Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

quinta-feira, março 31, 2005

Cidadãos do mundo

Hoje de manhã cedo, a boa surpresa do novo endereço do blog do Idelber. E ele, já todo embalado no verdadeiro sentido do termo BLOGAR, presenteou a todos com o valiosíssimo "Decálogo dos Direitos do Blogueiro", que, de forma não-oficial mas muito pertinente, define o que seriam os direitos daqueles que blogam. É óbvio que se sente incorporado à ele quem quiser - e eu me senti, pela clareza, bom-humor e visão abrangente da natureza de um bom blog, cuja intrínseca função é de informar, gerar discussões construtivas, abobrinhar ou coisa que o valha (tudo no mais livre critério do Homo sapiens que acessa o login do endereço, é claro), mas sempre com prazer, liberdade e frescor. Parabéns ao Idelber, e em reforço ao que considero já um documento virtual, coloquei o selinho aí na coluna da direita, como indicativo da diretriz que um bloguinho sem rumo de uma Malla perdida nesse mundão pode ter.

E ler o decálogo me fez parar e pensar sobre o blog em si, algo que pouco faço, pra falar a verdade. Meu blog nasceu da necessidade pessoal de narrar fatos, viagens e acontecimentos ligados a lugares do mundo, muito mais que polemizar. Se esse blog tem uma madrinha-criadora-sem saber, essa posição única e estritamente é da Liliana, que me encantou com sua verve escritora e suas histórias sobre Hong Kong, me fazendo enxergar o quanto o canal "blog" poderia ser frutífero às minhas frustrações de escrita. E se esse blog teve uma função inicial clara na minha cabeça, essa foi: mostrar a amigos e familiares o que ando fazendo/vendo/vivendo pelo mundo afora. E como já expliquei anteriormente, ele funciona muito mais como uma rua de paralelepípedos tortos para o meu subjetivo, normalmente tão esmagado pela minha profissão de caráter "racional-objetivo" extremo. E com o tempo, o blog cresceu no meu mundinho, novas amizades virtuais surgiram (um dia ainda quero comer pastel e caldo de cana com todos os "novos amigos" que compartilham suas viagens por aqui - os "velhos amigos" já sabem que esse desejo é uma realidade nas raras, emocionantes e inesquecíveis oportunidades quando os vejo), e principalmente descobri novos blogs, interessantes, criativos, instigantes - meus favoritos estão linkados aí do lado. Eu adoro essa interação via blog, principalmente por saber o quanto ela pode trazer bons frutos - já traz para mim, me permite bons sorrisos, reflexões e risadas.

Aí comecei a pensar mais umbigamente ainda no sentido do título do meu blog. Além do trocadilho barato com meu apelido cunhado pelo amigo Chico nos tempos de faculdade (demonstrativo da minha "inapetência publicitária mercadológica intrínseca"), ele reflete a minha visão de MUNDO: ele está aí, aberto a todos, e pensando positivamente querendo ser descoberto pelos que estão a fim de descobri-lo, pelos que não se intimidam perante o novo, o desconhecido. E eu quero devorar o mundo, conhecer cada recanto, poder por exemplo ao pensar em Taiwan e sua situação política, lembrar das ruas de Taipei, fazer um julgamento baseado na informação formal que a mídia fornece acrescida/instigada pelas minhas impressões próprias das pessoas do local e do que vivi por lá. Ou seja, viver o mundo: nada mais libertador para mim que esse sentimento de cidadã do mundo.

Entretanto, sou cidadã brasileira - essa é minha nacionalidade, dada pelo fato de eu ter nascido, crescido e vivido no Brasil, ter costumes brasileiros, falar português do Brasil e não ter parentesco algum que me permita sequer cogitar em outro país como "pátria-mãe". Em conversa casual num jantar da empresa ontem, descobri que na Coréia do Sul, por exemplo, filhos de estrangeiros nascidos aqui não podem por lei ser registrados como coreanos: serão registrados na embaixada que lhe couber como cidadãos, do país dos pais. No Brasil a lei é diferente: qualquer pessoa que nasça no Brasil já é um cidadão brasileiro, e ponto final. Basta nascer. Fiquei curiosa, e fui pesquisar mais abobrinhadas sobre cidadania (no sentido de nacionalidade, não no sentido de civilidade), descobri uma situação vivida por mais de um milhão de pessoas atualmente: elas não tem cidadania alguma. São chamadas em inglês stateless, que por diferentes motivos vivem num limbo legal, onde você não tem deveres (não paga imposto algum, por exemplo), mas também não tem direitos estabelecidos. Cidadania é um direito garantido pelo Artigo 15 da Declaração de Direitos Humanos. A maior parte dos "sem-cidadania" estão assim por razões políticas, são refugiados, asilados políticos, e são cidadãos do mundo à força - nada à força funciona muito bem. Existe um tribunal das Nações Unidas responsável por lidar com essas pessoas, e não vou entrar no mérito da questão, porque quero brevemente refletir sobre os que ESCOLHEM ser "sem-cidadania".

A pessoa pode escolher perder a cidadania que possui - é uma brecha legal. Por exemplo, se um bebê nasce em território ou águas internacionais, poderá ser registrado na cidadania dos pais ou da bandeira da embarcação onde o bebê nasceu, e aos 18 anos, terá que escolher a cidadania que quer seguir. A escolha não é totalmente aberta, é claro, e normalmente só é permitida à pessoa a cidadania dos pais. Entretanto, se os pais forem "stateless", o bebê não terá vínculo algum com país algum. E aí? Tentei buscar a solução desse problema legal, e não achei. Há casos de crianças nascidas na Antárctica, um território sem dono oficial, mas a essas crianças foi dada a cidadania dos pais, que refletiam a base de pesquisa científica onde estavam em terras geladas austrais.

A maior parte dos pouquíssimos casos de "stateless por escolha" são pessoas que vivem em barcos, viajando pelo mundo, e que querem evitar pagar impostos, ter uma vida totalmente "livre". Entretanto, para esses casos exóticos de verdadeiros "cidadãos do mundo", os direitos são restritíssimos e a maior parte dessas pessoas termina na situação oposta a desejada: a "prisão" de não ser de lugar algum. Todo país tem o direito de negar a cidadania a alguém; portanto essas pessoas terminam por pegar a cidadania conveniente ou aquela burocraticamente mais fácil. (Qualquer pessoa com uma conta corrente polpuda por exemplo numa ilha caribenha pode pedir cidadania da ilha - eles não vão negar, provavelmente, visto que o dinheiro ainda move a humanidade.) E assim os "stateless por escolha" viram cidadãos de algum lugar, deixando de ser prisioneiros da sua liberdade para voltarem a ser prisioneiros, mais uma vez, do estado a que estão atrelados por seu passaporte.

E é como uma cidadã brasileira com um pé no mundo, o outro fincado no Brasil, com o espírito sapiente de "cidadã do mundo" livre da real prisão que é o sê-lo, como dona de um passaporte verde-amarelo ávido de carimbos de outras praias, montanhas e urbes para coletar mais informação e conhecimento que nutram meus neurônios desgastados, que esse blog passou a existir mais ainda dentro de mim como uma grande viagem prazeirosa de volta ao mundo na maionese.

Que valha acima de tudo a frase do Idelber em seu decálogo: "Mais bobagem que certas revistas semanais blog nenhum conseguirá dizer."

Tudo de bom sempre para todos os cidadãos do mundo - até aqueles que nunca saíram de seus vilarejos reais ou utópicos.

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P.S.: Fazer ciência é uma atividade cara de se exercer e mal-remunerada, no mundo todo, fator pelo qual eu poderia até me desculpar de não ficar no Brasil: a miríade científica brasileira e os investimentos destinados à pesquisa ainda são infelizmente irrisórios comparados aos demais países. Dura realidade e boa desculpa. Um blogueiro esperto, entretanto, não caiu nesse papo de não ter emprego no Brasil, e matou sem saber a charada da minha escolha de cidadã do mundo dizendo simples e definitivamente:"(...) o que não tem é como apagar a vontade de ver o mundo."

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segunda-feira, março 28, 2005

Sobre a TV coreana

Passei o útlimo fim-de-semana assistindo televisão, num descanso osmótico merecido há tempos. De posse de tanto tempo livre em frente à telinha, não pude deixar de reparar nas peculiaridades dos canais de TV que assistimos aqui na terra de Confúcio. Os que conseguimos entender, é claro.

Dos canais de TV aberta, nada posso dizer: não os assisto. A não ser por um programa de comédia pastelão com uns caras muito engraçados, que são uma espécie de mistura de Cassetas com Trapalhões, visto que suas palhaçadas parecem ter uma certa ingenuidade - digo parece, porque não entendo: dou risadas como se estivesse assistindo a um filme mudo pastelão.

A TV a cabo que assinamos, embora seja o plano básico, possui 5 canais de filmes - todos legendados em coreano. Como entendo 2 línguas, na prática significa que somos reféns de Hollywood. Só me recordo neste 1 ano de Coréia de ter assistido a um filme francês, o "Amélie", e de ter passado por um filme alemão que até parecia interessante, mas como já se foi o tempo em que eu conseguia falar ou me expressar na língua de Goethe, deixei de lado. Ah!, e outro dia de madrugada passava um filme meio pornochanchada com tomadas no Brasil e participação do Milton Gonçalves - deu pra entender algumas frases ao fundo em português. Mas de resto, só assistimos a filmes em inglês.

