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sexta-feira, abril 29, 2005

Pequenas anotaçoes de viagens 3

Primeira morte da temporada. Um canadense, problemas respiratórios. Uma sombra negra paira sobre o acampamento-base do Everest. É o risco do esporte, que todos sabem, mas fingem não saber. Pêsames à família do Dr. Sean Egan.

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Enquanto isso, os brasileiros no Everest Waldemar e Irivan vão no ritmo correto: devagar e sempre. Já estão em fase avançada de aclimatação na montanha. Seus nomes devidamente logados no EverestNews, para o mundo saber do feito. Deixei há um bom tempo um recadinho de boa sorte pro Waldemar no site dele - visto que sou uma entusiasta do esporte. E não é que ele respondeu pessoalmente direto do acampamento-base nessa semana? O primeiro email vindo do Nepal e com boas-novas da expedição brasileira! Agora mais do que nunca, aguardando o grande dia da chegada ao topo do mundo. Dá-lhe, Brasilsilsil!!

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Surgiu na rede, novinho em folha, o blog "Diário de um jovem diabético". Começou essa semana, com a descoberta pelo Tiago da sua condição de diabético. Vale a pena ficar de olho na evolução do moço, um patinador capixaba.

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Nessa semana, a capa da Nature é sobre o design inteligente, essa teoria maluca que o Flavio definiu ironicamente em um comentário aqui no blog como "coisa de vendedor de cozinha" - e eu adorei essa definição. O artigo da Nature esclarece a origem do movimento, e um pouco da raiz política, ou de como a política entrou na jogada. Vale como curiosidade.

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Amanhã tem Hi Seoul Festival, um festival de cultura coreana e estrangeira na Coréia. O Brasil vai ter uma barraquinha de quitutes. Vou dar uma passada e ver se eles têm umas coxinhas pra eu matar a saudade...

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Falando em Seul, hoje que me dei conta de que nunca escrevi nada aqui sobre essa cidade única e exclusivamente. Os comentários sobre Seul estão sempre diluídos em meio a outras miudezas cotidianas. Me cobrem isso pra um futuro próximo, por favor.

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Nessa semana, duas das minhas melhores amigas ganharam títulos de Doutoras pela UFMG, ambas no ICB. O mais hilário da história toda é que as duas fazem aniversário no mesmo dia, e agora são doutoras de datas próximas. As duas são igualmente esforçadas, boas biólogas, grandes grandes amigas, e merecem mais que parabéns por passarem por mais essa fase do estudo. Que só quem passa sabe que não é nada fácil. Parabéns do fundo do coração, Dani e Maria! A comemoração já está marcada pra quando eu aparecer no Brasil.

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Por enquanto é só.

Tudo de bom sempre.

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quinta-feira, abril 28, 2005

Pat Metheny continua experimentando

Ando muito atrasada com esse blog (e os dos amigos). No meio dos vários múltiplos afazeres dos últimos dias, terça passada ainda arrumei tempo à noite para ir realizar mais um sonho - pela quarta vez! Fui ver no LG Arts Center, em Seul, o show do Pat Metheny Group, da turnê "The Way Up". Show, aliás, que estava sendo gravado (e nas próximas 4 apresentações durante essa semana) para produção de um DVD. Algo como "Live in Seoul", sei lá.

É impossível para mim não comparar com os shows anteriores que fui dele, em BH, Rio de Janeiro e Boston, de diferentes turnês. Cada um com sua característica peculiar. O show do Rio em 1995, da turnê "We Live Here" tinha Armando Marçal (filho da Portela) na percussão, e na platéia aparentemente toda a sua família, pois não paravam de salvar o grande músico. Esse show do Rio também ficou na memória como o maior caô que consegui dar num show, quando por confusão do segurança do antigo Metropolitan (que achou que eu era fotógrafa oficial da casa por causa da máquina e do bleizer vermelho) assisti ao show com meus amigos na primeira fila, onde só os convidados de honra estavam - inclua aí Sonia Braga e Milton Nascimento, por favor. Embora ainda na era filme, as fotos ficaram quase-perfeitas dada a distância, desnecessário dizer.

No show de Boston, em 2002, da turnê "Speaking of now", foi a vez do próprio Metheny e o Lyle Mays, seu pianista amigo de fé e irmão camarada, sentirem-se em casa, visto que ambos moraram naquela cidade no passado. Embora sem fotos, neste show, a platéia era em boa parte de amigos do próprio Pat, o que colaborou para que ele nos presenteasse com um show longuíssimo, sem fim, onde a platéia de certa forma interagiu mais.

Esse show de terça, em Seul, foi marcado por um experimentalismo inovador - que é o que para mim caracteriza o bom músico, a capacidade de acompanhar a evolução da música geral como um todo e incorporando ao seu estilo original o que há de melhor na inovação, não tentando se adequar a nova música. Se minha opinião antes já era de que o Pat Metheny (e suas guitarras mágicas) era o segundo melhor músico vivo do mundo (o primeiro é o Hermetão, lógico!), agora eu tenho mais que certeza disso.

Ao chegarmos ao LG Arts Center com meia hora de antecedência ao show, ouvimos uma música de fundo que parecia muito a introdução de "Music for 18 musicians", do Steve Reich, aquela música incessantemente monossilábica, que irrita a alma, e cuja magia está exatamente na irritação crescente: a música não parava, e deu 8 horas da noite, e o Pat Metheny entra no palco, começa a tocar sozinho, e a música atrás irritando sem parar, e eu já querendo gritar pra alguém desligar aquele som ("que insensibilidade desse pessoal!"), e o cara lá tocando a guitarra dele, quando de repente, toda a banda entra pela entrada da platéia tocando aquele barulho irritante, o que me fez cair a ficha de que o show havia começado desde o momento em que eu pisei no local, e aí a banda começou a tocar em conjunto, e o show chama-se "The Way Up" porque as músicas não param, são sequenciais, e estão sempre numa harmonia crescente, acordes crescentes, e o disco tem apenas 4 músicas e no show todas ficam interligadas, sem paradas, e o que as interliga é esse som irritante contínuo, que não para em momento algum, vários solos maravilhosos de todos os intrumentos, bateria, baixo, teclados, xilofones, percussão, e a música crescendo acompanhando agora o painel com um céu que nunca chega ao fim, ou a foto de um prédio que nunca termina, ou a foto de uma emersão subaquática que nunca chega na superfície, é claustrofóbico, e a música em si nunca chega a um ponto, um porquê, uma razão, continua o som crescendo, aquela inflexão de ondas que deixa a todos hipnotizados, uma viagem sem fim, estou dentro da toca do coelho da Alice, estou no labirinto do Minotauro, estou presa no epicentro de um furacão, é por isso que chama "The Way up", o tempo todo indo pra cima, a música não para, a música não para, a música não para, a música nunca chega, até a música culminar num clímax que leva àquela música de fundo irritante, que após 68 minutos, finalmente... para. Ufa.

