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domingo, dezembro 11, 2005

Passaporte novo pelo mundo

Semana passada fui à embaixada brasileira em Seul, renovar meu passaporte. Pela primeira vez em solo estrangeiro, entrei nesse pedaço de território brasileiro fora dos limites do país. A visita merece um pequeno comentário.

Passaporte é o documento mais fundamental de um viajante. Sem ele, você simplesmente não passa por nenhuma alfândega. Desde meu primeiro passaporte - tirado para uma prometida viagem a Disney que nunca veio - o documento me fascina. Acho que é o fato dele não ter o mesmo tamanho de um cartão de crédito, e ter que ser carregado de forma "diferente" de todos os outros. Mas acho também que é principalmente o sonho acoplado a ele, o que o passaporte motiva, a aventura das viagens por fronteiras novas. E eu sempre prezei meu passaporte como a um filho. Afinal, ele me representa oficialmente.

Sempre renovei meu passaporte na cidade em que morei por mais de 17 anos de vida, no ES. Aproveitava uma ida ao Brasil de férias e arrumava um tempinho para pegar meu documento novo. Ele vale por 5 anos, então nada complicado fazer isso. Mas precisava fazê-lo agora, nesse momento, então tive que renovar em Seul mesmo.

A embaixada brasileira em Seul tem uma das vistas mais privilegiadas da cidade, no bairro das embaixadas, com visão panorâmica do palácio Gyeongbokgung e do Museu Nacional de História Coreana, 2 palácios lindíssimos encrustados no centro da cidade. Não tem um website, fato um pouco estranho em terras coreanas. Poucas pessoas trabalham no escritório, vi apenas 3, entre elas a cônsul, uma mulher simpática com seus 30 e poucos anos e jeito carioca de ser. Mas um fato me incomodou um pouco.

Vista da janela da embaixada
Vista da janela da embaixada brasileira em Seul.

Aqui na Coréia, toda e qualquer transação é feita eletronicamente. O país é ligado na Internet para tudo, os sistemas de segurança são incríveis - os bancos têm uma forma de evitar fraude eletrônica super-eficiente e simples, através de múltiplas senhas para uma transação, onde só a pessoa detentora do cartão sabe quais são as mesmas. E, melhor de tudo, essas múltiplas senhas não precisam ser decoradas, estão num cartão simples. As pessoas mal andam com dinheiro na carteira: até a tarifa do metrô é descontada direto do celular ou de um cartão de crédito qualquer. Há tempos para pagar contas eu não sei o que é ir a um banco - tudo sai do virtual para o virtual.

Aí eu me deparo na embaixada brasileira com a prática mais retrógrada de uma nação burocratizada: o boleto bancário. Eu nem sabia que era possível ter boleto aqui na Coréia, pra ser sincera. E há tanto tempo afastada desse cotidiano tão tupiniquim, tive vontade de dar risadas ao ver a moça escrevendo num papelzinho informações totalmente desnecessárias. Tenho a sensação de que o boleto bancário baseia-se na premissa de que o serviço precisa ser vigiado, e precisa de uma confirmação do trajeto do dinheiro dele para esse serviço. É um reflexo da inacessibilidade digital de um país. Que é exatamente o oposto do que acontece aqui: somos todos cidadãos reais e virtuais. Quando entrei no banco para pagar a taxa do passaporte, a atendente me olhou com uma cara misto de "papel?" com "de que planeta essa menina veio?". Talvez ela até tenha achado vintage a idéia do boleto, quem sabe. Cobrou, paguei e voltei à embaixada para levar o comprovante de que havia efetivado a tal transação bancária.

Ao mostrar o boleto, a cônsul me disse então que em uma semana o passaporte estaria pronto. Fiquei mais uma vez perturbada. "Uma semana? Para quê tanto tempo para fazer um documento simples? Somos menos de 300 brasileiros no país inteiro, quantos destes renovam passaporte por mês?", foi o que veio na minha cabeça, mas nada falei com ela, que era tão simpática. Perguntei de leve o que ela faria com os documentos: uma cópia vai pro Ministério das Relações Exteriores no Brasil, uma fica na embaixada e outra... assumi que seria a minha cópia. Em dado momento, ela disse que precisava mandar por correio convencional (ou mala diplomática, talvez) o formulário para o Brasil, ou seja literalmente a documentação. Que gasto de papel. Numa sociedade digitalizada, formulários são preenchidos em documentos pela rede (tipo pdf), e os estoques dos mesmos são armazenados em discos rígidos no servidor. Fico imaginando se toda embaixada tiver que ficar enviando cartinha para eles mesmos para cada passaporte que expedido. Haja árvore. Espero imensamente que com o novo passaporte brasileiro que vem por aí a partir do ano que vem essa burocracia melhore.

