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domingo, outubro 30, 2005

Parque Nacional de Seoraksan

Outono subaquático
Finalmente, a foto tão sonhada!

Na semana passada estivemos no festival-gincana, relatado no post abaixo. Entretanto, no fim-de-semana anterior, tínhamos encarado uma aventura completamente diferente, e que quero compartilhar aqui no blog, dada a discrepância na organização com a viagem-gincana. Viagens diametricalmente opostas: a do relato de hoje tinha um roteiro quase indeterminado.

Alugamos um carro. Destino final: leste da Coréia, Parque Nacional de Seoraksan. Todos nos falavam das maravilhas desse parque em qualquer época do ano, e pensamos que, com a chegada do outono, as árvores coloridas nos dariam belas fotos, caminhadas pra lá de prazeirosas, e uma temperatura amena. O parque é enorme, requer alguns dias pra andá-lo por inteiro. Pararíamos onde quiséssemos, na hora que quiséssemos. A barraca de acampar estava no porta-malas, com nossos sacos de dormir, e uma lancheira com sanduíches naturais e outras guloseimas de andarilhos (barrinhas de cereal, frutas secas, etc.). Pegamos a rodovia 50 no sábado à tarde e fomos.

Já estava escuro quando chegamos na cidade de Sokcho. Fomos direto ao escritório do Parque Nacional, que já estava fechado, mas um guardinha simpático nos deu inúmeras informações e um mapa do parque. Além disso, liberou que acampássemos de graça no camping do parque. Estávamos cansados da viagem e da correria do dia, então fomos direto montar nossa barraquinha e dormir. Afinal, queríamos acordar cedo para tirar fotos do sol nascendo na região.

A noite foi bem longa. Frio demais. Meu saco de dormir agüenta até -20°C, mas o do meu namorado é mais “verão”, e não dava o conforto térmico necessário. A sensação geral era de um freezer, embora a temperatura estivesse, a meu ver, em torno de zero. Tínhamos um edredon, estávamos vestidos com todas as roupas que podíamos, mas mesmo assim, o frio era absurdo, e mesmo no meu saco de dormir poderoso, meus pés se mantinham gelados. Tentava cochilar, mas só conseguia pensar nos meus antigos experimentos de laboratório com ratos no frio, as estratégias que eles usavam para aquecimento quando expostos a 4°C: colocar mais palha em volta do corpo, não se mexer muito, tremer, aumentar aproveitamento de hormônio tiroideano. (Parênteses: Ratos podem produzir calor extra através do tecido adiposo marrom, por intermédio do hormônio tiroideano - termogênese adaptativa, em jargão científico. Fim do parênteses.) Nós, humanos, só temos tecido adiposo marrom organizado quando bebês. Ponto a menos para a nossa fisiologia. Para falar a verdade, o frio era tanto, que eu percebi que já não pensava direito mais. Em dado momento, vislumbrei todos os ratos que coloquei na geladeira rindo da minha cara de congelada. E imaginei o que seriam os -70°C que os aventureiros do Everest enfrentam por lá. Insanidade total.

Às 5 e meia da manhã, decidimos desmontar a barraca, tomar café, e procurar um lugar legal pra ver o nascer do sol. À medida que o dia foi clareando, começamos a perceber o quão maravilhoso era o lugar em que estávamos: as montanhas, a paisagem, e principalmente as cores das árvores. Fomos direto para o parque nacional, onde uma fila enorme de pessoas já se amontoava no guichê para pegar o teleférico. Compramos nosso ingresso para 11 da manhã, e como eram ainda 7 horas, decidimos dar uma andada no templo próximo e fazer uma das pequenas trilhas, a de Bisondae, cerca de 3 km de caminhada.

BudaTemplo tradicional coreano
O grande Buda protegendo a todos no início da caminhada, e mais um templo tradicional coreano para animar a turistada...

O templo era mais um tradicional coreano, agora em versão outonesca. A novidade dessa vez ficou por conta da estátua de Buda, enorme, contemplativa. Já a trilha de Bisondae estava linda nesse início de outono, com algumas árvores já em colorido típico, e outras ainda verdes. Uma espécie de roedor cismava em perseguir os turistas, que não eram poucos. A trilha em si mais parecia uma rodovia pavimentada para pessoas, e ao final, chegamos a um pedregulho exuberante – o Bisondae – onde algumas pessoas se aventuravam na escalada pra lá de radical. Rock climbing é definitivamente um esporte para poucos. Na volta, paramos para comprar maple syrup no palitinho, que derretia na boca. Bem gostoso.

UlseonbawuiSokcho e o mar do Japão vistos do topo do Gwongeunseon
A pedra de Ulseonbawui, área mais famosa e nobre do parque. Ao lado, a cidade de Sokcho e o mar do Japão, vistos do cume do Gwongeunseon, num belo dia de céu azul.

Deu a hora de pegar nosso teleférico rumo ao topo da montanha Gwongeunseon. Escalada em pedra auxiliada por um técnico do parque, as pessoas são conduzidas ao cume, de onde tem-se uma vista lindíssima, da cidade de Seokcho, e do mar do Japão. O dia estava claríssimo, perfeito, céu azul, e dava para ver claramente a cidade.

Ficamos um tempo no cume, tirando muitas fotos. Deu pra ter um pinguinho da sensação de vitória no cume - embora esse fosse um cume turístico, alcançável por todos - tinha até uma barraquinha vendendo medalhinhas de "Eu cheguei ao topo do Gwongeunseon" ao lado de uma bandeira coreana. Capitalismo selvagem in natura, literalmente.

No topo do GwongeunseonCores de outono
No topo do Gwongeunseon, a felicidade do cume. E que visual! Ao lado: outono é definitivamente a época mais bonita do ano nos países temperados... vide as cores dessas folhas.

Hora de descer, de volta ao guichê inicial. Saímos do parque e fomos em direção a entrada oeste, por uma estrada minúscula, cheia de curvas e simplesmente linda. A tarde seria de mais caminhada, dessa vez numa trilha mais longa, menos movimentada, e mais colorida pelo outono, a trilha de Sibiseonnyeotang. Meu namorado sonhava há tempos em tirar uma determinada foto subaquática, com árvores coloridas de outono ao fundo – aquela típica paisagem bucólica asiática também fazia parte desse sonho. Ele já tinha a foto em mente muito antes de executá-la, e procurávamos esse lugar imaginário. Eis que achamos um riacho de águas transparentes, cenário perfeito para a realização desse sonho. Ficamos por lá um bom tempo, tirando fotos e curtindo aquele pedacinho de natureza tão agradável. O roedor também estava ali, e, enquanto meu namorado aventurava as mãos nas águas gélidas daquele riacho, aproveitei pra espreitar melhor o comportamento do animalzinho dentuço – manias de bióloga. Tinha uma cauda listrada muito interessante.

Aos poucos, a sombra caía, sinal do fim do dia. Hora de voltar para Seul, pegar a estrada. Um engarrafamento-monstro nos esperava, e gastamos 7 horas para percorrer um trecho que normalmente se faz em 3. Amenizado pela presença de uma lua cheia enorme, que insistiu em nos roubar a plenitude de um sorriso.

Na maior parte das vezes, a natureza se basta para nos trazer contentamento.

Tudo de bom sempre nesse outono de cores.

Outono sub

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