Esse experimentalismo da continuidade foi a primeira vez que vi no trabalho do Pat Metheny. Os fãs de carteirinha vão me dizer que o "Zero Tolerance for Silence" (disco minimalista ao extremo) já era esse tipo de experimentação, ou que a própria música "We Live Here" de 95 era assim, pois havia um momento crescente que de repente acabava como um trovão. Mas eu vou dizer que o que eu ouvi é algo completamente novo. É algo Reichiano, eu diria até que com uma influência direta do "Quarteto de Helicópteros" do Stockhausen. É algo mais, algo de músico que está antenado com os diversos experimentalismos musicais. Algo de gênios. (Apaixonada pela música do Pat? Eu??)

Ao fim dessa primeira parte do show, finalmente ele chega ao microfone para as poucas palavras de sempre - Pat Metheny é um dos tímidos mais chavões do meio musical. Fala da gravação do DVD em Seul, fala da nova banda (com um brasileiro desconhecido na percussão), fala o mínimo de coreano. E começa a parte do show que acho que a maioria ali estava esperando. A hora de ouvir as canções mais famosas, mais batidas. Hora de ouvir o bruxo Lyle Mays e seus dedos-árvores em um piano e 2 teclados conectados a laptops (Macs, claro) promover os momentos emocionantes. Hora de ver Pat detonar uma guitarra quíntupla. Hora de chorar (mais uma vez) ao ouvir "Last train home" - a parte em que os xilofones se concatenam não tem como segurar a emoção.

Porque a boa música também é aquela que te faz chorar de felicidade. E se o céu existe, e se algum dia depois de morrer, a gente vai pra lá, é com "First circle" e "Last train home" que somos recepcionados no portão de entrada.

Tudo de bom sempre. Com música no coração.

pat metheny seoul 2pat metheny seoul 4pat metheny seoul 3pat metheny seoul 1
O sorriso no rosto. A banda de multiinstrumentistas do céu. Momento pesado metal em que até o inter-galáctico Lyle Mays pega na guitarra e manda ver. O show continua, e não pode parar.

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segunda-feira, abril 25, 2005

O Monico de Busan

Como dito no post passado, passamos o fim-de-semana em Busan (ou Pusan, dependendo da vontade do tradutor), cidade de praia na costa leste da Coréia do Sul. Como toda cidade de praia, tem um clima diferente no ar, um ar blasé gostoso e descansado. Viajamos no KTX, o trem-bala coreano, que chega à velocidade assustadora de 300 km/h. Em 2h e meia, cruzamos a Coréia e chegamos ao destino final. Um dia lindo de sol nos aguardava.

seul trem-balatubaroes no mercado de busan
Na estação de Seul, os trens-bala aguardam seus passageiros para a próxima jornada rasgando a Coréia do Sul. Ao lado, tubarões sendo vendidos para consumo humano num mercado de rua em Busan.

Naquele mesmo dia, decidimos subir na Torre de Busan, no topo de um morro, de onde pudemos ter uma vista bonita de toda a cidade. Um jardim lindo na frente da Torre, muito florido. Poucos turistas estrangeiros, mas muitos coreanos. A cidade é destino certo no verão, e com o início da primavera por aqui, não era pra menos que estivesse começando a encher. Além do turismo, Busan também é polo industrial e possui um porto gigantesco, onde boa parte da produção tecnológica coreana é exportada, e os víveres diários de subsistência na península chegam vindos de todos os lugares do planeta. Ao descer da torre, uma passada fundamental pelo mercado de peixes da cidade, o maior da Coréia. Todos os tipos de seres marinhos, vivos, mortos ou secos, à venda, pelas ajumás: peixes, polvos, lulas, conchas, arraias, pepinos-do-mar... enfim, tudo que os coreanos e asiáticos em geral devoram com prazer gastronômico. Vimos também barraquinhas vendendo besouros fritos, cabeças de porco e muitas algas. É, a cultura deles é pra lá de exótica mesmo.

busan aerialbusan polvo
Vista aérea de Busan, uma cidade entrecortada de morros e baías, de uma beleza peculiar. Ao lado, polvos à mostra no mercado de peixes das ruas de Busan.

Estávamos a lazer, com o plano de visitar o Aquário de Busan, famoso por seu tanque principal: 19 tubarões de diferentes espécies e tamanhos, alguns meros enormes, atuns, arraias, uma tartaruga-verde, peixes diversos. E a possibilidade de mergulhar no tanque junto com todos eles, apreciando-os de perto em seu ambiente artificial. O organizador de tal empreitada subaquática é um canadense chamado Michael, com o qual já havíamos mergulhado antes em Jeju, no sul da Coréia. O mergulho no tanque do aquário é interessante do seguinte ponto-de-vista: pessoas sem certificação de mergulho podem fazer o chamado "Discover Scuba", que é uma espécie de batismo que será levado em conta se a pessoa quiser no futuro fazer um curso sério e se certificar como mergulhador autônomo. Acho essa oportunidade única e interessante, principalmente para aqueles indecisos, que não sabem se terão coragem de colocar um tanque nas costas e respirar num ambiente sem gravidade. Principalmente, uma economia se você não tem certeza de que quer ser um mergulhador. Bom, eu já tenho minha carteirinha de mergulho, então sem maiores problemas para cair na água - exceto a temperatura da água, 24 graus. Senti muito frio durante todo o mergulho.

busan aquario e tubaraobusan aquario
Se os tubarões pensassem racionalmente, provavelmente estariam se perguntando o que essas pessoas estranhas de roupas altamente coloridas, soltando bolhas e andando como numa cena de "Matrix" estariam fazendo ali...

Esse mergulho é diferente numa série de aspectos. Primeiro, o óbvio: é um tanque, um ambiente fechado de 5m de profundidade, com uma concentração enorme de vida marinha. Não tem corrente, ondas, nem o infinito azul. Segundo: o mergulho é feito sem nadadeiras, ou seja, você "anda" pelo fundo do aquário. Não sei se vocês já tentaram andar embaixo d'água, mas a sensação é realmente de uma câmera lenta, ou então fiquei viajando que estava em "Matrix" e o Keanu Reeves poderia aparecer a qualquer momento num sobretudo preto montado em um cação-limão. Bizarríssimo, e mais estafante que o mergulho convencional, com nadadeiras. Terceiro: o tanque é totalmente visualizado por todos os lados pelos visitantes do aquário. Então, a sensação quando se está lá dentro mergulhando é de que você está numa vitrine. As pessoas apontam pra você, as crianças dão tchauzinho, você supostamente deve sorrir para todos, tentam uma comunicação esdrúxula, vários flashes na sua cara... enfim, deu pra sentir como o dia-a-dia de um famoso deve ser um inferno, principalmente depois da invenção do celular com máquina fotográfica. Por outro lado, é uma oportunidade única para mostrar às pessoas que os tubarões não são esses monstros totais. Pelo contrário, a maioria dos que estão ali no aquário são enormes mas extremamente tímidos e dóceis (os mangonas). Apesar dos dentes impressionantes, eles têm receio de estar perto de você. (Exceto um tubarão-leopardo que ficou o tempo todo passeando entre a gente, como querendo aparecer para as câmeras da Globo.) Um dos mangonas tinha um problema de mandíbula que fazia com que seus dentes superiores ficassem todos para fora. E ele era enorme e mais gordinho. Como brasileiro não perdoa nada, logo ganhou o apelido de "Mônico". E eu particularmente adorei todas as inúmeras vezes que o Mônico veio em minha direção, parecendo que vinha me beijar. Um fofo carinhoso!

