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segunda-feira, setembro 12, 2005

Pimenta na calçada dos outros é kimchi!

... e o verão no hemisfério norte vai se aproximando do fim. Tem dado seus últimos suspiros, e uma leve brisa mais fresca já páira nas manhãs e fins de tarde, contrastando com o calor manauense que sentíamos há 1 mês.

Com o fim do verão, começa também a pipocar pelas ruas uma das tradições mais interessantes da Coréia, e marca registrada dessa cultura: a secagem da pimenta.

No início da primavera, mais ou menos em abril, as ajumás começam as plantações de tudo pelas ruas do país, incluindo é lógico, as ruas da cidade onde moro. Não sobra um buraquinho de terra, nem na beira do trilho do metrô, sem plantação, nem que seja de girassóis. Num país onde espaço é limitante (apenas 22% do território coreano é arável), é realmente necessário aproveitar cada centímetro quadrado. O verão vai-se, e nessa época em que estamos agora, é hora de colher vários dos vegetais plantados, incluindo a pimenta.

Depois de colhida, a pimenta é colocada em geral para secar, e aí que entra a parte interessante da história: é a calçada das ruas que se torna a área de secagem. Não há pudor algum em espalhar um mundo de pimenta pelo chão. Ninguém rouba, ninguém come, fica lá, dias e dias, secando, aquele mar vermelho no chão. É esteticamente muito bonito. E é claro, os coreanos têm noção de que não podem fazer isso em lugares movimentados, então são geralmente as calçadas mais "esquecidas" que ganham o tapete vermelho de enfeite.

Após a secagem, a pimenta é devidamente processada para virar kimchi, a comida nacional tradicional por excelência. O kimchi é produzido a partir da fermentação de alguma verdura ou legume (em geral, usa-se acelga) em enormes potes de barro especiais mergulhados em molhos de pimenta e sal, no quintal das casas. Os potes ficam fermentando por um longo tempo, muitas vezes até o fim do inverno. No passado, essa era a única forma de se estocar comida pro inverno, através de adição de sal - que os coreanos aprimoraram e juntaram com pimenta. Cada família tem sua receita de kimchi própria, guardada com muito segredo e passada para as gerações seguintes. E a cada ano, esse processo de plantio, colheita, secagem e kimchização da pimenta se repete.

A pimenta é nutricionalmente muito rica, e adicionada ao vegetal que está fermentando no pote, torna o kimchi um dos grandes segredos da boa saúde dos coreanos. É a presença de capsaicina na parte carnuda da pimenta que a faz ser picante, e diferentes variedades da planta têm diferentes níveis de capsaicina. O nível que agrada ao paladar coreano é o "ready-to-die" (ou, "pronto-pra-morrer": dei esse nome em homenagem a um pó de pimenta homônimo fortíssimo que tinha na república em que morava em Boston, que era um concentrado das 20 espécies de pimenta mais picantes do planeta juntas num pote minúsculo. Toda vez que um fariseu abria aquele pote na cozinha, eu lá do outro lado da casa começava a espirrar).

A Coréia do Sul precisa produzir e/ou importar quantidades abissais de pimenta, para suprir a demanda infinita da cultura culinária vigente. Consome-se pimenta de manhã, de tarde e de noite - e se acordar de madrugada com "aquela" fominha, pode ter certeza que algo apimentado será devidamente traçado da geladeira. Não se cogita uma refeição sequer sem pimenta, soa tão inconcebível quanto um brasileiro que não sabe o que é futebol.

Acredito que para um estrangeiro como eu que mora aqui na Coréia, toda essa cultura da pimenta, essa tradição milenar artesanal, essa riqueza culinária, é uma experiência muito interessante de se vivenciar e que não deve ser deixada de lado.

Só tem um pequeno detalhe: eu sou alérgica à pimenta. :-)

Pés de pimentaPotes de barro para estocagem de pimenta
Ajumás com pimentasPimentas na calçada
Pés de pimenta na horta do pátio de uma igreja evangélica perto do condomínio: cada espacinho arável deve ser aproveitado na plantação daquela que é a "religião culinária nacional". Ao lado, em cima: os potes de barro cheios de kimchi estocados no quintal de uma casa tradicional em Suwon. Embaixo, as ajumás organizando as pimentas na calçada da pracinha do condomínio, e ao lado as pimentas secando em frente ao prédio onde moro, colorindo o passeio.

Tudo de bom sempre - sem pimenta na terra da pimenta.

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