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terça-feira, dezembro 06, 2005

Que frio!

Tem feito bastante frio por aqui. Parece que o inverno chegou com força, sem mais se confundir com o outono que, insistente, ainda pede para ser lembrado nas últimas folhas vermelhas das árvores. De acordo com minha chefe, esse será o inverno mais frio de todos os tempos na Coréia - previsões do serviço meteorológico coreano. Prefiro nem pensar no que vem pela frente.

Não gosto de frio. Acho a neve lindíssima, aquele tapete branco fofo homogêneo, mas o que acompanha a neve é que me desagrada: frio, lama de sal na rua para estragar os sapatos, ruas escorregadias como pistas de patinação no gelo - perigo sério pros mais idosos -, dias curtos, desânimo. Como sinto mais frio que a maioria dos mortais (ou pelo menos sou menos resistente a esse gelo), caminhar na rua é uma atividade que passa a requerer adereços típicos de quem vai passar férias num acampamento-base no Himalaia: luvas grossas, calça dupla, sapato térmico, coleira e chapéu de fleece, cobertor de orelha também de fleece - eu daria sem pensar duas vezes o Nobel da Paz para quem inventou o fleece, esse material leve e maravilhoso que suaviza o sofrimento dos hipotérmicos! Muitas camadas de roupa. Um visual colorido de pingüim urbano.

Mas, vinda de uma região tropical - na cidade onde cresci, inverno rigoroso era quando o "vento sul" batia e trazia escandalosos 15 graus positivos pro termômetro -, ainda me admiro com a vida no inverno das regiões temperadas ou túndricas (acabei de inventar essa palavra, caso não exista). Ou com as adaptações que as pessoas fazem para sobreviver ao frio. Admiração misturada com curiosidade.

Aqui na Coréia, por exemplo, existe um sistema de aquecimento das casas muito peculiar, chamado ondol. Acredita-se que o ondol foi criado no ano de 37 A.C., ainda durante a época da dinastia Koguryo. O sistema consiste em tornar todo o chão da casa um imenso irradiador de calor, através do aquecimento (por lenha no passado; hoje em dia por gás) embaixo... do próprio chão! Ao entrar numa casa coreana e tirar os sapatos, logo se percebe o quão quentinho é o chão - que sensação aconchegante! O que deve explicar também porque os coreanos adoram sentar no chão das casas. O ondol permite que a casa toda seja aquecida de forma uniforme e eficiente. Afinal, o calor sobe naturalmente e o chão vira um mega-irradiador para todos os ambientes. Ah, como eu adoro o ondol... Dá vontade de ficar deitada no chão o tempo todo, e permite andar descalça pela casa, algo impensável com o aquecedor que eu tinha em casa em Boston. Deitar no chão quentinho, aliás, é o que meu gato faz o dia inteiro, para sorte dele, que não precisa sair de casa para trabalhar ou comprar víveres.

Ondol tradicionalCrianca fazendo bola de neve
Uma vista do ondol de uma residência tradicional coreana: repare embaixo da casa uma abertura para colocar a madeira que será queimada para o aquecimento. Ao lado, a alegria das crianças com a neve para fazer bonecos de neve no condomínio em que moro.

Empacotada para neveCatupiry na neve
Meu "empacotamento" pro inverno, ou melhor, como eu me finjo de pingüim azul pelas ruas da Coréia. Ao lado, o debut de Catupiry na neve nesse último domingo: ele não curtiu muito a patinha gelada e já estava fugindo pra mureta. Repare que ainda tem folhas coloridas de outono pelo chão! Acho que o inverno chegou antes da hora por aqui...

O corpo humano definitivamente não é adaptado ao frio. Precisamos desses "acessórios" (roupas e afins) para manter a temperatura ideal, para não morrermos de hipotermia. O que me leva a refletir sobre o nível de loucura e risco dessa aventura: um sul-africano, puxando o limite do corpo em relação ao frio, está querendo bater o recorde de distância à nado na Antárctica - usando apenas roupas de banho. Nada de dry suit, ou roupa aquecida: é só sunga de praia mesmo. Temperatura da água = abaixo de zero, suficiente para fazer um ser humano normal parar de respirar em poucos minutos. O sul-africano já é detentor do recorde de nado mais ao Norte do planeta, numa região da Noruega próxima ao Ártico. Caso consiga nadar 1 km (!!!!) na Antárctica nesse verão, será a única pessoa a ter enfrentado a água fria nos dois pólos de corpo aberto. Haja coragem.

E ele é um sul-africano. O que me leva a pensar que nem sempre o fato de você ter nascido nos trópicos conta para sua adaptação (ou falta de) ao frio. Outro exemplo? Os brasileiros biólogos que pesquisam no Alasca, que mesclam seus trabalhos a tempestades de gelo, icebergs e muito vento congelante. E adoram essa fria. Aliás, o Alasca deve ser um lugar incrível para se passear, um ecossistema único com uma população nativa interessante, os esquimós. Valeria a pena um dia fazer uma visita a um iglu de verdade; já pensou, uma Malla num iglu? Não, nem eu imagino tal aventura de alto risco. O que me lembra um amigo meu de Belo Horizonte que fez intercâmbio quando adolescente em Fairbanks, e o primeiro presente que ganhou assim que chegou lá foi um snowmobile. Exótico para um belorizontino, sem dúvida.

E para terminar esse post abaixo de zero, deixo um link delicioso, que já mora na minha lista aí da direita há algum tempo: o Antarctica Blog. Depois de um tempo viajando pelo mundo, eis que Luke está de volta ao extremo sul do planeta, e conta todos os problemas logísticos de uma expedição ao ponto mais inóspito do planeta. Vale a pena ver a foto desse post, tirada à meia-noite na Antárctica. Minha conclusão é a de sempre: esse mundo é mesmo uma maravilha de experiências diferentes, com recantos para todos os gostos e viagens...

(Agora deixa eu voltar rapidinho pra debaixo do cobertor...)

Tudo de bom sempre.

*Hoje é a estréia do Flávio Prada no condomínio Verbeat. Ele também entrou na mesma viagem gelada, e encheu o blog de fotos de neve na Itália. Para visitá-lo, aconselho um casaco.

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