Com sinceridade, me senti muito confortável dentro do aquário e saí da água realizada, feliz, por ter interagido (mesmo que por apenas 40 minutos) com esses seres maravilhosos que reinam nos nossos oceanos e que infelizmente estão ameaçados pelo pior dos predadores: o ser humano.

E do Aquário, fomos direto para a estação, de onde nos despedimos de Busan, com desejo de voltar.

Tudo de bom sempre.

O Mônico de Busan: Tubarão Mônico

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sexta-feira, abril 22, 2005

Viagem curta

Esse fim de semana faremos uma viagem curtinha e rápida a Busan, costa leste da Coréia do Sul, para visitar o Aquário de lá, e aproveitar pra dar um alô bem de pertinho aos meus amigos mais queridos. Voltaremos no domingo à noite com fotos. Iremos de trem-bala, o KTX, inaugurado no ano passado, tecnologia baseada no TGV francês - é óbvio que os coreanos não vão importar a tecnologia japonesa, né?

Enquanto eu estarei fora (mesmo que por apenas 2 dias), a blogosfera está pipocando de discussões boas, que valem a pena dar uma "bisoiada":

1) A Roberta Febran está relatando sua experiência com a diabetes tipo 1, na série especial "Doces Emoções". Imperdível! É o tipo de relato que raramente a gente encontra por aí, a não ser que você conheça alguém que é diabético tipo 1. E eu falo de cadeira: pesquiso diabetes, e não é nada fácil achar alguém que se disponha a falar sobre ser diabético, sobre a patologia de uma perspectiva pessoal.

2) O Cláudio está coletando informações sobre pessoas patologicamente ciumentas, para uma palestra. Se você é um ciumento, ou conhece algum caso, ajude-o. (Só um pesquisador sabe o quanto a coleta de dados pode ser a parte mais difícil da pesquisa!)

3) O Idelber, dono de um dos blogs mais movimentados da atualidade, está suscitando a discussão sobre cotas para negros nas universidades brasileiras. Se você é a favor ou contra, e quer expressar sua opinião, lá é o lugar. Vá num clicar de mouse!

4) E um "apelo" final: será que o SERPRO não pode liberar o computador do Barnabé pra acesso ao Blogspot lá em BSB? Saber que o blog dele está ameaçado de extinção por causa de... (do quê mesmo?) É de doer o coração.

Um bom fim de semana a todos. E tudo de bom sempre.

Viaje na maionese com essa notícia da Coréia:

- Em Seul, quarta passada, seis elefantes fugiram de um parque de diversões. Eu não estava lá para fotografar esse momento bizarro - lástima. E de acordo com um amigo coreano nosso, não foi a primeira vez que eles fugiram... Cenas bizarras do cotidiano.

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quarta-feira, abril 20, 2005

Conhecimento

Há algum tempo, eu e 5 amigos de faculdade começamos a trocar emails, em geral perguntando notícias de cada um, visto que morávamos em cidades diferentes. Nada mais normal entre amigos. Como entretanto não somos um grupo normal e sim um bando de esquizofrênicos apaixonados/obcecados pelo estudo da vida (e trabalhando cada um em uma área diferente), esses emails logo deixaram de lado o caráter estritamente pessoal e se tornaram conversas desinteressadas sobre... biologia. E desde então, esses 6 indivíduos malucos (que se tratam por codinomes/apelidos os mais esdrúxulos possíveis e apelidam também os lugares por onde passam e cenas que vivem, criando um dialeto inalcançável aos demais ao redor) trocam emails frequentes sobre diversos aspectos profissionais, práticos, teóricos, acadêmicos, filosóficos e viajantes da carreira de biólogo e da carreira de ser vivo na Terra.

Na última série de emails, a discussão tem ficado em torno de evolução molecular, ou mais claramente, a origem da vida na Terra. Não quero colocar aqui as idéias profundas e detalhadas que têm sido suscitadas - afinal, ainda quero ser considerada pela sociedade uma pessoa com as faculdades mentais intactas - mas não posso deixar passar o fato da minha completa desatualização a respeito de conceitos modernos da Biologia. Melhor dizendo, minha ignorância. Após quase 10 anos de formada, sinto que preciso de uma reciclagem profunda em vários conceitos.

O primeiro termo desconhecido que veio à tona foi o de LUCA. Que raios é LUCA? Um dos emails clarificou a idéia: sigla em inglês de "Last Universal Common Ancestor", ou em boa tradução, o "último ancestral comum do universo". O ser vivo (ou não) que gerou todas as demais formas de vida que vemos hoje. Campo fértil de especulação, é o conceito onde ciência e crenças supra-naturais se esbarram, confrontam-se, esperneiam, e atiram a primeira pedra. É de onde sai, em última instância, toda a base filosófica para as batatadas do "design inteligente" e para os questionamentos científicos reais à teoria darwiniana. Enfim, meu primeiro choque de desconhecimento total.

A idéia do "LUCA" trouxe outra realidade mais assustadora: eu não sabia a atual divisão geral dos seres vivos. Que bióloga sou eu que não tinha essa informação atualizada na ponta da língua???? Já havia me deparado com suspeitas de que alguma coisa tinha sido profundamente alterada, mas não me passava pela cabeça que essa mudança foi consequência da mudança teórica especulativa sobre a própria origem da vida. Traduzindo em miúdos: no passado remoto e enterrado, tudo se dividia entre os reinos mineral, vegetal e animal. Aí veio Lineu, com sua organização taxonômica clássica, e categorizou mais claramente os grandes reinos, prestando mais atenção às diferenças morfológicas entre espécies e implantando inclusive o sistema de 2 nomes em latim que usamos até hoje para definir espécies como em Homo sapiens. Quando estava na faculdade, há 10 anos, aprendi que havia 5 reinos de seres vivos: bactérias, protozoários, fungos, animais e plantas. Pois bem, hoje isso acabou. Tudo que é vivente está englobado em uma das 3 divisões: bactérias, arqueobactérias e eucariotos (com células possuidoras de núcleo definido, ou seja, material genético compartimentalizado). A mudança veio a partir dos avanços da biologia molecular, da genética, da melhoria das técnicas de categorização e morfologia, que possibilitou reformular a organização anterior, cheia de falhas e questões. Nunca teremos uma divisão perfeita, visto que quanto mais de perto olhamos para a diferença entre espécies, mais difícil é para separá-la com clareza. Mas já é uma melhoria organizacional, sem dúvida. Subimos um degrau na escada do conhecimento, e eu nem sabia.

