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terça-feira, novembro 01, 2005

Meus 18 anos

O Alex postou sobre as histórias dele aos 18 anos. Achei a idéia muito legal, e resolvi contar também um pouco das aventuras e desventuras que passei quando tinha a mesma idade - não foram muitas, e em geral ligadas à faculdade... Farei no mesmo formato do Alex: pequenos trechos de um ano de vida. Eis um "tiquim" dos meus 18 anos.

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Pouco viajei. É engraçado isso, porque viajar é algo que eu adoro fazer desde sempre. Talvez poucas oportunidades, talvez porque eu estava focada nos estudos, descobrindo os meandros da Biologia, me apaixonando cada vez mais pelo DNA. Fato é que fiquei a maior parte desse ano num lugar só.

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Meu aniversário de 18 anos foi em Vila Velha (ES), com meus amigos de rua. Um bolo delicioso, e uma roupa que não gosto de lembrar, de tão brega que era - e que, por ironia, é a lembrança mais viva que tenho daquele dia. Credo.

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Aos 18 anos, cursei o 3º e o 4º período da faculdade de Biologia. Estava em Viçosa (MG), na UFV. A matéria que tirou meu sono na época foi Biologia das Plantas Inferiores (algas, musgos, samambaias e afins), com uma professora bem cri-cri. Lembro de virar várias noites à base de café, pipoca, palha italiana e pão de queijo, estudando para a bendita disciplina. Embora adorasse os fungos, acho que fiquei meio traumatizada com tanto nome de espécie, gênero, família, etc. que a professora nos obrigava a decorar.

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Também nunca fiquei tão maluca num final de semestre na faculdade quanto o 3º. Na última semana de aula, eu tive 9 provas, 2 seminários e 1 trabalho escrito pra entregar. "Isso é desumano", pensava eu na época. Lembro que fui para a última prova - de Zoologia dos Invertebrados 2 (artrópodes e afins) - sem estudar absolutamente nada, porque já estava exausta intelectualmente. Nem sei o que escrevi na prova, só sei que passei.

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Aos 17 anos, eu morei sozinha numa quitinete. Então, aos 18, decidi que era hora de experimentar morar numa república de estudantes. A oportunidade apareceu com umas meninas que não conhecia direito, mas topei pela novidade. Na rua dos Estudantes. Eram mais 3 meninas, uma mais diferente que a outra, e dividiríamos um apartamento de 4 quartos (cada um com o seu). Não deu certo. Dois motivos que me lembro:

1) Uma das meninas catava minhas roupas do guarda-roupa sem avisar, usava, mandava lavar e recolocava no meu armário de volta sem eu saber de nada disso (quem me alertou foi a lavadeira). Por que não pedia - eu emprestava sem problemas? Mas pegar sem pedir? É muito feio esse comportamento. E na época, isso me estressou. (Hoje talvez eu abstraísse...)

2) Eu fazia aulas de Genética às 7 da manhã, às terças e sextas. Genética era a minha paixão no currículo inteiro do curso, minha menina-dos-olhos (como eu era uma iludida...). Nem precisa dizer que na quinta à noite sempre havia uma mini-festa lá em casa, né? Em geral, eu abria a porta de casa e me deparava com mais de 10 pessoas na sala, vendo filme, conversando alto ou jogando baralho. Uma bagunça. Numa véspera de prova, a festa foi até às 4 e tanta da matina, e eu tive que estudar com aquela barulhada na sala. Prometi a mim mesma que teria que sair daquela casa se quisesse me dedicar de verdade às disciplinas que me interessavam. No dia seguinte, comecei a procurar outro apartamento.

Foi uma bela lição: jamais morar com pessoas com quem não tem afinidade.

(Apesar da bagunça, passei em Genética com nota máxima. Milagres acontecem.)

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Entrei pro Programa Especial de Treinamento (PET) da Biologia - UFV aos 18. Recebi nele meu primeiro "salário" (na realidade, uma bolsa de estudos de valor praticamente simbólico, mas para mim era como um salário de marajá). Participava fazendo seminários pro curso, apresentando discussões para interessados, escrevendo no jornalzinho da Bio, etc. No PET, fiz vários amigos, e conheci minha futura roomate Rute, que compartilhou o mesmo teto comigo por mais 4 divertidos anos. Foi nesse ano no PET também que entrei em contato pela primeira vez com o professor Lucio, tutor que virou uma referência em Evolução que virou um amigão.

