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quinta-feira, setembro 22, 2005

O sonho da reunificação das Coréias

Coréia do Norte, vista da DMZ
O máximo de proximidade física que os cidadãos comuns sul-coreanos têm hoje com a Coréia do Norte: bandeira flamulando na DMZ, lado norte-coreano visto do lado sul-coreano.

O Marcus Pessoa fez duas perguntas interessantes nos comentários do post passado:

"Você acha que o possível desarmamento da Coréia do Norte abre caminho para a unificação? Mas como é que fica essa questão de regimes políticos diferentes?"

Antes de mais nada, Marcus, obrigada pelas perguntas. Achei contundentes e pertinentes. Achei também que seria melhor respondê-la na forma de post, principalmente acrescentando algumas opiniões pessoais derivadas das histórias e mais histórias que ouvimos estando aqui, tão perto da situação toda, a apenas 45 minutos de metrô de Seul e a menos de 2h de carro de distância da Zona Desmilitarizada, na fronteira com a Coréia do Norte. Vamos então à batata quente.

As Coréias foram divididas após a Guerra da Coréia, cuja troca de balas terminou em 1953 - nunca foi assinado um tratado de paz, apenas um armistício de cessar-fogo; portanto tecnicamente, os 2 países ainda estão em guerra, embora é claro, não haja troca de balas, bombas ou coisas similares no momento. A Guerra em si foi o primeiro conflito após o fim da Segunda Guerra Mundial entre Aliados capitalistas (liderados pelos EUA e Japão) e a Cortina de Ferro comunista (liderados pela China), no melancólico período da Guerra Fria. É considerada pelo próprio Exército americano como uma das mais frustrantes já enfrentadas pelos americanos e ganhou o apelido de "Guerra Esquecida" (Forgotten War). Os EUA nitidamente não estavam bem-preparados para guerra naquele momento (pouco orçamento na época), principalmente para o estresse da pouca mobilidade dos exércitos nem para o rigoroso inverno da região. O palco principal da guerra foi Seul, e de lá não avançou nem retrocedeu.

No armistício declarado em 1953, os exércitos localizavam-se na zona do paralelo 38, e em torno dessa zona foi constituída a zona desmilitarizada (DMZ), que seria uma região amistosa por um período de tempo até que se chegasse a um acordo sobre o fim da guerra. Ao norte, o exército chinês com a liderança das províncias do norte; ao sul, o exército americano com a liderança das províncias do sul lideradas por Seul. Bem, estamos em 2005, e a DMZ ainda está lá, e nenhum acordo foi firmado.

Mas é claro, o mundo mudou. A guerra da Coréia foi um conflito da Guerra Fria, que há tempos já acabou, sepultada que foi com a Perestroika de Gorbachev (quando adolescente, ao invés de Tom Cruise, era do Gorbachev que eu e uma amiga maluca colecionávamos recortes). Mas a diferença dos regimes entre os dois países que derivaram da separação pela DMZ continua marcante, gritante, e impedindo um avanço maior das negociações.

É preciso entender que coreanos do norte e do sul são um só povo. Podem estar separados por uma causalidade da guerra, mas têm em comum muitas tradições, uma língua cujo alfabeto é único no mundo, e principalmente raízes ancestrais. É a ancestralidade, esse valor tão estimado pela sociedade oriental, que mais choca aos coreanos em si quando se fala nessa divisão política. No sul, sempre que perguntamos algo sobre a Coréia do Norte, a resposta vem com aquele ar melancólico, como do filho cujo pai saiu de casa pra comprar pão e nunca mais voltou. Mas que continua com a esperança de que o pai um dia bata na porta novamente. Os sul-coreanos até pouco tempo atrás eram totalmente proibidos de visitar o norte - exceção feita hoje em dia para algumas regiões de turismo nas montanhas próximas à DMZ que o seu Kim do Norte decidiu abrir para angariar alguns wons do sul. Além disso, a Coréia do Sul envia quantidades absurdas de comida, medicamentos, fertilizantes e outros produtos básicos para os irmãos do Norte - o caso mais famoso é o do dono da Hyundai (fabricante de carros) que é um coreano do norte que mora no sul, fugitivo do sistema comunista e que se dedicou a construir algumas das várias pontes que cruzam a DMZ, assim como a ferrovia que liga sul ao norte, por onde mantimentos e etcétera fluem.

Óbvio, esse envio de produtos não é puro altruísmo. E agora, eu passo a me aprofundar mais ainda no meu achismo de outsider e leiga em política. O paralelo com a Alemanha pós-queda do Muro de Berlim é inevitável. Assim que o muro caiu em 1989, uma das primeiras providências que o governo alemão ocidental fez foi distribuir dinheiro para os alemães orientais gastarem com o que quisessem - na época, se bem me recordo dos jornais, 2,000 marcos para cada um, bastando apresentar um documento de identidade. Veja só, se você tivesse um passaporte E uma carteira de identidade, você poderia apresentar os 2 separadamente e ganhar o dobro - bastava entrar 2 vezes na fila. Isso foi controlado de forma bem porca pelo lado ocidental, pois o objetivo final na realidade era que o maior número possível de alemães orientais gastassem e se "maravilhassem" nas lojas ocidentais. O sistema socialista foi minado pelo seu maior inimigo: o capital. Deram capital a quem não o tinha, uma jogada de mestre que, à parte pelos problemas que o regime socialista já apresentava, pela situação política que já pairava com a Perestroika em ação e pela própria tradição alemã (mais uma vez, eles eram um só povo como os coreanos são), foi certamente uma significativa ameaça a qualquer intenção de volta ao sistema da Cortina de Ferro.