Entretanto, os canais de filme até que são bons, se avaliados como mero geradores de entretenimento. Descobrimos, por exemplo, que os coreanos AMAM James Bond, pois todo fim-de-semana passa pelo menos um filme do 007, e nessa contabilidade, acabei completando minha coleção de "assistidos" do agente secreto britânico mais famoso. Fora os especiais mostrando todos os bastidores possíveis e imagináveis de 007, prato cheio pros fãs.

Existem 2 canais japoneses no nosso pacote de cabo, e na atual conjuntura do "imbroglio" que a política anda aqui, não sei como ainda estão no ar. Canais chineses, alguns, mas muitos filmes chineses nos outros canais - infelizmente, não consegui assistir a um filme que parecia engraçadíssimo com Jackie Chan e Lucy Liu em som "original". Uma pena.

Mas há bizarrices na TV. Por exemplo, o canal AFN (American Forces Network), um canal militar americano, cuja função máxima parece ser fazer com que os americanos que aqui residem sintam-se na sala de TV de sua casa em Ohio, Kentucky ou Texas. A programação é toda uma lavagem cerebral militar, e os intervalos são todos recheados de propagandas-babás, que ensinam os militares a tomar conta de seu dinheiro, de sua família, de suas viagens, e principalmente, mostram que o governo está sempre correto ao enviar os soldados pros confins do planeta para lutar: tudo pela liberdade, não é mesmo? O mais engraçado desse canal é na hora da previsão do tempo, quando eles mostram o mapa da Ásia e Oceania, e, ao invés do nome dos países, estão o nome das bases americanas, ou apenas as cidades onde há bases. Assim, as Ilhas Marshall, coitadas, viram um "país" chamado Kwajalein, e por aí vai. Embora um canal lavagem cerebral, é nele que assisto a alguns adoráveis enlatados.

Outra bizarrice é a quantidade absurda de canais de venda de produtos... bizarros! Propagandas de vaso sanitário, de aparelhos de ginástica, de calças impermeáveis, de tacos de golfe, de cortadores de frutas, entre outras, são as que reinam. O que leva uma pessoa a comprar um vaso sanitário pela TV? Faço-me essa pergunta, mas já penso na resposta, porque se está sendo apresentado ali, uma coisa é certa: é porque alguém compra.

E novelas. Como coreano adora uma novela! As de época, parecem fazer bastante sucesso, porque são várias. Todas no melhor/pior estilo Globo, e principalmente, lançadoras de modas e modismos. Lembro que uma aluna vietnamita da minha aula de coreano lá no Hawai'i justificou no primeiro dia de aula sua intenção de aprender coreano para que pudesse entender as novelas daqui. O professor olhou para ela com aquela cara de "tem louco pra tudo no mundo...".

Existe ainda um canal coreano só em inglês, o Arirang. Esse é pra mim o canal mais interessante, não só por que eu entendo, mas pela proposta do canal: mostrar a vida coreana na chamada "língua mundial". Mostram de tudo: esportes, notícias, programas de auditório, aulas de coreano, curiosidades, etc. (Fico me perguntando se tal iniciativa faria sucesso no Brasil - as comunidades estrangeiras que aí habitam iam gostar, com certeza.) O Arirang passa um programa de esportes em que já vi até os gols do meu Fluminense querido - quando nos EUA eu cheguei a ver na TV esse fato??? Nunca! Eles também têm um convênio com a BBC e com o Deutsche Welle, então um pedacinho da visão européia da vida contrabalanceia o "brainwash" do AFN. Good deal.

Minha reclamação desse pacote de cabo fica pela ausência de um bom canal de desenhos animados. Sou uma viciada em desenhos. No Brasil, a TV da casa onde morava, se eu estava em casa, estava ligada no Cartoon Network, eu devorando o Laboratório do Dexter, as meninas Super-Poderosas, Johnny Bravo, e todos os demais feitos pelo Tartakovski. Em Boston, minha maior alegria foi quando conseguimos enxergar na velha TV o Nickelodeon, e eu pude passar a tomar meu café-da-manhã assistindo ao Pinky & Cérebro: que inspiração para quem ao desligar a TV ia viver a realidade de um laboratório com camundongos transgênicos! Fora os clássicos Tom & Jerry, Popeye, Corrida Maluca... Enfim, sou louca por desenho animado, e aqui, o único que eu semi-vejo é o Bob Esponja (que também adoro!) - semi-vejo porque é dublado em coreano.

Mas foi neste fim-de-semana de overdose de TV que eu percebi algo: em matéria de interesse pessoal, aqui na Coréia, nenhum canal me é mais querido que o National Geographic. Aliás, no Brasil, eu já era uma piolha de Discovery Channel. Nos EUA, a PBS até me conquistou, mas eu sempre fiel, terminava assistindo aos documentários instigantes que só a National Geographic sabe produzir. Na sexta, vi um documentário sobre um vulcanólogo francês que estava estudando o Nyiragongo, ativo na República do Congo. Aquilo é amor à pesquisa: o cara foi coletar amostra de lava a 1,000 graus dentro da cratera em erupção! E falando assim: "I think I can get a little bit closer..." Mais perto e o cara morre! Assisti àquilo como se fosse a um filme, tamanha a tensão que aquela saída de campo me trouxe. (Só por curiosidade, o Nyiragongo afeta a menos de 50 km a cidade de Goma, com 500,000 habitantes, cujo deslocamento é/foi uma complicação política daquelas.)

E aí vieram os documentários de vida selvagem. Ah! Como eu os adoro! Fazem-me sonhar com a próxima viagem, com os bichos e plantas que ainda quero ver, com a causa ambientalista, com tudo que há de bom e melhor no mundo. Vimos documentários sobre focas e pinguins da Antárctica, jacarés africanos, tubarões pelo mundo, morcegos, peixes camuflados... enfim, uma infinidade zoológica, exemplo digno do que é a tal diversidade da vida que Darwin falava. Ou a explicação de porque a vida é realmente MARAVILHOSA...

Tudo de bom sempre.

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sábado, março 26, 2005

Fotos atrasadas

Tem 3 fotos que estou querendo postar há alguns dias. Hoje vai.

1) Antes que o inverno acabe de vez, eu, que detesto neve e coisas geladas, aproveitei o único momento de neve intensa ao qual fui exposta nesse inverno, rolando literalmente na dita cuja. Momento de insanidade...

yeongpyong ski resort

2) No post sobre leis havaianos, eu mencionei a casinha que construímos durante as aulas de havaiano, e achei essa foto da casinha (antes de ser destruída pela enchente, é claro.). Eis a nossa simples e inesquecível obra de arte havaiana.

Casinha do havaiano

3) Finalmente, o meu gato, ou o gato e a mala, ou o gato da Malla, ou o gato com a mala, ou o gato-mala, ou o gato viajante, ou o gato que quer viajar, ou o gato que é a cara da dona (um Malla!), ou... ou...

catupiry na mala

Aos poucos, saindo da dormência mental...


Tudo de bom sempre.

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quinta-feira, março 24, 2005

Duvidas viajantes do dia

Não gostei do que escrevi antes, e deletei. Se você leu, ok. Se não leu, não perdeu nada.

Viajei na maionese feio. Prefiro dar pequenas notícias agora.

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Estou extremamente confusa com a história da expedição dos "10 anos do Brasil no Everest". Embora esteja sendo noticiada na imprensa brasileira (o Terra está dando apoio, e montou um site com os relatos da viagem), ainda não está listado no EverestNews, e isso me é muito estranho. Em geral, o pessoal do EverestNews sabe de TODAS as expedições. Por que o Brasil não está listado? Waldemar Niclevicz e Irivan Gustavo Burda estão mais que empolgados para essa aventura - essa é a sensação que o site do Waldemar passa. Então o que houve?

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Recebi um cartão postal muito significativo, de um amigo que vi pela última vez em 1997 em Frankfurt-am-Main, e que desapareceu desde então. Achava que nunca mais teria contato com ele na vida, e de repente, surge o cartão. Acho legal quando a gente recupera contatos antigos. Eu abro muitos sorrisos. Amigos, sempre amigos.

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Ando muito reflexiva, talvez em parte por causa dos conflitos na região asiática, ou talvez porque esteja trabalhando muito, e o pouco tempo que sobra eu gasto em frente a TV - o que significa para mim pensar na vida, ou deixar a informação entrar meio que como osmose. Li o post do Inagaky sobre ser escritor, e decididamente, me animou a escrever mais e melhor. Principalmente porque não sei escrever, e preciso treinar. Começar um projeto de escrita mais convincente. E tentar ser mais clara ao escrever. Concisão, acima de tudo. Será que consigo sem ser científica demais, ou apaixonada demais?

