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sábado, dezembro 17, 2005

Coréia em choque

Desde ontem, a Coréia do Sul está em estado de choque, boquiaberta, decepcionada.

Quando anteontem à noite, li em primeira mão a notícia pelo OhMyNews de que o aclamado e adorado (pelos coreanos, entenda-se) prof. Hwang havia confessado sua farsa das células-tronco, eu também fiquei atônita. Verdadeira bomba.

Logo a notícia já tinha cruzado o mundo e reportagens começaram a pipocar mais e mais, e o que parecia até então inacreditável, foi tomando ares de realidade: Hwang confessou inacurácias em sua pesquisa com clonagem de linhagens celulares para uso terapêutico.

Antes de mais nada, é necessário clarear o impacto que o desenvolvimento de células-tronco trazem à ciência em geral. Essas células, pluripotentes (ou seja, capazes de se desenvolverem em qualquer outro tipo celular do organismo), são potencialmente detentoras da capacidade única de reconstrução de órgãos e da substituição de um tecido doente por outro saudável. Significando basicamente a cura para por exemplo, doenças auto-imunes e diabetes, entre outras. Dominar a tecnologia de células-tronco é algo como o santo graal da ciência biomédica atual. Laboratórios do mundo inteiro tentam clonar uma linhagem sequer - e quando o grupo de Hwang, em seu primeiro artigo na Science, mostrou que havia realizado esse sonho, o mundo parou para assistir e discutir a perspicácia coreana. E Hwang fez mais: um ano depois, apresentou o primeiro cão clonado ("Snuppy") e, o mais surpreendente de todos, um artigo onde afirmava ter desenvolvido 11 linhagens celulares diferentes feitas a partir de células da pele de pessoas adultas, pacientes com enfermidades diversas, cujos núcleos foram inseridos em óvulos doados. Com essa tecnologia, tornava-se realidade um sonho: as pessoas poderiam num futuro muito próximo ter suas células-tronco feitas sob medida, abrindo espaço para uma nova estratégia terapêutica sem precedentes até então. Nessa dimensão, toda a ciência aplaudiu o feito, merecidamente.

E aí vem a história que estamos presenciando se desenrolar.

Tudo começou aqui na Coréia quando, durante uma entrevista, um dos colaboradores, Dr. Roh, afirmou que Dr. Hwang havia criado os dados sobre as células-tronco e que elas não existiam. Há menos de um mês, a história do laboratório de Hwang já estava sob suspeita quando descobriu-se que uma de suas estudantes havia doado óvulos para a obtenção da primeira linhagem de células-tronco, tema do primeiro artigo da Science de 2004. A infração bioética começou a gerar suspeitas de conduta por parte da equipe, mas como legislação sobre células-tronco ainda é um campo cheio de incertezas, o deslize ético foi encarado apenas como... deslize. Prof. Hwang, aparentando arrependido, pediu afastamento de todas as obrigações no que seria o Centro Internacional de Células-tronco a ser construído na Coréia. E os coreanos não só entenderam o deslize, como aumentaram ainda mais o apoio ao pesquisador - ao ponto de formarem um fã-clube chamado "I love Hwang Woo-suk". Assisti a esse depoimento quando fui a Seul em meados de novembro para uma consulta periódica, e no hospital em que me encontrava, todos os televisores estavam ligados na mesma entrevista, todos os olhos grudados. Parecia final de Copa do Mundo no Brasil, aquele silêncio só quebrado pela TV. As pessoas sentadas na sala de espera do consultório pareciam muito tristes. But life goes on, e, com o afastamento, aparentemente um clima de "ele tomou a atitude certa" foi predominando.

Mas o "deslize" repetiu-se: pouco tempo depois, Dr. Schatten, colaborador americano, pediu para retirar seu nome do segundo artigo da Science, de 2005, onde o grupo de Hwang clamava ter feito 11 linhagens celulares. Uma descoberta que trazia na cola a esperança de tratamento para várias patologias complexas, como Alzheimer, diabetes, Parkinson. O motivo do pedido do Dr. Schatten: uma das figuras do artigo, onde supostamente estavam fotografadas as 11 linhagens, continha erros, e apenas 2 células estavam fotografadas, em posições diferentes.