Eu sinto meio que a mesma coisa acontecendo com a Coréia. O Sul fornece todos esses presentes pros irmãos do Norte, mas a meu ver a mensagem subliminar é clara: Nós temos dinheiro e melhor qualidade de vida, temos tecnologia ao alcance de todos, e vocês, com esse regime opressor, o que têm? Pobreza, fome, bombas nucleares? Imagine numa analogia tosca todos os norte-coreanos "ganhando" celulares high-tech com câmera, acesso a internet e maravilhas afins. É jogo ganho para o capitalismo do sul, pelo menos essa é minha opinião sobre uma eventual reunificação.

Mas outras questões se mantém fortes. A China, é claro, também quer seu quinhão de mercado consumidor. Além disso, tem fronteira com a Coréia do Norte - e lembre-se, porque a guerra tecnicamente não acabou, existem 30,000 soldados americanos estacionados aqui na península. Reunificar as Coréias seria permitir que a China tivesse fronteira com um país lotado de americanos (assumindo que os soldados permaneçam aqui por alguma razão depois da reunificação) e com influência mercadológica forte dos mesmos americanos. Isso poderia facilitar um maior policiamento sobre a questão dos direitos humanos na China, por exemplo. A presença americana tão próxima seria uma ameaça que pode custar caro ao governo chinês. E não sei se Beijing quer pagar pra ver.

Fato é que, por medo ou sei lá o quê de uma possível invasão do Norte a Seul - e dada a quantidade de túneis que já foram encontrados na DMZ que no final tentavam isso - não é devaneio do governo coreano a proteção pesada que possui em seu palácio do Governo, estrategicamente encravado numa montanha em Seul. A área é toda murada, não se pode fotografar nem à distância sob perigo de prisão, de qualquer ângulo que você tente ver o palácio, ele estará encoberto por árvores ou similares, com guardas vigiando 24h por dia, ao ponto do governo federal se manifestar sobre os perigos do Google Earth para a segurança sul-coreana. Eu sei, soa como teoria da conspiração, mas é isso que a realidade nos traz ao abrir os jornais às vezes: um sabor de aventura e emoção jamesbondiana.

Em Seul, florescem vários rumores criativos entre os coreanos - tudo que escrevo abaixo vem de conversas férteis com duas amigas relativamente bem-informadas, mas que não deixam de ser o que são no fundo: fofoca política. Como alguns já sabem, a Coréia tinha planos de construir uma capital nova no meio do país - chegaram a ir a Brasília analisar a experiência nossa de cada dia, etc. Entretanto, há poucas semanas essa idéia foi completamente descartada pelo Congresso. Agora, apenas as grandes empresas (gás, eletricidade, etc.) assim como alguns prédios do governo irão sair do perímetro urbano de Seul, não mais sequer das redondezas da cidade. Antes, dizia-se que essa saída estratégica era para que Seul fosse "liberada" para uma provável invasão da Coréia do Norte - existiriam nesse caso acordos secretos sendo feitos para que, em troca do mercado norte-coreano, Seul finalmente fosse do norte, eliminando a chance de reunificação. Agora, como a idéia da moderna capital no centro do país foi pro beleléu, diz-se à boca miúda que Seul está sendo reorganizada para a reunificação o mais rápido possível, e que o atual presidente deseja que tal compromisso seja firmado antes do término de seu mandato, para ficar com os louros da vitória. Nesse caso, o que seria feito com o Kim do Norte é teoria conspiratória a belprazer do cliente.

E voltando às perguntas do Marcus: sim, eu acredito na reunificação dos povos coreanos; e acredito que o regime vigente numa futura Coréia reunificada será o capitalismo. Por quê? Aposta pessoal, permeada com um pouco dessa conjuntura que citei acima. Entretanto, as nuances, problemas e questões reais que surgem daí são campo fértil para especulações mil... Use a imaginação política/estratégica/econômica/romântica/saudosista e viaje na maionese.

Eu viajo todo dia. Basta abrir o jornal.

Tudo de bom sempre.

Algumas curiosidades sobre o tema...

- Há alguns dias, li no jornal coreano o caso de um chinês que foi a primeira pessoa no mundo a se graduar pelas duas universidades do "conflito": Pyongyang e Seul. Ele fez a graduação em Pyongyang e o doutorado em Seul. Os chineses têm passagem livre nos dois países, o que explica como o cidadão conseguiu o feito. Mas foi tido como um "exemplo da reunificação".

- A Coréia do Norte é, por qualquer estatística que se veja, um país bem pobre. Que também precisa de energia para viver. A desculpa que mais se ouve nos jornais coreanos para a manutenção de um reator nuclear por lá é da geração de energia nuclear - uma desculpa plausível, dado que a Coréia do Sul tem 20 usinas nucleares abastacendo 40% do total de energia requisitado pelo país. Parte considerável da política energética num país que não tem grandes rios para hidrelétricas e tem que importar quase todo o carvão para as termelétricas.

- As famílias separadas pela guerra da Coréia encontram-se anualmente, num esforço político sem igual. Cada ano, esse encontro (que é vigiado) ocorre em Seul ou Pyongyang. Esse ano foi nas montanhas Kumgang, na Coréia do Norte. É sempre um momento emocionante, que os jornais mais dramáticos fazem questão de mostrar com todas as lágrimas possíveis.

- Independente dessa história toda, uma coisa une coreanos (do norte e do sul) e chineses: todos têm um ranço de desgosto com o Japão.

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