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Fui morar com a Rute, num apartamento de 2 quartos. Um dos apês mais legais que morei na vida. Não sei, mas o lugar tinha uma atmosfera boa. E era de tábua corrida, um tipo de chão que eu acho lindíssimo até hoje.

Comecei a estagiar num laboratório de Biologia Molecular de Plantas, no recém-inaugurado Bioagro. Meu primeiro projetinho era purificar uma proteína de uma bactéria que era resistente ao calor. O protocolo para purificação já existia, eu apenas fazia a parte mais ralação do procedimento - e principalmente, lavava vidraria. Lavei muito béquer e erlenmeyer nesse ano. Fiz muita solução para os estudantes de mestrado e doutorado. E fiz também meu primeiro PCR - para um biólogo molecular, "o primeiro PCR a gente não esquece.

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Numa das festas de Natal que fui nesse ano, uma professora de Bioquímica bebeu demais, e derrubou uma árvore de Natal enorme (uns 3 metros de altura, pelo menos) que estava no canto da sala. Voou bola de Natal quebrada pra tudo quanto é lado. E eu fotografei imediatamente a cena: mico alheio guardado para sempre. (Não sei por quê essa cena ficou gravada em minha memória de forma tão clara, mas ficou.)

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Fui ao meu primeiro congresso, de Virologia, no Hotel Glória, Rio de Janeiro. Na época, achei que seria interessante ir só para ver a dinâmica de um congresso - e foi uma experiência boa. Mas a virologia não me fez a cabeça, e deixei de lado.

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Aos 18 anos, passei meu Carnaval com a família inteira (pais, vós, tios, primas e afins) numa casa - 3 quartos, dormindo mais de 30 pessoas (!) na praia do Farol, Campos dos Goytacazes (RJ). Desculpa ao pessoal de Campos, mas eu detestei essa praia. A água do mar é marrom, por causa da foz do rio Paraíba do Sul nas proximidades. Uma enoooorme extensão de areia, cansativa, despersonalizada. Além do mais, o mar de lá é ultra-violento, não dá para nadar nem nada. É só aquela revolta desmedida, sem sentido. O Carnaval valeu mais pela bagunça familiar. Levei uma rede já pensando que não haveria espaço para dormir (e eu teria que apenas achar uma árvore decente onde amarraria a mesma). Para surpresa, quando cheguei na casa, a "vaga" da rede já estava ocupada. Sobrou o carro do meu pai - e foi lá que eu e ele dormimos por todo o Carnaval. No último dia, nossas colunas em miúdos, implorei por uma vaguinha num colchão, que não apareceu. Acho que nunca valorizei tanto uma cama quanto depois desse carnaval.

Farol de Campos
A praia de Farol, em Campos...

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Fiz minha primeira excursão de campo em Biologia. Disciplina de Zoologia de Vertebrados 1 (peixes, anfíbios e répteis), fomos para o Parque do Rio Doce, perto de Ipatinga (MG). O professor nos deu uma aula na beira de uma lagoa à noite, uma escuridão sem fim, e descobrimos logo que estávamos cercados de jacarés por todos os lados. Muitos, muitos. Só víamos os olhos brilhando quando apontávamos a lanterna para qualquer direção. Senti medo de verdade.

Nessa mesma viagem, nadei numa lagoa cheia de piranhas. Sem medo.

E também nessa viagem, tive a oportunidade de passar a mão nas costas de uma onça pintada adulta, que estava anestesiada. A textura do pêlo do animal é indescritível. Magnífico.

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Visitei uma fazenda de rosas em Jequeri (MG), dos pais da minha amiga Tereza. Além da beleza intrínseca das rosas, a alimentação foi um capítulo à parte: mataram um porco (foi a primeira vez que vi um porco sendo morto), e fizeram uma feijoada "fresquinha", do jeito que eu gosto. Prosa e mais prosa. Fora o café delicioso, e o pão de queijo... hmmm, me deu água na boca. Rituais nostálgicos de fazenda.

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Relendo essas linhas, fiquei com um pingo de saudade da pequena nerd que fui na flor dos 18 anos.

Tudo de bom sempre.

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