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Eu entendo perfeitamente que devemos ser tolerantes com diferentes religiões, com costumes e tradições, mas definitivamente, trabalhar o dia inteiro com gente que não toma banho (ou com banho mal-tomado), tem me tirado do sério! Não tenho conseguido ficar muito tempo direto na bancada, porque aquele cheiro de suor me irrita no mais fundo do meu ser. Os rapazes em questão são indianos, e de acordo com seus preceitos religiosos, não podem passar álcool no corpo - então nada de desodorante ou perfume. Serei eu uma "dondoca" que trabalha o dia inteiro numa bancada pra ganhar o pão de cada dia? Ou terei apenas um olfato sensível demais?

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Aqui na Coréia do Sul não tem feriado de Semana Santa, muito menos Páscoa. Nada de ovos de chocolate. Embora os coreanos sejam muito cristãos. Difícil entender, mas verdade.

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"I feel so alive...(...)/ And I think I can fly!" é o que está tocando aqui, do P.O.D. Eu gosto, parece que estou indo saltar de pára-quedas. Saltar para a vida, e aproveitá-la ao máximo: esse é o lema.

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Ando com vontade alucinada de comer coxinha de frango com catupiry e pastel de pizza da feira da Mourato Coelho, em São Paulo. Uma viagem culinária.

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Por enquanto, blog em estado de dormência mental. Daqui a uns dias, acordo mais inspirada/criativa/animada.

Refletir e questionar sempre, escrever... quando a vontade permite.

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Tudo de bom sempre, como diz o Hermeto Pascoal, o bom velhinho que eu quero abraçar um dia na vida.

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terça-feira, março 22, 2005

Disputa no dia da agua: Ilhas Spratly

Nos últimos dias, a questão da disputa pela ilha de Dokdo entre Japão e Coréia do Sul tem atraído muita atenção, não só da mídia asiática, como internacional - vide reportagem no NYTimes de hoje.

E eu recebi um adendo muito interessante em meu scrapbook do Orkut, do Ho, um coreano-brasileiro muito simpático. Ele diz:

"(...) Só queria completar que a disputa pela ilha, além de ser uma questão de soberania e orgulho, a ilha tanto historicamente, oficialmente e documentalmente sempre foi da Coréia. O Japão começou a reivindicar a partir de anos 70 após avaliar que a ilha era ponto estratégico e que os recursos marinhos eram valiosos. Hoje perceberam os recursos de energia na região da ilha (Hydrate gas) que eh considerado como energia do séc XXI e essa reivindicação está deixando tenso o clima entre os dois paises.
Essa reivindicação significa para coreanos que o Japão, além do período de dominação e sofrimento da Coréia, continua sendo um país imperialista, sem se arrepender do passado. Não é questão da decisão da prefeitura de Shimane* e dos extrema direita, mas o Governo Japonês tbém demonstra interesse (já que o Governo Japonês diz "não podemos fazer nada com a decisão da prefeitura de Shimane" em proclamar como dia de Takeshima) e com alteração da história dizendo que "a ilha é japonesa e os coreanos invadiram" nos livros primários."


(*Shimane é a cidade japonesa que decretou o dia de Takeshima, irritando os coreanos.)

Excelente adendo a tudo o que eu havia tentado explicar nesses dois posts, principalmente acrescentando o recurso natural lá existente, informação que eu desconhecia.

Na avaliação do NYTimes, hoje, um analista político da Seoul National University diz uma frase que para mim, sintetiza bastante a dimensão do que estamos vivendo na Ásia:

"If South Korean-Japan relations become twisted, the result will be that South Korea and North Korea will become united against Japan. And as China and Korea share the same historical perspective toward Japan, the unintended consequence will bring China and the Korean peninsula against Japan." (Park Cheol Hee)

O resultado, todos podemos imaginar. Além disso, cabe ressaltar que o Japão também entrebate-se diplomaticamente com a China por outras ilhas minúsculas no mar do Japão, ilhas estas que possuem petróleo. Aí, diante dessa confusão insular toda - em pleno dia da água, aliás -, André (amante de geografia) me informa que existe uma confusão muito maior em torno das Ilhas Spratly. "Ahn? Como é que é? Onde fica isso?"

Lá vou eu pesquisar - eu não posso ver algo de geografia que eu não faço a menor idéia que o bichinho do Google me morde... E a história toda resumida é a seguinte: as Ilhas Spratly não têm dono no mundo. Estão no sul do mar da China, mas ficam num limbo geográfico, pois não estão no nosso super-Atlas devido à uma certa equidistância entre os países envolvidos na disputa - e são 6: Vietnam, Filipinas, Brunei, China, Taiwan (que a China desconsidera como país) e Malásia.

Ilhas Spratly
Foto retirada deste site. Mapa do mar da China, com um pouco da confusão geográfica, política e histórica da disputa pelas Spratly.

As Ilhas Spratly, assim como Dokdo e demais ilhotas em disputa, estão nessa situação por terem naturalmente recursos que interessam às nações citadas, além de posicionamento estratégico. No caso de Spratly, petróleo e recursos pesqueiros infindáveis: estão na borda do centro de biodiversidade marinha mundial, ou seja a área mais produtiva biologicamente falando, e na borda do Anel de Fogo do Pacífico. Obviamente, essas ilhas já sofrem pesca predatória desses mesmos países que a disputam, mas a tensão está lá, rondando como mosca de padaria. A China é a potência mais poderosa nessa situação e reivindica Spratly por dizer que "historicamente" é dela (o Vietnam reivindica pelo mesmo motivo). Entretanto, para complicar mais a história, existe uma regrinha designada pelas Nações Unidas chamada de "Princípio da proximidade" que diz que o país mais próximo pode clamar para si - nesse caso, as Filipinas.

(Parênteses: não nos esqueçamos das Ilhas Falkland/Malvinas: se esse princípio fosse realmente válido, pertenceriam naturalmente aos nossos hermanos.)

Enfim, esse barril de pólvora chamado Ásia uma hora explode. Enquanto isso, a gente tenta achar informações que nos mostrem uma forma qualquer de visitar esses locais de natureza pristina e tubarões maravilhosos para mergulhar. Será que vai ser possível num futuro próximo mochilar até Layang Layang?

Vou consultar minha bola de cristal e depois conto pra vocês.

Tudo de bom sempre.

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segunda-feira, março 21, 2005

Mosquito para prefeito

Está rolando na blogosfera uma discussão sobre voto nulo. As discussões estão centralizadas no blog do Idelber, mas alguns outros blogs já manifestaram também sua opinião. E eu, como sempre atrasada, vou dar meu pitaco somente agora.

Da minha parte, pouco posso dizer. Já não voto há muito tempo - não por protesto, mas simplesmente por nunca estar no meu domicílio eleitoral quando uma eleição se realiza. E nunca tive também saco pra trocar de domicílio, o que em parte é falha minha. Mas apresento-me sempre que vou na minha cidade para a já tradicional justificativa.

(Parênteses: Alguns diriam que, porque me ausento nas eleições, não posso fazer crítica alguma ao governo, não tenho esse direito. Será mesmo? Nos outros quase 200 países em que o voto não é obrigatório as pessoas não pensam bem assim... Voto obrigatório é minoria no mundo, vale lembrar, e eu sou totalmente favorável ao fim desse dever que contribui para a eleição dos mesmos coronéis de sempre. Fim do parênteses.)

O fato foi em Vila Velha, Espírito Santo, meu domicílio eleitoral. Quando? Na minha transição entre criança e aborrescente. Presenciei o que para mim foi o fato mais ilustrativo do que o voto nulo pode gerar. Aí vai minha história. (Tentarei narrar sem muitos julgamentos, pois sinceramente não tenho opinião formada a respeito.)

Era 1988. O prefeito de Vila Velha com mandato para terminar em 1989 havia morrido. O vice-prefeito, por razões jurídicas (não me lembro direito a história), não podia assumir - algum entrave surreal do sistema. Assumiria então o presidente da Câmara de Vereadores. Entretanto, essa figura estava em processo de cassação. O município estava literalmente sem prefeito, e então foram convocadas imediatamente eleições-tampão para a vaga. Os candidatos tiveram pouco tempo para campanha.

Na época, a cidade passava por um problema muito sério de mosquitos. Tinha mosquito pra todo lado, em todos os bairros, e quando chegava de tardinha, não dava nem pra sair de casa direito, porque a nuvem de insetos tomava conta. Algo como uma versão entomológica de "Os pássaros" de Hitchcock. Não tinha mosquiteiro, detefon ou paciência que desse jeito. Lembro-me de ter as paredes brancas do quarto todas manchadas de sangue das chineladas, mãozadas e fronhadas dadas na parede para matar os bichos. Esse problema, obviamente, não havia surgido de uma hora pra outra, e há muito a população já reclamava de toda forma. (Pra quem nunca foi a Vila Velha, a cidade tem um valão cortando no meio, onde o esgoto da cidade é despejado. Antes, esse valão era a céu aberto, hoje é fechado em parte por galerias. Um nojo fedido agora escondido.) Enfim, o saco encheu coincidentemente na mesma época que o prefeito morreu. E aí, alguém teve a magnânima idéia de votar no mosquito para prefeito da cidade, como forma de protesto. A idéia foi muito bem aceita por toda a população, de todas as classes - o mosquito era um problema geral, nos bairros pobres e nos bairros chiques, passando por todas as nuances da classe média. Só se falava no mosquito, e os políticos sempre meio descrentes de que aquela mobilização era real.