E hoje à noite, o ciclo de desconhecimento se completou ao ligar a TV. Assisti a um documentário do National Geographic sobre evolução humana - todas as novas teorias, especulações e idéias estavam lá, mostrando que a idéia de que nossa evolução monofilética está cada vez mais separada da realidade do que provavelmente aconteceu. Espécies que eu nunca tinha ouvido falar surgiram na minha tela, com paleontólogos, arqueólogos e geneticistas comprovando a existência, esfregando aquela informação na minha cara. Um verdadeiro curso básico de evolução humana, que eu definitivamente estava precisando pra desempoeirar.

Não parou por aí. Bastou eu ficar mais intrigada ainda e procurar me atualizar em campos onde não mais atuo para constatar o quanto estou deixando de conhecer a biologia que aprendi na faculdade. O quanto a ciência mudou - algo inevitável, diga-se de passagem. E para cada novo conceito que surge, precisamos manter a cabeça aberta, não deixar os preconceitos, dogmas e idéias rançosas e empoeiradas do passado fixarem no cérebro impedindo o novo de entrar. O novo conceito não é isento de crítica, é claro - a crítica é a base do método científico - mas assim que a hipótese é aceita por experimentação dentro desse próprio método, ela precisa ter um terreno fértil e livre para se ampliar, se memetizar. Não encontrar as barreiras de preconceito. Talvez seja preciso rever os métodos científicos - provavelmente outro campo em que ando desatualizada, a filosofia da ciência. (Thomas Kuhn ainda dita idéias?)

A constatação de que a quantidade de informação hoje é infinitamente maior que a capacidade de assimilação em tempo hábil do mundo ao redor me assusta. A biologia é o meu exemplo pessoal, porque é o que eu vivo, mas não sou ingênua de pensar que sou a única a enfrentar esse dilema, e de que ele não exista em outros campos da vida. Constatar que o nosso limite de assimilação é finito gera um incômodo intelectual, cuja solução parece ser apenas estarmos abertos a novas idéias, livres de preconceito, e principalmente, sabendo que aquela máxima antiga é ainda a mais verdadeira: só sei que nada sei.

Tudo de bom sempre.

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segunda-feira, abril 18, 2005

Tricolor do coracao

Aahh!! Nada a declarar. Apenas que somos campeões.

fluzaoSou tricolor do coração/ sou do time 30 vezes campeão...

Porque não importa o lugar do mundo onde eu esteja, é esse time que eu carrego do lado esquerdo do peito, desde sempre.

Harvard lab
Trabalhando de "uniforme de gala" num laboratório em Boston.

Tudo de bom sempre.

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sexta-feira, abril 15, 2005

Embaixada das baleias

Essa semana, houve uma reunião da Comissão Internacional para Baleias em Ulsan, costa leste da Coréia do Sul, para decidir propostas gerais sobre caça às baleias. Como de praxe, baleia também é comida por aqui, e custa caro, é prato de grã-fino, etc etc etc. (O mesmo estigma da sopa de barbatana de tubarão, se vocês me entendem.) Houve vários protestos em Ulsan e em Seul, pois a proposta coreana especificamente soa meio surreal: criar um(a) ................... (usina???? matadouro??? centro de processamento??? laboratório???) para fácil acesso a(o) fornecimento/coleta (???????) desses mamíferos. Como se você pudesse fazer um cercadinho ou um aquário e enfiar uma baleia dentro (ou várias!), e ela ficaria lá, tranquilinha nadando. Me engana que eu gosto. (Na realidade, acima de tudo, eles estão brigando pelo direito à caça das baleias, que está suspensa depois de muito lobby japonês. Vitória dos cetáceos!)

Eu prefiro nem comentar muito esse assunto, porque essa voracidade asiática em comer tudo que vem do mar - literalmente TUDO - é um traço cultural difícil de apagar, e tenho receio de que só será apagado quando for tarde demais: quando os grandes animais já tiverem sido extintos. Além do que a desculpa de sempre ("não sabemos ao certo como anda a dinâmica da população de baleias, elas podem estar em grande número, bla-bla-bla") é para mim conversa para ruminantes dormirem ou para países poderem caçar à vontade um bicho que está ameaçado. Ou ainda a desculpa mais cara-de-pau de todas: vamos coletar apenas ALGUMAS baleias para pesquisa científica "séria". Esse "algumas" torna-se logo um baleicídio. E engraçado que outros países pelo mundo (incluindo o Brasil) pesquisam baleias e nem por isso precisam coletar/sacrificar vários indivíduos... mas Japão, Noruega, Coréia, China e cia. ltda. precisam coletar o animal e sacrificá-lo, senão não conseguem fazer ciência. Por quê será, hem? Entenda essa lei do mais esperto como quiser.

Enfim, na tentativa de fazer um escarcéu contra isso, a novidade é que o Greenpeace blogou a semana inteira direto de Ulsan, onde montaram uma "Embaixada das Baleias". A idéia é a cara dos protestos ecoxiitas do Greenpeace mesmo, e vale a leitura pela causa ambiental. (Aliás, o blog do Greenpeace é bem interessante e tenho me perdido por ele.)

Sinceramente? É difícil acreditar que um ser humano que veja essas cenas aí embaixo ao vivo e a cores, pela TV, pela Internet, por onde for, possa depois querer comer sua carne, por mais gostosa que seja. Baleias são bailarinas do mar, dançam em suas navegações pelo mundo... Deixem elas curtirem a vida em paz!

um peixeBig Island Hawaii baleia
Primeira foto: cortesia de Masa Ushioda. Repare na desproporção de tamanho entre a baleia e o nadador. Segunda foto: Susto no barco ao ver essa "visitante inesperada" pro almoço.

Tudo de bom sempre.

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quinta-feira, abril 14, 2005

O laboratorio Nauru

Era uma vez... uma ilhota não tão paradisíaca no Pacífico sul chamada Nauru. 21 km quadrados. No passado, seus habitantes (como bons polinésios) eram grandes navegadores: cruzavam o oceano à bordo de seus barquinhos frágeis. Muitos morriam na jornada, de fome, inanição. Os poucos sobreviventes, ao voltar para a ilha, eram tratados como reis: heróis na comunidade, ganhavam todo tipo de regalia. Engordavam com toda a fartura a eles oferecida, e ser muito gordo era o esteticamente belo. Até a próxima jornada ao mar, quando retornavam ao sofrimento e inanição - tudo em nome da descoberta de novos vizinhos naquele oceano infinito. Aos que viviam em terra, sobrava pesca e agricultura de subsistência.