A Science, revista de reputação elevada, não aceitou o pedido do Dr. Schatten, alegando que ele deveria ter pensado e revisado melhor o próprio artigo. Para quem não sabe, nos artigos científicos indexados, é de praxe que o primeiro autor do artigo seja a pessoa que realizou o projeto (o trabalho braçal) e o último autor em geral é o chefe do laboratório ou o idealizador intelectual do mesmo. Dr. Schatten é o último autor e Hwang o primeiro, portanto, a responsabilidade maior intelectual tecnicamente é de Schatten - embora a lógica me diga que Hwang não era o trabalhador braçal, e sim seus estudantes. Tudo isso rendeu uma discussão acalorada na sociedade coreana sobre os limites da imprensa, pois a rede de televisão responsável pelos furos de toda essa história começou a ser acusada de perseguição a - até então - um ídolo nacional.

Foi então que começaram rumores anônimos (postados num fórum de discussão de biologia em coreano) sobre a inexistência completa das linhagens. Aparentemente, estava sendo postada por um (ex-?)estudante de Hwang, ou alguém que tinha acesso ao laboratório, pois a informação tinha detalhes precisos. A Universidade Nacional de Seul, onde fica o laboratório de Hwang, começou então um processo administrativo para investigar o caso. E anteontem, essa história teve o twist mais depressivo que poderia ter: o segundo autor do artigo de 2005 confessando a inexistência de 9 das 11 linhagens celulares. Já não era mais deslize: era falsificação descarada.

Como cientista e moradora temporária da Coréia do Sul, estou acompanhando esse caso de (muito) perto, por todos os lados, conversando com as pessoas que trabalham comigo, amigos, vendo noticiários de TV e lendo muitos jornais. E tenho algumas considerações a colocar. De forma alguma, Hwang está certo. Ele errou, e feio, ao inventar dados. A ciência, essa quase-instituição da sociedade humana, não pode sustentar uma mentira. A política sustenta, o futebol sustenta mentiras, mas a ciência não sustenta, é de sua natureza intrínseca discutir atrás de bom-senso, lógica: o racionalismo inquisitivo. Espera-se que a idoneidade e reputação manchadas para um cientista signifiquem praticamente o fim de sua carreira. Como Hwang falsificou dados, é óbvio que será punido, de alguma forma - não sei qual, mas será.

Entretanto, há aspectos interessantes nessa história toda. Antes de mais nada, a forma como a Nature (revista concorrente da Science) entrou de corpo e alma na difamação do cientista Hwang. Desde muito antes desse escândalo todo surgir, a Nature vem dando o benefício da dúvida, insinuando que algo não cheirava bem. Eles estavam certos, mas a atitude exacerbada, para mim, revela que há muito mais inveja entre 2 jornais de divulgação científica que sonha nossa vã filosofia.

O segundo aspecto é o choque entre os coreanos. Peculiarmente, é bem fácil para mim, como estrangeira, perceber que a Coréia tem um sentimento nacionalista exacerbado. Talvez advindo de seu passado, onde foi constantemente conquistada e oprimida pelos vizinhos chineses, japoneses, entre outros. Talvez pela sensação de mais fraca que essa opressão trouxe - e a competição atual econômica e tecnológica que provavelmente é derivada disso tudo. Tenho a impressão de que o coreano está sempre querendo mostrar o melhor possível não para ele mesmo, mas para os vizinhos asiáticos, principalmente os japoneses. Freud deve explicar esse complexo de inferioridade no inconsciente coletivo. E, com uma sociedade sedenta por heróis nacionais, o desenvolvimento de uma tecnologia única no mundo, que poderia "salvar a humanidade" e colocar a Coréia numa posição de liderança intelectual do mundo, foi abraçada com todas as forças por essa mesma sociedade. As maiores empresas coreanas passaram a financiar o laboratório (e as idéias) de Hwang - ao ponto do mercado de ações cair vertiginosamente ontem, depois da confissão da farsa. O governo coreano entregou toda esperança nessa possível liderança nas mãos de Hwang. Para hoje, depois da descoberta da fraude, todos estarrecidos e incrédulos, se perguntarem: o que eles fizeram de errado?