Dia de eleição. Todo mundo vota, e começam as apurações... Só dava mosquito. O danado do inseto teve mais de 80% dos votos! Ou seja, na prática, a maioria dos votos foram anulados. Mas a eleição não podia ser anulada, por toda a peculiariadade da situação. De qualquer forma, a população mostrou abertamente a indignação pelo problema mal-resolvido da cidade.

Com mais de 50% dos votos válidos (que eram os 20% restantes), foi eleito o prefeito Magno Pires, do PT - que aliás fez uma das piores administrações que o município já teve. Entretanto, a primeira providência do prefeito foi passar o fumacê geral pela cidade, para pelo menos aliviar e mostrar que entendeu muito bem o recado que o povo deu. E permitir uma boa noite de sono para os vilavelhenses.

Tudo de bom sempre pra Vila Velha, essa cidade tão bizarra.

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sábado, março 19, 2005

Aceitar um fato

O Fernando escreveu um texto entitulado "Devolution", eu venho discutindo isso com amigos de faculdade via fórum de emails já há muitos meses, discuto em casa com meu namorado constantemente sobre o assunto, e hoje foi a gota d'água quando eu li essa reportagem do New York Times. A invasão de alienação chegou até nos deliciosos cinemas 180 graus!

Ando muito mal-humorada com várias coisas no macroambiente: política americana impositória ao lidar com a Coréia do Norte (Dona Arroz só abre a boca pra falar besteira, como fez ontem em sua visita ao Japão); o aval do governo Bush para perfuração em busca de petróleo numa reserva ecológica do Alaska de natureza única - tudo para manter o consumismo exagerado do american way of life; e a notícia de que mesmo se parássemos AGORA de consumir combustíveis fósseis, os efeitos desse abuso poluído pros próximos séculos serão sentidos - ou seja, entramos num nível de comprometimento do clima mundial que só mesmo um desneuronizado não entenderia como real. (Tá lá na Nature dessa semana, pesquisa séria de renome, feita com a mais clara metodologia científica popperiana, hipótese testável e passível de discussão sensata com argumentos embasados.)

Isso tudo já me deixou irritada. Agora, pra mim, bióloga de carteirinha e coração, o pior de tudo é deixar esse povo que mora em Jesusland querer mandar no ensino de Evolução. Não há nada pior do que interferir a ciência com religião, duas temáticas distintas em sua base de construção do raciocínio. Como bem disse o Fernando, por que o "Design Inteligente" nunca leva em consideração a "inteligência" de Maomé, Buda, ou que seja a galinha dos ovos azuis com bolinha laranja que sustenta o Universo? Por que sempre a "inteligência suprema" - agora permeada de falácias e sofismas filósofico-científicos - é esse ente supranatural cristão? Por que eles conseguem publicar mentiras e os bons cientistas, com sua cautela sublime, não conseguem replicar à altura, de forma que de vez em quando esse embate desnecessário volta à arena irritando meus neurônios? E em que universidade se graduaram esses cientistas que não se lembram de como um olho foi formado, esquecem da diferença evolutiva entre estrutura análoga e homóloga, jogam fora todo e qualquer estudo de replicação de DNA, para defender uma idéia sem pé nem cabeça que é sustentada pela presença de uma entidade antropomórfica? Qual o problema filosófico-existencial de não sermos os reis todo-poderosos no lugar em que vivemos?

E quando é que as pessoas entenderão que evolução não é teoria: é FATO. Darwin apenas lançou uma teoria que explicasse o FATO da evolução!

Um copo de água com açúcar, por favor, que eu estou muito irritada, e esse não é o meu normal. Desculpa o desabafo, mas alienação e desrespeito ao método da ciência me tiram do sério.

P.S. Eu havia me auto-prometido não escrever sobre esse assunto. Mudei de idéia e desopilei meu fígado, pelo menos um pouco. Foi bom.

SépiaPuffer, Papua Nova Guiné
Olho: a estrutura anatômica que mais grita aos ouvidos de um biólogo: eu sou fruto de um processo evolutivo! Esses olhos aí pertencem a uma sépia e a um peixe. Não são lindos?

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quinta-feira, março 17, 2005

Tensoes na Asia

Existem 3 tensões políticas acontecendo nesse momento aqui na Ásia, que recentemente foram manchetes de jornal:

1) A China aprovou a lei Anti-secessão, que dá direito, num modo curto e grosso de dizer, a tomar a ilha de Taiwan de volta para si. A existência de Taiwan como um país "independente" é um desses limbos políticos que ocorrem. Numa comparação não muito boa, é algo como se o Rio Grande do Sul tivesse decidido virar um país separado, e o governo brasileiro tivesse "deixado" por um prazo de x anos, como "teste". Foi isso mais ou menos que aconteceu, e agora a China aprovou a não-aceitação de Taiwan como estado independente. Primeiro detalhe: para retomar Taiwan, eles podem ATÉ usar meios não-pacíficos - entenda-se, uma pequena guerra pode ser travada na ilha. Segundo detalhe: o país que mais suporta Taiwan independente é os EUA. Nesse momento, os EUA tem cerca de 30,000 soldados estacionados na península coreana, mais um monte no Iraque e no Afeganistão - ou seja, um exército desgastado, que pouco poderá fazer por Taiwan. Pensando em estratégica também, os EUA não querem um confronto com a China. Ninguém quer brigar com um exército de mais de um milhão.

2) A Coréia do Norte agora quer fazer suas próprias regras na conversa com os outros países vizinhos sobre suas armas nucleares. Foi só Sra. Rice há algumas semanas abrir a boca comentando mais uma vez que a ditadura do Seu Kim do Norte não seria mais suportada pelo "democrático" estado americano, que o governante do Norte se revoltou. Bom, até agora ele não fez muito. Mais uma vez, talvez os 30,000 soldados americanos que aqui residem façam o Seu Kim do Norte pensar duas vezes antes de qualquer ação, ou talvez não. Mas vale lembrar que Seul tem cerca 10 milhões de habitantes e está a um pequeno míssel de distância de Pyongyang.

3) Recentemente, nos jornais coreanos, a notícia que mais tem chamado a atenção diz respeito à pequena ilha de Dokdo. Eu já expliquei a situação política daquele monte de pedras antes (e já estive lá). A ilha está mais próxima geograficamente do Japão que da Coréia do Sul, mas é território coreano, assim como Ulleung-do, um local lindo e com mais recursos e potencial turístico enorme. Pois bem, o Japão recentemente decretou um feriado, o "Dia de Takeshima" (Takeshima é o nome japonês para Dokdo), e os jornais aqui têm mostrado que nos livros didáticos japoneses, eles já mostram a ilha de Dokdo como um território japonês. Isso mexe com os brios da soberania coreana, e a situação tem estado tensa com os japoneses nesses dias. Algo talvez como se a Inglaterra quisesse o atol das Rocas para si, a grosso modo. Um punhado de pedras no meio do mar que pode detonar um pequeno conflito. Inacreditável, mas "welcome to the real world, Lucia".

É aguardar os acontecimentos políticos se desenrolarem.

Tudo de bom sempre.

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terça-feira, março 15, 2005

O processo de metamorfose de Praga

Hoje, 15 de março, começam as discussões no Clube de Leituras do blog LLL, via fórum. É o segundo round - no primeiro o russo Dostoiévsky reinou absoluto - e dessa vez, os livros de discussão foram "O Processo" e "A Metamorfose", ambos de Franz Kafka, autor tcheco.

Eu tenho poucas coisas a dizer sobre Kafka em si: quando estive em Praga visitei a casa-museu em que ele viveu por um período de sua vida neurótica; e quem esteve lá, na casa azul de número 22 do Beco do Ouro, consegue talvez entender um pouco a razão de toda a angústia que ele passa nesses dois romances. Sua casa era um cubículo onde uma pessoa de estatura mediana não consegue ficar em pé - o pé-direito é extremamente baixo. Dentro de casa, o mínimo para sobrevivência, mas com sinceridade, estive poucas vezes em ambiente mais claustrofóbico que aquele. Talvez uma solitária de prisão de segurança máxima de filmes seja o mais próximo daquele quartinho. Não consegui permanecer por mais de 1 minuto no lugar, me senti nervosa, sufocada.

E se uma pessoa sobrevivia ali (recuso-me a dizer vivia, ele apenas sobrevivia), realmente, ele deveria se sentir uma barata como o personagem de "A metamorfose". Kafka, o neurótico barata. Freud explicaria, com certeza (ou tentaria, pelo menos).

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Poucos livros de ficção me impressionaram tanto quanto "O Processo". Li em 1993, numa edição do Círculo do Livro que existia na biblioteca da faculdade. Não o reli para essa análise, portanto consolido nessas linhas o que ficou em meus neurônios depois de tanto tempo. O que posso dizer é que toda a história de Joseph K., e a angústia que ele sofre, sem ao menos saber do que está sendo acusado... aquela situação indescritível de impotência perante a lei, a justiça e principalmente a consciência. Por mais que vasculhasse, K. não encontra e não encontrou o motivo de sua culpa. E só a angústia da procura já me deixaram louca por uns bons momentos degustando o livro. A maneira como Kafka carrega a história pra um desfecho (?), sua aparente inocência de palavras e principalmente, as cenas em que Joseph K. está correndo pelas ruas (será de Praga? Não lembro) fugindo... de quê? De quem? Da angústia de não saber. E vale aquela afirmação: mais vale uma verdade dolorosa do que uma mentira bem-feita. Será mesmo? Kafka explora isso, de forma genial, sublime.