E assim viveram por muitos séculos. Até que os europeus encontraram Nauru em 1830, e logo os alemães tomaram conta, sendo seguidos pelos australianos. No início do século XX, descobriu-se que a ilhota possuía uma reserva inacreditável de fosfato de alta qualidade, usado como fertilizante na então emergente agricultura industrial. As Guerras Mundiais vieram, exploração do Pacífico, até a independência do país em 68.

Aí é que começa o caráter experimental, laboratorial, do lugar. A exploração do fosfato, antes sendo feita pelos britânicos, foi logo repassada para os nauruanos, que começaram a ganhar muito dinheiro com a venda do mineral pelo mundo afora. Sim, a ilha era toda uma grande reserva de fosfato, minas se proliferaram no local, e logo os nauruanos passaram a ser um povo muito rico. Tão ricos que chegaram a constar na lista de maior renda per capita do planeta por certo período na década de 70! O óbvio: quem tem muito dinheiro, investe e não trabalha mais, certo? Pois foi exatamente isso que eles fizeram.

Como cada nauruano era um rico de verdade - o país passou a ser administrado como uma grande empresa -, com acesso a fartura que só o american way of life consegue difundir tão fortemente, os nauruanos passaram a viver como marajás: não trabalhavam (contratavam trabalhadores de outras ilhas para a exploração de fosfato), compraram imóveis pelo mundo e viviam do aluguel desses lugares (um prédio inteiro no centro de Honolulu, por exemplo pertencia a Nauru, que alugava seus escritórios), comiam do bom e do melhor junk food pronto (claro, ninguém quer ter o trabalho nem de cozinhar, né?), e não mais se exercitavam, como na época em que navegavam, remavam pelo Pacífico. De tal forma que esse ciclo gerou o que na biomedicina virou uma história clássica: Nauru tem uma epidemia de obesidade e diabetes tipo 2.

Epidemias geralmente são causadas por agentes infecciosos: vírus, bactérias, protozoários e afins. Diabetes tipo 2 não é doença infecciosa. É uma patologia que reflete o estilo de vida associada à presença de genes suscetíveis - e isso tornou Nauru um laboratório em tempo real para vários estudos genéticos pela característica única da epidemia. Até hoje, os maiores índices de diabetes tipo 2 estão lá: cerca de dois terços da população economicamente ativa! Acredita-se que o estilo de vida dos nauruanos do passado selecionaram genes ao longo do tempo que permitissem a manutenção máxima de energia em seus corpos: claro, eles viajavam muito e passavam longos períodos com fome. Quando a comida passou a ser farta e de alto valor calórico, esses genes não entenderam a mensagem: continuaram guardando, estocando toda a energia no corpo dos nauruanos.

Mas fosfato é recurso natural não-renovável. E um dia, o fosfato de Nauru acabou. (Esse dia em tese será em 2006, mas já há pouquíssima exploração: não sobrou nada). A população, obesa e diabética, com uma expectativa de vida das menores do mundo, deparou-se então com um país cujo solo não se podia plantar mais - estava destruído pelas minas -, não produzia mais nada, dependia de serviços e alimentos estrangeiros, e com um dos maiores crimes ecológicos de que a história tem notícia. Ah! E sem perspectivas de turismo, pois de acordo com a opinião geral, é um lugar feio, sem nenhum atrativo que justifique a um turista médio se deslocar tão longe para passeio - lembre-se que 90% do solo foi fuçado e remexido, virou terreno morto. A destruição de uma ilha pela voracidade da exploração humana.

Na década de 90, após vender várias das propriedades do país no exterior na tentativa de manter o estilo de vida da população, ainda tentou um último suspiro econômico que não quebrasse todo esse ciclo vicioso: transformou-se num paraíso fiscal. Entretanto, logo grande parte do dinheiro da máfia russa passou a circular por lá, e Nauru, dependente de comida estrangeira, foi pressionada a acabar com a lavagem de dinheiro.

Hoje Nauru, um mercado consumidor sem capital, endividada pelos vários empréstimos, está em falência total: declarou estado de emergência em 2004, e dependerá agora da benevolência da ONU ou sabe-se lá de quem para sobreviver decentemente. Isso se o nível dos oceanos não subir antes, é claro - Nauru será um dos primeiros países a desaparecer da Terra, nesse caso.

Os nauruanos não viveram felizes para sempre, como o conto de fadas deles imaginava.

Tudo de bom sempre.

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Viajando na maionese...

- Será que se a gente trocar o fosfato pelo petróleo, podemos utopizar que vivemos num macro-Nauru? Em que estágio estaremos, nesse caso?

- Veja um mapa de Nauru aqui.

- Se você procurar pela culinária nauruana... sente e chore. A comida típica deles é MacDonald's.

- Poucos diabetólogos estudam profundamente a população nauruana, na tentativa de encontrar genes que estejam ligados à predisposição de diabetes tipo 2. Algumas dessas pesquisas já renderam bons frutos, auxiliando indiretamente o desenvolvimento de melhores drogas ou tratamentos. Ou pelo menos aumentando o nosso conhecimento sobre a patologia que rouba 100 bilhões de dólares anuais do orçamento nos EUA.

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segunda-feira, abril 11, 2005

Pequenas anotaçoes de viagens 2

Andei circulando por aí. Como pessoa que sempre quer ver o lado positivo da vida, constato que tem muita coisa boa sendo escrita na rede. E aí vão algumas anotações das últimas viagens que me conquistaram, algumas com atraso, mas o que vale é a diversão da blogagem.

1) O post do Claudio sobre criança é um verdadeiro soco no estômago na consciência da gente. Maravilha quando a gente lê algo que nos faça pensar um pouco que seja na nossa existência humana. Idem para o post da Denise sobre o direito de amamentação das mulheres. Uma necessidade de leitura e reflexão. E se a palavra é refletir sobre a situação do Brasil, boa oportunidade para tal é ler o post da DaniCast sobre legalização de profissões misturado à problemática da super-tributação brasileira. Vale a pena mesmo.

2) Se a palavra é ousadia, os blogs da Mônica, da Tata e do Marcus se uniram e escreveram um texto a 6 mãos, publicado simultaneamente. Divertido e interessante. Uma experiência blogo-virtual que deu certo.

3) Se é pra dar risadas nerds, não perca o cálculo matemático para descoberta da data da Páscoa, no blog "Física na veia", no post "Astronomia e Páscoa: tudo a ver!". Ainda estou com a barriga doendo de tanto rir - mas isso talvez seja porque meu lado nerd aflorou com força total... dêem um desconto, ok?

4) Falando em ciência, não dá pra não se orgulhar de ver um pedaço (microscópico que seja, mas está lá!) da história da ciência brasileira nas páginas da Science dessa semana. O slideshow é geralzão, e bem apresentado. A Science, para quem não sabe, está completando 125 anos de existência e de "ciência global", e a comemoração é dessa forma: mostrando a ciência em países fora do mainstream da ciência. Muito boa iniciativa - mas o que esperar da melhor revista de divulgação da ciência do planeta, não é mesmo? (Empatada com a Nature, é claro, minha predileta desde sempre.)

