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terça-feira, outubro 25, 2005

Festival-gincana em Ganggyeong

Quando eu digo que eu topo qualquer tipo de viagem, eu não estou exagerando.

Na noite de terça dia 18, meu namorado recebeu um telefonema do representante da Associação Brasil-Coréia, dizendo que havia 2 vagas para um fim-de-semana com tudo pago, numa "excursão" entre funcionários (?) de embaixadas diversas aqui da Coréia para participar de um festival em Ganggyeong, sudoeste da Coréia. Festival de frutos do mar salgados. Não somos funcionários de embaixada, mas os demais brasileiros pareciam ocupados e não podiam participar. O pensamento imediato foi: boca-livre com lugar novo incluso é imperdível. Representando numa nanoescala o Brasil, mais legal ainda.VAMOS. Bastou entretanto, uma noite de bom sono para que no dia seguinte nosso espírito cético começasse a atormentar: "Será que essa viagem não é uma grande roubada? E se for uma viagem religiosa? E se for um encontro burocrático oficial? E se a gente não puder andar livremente na cidade para fotografar e curtir? Sim, porque nós adoramos viajar, mas não somos muito fãs de excursões... teríamos que seguir vários horários que pareciam bem apertados de atividades as mais diversas possíveis, e isso incomoda um pouco. Mas decidimos aceitar o desafio.

Primeiro ponto "roubada": chegar às 9 da manhã de sábado em Seul - o que significa sair de casa às 7:30, ou seja acordar cedo, algo que eu detesto fazer nos fins de semana. Decidi abstrair esse detalhe. E entramos no metrô rumo a Seul, sorridentes e felizes. O primeiro encontro com o pessoal foi positivo, afinal era uma reunião de estrangeiros, e eu adoro essas situações multi-nacionais. Países representados no ônibus: Nepal, França, Áustria, Nigéria, Romênia, Geórgia, China, Filipinas, Vietnã, Japão, Myanmar e, é claro, Brasil. Além de uma meia dúzia de sul-coreanos. Logo na ida, começou a quebra do gelo: as pessoas pareciam se conhecer de outros eventos, e éramos as únicas caras novas do grupo. A maior parte das pessoas era mais velha, mas 4 crianças alegravam o ambiente também. Todos queriam saber da gente, e com isso, começamos a nos soltar. Um francês e uma romena pareciam ser os organizadores da excursão, e eram também os mais extrovertidos do pedaço, sempre fazendo piadas e elevando o astral da galera. Clima pra lá de descontraído.

Ganggyeong é uma cidadezinha microscópica, um desses lugares no meio do nada, com pouco a oferecer. Não consta no Lonely Planet Korea, e tive dificuldades em achar no mapa da Coréia. E como toda cidade minúscula, é onde você pode perceber a face mais antiga da rotina humana de um país. Ao chegarmos lá, fomos direto pra área do Festival, à beira de um rio, para a competição internacional de... fazer kimchi! Isso mesmo, cada um teve que fazer um montão de kimchi, a comida mais típica coreana, auxiliados devidamente por uma ajumá. A regra era clara: estrangeiros fazem e provam o kimchi, que foi avaliado por uma comissão de "especialistas em kimchi" - foi assim que os jurados foram apresentados. Quando eu vi a quantidade de acelga que eu ia ter que encarar, mais aquele saco enorme de pimenta - logo eu, que sou alérgica e detesto kimchi - eu já percebi que minhas chances de ganhar aqueles 200 dólares estavam reduzidas a zero. Expliquei para uma japonesa que não posso comer pimenta, e ela passou a informação em coreano fluente para a "minha" ajumá, e decidiu-se então que eu faria o "kimchi branco", que não tem pimenta. Ufa. A competição então começou. 45 minutos depois de pincelar aquele molho de camarão salgadésimo a cada folha de acelga, os jurados passaram analisando e os prêmios máximos foram entregues pelo prefeito da cidade - que honra. Não venci, é óbvio, mas o meu era o único kimchi branco da festa, e todos quiseram experimentar. O prêmio para todos era levar seu kimchi pra casa. 5 kg(!!!), que estão nesse momento na área de serviço aqui de casa, fermentando mais e mais. Haja kimchi.

Meu primeiro kimchi - brancoFestival de kimchi
O primeiro kimchi - e provavelmente o último - a gente não esquece... Kimchi branco, com meu nome e o país que eu representei, em coreano. Ao lado, a bagunça da pimenta vermelha.