(Parênteses: Sei que se você perde um passaporte nos EUA, por exemplo, e precisa de um novo, você entra num website do governo, preenche o formulário em pdf, manda por email, transfere o dinheiro para a conta bancária do governo, e o passaporte chega na sua casa pelo correio, sem problemas. Você não sai de casa para nenhuma dessas atividades. Todas as informações dos cidadãos e estrangeiros no país estão digitalizadas nos arquivos do governo,o que gera a situação sensacional e perturbadora que aconteceu com minha prima: quando ela foi pedir visto americano há dois anos e disse que iria aos EUA para me visitar, a mulher mostrou minha foto e todo meu arquivo para ela, para confirmar se era eu mesma, sem eu nem tomar conhecimento. Eles realmente sabem tudo de nossas vidas... Enfim, com tanto problema para ser resolvido pelo mundo, a última coisa que os funcionários de qualquer repartição séria querem é perder tempo com formulários, boletos e afins. Fim do parênteses.)

É engraçado tudo isso, porque eu convivi com essa realidade de boletos, carnês e cia. ltda. por toda minha vida no Brasil. Mas eu acredito que costumes ruins a gente logo se desacostuma e prefere esquecer, deve ser algum mecanismo cerebral de adaptação ao mais simples e eficiente. A vida precisa ser agilizada, não complicada. O processo burocrático embutido na simples emissão de um passaporte para um brasileiro reflete essa complicação, que, em minha opinião, só atravanca a máquina logística do governo.

Mas entendo o lado das autoridades brasileiras. Antes de mais nada, para digitalizar-se, o Brasil precisa mudar. Precisa que seus cidadãos tenham acesso fácil e bem disseminado à Internet. Precisa modernizar a máquina estatal. Precisa garantir acesso a educação digital a todos. Num país onde muitos ainda não têm o que comer, isso soa hipotético, quiçá ilusório. Mas basta eu me lembrar que moro na Coréia, um lugar que a 30 anos atrás era um país pobre, onde muitos também morriam de fome, e que hoje, essa mesma sociedade se transformou e se digitalizou por completo, para renovar minhas esperanças de que um dia quem sabe o Brasil também será mais eficiente. Basta profunda e efetivamente querer - e começar ontem.

Tudo de bom sempre.

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*Duas viagens coreanas fora de contexto que preciso comentar:

- Acompanhei torcendo o sorteio dos grupos para a Copa do Mundo de 2006 pela TV. Brasil e Japão vai ser um jogo interessante, veremos o que o Zico anda aprontando pelas terras nipônicas. Durante a transmissão do sorteio aqui, ao ver que o Japão estaria no grupo do Brasil, os coreanos foram à loucura e comemoraram bastante. Afinal, o Brasil mete medo, e para um país que tem rixas e mais rixas históricas com o Japão, saber que eles vão encarar um gigante eliminatório é motivo de festa. Dá-lhe Daehanminguk! (Coréia do Sul, em coreano.) E Brasil hexa, que ninguém é de ferro.

- Toda essa confusão em torno do pesquisador coreano das células-tronco e as rasteiras éticas que vêm se falando pela mídia mundial estão tendo um impacto negativo no país. É simplesmente inacreditável o estado de "feeding frenzy" em que alguns jornalistas entraram - a Nature, inclusive. (Claro, afinal o artigo tão comentado foi publicado por sua rival americana, a Science.) O pesquisador errou, não há dúvidas disso, mas a tempestade em copo d'água que saiu de toda essa experiência é simplesmente inacreditável. Comprometer a ciência como um todo não é nunca uma boa alternativa para um futuro melhor. Acho que o caso mostra bem que não é nada vantajoso estar contra uma rede de televisão. O Brasil, com seus fartos exemplos de influência global, que o diga.

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