Semi-decepcionei-me com "A metamorfose", que li uns 6 meses depois de "O Processo". Como essa é sem dúvida a metáfora mais conhecida de Kafka (o homem que se transforma em barata da noite pro dia), li o livro na esperança de uma grandiosidade hollywoodiana inexistente. (Como eu sou ingênua pra leitura às vezes...) Não veio, é claro. Apenas a mesma angústia, dessa vez nojentamente maior porque envolvia esse inseto horrendo ao qual eu tenho pânico. Confesso que à época cheguei a ter pesadelo com uma mistura de metamorfose com o filme "A mosca": sonhei que tinha dado à luz a uma larva e que ela corria atrás de mim como barata. Argh só de lembrar!

E talvez o mais angustiante de tudo que Kafka mostra nos dois livros é a irreversibilidade da situação, é a nossa impotência como leitor que torce pro momento em que o personagem vai se beliscar e ver que está sonhando - não, esse momento nunca chega. E pra falar a verdade, o personagem principal em ambos os livros é meramente ilustrativo. Não interessa nome, idade, nada. O que interessa é o fato, a angústia, a alucinação real com que aquela mente se confronta. O que interessa é sua fraqueza intrínseca como ser humano.

Acho que, de certa forma viajante transcendental, Kafka deve ter sido, sem saber, o primeiro paciente de Freud.

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Prague viewPrague proveta de cerveja
Vista da cidade de Praga hoje, e o bar que eu mais curti ir na Europa (por razões óbvias): onde mais no planeta você pode escolher no menu não só a bebida como a vidraria de laboratório em que vai querer tomar sua bebida? Esse é o mote do bar de estudantes "Alchemy", um lugar escondidésimo na periferia de Praga. Na foto, eu e minha proveta de 1L de cerveja de cereja.

Praga é uma cidade que não merece o nome que tem - pelo menos em português. Já foi Cortina de Ferro, e das pesadas. A herança comunista ainda está lá, agora apenas dando charme ao local. De qualquer forma, Praga literal só se for de cultura hoje em dia.

Tive a imensa sorte de conhecer previamente a Zuzka, uma amiga tcheca que me acomodou nos dormitórios da universidade e me ciceroneou pela Praga turística e pela Praga dos tchecos, durante minha estadia por lá em 1997. A visita foi a mais inusitada de toda a Europa, pois vivi Praga como um morador da região - uma estudante, pra ser mais sincera. Como turista-chavão, andei pelas ruas da Cidade Velha, visitei o Castelo de Praga, admirei o Museu Nacional, botei um pé em cada lado do meridiano que corta a cidade na praça central, vi o Relógio Astronômico maravilhoso mostrando rotação da lua, estrelas e afins, cruzei a Ponte Charles e seus mil e um artistas de rua, e principalmente, aprendi a falar a famosa frase sem vogais que só em tcheco existe:

Strc prst skrz krk. ("Ponha seu dedo na garganta" - é o significado. No primeiro C tem um circunflexo invertido, que o meu teclado romano-coreano me permite esquecer.)

Como "tcheca do Paraguai", fomos numa casa de chá numa ruela que jamais lembrarei como chegar de novo, onde era necessário uma senha em tcheco para entrar - nesse lugar, minha amiga me recomendou não abrir a boca em momento algum, pois se eles percebessem que uma estrangeira estava ali, poderiam nos expulsar. O local era um antigo reduto de reuniões da esquerda contrária à opressão do regime comunista, e como havia pouco tempo o regime tinha se esfacelado, muitas pessoas continuaram se reunindo da mesma forma, com senha pra entrar, e o lugar virou algo meio mitológico entre a juventude praguense. Fotos desse lugar nem pensar - pra que fotos quando a memória pode ser nossa melhor máquina em alguns momentos? Praga era então pra mim essa transição de socialismo para um regime novo, essa juventude esperançosa de mudança. Praga, para as pessoas que frequentavam aquela casa de chá, era uma metamorfose não-kafkaniana, nada angustiante.

Prague zuzkaYellow submarine
Na Ponte Charles com Zuzka, e o fatídico e surreal submarino amarelo navegando no Rio Vltava.

E eu tinha lido em algum guia que existia um "John Lennon Wall" que era um local de protesto ainda sob a égide do comunismo: o muro era branco e alguém pichou o rosto de John Lennon como ícone do "sonho eterno da mudança". Obviamente, a polícia apagou a pintura, mas algum revoltado voltou e pintou de novo. Sucessivas vezes a mesma ladainha aconteceu, até que após a queda do regime socialista, pintaram o rosto de John Lennon e deixaram de vez. Hoje é ponto turístico. Não é nada de mais, apenas um escondido muro pichado, mas com uma simbologia interessante. Eu encafifei que tinha que ir ver esse muro, e a Zuzka, com relutância, aceitou. Ok, qual a surpresa? Após ver o muro, tirar fotos, etc. fomos andar na beira do Rio Vltava (ou Moldávia, em português) para cortar caminho pra um outro lugar turístico, e no rio tinha um submarino amarelo servindo como propaganda para uma festa que ia haver na cidade. Um submarino amarelo perto do muro John Lennon: quer coincidência mais conveniente para uma razoável fã dos Beatles? Surrealidades da caminhada.

Deixei Praga com a estranha sensação de que lá tinha vivido um tempo - e eu só ficara 3 dias! Mas foram dias intensos, acompanhada de uma guia local supimpa. Pude retribuir a gentileza de Zuzka quando ela e o namorado foram ao Brasil mochilar. Alojei-os em minha casa em São Paulo e fiz a mesma coisa com ela: levei-a para a São Paulo dos brasileiros, aquela fora da rota do Frommer's, a desconhecida pelos gringos e cheia de vida enraizada tupiniquim.

E São Paulo pôde se metamorfosear em Praga por alguns dias.

Tudo de bom sempre.

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sábado, março 12, 2005

Ilhas Marshall - o pais detonado pela bomba

Há uns dias atrás, eu recebi por email um texto retirado desse site, contando sobre a política que o governo dos EUA aplicaram nas Ilhas Marshall, um grupo de atóis minúsculos (atol = topo de uma cadeia vulcânica submersa no oceano) no meio do Pacífico. Difícil imaginar que no meio de um “paraíso tropical” daqueles tantos problemas brotaram dessa forma.

RongelapCasas em Majuro
Vista aérea de parte do atol de Rongelap, onde as cinzas da bomba atômica caíram. Ao lado, habitação típica das enormes famílias de Majuro: containers.

As Ilhas Marshall são um país desconhecido para a maioria dos mortais do planeta. Em plena zona equatorial, a altitude máxima do conjunto de atóis é de 3 metros – isso mesmo, 3 metros. Será o primeiro país a desaparecer caso as previsões de degelo das calotas polares se tornem reais – e já estão se tornando. Em um espaço de 70 km quadrados, espremem-se 60,000 pessoas, sendo que a maioria delas no atol-capital, Majuro. O país é dotado de praias de areia branca e recifes de corais de biodiversidade estonteante, ilhotas remotas e coqueiros mil, em plena Micronésia, características que transformariam o país num excelente destino turístico de milionários, como é Fiji, o Taiti ou as Maldivas. Mas não é bem assim, graças ao tio Sam. Eu explico.

Na década de 50, em plena guerra fria, os EUA projetavam suas bombas atômicas contra os comunistas da vez. Para testar a eficiência de tal armamento, “decidiram” (entenda-se como quiser a forma como essa decisão foi feita) realizar os testes no atol de Bikini – esse mesmo que deu nome à peça mais aclamada do vestuário das brasileiras. Bikini fica ao norte do país, e sua população lá vivia tranquilamente, em situação de subsistência. Pescavam em quantidades normais sem destruição do ambiente. Os americanos por razões estratégicas ("defenderem as ilhas Marshall contra os japoneses invasores") fizeram uma base militar no atol de Kwajalein, maior atol do país. E de lá começaram a arquitetar os testes em Bikini, um lugar remoto dos demais lugares do planeta, onde provavelmente ninguém reclamaria de tal evento bombástico.

(Parênteses: o atol de Kwajalein é todo ele uma base americana. Ainda hoje, testes de escudos antimísseis são realizados em "Kwaji" - como é carinhosamente chamado pelos militares de plantão. Lá, americanos vivem como em uma cidade nos EUA, com todo o conforto possível. Os marshalheses que lá viviam anteriormente foram praticamente expulsos, e hoje habitam um atol minúsculo vizinho, onde se amontoam em casebres menores ainda, sem perspectiva de vida, e trabalham em sua maioria, na base, como subempregados dos americanos. Fim do parênteses.)

