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terça-feira, outubro 18, 2005

Congresso em Seul

Nesses 2 últimos dias, participei do Congresso Coreano de Biologia Molecular e Celular, realizado no COEX Mall em Seul - o mesmo lugar onde vi o Lula pela primeira vez. É sempre renovador ver pesquisadores empolgados com seus trabalhos, em áreas que me são desconhecidas. Eu sempre sou levada pela viagem na maionese do palestrante.

Mas é claro, é um congresso coreano. A maior parte das palestras são em coreano, língua que não domino. Os slides em geral são em inglês, o que permite que eu leia a palestra enquanto o apresentador fala, pelo menos. E a apresentação de posters também em geral é em inglês, a língua universal da ciência. A comunicação é delicada, mas não é de forma alguma impossível. Ainda bem.

Para quem não conhece a dinâmica de reuniões científicas, é comum que elas se dividam em sessões, que se prolongam pelo período do congresso (em geral de 2 a 5 dias). Todas as sessões visam integração, distribuição de conhecimento e principalmente discussão. Essas sessões via de regra são:

- Palestras mais curtas, onde trabalhos completos são apresentados em poucos minutos para discussão. Poder de concisão é tudo nesse momento, e essas palestras em geral são proferidas por jovens pesquisadores;

- Conferências, com convidados especialíssimos, em geral estrangeiros renomados. São palestras longas, onde o pesquisador embarca fundo no seu tópico de pesquisa, mostra resultados de seu laboratório de maneira bem conclusiva e gera discussões em geral de alto nível;

- Sessão de posters, onde pesquisas em andamento ou quase finalizadas são apresentadas e discutidas pessoalmente com o autor do trabalho, uma oportunidade de ouro para quem sabe aproveitar. É a hora em que o experimento pode ser discutido com grupos que façam trabalhos similares, dificuldades e obstáculos são compartilhados e muitas vezes boas idéias surgem. Eu considero um dos momentos mais pragmáticos de um congresso para iniciantes na ciência;

- Às vezes, há mesas-redondas com vários cientistas discutindo um tópico, ou ainda workshops, onde podemos nos informar de novas tecnologias, metodologias, etc.

- Sem esquecer é claro, de uma área de stands de empresas farmacêuticas, de biotecnologia ou relacionadas ao tópico do congresso, vorazes por vender produtos para consumo do lab, mostrar serviços disponíveis, e principalmente, conquistar fregueses dando brindes - que nesse congresso de hoje variaram das indefectíveis canetinhas a relógios digitais, guarda-chuvas, almofadas e cubos mágicos (sim, aqueles da década de 80!!!). Vale tudo para atrair o cliente, até oferecer laranja em troca do email.

A idéia de que cientistas são pessoas estéreis, metódicas e frias, acredito eu, vem muito do fato de que as pessoas não-ligadas à ciência não frequentam essas reuniões científicas. Não vêem os olhos brilhantes de uma senhora idosa mostrando um monte de fórmulas químicas, nem vêem a jovialidade gargalhada a cada cafezinho. Ou pelo menos não vêem os slides de agradecimentos que alguns cientistas apresentam, com as fotos mais hilárias possíveis - a melhor que já vi foi de um lab alemão jogando futebol, todos suados. É nos congressos que se discutem muitos fracassos da ciência, muitas vezes problemas que não vão para artigo algum, nem nunca são mencionados de maneira formal em nenhum veículo de comunicação, apenas nas conversas de happy hour de um congresso. E de certa forma, essas informações são valiosas, pois podem significar economia de tempo, além de mostrarem o lado humano de se praticar ciência, os erros, os micos, as tentativas, as bizarrices, as surpresas. Quando essas informações são compartilhadas, percebemos que a ciência é muito mais falível que infalível, que há inúmeras variáveis em uma equação logística, e nesse contexto a atividade científica, que perante a humanidade em geral vive numa torre de mármore intocável, toma uma dimensão muito mais realista, pragmática e... divertida.

Mas é claro, discute-se também muita ciência que dá certo, trabalhos maravilhosos, instigantes. Hoje por exemplo uma das palestras respondeu uma questão pessoal minha. Há tempos venho me perguntando mentalmente o valor funcional de ficar sequenciando genomas diferentes. Quando o projeto Genoma Humano foi finalizado definitivamente em 2004, uma das características marcantes foi a verificação da existência de áreas enormes que não codificavam gene algum. E isso vale também para os demais genomas sequenciados: do camundongo, do chimpanzé... Embora essas sequências estivessem surgindo em gigantescos bancos de dados, não ouvia falar de nada muito funcional/prático que as sequências em si trouxeram. Enfim, sequenciar genomas parecia mais atividade de tecnologia que de ciência, pois as questões reais pareciam exauridas. (Há quem fale até em "decepção" com o genoma humano, o que acho meio exagero.) Se você pega um livro em húngaro e não sabe húngaro, de nada adianta lê-lo, não é? Era meio assim que eu me sentia com relação aos projetos Genoma em geral: um livro que eu só conseguia compreender uns pedaços mínimos da história. Pois bem, em certos momentos eu sou mesmo uma ingênua. Um senhor do NIH hoje mostrou a uma platéia atenta a importância de continuarmos sequenciando, aumentando cada vez mais os bancos de dados. Porque talvez mais importante que as áreas conhecidas (os genes), são as áreas desconhecidas do genoma, aquelas que vêm sendo mantidas por milhões de anos pela evolução, mas que aparentemente não servem para nada. Não quero entrar em detalhes técnicos, porque estou caindo de sono, mas saber que existem mais mistérios entre um gene e outro do que sonha nossa vã filosofia, me deu um certo alívio pessoal. Não sou a única a não entender esse "livro", são todos. A tarefa de desvendar o que ele significa está apenas começando. Não é minha área específica de trabalho, mas é algo que eu tinha muita curiosidade. E me satisfiz com a resposta temporária que o senhor do NIH me deu.

Agora, à parte o congresso em si, o momento "Malla na imprensa" do dia foi estar na estação de Sadang às 9 da manhã. É uma loucura, e o pior, é todo dia assim. Raramente passo por lá nesse horário, mas sempre me impressiono. É tanta gente naquele buraco de metrô que chega a ser sufocante. A sensação que dá é que Seul esvaziou-se e todos decidiram se encontrar no mesmo lugar - é claro que isso não é verdade, mas essa é a sensação. Tivemos que esperar 4 metrôs passarem para entrar em um - e entrei por insistência. Verdadeiro teste de sardinha em lata. As fotos aí de baixo dão uma leve noção da rotina de grande cidade.

Estação Sadang, 9 da manhã em SeulSaída da plataforma em Sadang, Seul


Para dar uma aliviada desse mundo de gente, deixo aqui embaixo algumas fotos da região do COEX, um lugar bem modernoso e agradável para passear em Seul. Resolvi compartilhar a sensação boa que me dá quando vejo esses prédios de vidro, principalmente em tardes gostosas de outono.

EsculturaBizarra arquitetura
Bandeiras no COEXCOEX complex


Tudo de bom sempre.

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P.S.: A Luciana, que mora em Roma, está narrando um pouco da visita do Lula à Itália, e os posts (com fotos!) estão ótimos, muito divertidos e críticos. Ela tem um despojamento todo peculiar ao escrever no blog dela em geral, eu gosto bem. Confira, vale a pena.

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