As atividades em Ganggyeong continuaram em ritmo incessante, as mais bizarras possíveis, bem no ritmo de gincana, e todos eram incentivados a participar. Houve o campeonato de "Destreza com palitinhos" - a tarefa era transferir grãos de soja com hashis de um prato pra um copo, um a um, e quem ganhou foi um vietnamita, povo que também se utiliza de hashis para comer. Assim não vale, concorrência desleal, hehehehe! Houve o campeonato de "Cuspe à distância" - um coreano cuspiu 8m, que absurdo! Em determinado momento, não entendi bem o propósito, todos sentaram numas mesas em frente a sua bandeirinha e os coreanos da cidade passavam coletando as assinaturas de cada estrangeiro em um "certificado de festa". Uma tarde de autógrafos de Homo sapiens internacionalis que representavam seus países de origem ali, naquele momento. Uma viagem ao provincianismo nostálgico. Não me lembro de colecionar esse tipo de coisa, mas também não me recordo de quando criança ir a nenhuma feira com vários estrangeiros, embora morasse numa cidade bem pequena.

Mesa de autógrafosCampeonato de comida com palitinhos
Hora de dar autógrafos internacionais às crianças coreanas; ao lado, o campeonato de comer com palitinhos - ou seriam palitões? Destreza pouca é bobagem.

O dia acabou em um jantar bem coreano de bulgoggi (carne ensopada cozida na mesa), com karaokê - haja ouvido e paciência com o próximo... Mas já estávamos completamente entrosados, e só demos risadas dos micos de todos. Em nossa mesa, as 2 japonesas (uma delas de Hiroshima) contaram sobre suas experiências próprias com a bomba atômica. Nunca tinha conversado com ninguém que me desse uma narrativa tão próxima de todo aquele horror radioativo, e de repente senti que a viagem já tinha valido a pena só por aquele papo, que dirá pelo resto do grupo. Fomos então para o hotel. No quarto, ao invés de bebidas e afins no frigobar, tinha uma máquina de venda dos produtos: um vending machine. Ao lado de um computador. Sem dúvida, prático. Mas eu estava muito cansada das brincadeiras do dia, e fui ler deitada meu livro do Göran Kropp - que aliás terminei, e recomendo aos aficionados por montanhismo.

Guerreira da dinastia BaekjaeVending machine
Semi-vestida de guerreira da dinastia Baekjae com arco sem flecha na mão! Ao lado, a máquina refrigerada de vender guloseimas dentro do quarto do hotel.

Foi difícil acordar no dia seguinte às 6 da manhã (!!) - eu desconfiei seriamente da sanidade mental de alguém que marca um futebol amistoso de várzea às 7 da matina de domingo. Mas fomos, afinal tudo é festa. Time de estrangeiros contra locais, e a temperatura devia estar em torno de 3 graus. Isso mesmo, uma geladeira. Me deu pena de todos os jogadores. Eu congelei. A pelada terminou em 4X4, e vários jogadores mais conversavam e fofocavam em campo que jogavam. Uma diversão, sem dúvida. Até então, não tínhamos tomado café, e fomos agraciados com um legítimo "café da manhã coreano": sopa apimentada de carne com kimchi. Eu passo.

O timeNepalês jogando futebol
Os times de futebol na foto chavão de confraternização (típica de várzea de Jogos Perdidos...) e o nepalês mostrando toda a sua "ginga" (e frio!) em campo.

Próxima parada: visita ao Museu da Guerra de Baekjae, que conta um pouco da história dessa dinastia que reinou de 600 AC até 18 BC. A exposição era interativa, e permitiu que vestíssemos a roupa do cavaleiro coreano - me senti num filme de época. E que roupa pesada! Do museu para o Festival-gincana, onde almoçamos trajados com outra roupa tradicional coreana, todos os excursionistas fantasiados de Confúcio. Uma farra usar aquele chapeuzinho, que em tempos antigos era feito com fios de cabelo do rabo do cavalo, e hoje é feito com nylon. Durante o almoço, conversamos com os nepaleses - é claro que eu tinha que puxar um papo Everest "básico", mas eles eram de outra casta (brahmas), não-sherpas, não-montanhistas.

Museu da Guerra de BaekjaeAlmoço tradicional coreano
O Museu de Guerra de Baekjae; ao lado, o almoço coreano tradicional à caráter. Esses chapéus são muito cômicos!

Já era de tarde, e ia começar o show de calouros. Claro, gincana que se preze tem que ter um show de calouros. E lá fomos nós... Não apresentei nada (não sou chegada a um palco, gosto mesmo é de bastidores). Mas uma peruana fez a dança do ventre, e um srilankês cantou uma música que levantou a platéia. Um quinteto coreano de dança/música/performance arrasou no techno-street, e 2 crianças filipinas fofas cantaram e encantaram.

Criancas filipinas Myanmar é isso aí!
As fofíssimas crianças filipinas que encantaram no show de calouros. Ao lado, isso é Myanmar! O representante do país em traje típico em outro momento da calourada.

Depois dessa tarde, tudo pronto para enfrentar o engarrafamento da volta para Seul. Jantamos na estrada. Ao chegar em Seul, aquela troca chavão de emails. E a sensação de que não foi nada roubada; foi sim um privilégio compartilhar desses momentos únicos de "pagação de mico" num pequeno festival de cidade de interior onde reinou o universal desejo humano de amizade entre os povos.

Tudo de bom sempre.

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