O OhMynews trouxe a seguinte "resposta" a essa questão:

"The reason given by sources published in the media here, for Hwang's faking of data in the Science article, was that he felt pressurized by the science community to get results, since his team had used several hundred donated ova for the research."

Eu acrescentaria à pressão interna da comunidade científica, a pressão política, econômica e principalmente, social. Assisti a uma palestra de Hwang no Congresso Coreano de Biologia Molecular em Seul no ano passado, quando sua reputação ainda era a de semi-deus. Sala entupida de gente, todos fotografando. A palestra em si? Okzinha, ele nada explicou do seu trabalho e ficou boa parte dos 50 minutos que tinha mostrando slides "engraçadinhos", que descontaíam muito mais que informavam. Mas nutrindo a cada frase "engraçadinha" que proferia o sonho coreano da superioridade tecnológica, do domínio intelectual de técnica tão áurea.

Além de tudo, a pressão pessoal. Uma vez bem-sucedido, com reputação nas alturas, o poder pessoal de Hwang alcançou níveis estratosféricos. Imagino o quanto isso o ludibriou os olhos, e em dado momento, deve ter sido o responsável por seu delsize pessoal. Esse comportamento acontece na maior parte das pessoas - basta lembrar a amarelada de Ronaldo na final da Copa de 1998 para termos uma idéia clara do quanto uma situação de extremo poder acarreta peso pessoal. Hwang era o Ronaldo dos coreanos, num campo que a Coréia pretende ser elite, a ciência. Mas seu primeiro artigo ainda é um marco, e sobre ele aparentemente não pousam dúvidas. Assim como os gols de Ronaldo no Barcelona que não podem ser esquecidos, a falha pessoal de Hwang no seu último artigo não pode desmerecer tudo que veio de seu laboratório até então - mesmo porque é muito mais plausível que a natureza humana seja iludida pela fama e poder do que pelo desconhecimento. Muito menos desmerecer o que muitos coreanos acham que virá pela frente: toda a ciência coreana sendo vista como uma fraude, o que é claro, não é.

Na semana do aniversário da morte de John Lennon, é irônico perceber na Coréia o quão contemporâneo ele ainda é: o sonho acabou. Anteontem, de forma nada glamourosa. Mas... desencanar de células-tronco? Acho que não é por aí. Uma tecnologia que merece e muito ser buscada, porque ela retém a esperança de muitos benefícios. O fracasso pessoal de Hwang não pode, não deve ofuscar o seu campo de pesquisa, em que milhares de outros biólogos, químicos e médicos dedicam suas vidas. Agora, para todos, é acordar para a realidade, trabalhar mais e recuperar o tempo que foi gasto dormindo.

Tudo de bom sempre.

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*Viagens clonadas:

- Na Scientific American e no blog da revista, estão os textos mais contundentes que encontrei sobre o assunto. Foram os textos que mais me fizeram refletir sobre toda essa panacéia.

- Esbarrei nessa reportagem sobre o assunto (copy-paste) do site Terra. O último parágrafo é simplesmente hilário.

- A Science liberou todos os artigos e reportagens sobre o assunto para todos os leitores (comumente, seriam apenas para assinantes). Inclusive, um editorial com o posicionamento da revista. Uma boa iniciativa, visto que a reputação da revista e seus revisores, de certa forma, está na berlinda - embora saibamos que revisores trabalham assumindo que o artigo não é mentiroso.

- Uma triste charge coreana sobre o tema...


UDPATE: O incansável e incrível Pharyngula já expôs sua opinião, com um link pra um excelente artigo de bioética.

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