5) Eu atrasadésima na notícia, mas preciso dizer que a jornalista adorada Leila me deu o gancho, e eu fui atrás da informação: o tubarão branco que estava no Aquário de Monterrey foi liberado de volta ao mar. Decisão mais que acertada. Era o único tubarão branco em cativeiro do mundo, e de acordo com os biólogos do Aquário, ele estava predando os companheiros de tanque, após meses em exposição real e via web - sim, tinha uma webcâmera onde as pessoas podiam acompanhar 24h o bicho nadando no aquário através do site. A câmera ainda está lá, e vale a pena viajar naquele azul artificial. Vale ressaltar que durante a sua estadia no Aquário, o tubarão foi um excelente alvo de programas de educação ambiental com o intuito de ACABAR com essa fama execrada que titio Spielberg ajudou tanto a construir com seu clássico tubarãonístico. E o Aquário já pensa em arrumar outro. Se é pra melhorar a qualidade de vida dos outros tubarões que estão aí fora no oceano sendo pescados e massacrados diariamente, é bem-vinda a idéia de mais um branco no aquário. Crianças conscientes podem gerar adultos mais respeitosos com essas criaturas maravilhosas.

6) Consciência do futuro do nosso planeta é a preocupação número 1 da UNEP, o Programa das Nações Unidas para o Ambiente. No ano passado, meu fotógrafo predileto inscreveu-se num concurso deles, o "Focus on your world". Mais de 30,000 fotos depois, saiu o resultado. Só ganhamos experiência dessa vez, apesar da torcida incessante. Mas vale MUITO a pena dar uma olhada nas fotos vencedoras, todas de uma qualidade artística de dar gosto. Um dos prêmios especiais foi para a foto daquela baleia jubarte encalhada em Niterói no ano passado.

7) E eu não posso deixar de registrar aqui algumas notícias vindas do Nepal - visto que eu estou torcendo pela equipe brasileira na tentativa de escalada do Everest. As notícias dos brasileiros continuam confusas: Waldemar Niclevicz tem relatado o diário de viagem no seu site, e já chegaram ao topo do Mera Peak, parte do treinamento deles pré-Everest. Entretanto, recebi um email de uma companhia de montanhismo dizendo que são na verdade 8 brasileiros tentando dominar a montanha mais alta do mundo, entre eles uma expedição sem oxigênio suplementar, o que, caso seja verdade, colocaria o Brasil numa excelente posição no montanhismo mundial. E a toda essa informação, o site oficial das expedições do Everest passa batido... O que será que está se passando com os brasileiros? Por que não chegaram a avisar o EverestNews? Bom, eu continuo de orelha em pé, aguardando notícias de todos os brasileiros, e de Will Cross, o diabético americano que também está no jogo nessa temporada. É continuar torcendo, cada vez mais.

8) E é do Everest que vem a síndrome do "primeirão da fila" da temporada. O acampamento-base no lado tibetano abre todos os anos no dia 05 de abril. E não é que nesse ano teve um alpinista que chegou mais cedo? Bom, como loucos se entendem bem, óbvio que o cara não ficou desabrigado a 5,000 m de altitude, e foi o verdadeiro "primeirão" a chegar pra esta temporada de escaladas...

9) Pra finalizar, aos curiosos de plantão interessados nas minhas opiniões viajantes, saiu uma entrevista que a Karla Brunet, do site-projeto-documentário online "Identidades" fez com... a Lucia Malla! Espero que gostem.

Tudo de bom sempre.

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quinta-feira, abril 07, 2005

A (r)evolucao de Lucio

No início, era a sopa primordial. E nela estavam as moléculas que um dia, aleatoriamente misturadas, formaram as moléculas da vida, usando as superfícies rochosas como catalisadores de reações químicas básicas do processo. Eis que depois de alguns milhões de anos, surgiu a primeira célula, a protocélula. Muito simples, sem complexas elaborações. Evoluiu. Sofreu pressões. Até que um dia o mundo estava povoado de bactérias, derivadas dessa protocélula. E da bactéria para os seres humanos, mais pelo menos 3 bilhões de anos se passaram. Sempre o mesmo processo: aparece uma mutação ao acaso, confere um maior valor adaptativo ao ser vivo, é selecionada (ou não), passa aos descendentes, fixa-se na população. Esse processo,going on and on and on, é a forma pela qual chegamos aqui, hoje, Homo sapiens sapiens, nesse mundo azul. É o processo de evolução natural.

Embora pareça simples, a teoria da Evolução é a idéia mais bombardeada da ciência desde que Darwin a cunhou após sua viagem de volta ao mundo no navio Beagle - Darwin era um sortudo por poder viajar a torto e a direito. Mas essa idéia, base de qualquer pensamento biológico (desde porque o olho existe passando pela origem da vida e pela extinção dos dinossauros, para citar casos mais famosos), é atacada por todos os lados possíveis - e os impossíveis também.

Quando entrei na faculdade de Biologia na Universidade Federal de Viçosa, no interior de Minas Gerais, eu não tinha a menor idéia da responsabilidade que eu estava abraçando para mim. Entender o fato da Evolução, e principalmente saber lidar com as críticas a essa teoria de forma sensata e científica, são talvez os desafios máximos dos bons biólogos, aqueles que fizeram e fazem a diferença na história da biologia e das grandes descobertas.

Em meu terceiro período na faculdade (aquele em que você é bombardeado por bioquímicas e estatísticas da vida), apliquei (correção: candidatei-me) para uma bolsa de estudos num programa da CAPES que conhecia pouco, chamado "Programa Especial de Treinamento". Um grupo de 12 estudantes do curso reuniam-se na tentativa de empenhar-se na melhoria do curso como um todo, através da organização de atividades extra-curriculares, no final melhorando a qualidade do profissional que sairá formado dali como um todo. Objetivos pra lá de vagos, mas encarei o desafio, e fui aceita no grupo. E aí conheci um professor chamado Lucio.

O Lucio era o tutor deste grupo, o líder que direcionava as idéias. Algo como o "grande guru". Para os alunos do curso de Biologia daquela faculdade, era também o carrasco professor de Evolução Natural, disciplina que reprovava aos montes. Quando nos encontrávamos com alunos de biologia de outras universidades, sempre nos falavam que Evolução era matéria "fácil", e por muito tempo, essa contradição me incomodava. Por que para todo mundo era fácil e em Viçosa, com o Lucio, era aquele mata-mata? E é aí que entra a Evolução em si.