2 bombas atômicas foram detonadas em Bikini na década de 50. Em uma delas, devido aos ventos reinantes no momento da explosão, as cinzas caíram todas sobre o vizinho atol de Rongelap, que por sua vez também teve que ser evacuado a posteriori – a população local foi drasticamente afetada por altos índices de câncer de tiróide, efeito da radiação da bomba. E todas essas pessoas que lá estavam sendo bombardeadas por radiação foram transferidas para o atol-capital, Majuro, onde a maioria se encontra até hoje. De repente, todos tiveram que ir morar em Majuro.

MajuroLixo em Majuro
Vista aérea de um resquício limpo do atol de Majuro, e o lixo que é jogado no lago central do atol, dentro do recife de coral, sem dó nem piedade.

Pois bem, imagine um atol de 30 milhas de extensão e menos de 100 m de largura – uma tripa de país, basicamente. Isso é Majuro. E como bem ressalta o texto do email, lixo é o que se vê por toda parte, fruto da política americana pós-Bikini. Para compensar a realocação das pessoas de um atol para outro, os EUA mandaram (e ainda mandam) substanciais quantias de dinheiro para o povo marshalhês, como forma de “perdão” (?) pelo que foi feito com seus atóis durante os testes atômicos – dinheiro que hoje já se estende à presença de uma base militar, ao uso do atol como depósito, etc. E o povo marshalhês, por sua vez, cheio de dindin no bolso e sem aconselhamento adequado, foi devorado pelo capitalismo selvagem americano: começaram a comprar e consumir de tudo, gerando lixo em quantidades alucinadas. E onde jogar todo esse lixo? Bem, num país minúsculo, sobra pouco espaço – o lago central do atol foi a opção mais lógica. Transformaram uma área de recifes de corais pristinos em lixão. E hoje ainda recebem também lixo urbano americano, devido a um acordo assinado com os EUA, o maior parceiro de “comércio” dos marshalheses. Tudo por dinheiro, já dizia o Sílvio Santos.

Só que a degradação ambiental gerada pela presença em massa do lixo, a desestruturação do seu modo de vida anterior, mais a super-população numa área tão restrita, e a fácil entrada de renda americana (ah! Acrescente a isso também a presença mórmon impedindo uso de métodos contraceptivos para as mulheres), tornaram os marshalheses um povo sem perspectiva, sem visão de futuro, cheio de filhos sem empregos e educação decente. Índices de suicídio que em nada lembram os de um país nos trópicos, dito paradisíaco. Não há recursos de sobrevivência para todos, e a solução rápida é: fazer mais filhos para aumentar a possibilidade de angariar mão-de-obra para mais caça a recursos. Como já me foi dito por uma pesquisadora italiana que lá trabalha, se você der 3 galinhas e um galo para eles, eles terão comida para uma semana. Ninguém vai pensar em a partir dessas galinhas, guardar os ovos para ter mais galinhas no futuro, reproduzi-las, comercializá-las ou coisa que o valha. Vão simplesmente matar e comer. Porque foram acostumados assim, era isso que faziam com os peixes coletados em seus atóis em situação sustentada no passado. E estenderam essa “regrinha de vivência” para a era pós-Bikini, com a população aglomerada em casas de caixote. Estão quase sem esperança de viver e não sabem disso. Mas a que isso nos interessa, não é mesmo? "Apenas" mais uma cultura destruída nesse mundão, nada de mais.

E o que mais impressiona é que a fauna marinha também luta por sua sobrevivência ali, no monte de lixo, mesmo nessas condições, e muitas vezes ainda vence - aos trancos e barrancos.

Garoto marshalhesMarshalhesa
Será que essas crianças sabem do futuro (ou da falta de) que as aguarda?

Esse é um relato de uma experiência americana que não deu muito certo.

Tudo de bom sempre.

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Viajando na maionese...

- De acordo com estudos recentes, os índices de radiação em Rongelap são menores que em Nova Iorque.

- As Ilhas Marshall são o único país do planeta onde o limite de águas internacionais é de apenas 5 milhas. Em geral, até 200 milhas a partir do litoral é considerado território de um país, mas lá o limite é bem menor. Isso permite que embarcações de diversas bandeiras (asiáticas principalmente) pesquem à vontade e depletem na maioria das vezes os recifes de corais da região.

- Um grupo de pesquisadores de diversos países luta pelo estabelecimento de alguns desses atóis como área de proteção ambiental. Correndo contra o relógio para salvar o ecossistema único do lugar, antes que o lixo tome conta de tudo.

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sexta-feira, março 11, 2005

Um diabetico no Everest em 2005?

Meados de março chegando, e para os portadores da febre do Everest (como eu) começa a época de ficar ligado diariamente nos updates e notícias vindas do Nepal - via EverestNews, é claro, o site oficial agregador das expedições. Aos poucos, os grupos de montanhistas que tentarão chegar ao topo vão tomando conta da região. Como todos os anos desde que a escalada se comercializou, muitas bizarrices podem acontecer... Afinal, a festa no acampamento-base não pode parar!

Além dos irmãos americanos que tentarão subir juntos, da expedição de mulheres chinesas, das iranianas que estão tentando pela segunda vez (da primeira vez por razões sócio-políticas foram impedidas de sair do país), da expedição catalã, dos já tradicionais-comerciais como Mountain Madness, e da expedição em prol da cura para o câncer, entre outras mais, meu destaque pessoal vai para a tentativa de Will Cross.

Will Cross é diabético tipo 1 (ou seja, dependente de insulina para sobrevivência) e foi o primeiro diabético a chegar ao Pólo Sul. Bom montanhista, ano passado tentou subir o Everest, mas voltou a menos de 500m do topo, por problemas em seu estoque de oxigênio pessoal, e de uma hemorragia na retina em seu companheiro de escalada. Ou seja, ele praticamente chegou lá já no ano passado! Este ano, tentará mais uma vez, com a diferença de que levará consigo uma bomba de insulina - não confiará apenas nas injeções, visto que se for acometido de qualquer "mal da montanha" na região acima dos 8,000m (conhecida como "Zona da Morte"), ele não pode se dar ao luxo de viajar na maionese e delirar se precisa de insulina ou não. Precisa estar com ela já injetada em sua corrente sangüínea, e pronto. A diabetes não pode em momento algum ser um problema para ele lá em cima, visto que a mais de 8,000m para qualquer ser humano a vida já é bem cheia de problemas e dificuldades.

A ida de um diabético tipo 1 ao topo do mundo só reforça a idéia de que diabetes não é doença: é condição. (Eu já havia dito isso nesse post anterior e volto a reforçar a idéia de que depende de cada um transformar a diabetes em doença.) Sabendo controlá-la direitinho, a vida pode seguir em frente, livre, leve e solta - até a 8,848m de altura, no topo do mundo.

Tudo de bom sempre para os aventureiros deste ano no Everest. E ficarei ligada, torcendo.

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PS: Embora escalada para este ano a comemoração dos 10 anos do Brasil no Everest com a tentativa de Waldemar Niclevicz e Irivan Gustavo Burda, o EverestNews nada noticiou até agora dessa expedição. Será que vai ou não vai? É esperar pra ver.

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quarta-feira, março 09, 2005

Parabens Belita!

Eu ia escrever algo diferente, mas ao ler essa notícia, não pude deixar de me orgulhar: uma cientista brasileira, Belita Koiller, ganhou o prêmio L'Oreal-Unesco dado a mulheres de destaque na ciência mundial. Eu já sabia da existência desse prêmio de outros carnavais, uma excelente iniciativa de uma empresa de cosméticos - melhor que financiar propagandas com modelos esqueléticas que não são a realidade da maioria das pessoas... (Sobre isso, a DaniCast fez um excelente post ontem.) O prêmio L'oreal-Unesco já havia sido recebido por outras 2 brasileiras anteriormente, uma delas a Mayana Zatz, que defendeu com unhas e dentes o uso de células-tronco em pesquisas no Brasil, e há poucos dias atrás, conseguiu aprovação no Congresso. Uma vitória sem precedentes para a pesquisa brasileira. E no Ano Internacional da Física, nada mais legal que presentear físicas de renome...

Belita Koiller, professora da tão "falada falida" UFRJ, física de Matéria Condensada e Nanocondutores, nossa laureada neste ano, se "descondensará" em sorrisos por essa conquista representativa da ciência brasileira. Orgulho nacional.

Parabéns, Belita! Parabéns da mais profunda e diminuta nanopartícula quântica do órgão central do meu aparelho cardiovascular!

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segunda-feira, março 07, 2005

Homens nao fazem Leis

Sou uma apaixonada pela cultura das ilhas do Pacífico. Não conheço muito, e talvez venha daí o meu fascínio, mas o pouco que conheço coletado no meu 1 ano e meio morando no Hawai'i, valeu para aprender muito e me apaixonar de verdade.

Assim que cheguei em Honolulu em maio/2002 e descobri que tinha direito a fazer uma disciplina por semestre na Universidade totalmente de graça, não pensei duas vezes: matriculei-me num curso de língua havaiana. A maioria das pessoas a quem eu comentava isso, perguntavam a mesma coisa: "pra quê? Havaiano é uma língua que ninguém mais no mundo fala, você vai colocar isso no seu currículo? Por que não aproveita a oportunidade e faz aula de uma disciplina da sua área de interesse?" Sou teimosa e sigo minhas paixões. Embora apaixonada por ciência, eu já lidava com aquilo no meu trabalho. Tinha que aproveitar o Hawai'i de outra forma. Eu adoro estudar línguas, a diversidade fonética e sonora dos habitantes desse planetinha azul. Então, foi batata: essa era A oportunidade de aprender uma língua de características tão exóticas.

