que terminaram por engrandecer as ondas em Waikiki, Makaha, Kaiser (ou Ala Moana Bowls) e Sandy Beach, points menos conhecidos do mundo mas altamente mitificados pela moçada kama'aina. North e South shore batendo forte: o sonho dourado da galera das ondas, a combinação que garante uma grande festa do surfe na ilha de O'ahu. A contar por esse primeiro dia, a temporada promete.

Essa notícia me deu saudade. Saudade do despojamento da galera surfista. Saudade de ver o "surf report" na primeira página do jornal todos os dias. Saudade de quando tinha aulas de havaiano - num dia como ontem, provavelmente as aulas seriam suspensas, já que meu professor era uma das lendas locais do pranchão, e vários dos colegas de sala eram também surfistas. Afinal, numa universidade cujo website tem uma página dedicada à previsão do surfe, nada mais "normal" que desencanar de uma aula no inverno para se jogar nas ondas.

Cresci na beira da praia, e tinha amigas e amigos que surfavam ou bodyboardeavam por diversão. Entretanto, surfar era meio que visto como "coisa de vagabundo", na percepção da maioria. E os pais logo tratavam de arrumar algo pro filho surfista-de-fim-de-tarde fazer, algo que o tirasse "daquela vida". E, embora sempre tenha apreciado o surfe, sempre tenha ficado embasbacada com aquelas fotos de Sunset Beach, nunca declarei abertamente minha admiração total por ele como esporte enquanto era adolescente.

No Havaí, muito mais que esporte, surfe é uma tradição, quase uma filosofia de vida. O bom surfista é respeitado na comunidade e dedica-se muito à apreciação das ondas do mar - basta ler a biografia de Eddie Aikau, considerado o melhor surfista havaiano de todos os tempos, para perceber que dedicação e entendimento empírico da dinâmica da onda são parte fundamental do ato de surfar e principalmente da cultura havaiana. (A emocionante vida de Eddie Aikau aliás merece um post futuro.) É preciso literalmente ralar (no coral, veja bem) para ser um cidadão do "Reino do Havaí" - sim, ainda existe um movimento separatista que sonha em libertar-se das garras americanas e reinstaurar a monarquia nas ilhas, e eu, lunática como sempre, uma vez caí "de pára-quedas" numa reunião deles num café em Honolulu. (Confesso que foi divertido assistir àquela discussão romântica, embora meu maior interesse ali naquele momento fosse cafeína.)

O surfe nasceu no Havaí, como todos devem imaginar. Era uma forma de mostrar supremacia de alguém perante a sociedade - o que explica porque fazia parte das atividades de honra entre os membros da família real havaiana. Dominar uma onda mostrava agilidade, força, poder e principalmente, capacidade de comando. Surfar era um ritual nobre. É a idéia da nobreza do esporte que explica em parte porque até hoje o surfe é uma atividade tão disseminada na cabeça dos havaianos - e é claro, acrescente a isso hoje o lado mercantilista da situação: o surfe traz muito dinheiro em turismo e afins pras ilhas. A casualidade da natureza bem-explorada turisticamente como só o povo americano sabe fazer.

Surf em Makapuu, East shorePipeline Mallificado
Locais (kama'ainas) surfando em Makapu'u, praia do lado leste famosa entre os havaianos como point de bodyboarding; ao lado, uma Malla em Pipeline. Esse foi o mais próximo que cheguei a uma prancha por lá, a do salva-vidas.

Hoje em dia também o esporte atingiu um nível de profissionalismo fantástico. Com o auxílio da Internet, os surfistas ficam de olho em websites conectados a estações meteorológicas cujas bóias de detecção no oceano informam exatamente o traçado da onda que passa e onde ela vai estourar num intervalo de até 5 dias. Eu ouvi casos de gente que, ao ver que um bom swell estava pra chegar no North Shore, saía da Austrália ou de onde estivesse no mundo para chegar até Pipeline no momento certo. Haja dinheiro, haja disposição, haja entusiasmo pelo esporte, haja mar no coração.

No Havaí, respira-se surfe. Mesmo alguém que não surfe, como eu, não tem como não admirar a dedicação que os havaianos mostram com as belas formações de água. Shape da prancha, momento certo de descer na onda, o melhor horário: a perfeição hidrodinâmica acima de tudo. A adrenalina explodindo. E junte a isso a sensação (real) de distanciamento do mundo que já expliquei anteriormente, mais a comercialização do esporte - em qualquer lugar há pranchas ou lojas de roupas, acessórios e afins - e eis que a admiração saudosa dos havaianos desabrocha em mim totalmente, com Jack Johnson, "Brodda" Iz ou P.O.D. de fundo musical.

Maika'i mau i po'e. Ou... tudo de bom sempre.

Pranchas empilhadas em WaikikiMonumento ao surf em Waikiki
A cultura do surfe: Cena comum em Waikiki, onde pranchas empilham-se na praia; ao lado, um monumento ao surfe, também em Waikiki.

Mais viagens na crista da onda maionesal...

- Em 2 dos apartamentos que morei no Havaí, havia vaga para prancha no prédio - você alugava o apartamento e tinha direito a uma vaga de carro na garagem e duas vagas para pranchas. Isso que é surfe na veia...

- Se você não surfa, mas quer curtir um mergulho no North Shore, vá ao Havaí durante o verão. Nessa época, o North Shore é uma verdadeira piscina, sem onda alguma. Não deixava de ser divertido ver alguns turistas surfistas desavisados chegando com suas pranchas para curtirem a meca do surfe e perceberem com desapontamento que Sunset Beach em julho é o paraíso das crianças com boinhas de patinho.

- Assisti a uma etapa do WCT em Sunset Beach. O brasileiro Victor Ribas fez bonito, mas não tem pra ninguém quando o havaiano Andy Irons sobe na prancha... É o surfe-arte, maximizado também por Kelly Slater.

- É claro, não são todos os havaianos que surfam. Uma boa parte, entretanto. Mas mesmo os não-surfistas são permeados pela cultura ao esporte. Algo como o brasileiro e sua relação com o futebol.


*He'enalu 'oe! = Vamos surfar!, em língua havaiana.

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