Lucio é um professor peculiar. Em sua visão evolutiva não só da vida natural como da vida humana em sociedade, ser biólogo é um processo irreversível. Cada aluno do curso é uma espécie de "mutação", que surgiu ao acaso em sua sala de aula. Com o passar do tempo (no caso do semestre), o valor adaptativo de cada um vai aparecendo na forma de notas, discussões em sala de aula, seminários. E o professor precisa exercer uma pressão natural para que os mais adaptados sejam selecionados, e suas idéias sobre biologia possam, então, fixar-se na população, sob a forma de um bom biólogo. Portanto, em sua mente evolutiva brilhante, ele é o responsável por essa pressão natural, ele faz-se de predador voraz. Cabe aos alunos adaptar-se: adquirindo camuflagens especiais, aumentando sua "prole" de conhecimentos, não interessa a estratégia. Para evoluir na Evolução, os estudantes precisavam adaptar-se.

De certa forma, apenas depois que cursei sua disciplina, no quinto período, passei a me considerar bióloga. (Passei raspando, diga-se de passagem: média era 60, fiz 62 pontos). Porque minha adaptação ao processo da sua aula foi a de aumentar a "prole" de conhecimentos - passei a devorar livros sobre evolução como bebia café, em quantidades abissais. Era Dawkins, Gould, Wilson, Futuyma, Mayr... Esses homens e suas mentes maravilhosas passaram a fazer parte do meu dia-a-dia, e de certa forma, assimilei o pouco que sei da teoria da Evolução a partir dos textos brilhantes deles. A filosofia de Lucio, por mais carrasca e despropositada que soe, era a que mais refletia a própria teoria de Darwin, e foi a que me proporcionou entender melhor a biologia em si. Não sei se Lucio fazia isso consciente, mas que ele se sente responsável por cada diploma que sai daquele curso... ah! sente sim. E isso é bom.

Lucio foi o melhor professor que tive na vida estudantil. Ele ainda está lá em Viçosa, fazendo pressão natural sobre os alunos do curso... afinal, ser selecionado é a forma de fixar-se como biólogo, mas evoluir é um fato, sempre.

E hoje, é seu aniversário. Parabéns, Lucio! Obrigada pela verdadeira Revolução que você criou em nossas cabecinhas desvairadas, com suas perguntas sem resposta, mostrando que a vida é isso aí, a maravilha do mistério, da boa argumentação e do questionamento.

Tudo de bom sempre para o hoje grande amigo Lucio Campos.

Lucio e cia ltda
Essa foto foi tirada num casamento em Viçosa. Eu estou abraçada ao Lucio. Os 2 indivíduos da esquerda são casados, e participaram da andarilhação-roubada pelo sul da Bahia no Ano Novo/2000, que contei no post anterior. O amigo mais à direita morava na Carolina do Norte, EUA, e é um desencanado companheiro de viagens pelo MSN. E eu fico sonhando com o dia em que poderemos nos sentar de novo em volta de uma mesa, contar "causos", dar risadas e levemente demonstrar o quanto nos orgulhamos de ter sido laboratórios (r)evolutivos do Lucio.

P.S.: Além de professor de Evolução Natural, Lucio é um dos geneticistas de abelhas mais respeitados do país. Um verdadeiro abelhudo mesmo...

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terça-feira, abril 05, 2005

Mallices de viagem

A Janice, uma simpática estudante de jornalismo da Unesp-Bauru, me escreveu um email pedindo que eu fizesse um texto contando/exemplificando algumas frustrações de viagens, para ser publicado num jornal-laboratório chamado Contexto. Decidi compartilhar o texto aqui no blog, já que o tema condiz.

“Viagens em geral são momentos de expectativa. Seja qual for a razão da viagem, preparamo-nos para aquela situação de certa forma ansiosa. Para alguns, organização extrema; para outros, quanto mais improvisado, melhor. Entretanto, nada é mais frustrante que quando aparecem alguns probleminhas na viagem, independente da forma como encaramos a mesma… Ressalto porém que o que pode ser um problema para mim, não o é para outra pessoa – essas nuances variam individualmente, e cada um deve ter em sua cabeça a idéia do que seria a viagem ideal para comparação pessoal. O importante é saber identificar o problema e agir para sua solução de alguma forma.

Numa concepção totalmente pessoal, divido os problemas em a) aqueles que você cria; e b) aqueles que criam para você. Esses problemas todos podem ser subdivididos em: de logística, de serviços ou de localização. Essa divisão tem me ajudado em alguns momentos a solucionar alguns imprevistos, e acho muito útil – pelo menos para mim. Tentarei dar alguns exemplos que já vivi, e como encarei naquele momento.

1. Problemas que criamos:

Quando viajo, tento entrar no “espírito” da coisa, mesmo que seja uma viagem para negócios ou coisa que o valha. Entretanto, algumas vezes me deparei com situações inusitadas, e tive uma reação inexperiente, infantil, confusa. Ou então não fui com a cara do lugar, e começo a inventar um monte de problemas – somos imperfeitos, e essa é uma reação típica: inventar desculpas esfarrapadas, gerando problemas “mallas”.

Logisticamente, lembro sempre da viagem do Ano Novo de 2000 (o “revéillon do milênio”) quando decidi fazer algo “diferente" – olha, desde então eu tenho um pé atrás com essa coisa de fazer algo diferente… Decidi que ia fazer a trilha do Descobrimento, numa celebração pessoal dos 500 anos de descoberta do Brasil. É uma caminhada de 100 km, pela praia, no litoral sul da Bahia, mais especificamente de Prado até Arraial D’ajuda. 5 dias de caminhada, em pleno verão escaldante. Consegui convencer 6 malucos amigos a embarcar nessa roubada (2 deles alemães), e no dia 27/dez/99 saímos à pé de Prado, meio que no improviso. Logística quase inexistente. Não sabíamos ao certo se íamos acampar em todos os lugares, não sabíamos se teríamos água potável pelo caminho… Fomos, simples. Primeiro dia: tranquilo, de Prado até Cumuruxatiba. Segundo dia: andamos menos, mas paramos na praia mais linda que eu já vi: Barra do Caí. Alguns pés já reclamavam dos calos, do tênis roçando na areia da praia que entrava e grudava cada vez que cruzávamos um riacho. E aí está o problema que eu havia criado: antes da viagem, disse a todos que andar de chinelo seria uma loucura, e aconselhei que viessem de tênis! Na areia??? Nada mais insano, mas eu-sem-noção não imaginava o quão insano seria. O pior é que todos acataram minha sugestão… O resultado disso é que no último dia, já a caminho de Trancoso, quando chegamos em Curuípe, a decisão foi unânime: abortar a caminhada e pegar uma carona qualquer até Arraial. Foi o que fizemos, sem arrependimento, pois 2 amigos já estavam sangrando pelos pés. Problema gerado da minha incompetência logística.