O havaiano é o menor alfabeto do mundo: tem 13 letras sendo uma delas o 'okina, representado pela apóstrofe, que para nós é apenas uma sinalização qualquer. Pra eles, não, é fonética, e está presente acima de tudo, na palavra Hawai'i - quer melhor aceitação do apóstrofe como letra que essa? Havaiano também é uma língua vocálica: tem encontros vocálicos de deixar qualquer um maluco - um dos bairros da ilha de 'Oahu chama-se Aiea.

Voltando à aula. O semestre começou, e para minha extrema surpresa, a classe em que eu estava matriculada era composta na maioria por estudantes havaianos (kama'ainas), ou seja, poucos americanos do continente efetivamente se interessavam em aprender. Além de mim, uma menina de Boston e outra do Texas. E só. O professor, um surfista renomado que nas horas vagas e sem ondas, fez mestrado em Havaiano. Mas isso não me desanimou, pelo contrário: era a minha oportunidade de ouro de interagir com pessoas que realmente VIVEM o Hawai'i.

Logo percebi que a disciplina era fácil para todos os locais, que obviamente haviam crescido ouvindo havaiano por todos os lados, e eu tive que na verdade estudar bastante para acompanhar o ritmo da turma. Mas muito mais que apenas a língua, o professor estava interessado em reintroduzir um pouco da cultura havaiana do passado na cabeça daquele monte de neo-havaianos. Afinal, o Hawai'i padece da perda de sua cultura para os pseudo-invasores americanos. Perfeito: eu ia aprender cultura havaiana também.

O professor no primeiro dia de aula havia dito que uma vez por semana (a aula era todo dia 7 às 8 da matina) não teríamos aula na sala, e sim num terreno (Lo'i) pertencente ao departamento de Estudos Havaianos onde construiríamos uma casa aos moldes havaianos. Como é que é? Eu fiquei meio cabreira com essa história de construção, mas topei o desafio e não tranquei matrícula. E todas as quartas-feiras, íamos todos pra esse terreno trabalhar na "casinha": fazíamos separação da palha certa, políamos a madeira, assentávamos o terreno, etc. Sem discriminação alguma entre homens e mulheres. Ritmo de aloha e detalhe: utilizando ferramentas antigas havaianas. Nada de polir com lixa comprada no WalMart - o negócio era com pedra de lava mesmo. Eu, brasileiríssima, pensei: a casa só fica pronta daqui a uns 5 anos. E essa foi a primeira lição: todos iam ali determinados a trabalhar e chafurdar na lama para cumprir um objetivo, todos éramos uma família ('ohana) e eu nunca havia presenciado tamanho sentimento de time e união. Primeira lição aprendida: os havaianos são uma imensa família.

Aos poucos, percebíamos que a casinha tomava forma, e o professor já traçava planos do que seria ali, ao lado daquela plantação de inhame (taro, a planta mais tradicional da culinária havaiana) - provavelmente um local para reunião entre os professores aos moldes havaianos tradicionais, todos sentados no chão. E aí a segunda lição veio. Embora até então estivéssemos trabalhando todos juntos, na hora da divisão de trabalho depois da casa pronta, os homens se reuniriam enquanto as mulheres fariam os leis. "Como é que é???" "Sim, homens não fazem leis, é a tradição. Homens não têm mãos delicadas, não sabem colocar a magia das flores de forma harmoniosa."

Hulaholo
Dançarinas de hula se apresentam em um hotel em 'Oahu com seus respectivos leis de dança, e um homem representando o guerreiro havaiano usa seu lei de conchas com o lei de cabelo, típicos de algum ritual específico que eu não sei qual é. (Essa foto foi tirada da Web.)

Leis são aqueles colares de flores que ficaram famosos em cadernos de turismo, símbolos de um paraíso tropical. A idéia é você chega num lugar desses e ganha um colar de flores. Não é bem assim. É realmente muito agradável e bonito receber flores na sua chegada, e as agências de turismo fazem isso para os turistas de pacote, mas a idéia real por trás de cada lei é diferente. Tem o lei da guerra, o lei da mulher grávida, o lei da dança de agradecimento da colheita, o lei do homem forte, o lei de aniversário... e cada ilha havaiana tem também o seu lei específico, feito de flores diferentes. E os cheiros! Cada um mais delicioso que o outro. O lei de flor de gengibre era o meu predileto, branco e o cheiro ficava pela casa por vários dias, aliviando as tensões (?) do ambiente. E como para cada ocasião há um lei específico, as mulheres estavam sempre trabalhando duro, na antiga sociedade havaiana, cuidando da casa e fazendo os leis de todos da família. O lei é peça fundamental para qualquer um interessado em entender a cultura havaiana, e nos dias atuais, para os moradores das ilhas, continua preservado como uma identidade única, uma marca registrada do lugar deles. Exemplo? A foto que tenho no perfil deste blog exibe o lei de orquídeas, típico de turistas - eu tirei essa foto num luau comercial, para gringos. Se você aparece num bar com um lei de aniversário, qualquer havaiano legítimo imediatamente reconhece, e pode até vir a te oferecer um brinde "cortesia da casa". Isso aconteceu comigo, e eu vi acontecendo várias vezes, nos lugares onde somente havaianos vão. O lei é o símbolo máximo de um objetivo conquistado, ou ainda a ser alcançado. É a realização de um sonho, é a concretização do sucesso, é a foma de desejar boa sorte. O lei é aloha. Portanto, muito mais significado existe por trás de cada um daqueles colares de flores do que sonha nossa vã filosofia...

Fiz a disciplina por 1 ano (passei pro nível 2!), e no final desse ano de trabalho às quartas, não é que a casinha estava pronta? De acordo com o professor, graças ao "aloha spirit" da turma. E eu aprendi a lição: mesmo fazendo muito pouco, todos nós somos importantes para o alcance de um objetivo comum. E se cada um faz a sua parte de maneira dedicada e feliz, o objetivo será alcançado. Já sabiam disso os antigos havaianos.

Maika'i mau i po'e. (Vocês podem imaginar o que isso significa...)

HAW101 - KeokiPunalu'u
Minha turma de havaiano, em sala de aula (o professor Keoki de blusa azul na frente), e no terreno da Universidade, onde trabalhávamos na construção da casinha.

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PS.: A casinha, após tanto amor e carinho de construção, foi parcialmente destruída numa enchente enorme no Halloween do ano passado. Não preciso comentar minha tristeza. Mas ao mesmo tempo, sei que novas turmas de Havaiano 101 virão - e poderão desfrutar da mesma experiência maravilhosa que eu tive. Aloha para os novos construtores.

"The flowers may last only a few hours, but the memory of having a lei placed on your shoulders lasts forever." (Marsha Heckman, uma fazedora de leis)


(Dedicado a todas as mulheres que fazem todos os tipos de "leis" diariamente, onde quer que seja no planeta...)

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sábado, março 05, 2005

Brasil: 15 discos

Eu já havia comentado antes o quanto eu adoro detestar listas e rankings, por saber o quão volúveis e passíveis de erros elas são. E essa é a graça profunda da brincadeira, essa discussão infinita onde no fundo ninguém está certo, porque é uma questão de gosto pessoal.

Pois bem, aí vem o Idelber e sugere uma blogada coletiva com a lista dos 15 melhores discos de música brasileira pós-1950 (!) e com direito a prêmio e tudo o mais. Complicou demais para mim. Música é parte integral da minha alma, é algo tão importante quanto o ato de viajar, no meu universo! É pra lá de difícil fazer uma lista SÓ com 15 discos, porque eu sei que vou deixar muito disco que eu adoro de fora. Mas pensando melhor, até que o Idelber foi bonzinho e facilitou a escolha colocando a restrição da música brasileira, porque se fossem discos em geral, aí mesmo que eu estaria lascada. Não ia poder deixar de fora uns 5 discos do Miles Davis, mais uns 3 do Zappa, o meu Stockhausen querido e todos do Jaco Pastorius, do Charlie Parker e do Pat Metheny - até o minimalista "Zero tolerance for silence" entra na minha lista. Música é um assunto complicado.

Enfim, depois de pouco pensar - decidi que ia fazer meu ranking de sopetão, pra evitar divagações que me levariam a aumentar em mais de 1000% o conteúdo da mesma - estou imediatamente postando. Sim, porque se eu deixar até segunda-feira, o mesmo problema acima citado volta: eu vou querer incluir mais uns trocentos discos. E depois da lista pronta, eu cheguei a uma constatação inegável: eu realmente tenho um gosto musical muito estranho.

Aí vão meus 15 discos selecionados como melhores da música brasileira:

1) "Festa dos Deuses" (Hermeto Pascoal e Grupo) - Eu chamo esse disco de "disco-ilha deserta". É aquele que eu levaria comigo pra uma ilha deserta se só pudesse levar um cd nesse delírio. É o melhor disco do planeta, arranjo, composição, músicos, genialidade do Hermeto, o discurso final, a improvisação, tudo, tudo, tudo, tudo!