Outra situação que lembro foi quando perdi um vôo Boston-Nova Iorque – sendo que de NY eu embarcaria num vôo pro Brasil, era dezembro, época de Natal, tudo lotado. Cheguei com 3 horas de antecedência no aeroporto de Boston, despachei minha bagagem, e fui… comer tranqueiras com meus amigos americanos! Estava me despedindo deles, então decidimos sentar e jogar a última conversa do ano fora. Essa conversa estendeu-se, chegaram outros amigos, e logo estava rolando uma pequena festa no bar do aeroporto, com direito a risadas altas e apostas pro Ano Novo. De modo que, quando eu saí do bar, passei pelo raio X e finalmente cheguei no portão de embarque, vi aquela cena de “Casseta & Planeta”: o avião indo embora, e eu dando tchauzinho pelo vidro… De acordo com a aeromoça, eles me chamaram inúmeras vezes pelo alto-falante, mas você acha que com música e conversa alta com amigos, eu ia perceber alguma coisa? Estava totalmente desencanada… E agora? Fui conversar civilizadamente com a mulher do balcão, implorei por uma vaga, tomei um sermão, mas valeu: a American Airlines tinha vaga no próximo vôo que ia para Nova Iorque, e embarquei com 1 hora e meia de atraso, não perdendo o avião pro Brasil. Mas de qualquer forma, displiscência minha total.

Quero voltar a Florença, na Itália, cidade que gostei mas que me decepcionou por esperar muito mais. Problema da minha cabeça: minha expectativa era muito grande. Criei uma Florença que não existia. E saí de lá fugida, porque um inimigo poderoso me venceu: as baratas do albergue que fiquei. Durante a noite, era impossível dormir, porque as baratas passeavam por todos os lugares, um nojo. Detesto baratas, terminei apressando minha visita e indo embora antes do esperado porque não aguentava mais pisar naquela gosma babenta. Paciência de mochileira também tem limite, principalmente depois de 72h acesas direto.


2) Problemas que criam para a gente:

Em geral, esses são melhor exemplificados por serviços contratados que não condizem com nossas expectativas. E nesse caso, eu não vou me esquecer NUNCA da viagem para Fernando de Noronha, em 2003. Não pela viagem em si, que foi maravilhosa – o lugar é um pequeno pedaço de paraíso mesmo -, mas pela empresa que contratamos para fazer os mergulhos. Que desilusão! Mergulho já não é uma atividade barata por natureza, diga-se de passagem. Portanto, você morrer numa grana e ser mal-tratada… é o fim! A história foi assim: no pacote de 5 dias para Noronha, eu e meu namorado incluímos 4 mergulhos para cada um através da Atlantis Divers, uma das maiores equipes da ilha, negociação feita através de uma agência de turismo. Temos nosso equipamento pessoal, exceto tanques e lastros de chumbo, portanto os mergulhos ficariam mais baratos sem o aluguel do equipamento básico. Ok, primeira saída pro mar: o barco da Atlantis é o maior e o de melhor infra-estrutura pra mergulho do portinho da Vila dos Remédios. Respiramos aliviados. Mas não por muito tempo: logo percebemos que o barco estava lotado, umas 15 pessoas iam mergulhar ao mesmo tempo, e tinham apenas 2 mergulhadores-guia para aquela galera toda! O problema não eram os poucos guias, o problema foi a regra irrestrita de que ninguém poderia ficar para trás em momento algum, por motivo de segurança. (Acrescido do guia ser um idiota completo, contando mil vantagens a viagem de barco inteira, se achando o último biscoito do pacote, o único gostosão do planeta Terra.) Ok, aceitamos aquilo, afinal com segurança em mergulho recreacional não se brinca, e com muita gente embaixo d'água a probabilidade de acontecer algum imprevisto aumenta. Entretanto, quando descemos, a história foi bem a esperada pelos mais experientes turistas-mergulhadores: o guia não conseguia ficar com todo mundo sob controle, simplesmente era muita gente de uma vez só na água. Além disso, o guia não dava tempo suficiente para apreciarmos a vida marinha em volta. Aquilo foi me dando uma raiva tão grande… eu estava ali para aquilo, ver os corais, peixes, e tem um babaca descontrolado fazendo sinal o tempo todo para a gente correr??? Correr para quê, se o barco estava acima da gente?? Quando o ar estivesse acabando, era só emergir! A sensação que tivemos é que eles tinham um plano X de ir de lugar Y a Z, e se não fossem não seriam pagos ou algo que o valha por completo, então “tínhamos” que ver aqueles lugares – independente se no lugar anterior tinha um tubarão maravilhoso passando… Ver sem observar, se é que me entendem. E pra terminar a história, em um dos mergulhos eu comecei a subir por falta de lastro pra me manter no fundo, e bem, nem precisa falar que quem me socorreu nessa situação foi uma outra menina nada a ver com o pato, e não o babaca do guia, que obviamente estava ocupado, apressando os demais para nadar em círculos ad eternum, ou se mostrando o bam-bam-bam pra umas menininhas que mergulhavam com a gente. Bom, depois de feitos nossos mergulhos e identificados os problemas básicos daquela operadora, decidimos que iríamos mergulhar nos próximos 2 dias com outra equipe, e contratamos a Águas Claras (a mesma que levou Fernando Henrique Cardoso em seu mergulho de batismo). Que diferença de serviço!! Menos pessoas no barco, mais atenção = mais segurança! O guia era um amor de pessoa, não só mostrava animais para a gente no fundo, como esperava com a maior paciência meu namorado tirar fotos de tudo que passava na frente da lente… mergulhamos praticamente com um guia pra nós dois, e um guia para outro casal, situação mais que perfeita quando queremos segurança e contemplação da vida marinha.

Tartaruga verdeFrade
Duas maravilhas da vida marinha que estávamos perdendo com a correria em Noronha... Detalhe: esse peixe-anjo simplesmente "grudou" na gente, e ficou fazendo mil poses por um tempão num mergulho à tarde com a Águas Claras. Fico imaginando se a gente ia ter podido curtir ao meaximo essa interação se tivéssemos com a pressa da Atlantis no nosso cangote... Divagações, apenas.

Deixei para o final a constatação de que há infelizmente lugares que penso nunca mais voltar na vida, de tão desanimadores que foram. Ou talvez voltaria de passagem, na esperança eterna de que melhoraram um pouco sequer. Um deles é Caxambu. Fui inúmeras vezes para lá a serviço: da primeira vez, foi até legalzinho, um lugar novo, mas nas demais, foi ficando evidente que o serviço da cidade não está preparado pro turista: garçons mal-educados em todos os hotéis e restaurantes, atraso na maior parte dos serviços, enfim, uma tristeza. E a cidade era entediante, nada pra fazer, nada valorizado.

E no fim de todas essas experiências frustrantes, apesar de tudo, não diriam que foram ruins. Depende da sua cabeça, da forma como você encara a situação, de seu espírito esportivo na hora. Se você souber estabelecer seus limites e identificar os problemas assim que eles surgem, antes que se tornem gigantescos, são os primeiros passos para uma viagem adequar-se sempre ao que você espera, e não frustrar suas expectativas.

Afinal, viajar é preciso; viver não é preciso.”

Tudo de bom sempre.

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