2) "Água" (Trio Água) - O Trio Água é formado por Chico Saraiva, Edu Ribeiro e José Nigro, e oferece a mais promissora música instrumental da década. O carinho e a delicadeza do encarte, a poesia dos arranjos, a sutileza do Edu Ribeiro na batera... aliás, ele é o maior baterista que surgiu nos últimos tempos no Brasil, e a gente ainda vai ouvir falar muito dele, tenho certeza. O disco todo é superbo, mas em particular eu gosto da música "Ano Novo".

3) "João" (João Gilberto) - Eu sei, ele é o chato do século, mas é um gênio, inovou em tudo na época, e para mim, esse disco é a síntese de uma carreira sólida e criativa. Eu o valorizo demais, e tenho uma verdadeira paixão por esse disco em particular.

4) "O tempo não pára" (Cazuza) - A versão ao vivo é simplesmente perfeita. Todas as músicas são notavelmente cruas, cheias da acidez puntual de Cazuza. Ideologia, eu quero uma pra viver.

5) "O silêncio" (Arnaldo Antunes) - A voz do Arnaldo Antunes é orgasmática. O meu poeta predileto da atual geração, que fez um showzaço desse cd em Ouro Preto, com direito a poema sobre a cidade e tudo o mais, e uma banda mais 10 ainda, com Pedro Ito na batera e Edgar Scandurra em sua guitarra canhota. Minha música favorita nesse disco é "E estamos conversados".

6) "Babel" (Pau-Brasil) - Que projeto musical mais delicioso foi o Pau-Brasil! Rodolfo Stroeter e Marlui Miranda juntaram-se a Teco Cardoso, Lelo e Ze Eduardo Nazario para nos presentear com uma das maiores riquezas musicais do Brasil enraizado, o Brasil esquecido, o Brasil cheio de tons e sons naturais. Emocionante esse disco.

7) "Raio X" (Fernanda Abreu) - Eu adoro a Fernanda Abreu, acho que ela tem toda a vibração do Rio de Janeiro e um swing que ninguém mais tem. Ela é a única que consegue afirmar categoricamente "Sou carioca" e fazer você sentir isso lá no fundo do coração. Nesse disco, parece que ela pôs todo o swing pra fora de uma vez só, e conseguiu homenagear de forma mais calorosa ainda essa cidade maravilhosa, dando de lambuja um dos melhores representantes da música pop de qualidade da minha cdteca.

8) "Quarteto Novo Ao Vivo" (Quarteto Novo) - Essa foi a primeira banda "grande" do Hermeto Pascoal, e é nesse disco que está o meu clássico dos clássicos "O Ovo". O disco foi recentemente relançado, e não dá pra não sentir a genialidade dos músicos. Ali nascia para o mundo o sertão universal de Hermeto Pascoal, o maior nome dos intrumentos de todos os tempos. E ponto final.

9) "Samblues" (Juarez Moreira) - Esse ilustre desconhecido guitarrista juntou grandes instrumentistas do Brasil todo e produziu essa obra-prima cheia de ginga e emoção. Eu ouvi esse disco uma vez, me apaixonei, comprei e nunca mais me separei dele. Essa história de amor já dura 10 anos, e eu tenho minhas dúvidas se um dia acabará. Duvido.

10) "Abrigo" (Marina Lima) - Os amantes de Tom Jobim (eu incluída) que me perdoem, mas a versão de "Samba do Avião" desse disco é a melhor existente. Completamente antenada, esse disco é alegre, cheio de vida, uma Marina recuperada das trevas do ostracismo. Vários arranjos legais, uma voz deliciosa. Nota 10.

11) "Alma" (Egberto Gismonti) - Esse disco é maravilhoso. Não simpatizo com o Egberto Gismonti, suas frescurites no palco são quase sempre irritantes, mas não há como negar que esse disco é um clássico, é todo bom, e de uma sonoridade brasileira de tirar o chapéu. "Palhaço" é a melhor de todas.

12) "Clara Crocodilo" (Arrigo Barnabé) - Como não colocar o cantor do "balcão de fórmica vermelha"? Clara Crocodilo é uma ópera (pós)-moderna, genial. É difícil não comparar o Arrigo com o Zappa de "Uncle Meat" nesse disco. E pra mim, que tive o prazer de participar lá, berrando e delirando no chão do SESC Ipiranga, da regravação ao vivo desse clássico, é impossível não fazê-lo constar entre esses 15.

13) "Moro no Brasil" (Farofa Carioca) - Um frescor de swing novo na área. Foi com essa percepção que eu ouvi pela primeira vez o Farofa Carioca, que imediatamente foi pra minha lista de favoritos, de onde até hoje não saiu. Muitos detestam o Farofa, mas eu achei o trabalho único deles fantástico. Retrataram o Rio de Janeiro como só a mestra Fernanda sabe, sendo que com mais pitadas de humor e sarcasmo.

14) "A Sétima Efervescência" (Júpiter Maçã) - Como deixar de fora meu "ídalo" trash lisérgico total? (Trash lisérgico é uma definição minha, não consta nas enciclopédias musicais.) Não dá, Júpiter Maçã (ou seria Jupiter Apple?) é detentor da vaga de melhor psicodélico do Brasil. "Miss Lexotan", "As Tortas e as Cucas", "The Freaking Alice", "Querida Superhist X Mr. Frog", "Eu e minha ex"... nossa, todas as músicas desse disco são muito trash - e muito legais!! Assisti ao Júpiter Maçã duas vezes ao vivo em Sampa (em uma delas foi no meio dos delírios londrinos dele) e só quem conhece a figura pode entender o quanto ele é uma demonstração da música brasileira que quer ser e não é. Eu adoro o Júpiter Maçã, com toda a sua irreverência.

15) "Carne Crua" (Barão Vermelho) - Esse é um dos melhores discos de rock'n roll do Brasil. Eu não consigo imaginar outro que tenha tido tal impacto no meu ouvido. Seremos macacos de novo.

Tenho ou não tenho um gosto musical pra lá de estranho? Será que tem conserto pra isso?

Tudo de bom sempre pra todos sonoramente ligados.

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sexta-feira, março 04, 2005

Letreiros pela China

Muitos fatos e situações interessantes aconteceram na semana que passei na China, em fevereiro. Viagem deliciosa, aprendi muito. Mas algo que me chamou a atenção, obviamente, foram os letreiros e avisos de alguns lugares em especial... Letreiros já são motivos de risadas e espanto na Coréia, pois o inglês capenga e/ou a estética do mesmo, mostram que os asiáticos realmente têm uma noção diferente do tema. E na China não seria diferente. Selecionei 2 letreiros e 2 avisos de rua hilários pra apreciação de todos, que podem até não ser os melhores, mas são os que me chamaram a atenção de alguma forma. Espero que valha uma risadinha, mesmo que sem graça.

Letreiros:

macau cafebeijing kfc fake

Uma cidade nunca tem cafés suficientes para sua população cafeinômana, por isso em Macau existe mais um café, o Another Café. Como "coffe freak" assumida, eu adorei o nome e o trocadilho: lembrou-me alguns originais nomes de botecos no Brasil. Já em Beijing, essa placa enganadora: a loja é um restaurante de comida chinesa, mas ao olhar rapidamente, não parece o velhinho do KFC? Parece, mas não é. O velhinho chinês engana, mas aproveita-se da semelhança e amealha clientes.

Avisos de rua:

beijing banheiromacau aviso onibus

Tudo bem que a imagem que o mundo tem da China é de um país sujo com pessoas porcas - não é bem assim, mas tudo bem. Mas precisa do governo dar essa bola-dentro? Ter que classificar os banheiros públicos dessa forma... foi muito engraçado quando eu li essa placa na Cidade Proibida, centro de Beijing. Fico imaginando o banheiro 1 estrela... (Reparem que ainda teve um engraçadinho pra colocar mais uma estrela na classificação oficial!) E do lado, um aviso que pode detonar num primeiro momento com a reputação de lugar seguro de Macau: precisa mesmo avisar do perigo dos trombadinhas? Bom, melhor prevenir que remediar, né? Já pensou se a moda pega no Brasil?

Tudo de bom sempre.

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quinta-feira, março 03, 2005

Cidade maravilha mutante

Rio de Janeiro

Não, eu não esqueci. Foi aniversário do Rio de Janeiro, minha cidade natal. Embora com um pé em cada lugar do mundo que visito, foi na Cidade Maravilhosa que minha saga andarilha começou. Não dá para negligenciar a beleza dessa cidade, muito menos seus problemas. A cada vez que eu visito, é uma novidade, um novo ritual fashion, uma nova sacada malandra genial.

Pra mim, é difícil alguém ter mais cara de Rio de Janeiro que a Fernanda Abreu, em sua alcunha: Cidade maravilha mutante. Afinal, "eu quero meu crachá: sou carioca!"

Mudando a mil por hora, mas continuando sempre bela e descontraída.

Eu amo o Rio, cidade-natal que eu tanto renego e reclamo - apontar os podres é uma esperança de que um dia eles se resolvam.

Bateu uma saudade do calçadão de Ipanema! Ah...

Tudo de bom sempre.

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