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segunda-feira, maio 30, 2005

Vitorias no Everest

Ufa! Aparentemente, acabou o nervosismo, a ansiedade, a torcida. Waldemar Niclevicz e Irivan Gustavo Burda foram pro ataque final ao topo do Everest e a notícia suspeita é que parece que eles chegaram ao cume ontem, dia 30/maio, e puseram a bandeira brasileira tremulando a 8.848m de altura, pro mundo ver e aplaudir. (Digo parece porque Waldemar ainda não entrou em contato com o acampamento-base depois do feito, mas já está adicionado à lista dos "everesters".) Se a notícia é verdadeira, a celebração dos 10 anos da conquista do Everest por brasileiros foi portanto bem-sucedida - apesar das (im)previsões de tempo dessa temporada não terem contribuído muito, com ventos fortes e muita neve.

A outra dupla brasileira, Vitor Negrete e Rodrigo Raineri, estão já no acampamento 2 do Tibet, subindo sem auxílio de oxigênio suplementar e com força total. Se eles também chegarem ao cume - o que pode ser dentro de algumas horas - será uma dobradinha brasileira dos dois lados da montanha (sul e norte) como nunca visto antes.

Mas a vitória das vitórias entre as notícias "everestianas" chegou há algumas horas: Will Cross, diabético tipo 1, conquistou o cume sul do Everest, com sua bomba de insulina, seu preparo físico e sua força de vontade extraordinária. Uma vitória humana contra o preconceito, uma vitória que mostra a todos o quanto ser diabético não é um impedimento à realização dos sonhos e desejos de ninguém. É o primeiro diabético a enfrentar esse desafio, e merece aplausos de pé por ter vencido. Eu pelo menos estou aplaudindo.

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Para quem acompanha esse blog há mais tempo, sabe que sou uma apaixonada por histórias de montanhismo, que sofro da "febre do Everest", que estava torcendo muito pela celebração dos 10 anos do Brasil no Everest, e que maio é o mês das monções na região dos Himalaias, fenômeno que permite à maior parte das pessoas a janela favorável de temperatura e umidade para a escalada dos picos da região. Maio está acabando, e eu espero que consiga dar umas férias cerebrais também pros livros, sites e filmes de montanhismo. Porque tudo na vida tem limite, e essa loucura montanhista já ultrapassou o aceitável.

Já o Explorador da Rede Camburizinho está de volta das "férias" (entenda-se tese de mestrado). E com a história da expedição de Shackleton à Antárctica, aventura que vale ser lida. O Barnabé também voltou semana passada, com sua ironia política e "causos" do cotidiano brasiliense.

Lucia Malla também "volta" em junho, sem montanhismo e afins, com sua programação normal de viagens na maionese... Fique ligado.

Enquanto ainda é maio... Tudo de bom sempre, para todos que alcançaram o cume do Everest em 2005!

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P.S.: Não podia deixar de comentar que a notícia de que os ministros japoneses foram aconselhados a não usar terno (para diminuir o gasto com ar condicionado nas repartições, e levar os demais funcionários na hierarquia a também usarem roupas mais leves) é das mais ecológicas, iniciativa nota 10. Cumprindo à risca o protocolo assinado em Kyoto. Adorei.

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sexta-feira, maio 27, 2005

Pos-Lula

...E Lula foi para Tóquio. Ontem de manhã; e se duvidar a essa hora já está a bordo do Aerolula rumo ao Brasil, onde problemas grandes aguardam ansiosamente por ele. Levará consigo na bagagem vários acordos bilionários com empresas coreanas e japonesas, o que potencialmente trará lucros ao país, e conselhos, muitos conselhos. Levará também sua lula e algumas experiências vividas na Ásia - como o jet lag.

Já a Lucia passou a carregar na sua "malla" essa experiência incrível que viveu: ser pseudo-jornalista por 3 dias. Como toda experimentação, pontos positivos e negativos apareceram. Gostaria de expor um pouco o que achei de tudo isso, uma reflexão pessoal.

Antes de mais nada, eu acredito na "mídia do cidadão". Aquela possível de formar opiniões a partir do seu background, menos estéril e mais opinativa. Talvez porque eu acredite nas pessoas. Por mais que eu saiba da existência de seres humanos com más intenções e ausência absoluta de senso, prefiro pensar que no final das contas, se mais pessoas tivessem acessos aos meios para poder expressar-se, a qualidade da informação subiria, e uma maior conscientização poderia surgir como resultado final. (Com bom senso, é claro, não com achismos equivocados sem argumentos.)

E diante dessa crença, o pseudo-jornalismo bloguístico que me desafiei a tentar fazer (com algumas falhas, eu sei), só valeu para me convencer mais ainda de que a mídia do cidadão existe e pode estar na ponta de nossos dedos, se assim quisermos. Chamo de pseudo-jornalismo para evitar preocupação com termos "jornalísticos" (que obviamente não sei) e aquela velha discussão de "o que é jornalismo? blog pode ser jornalismo?"; levando-se em consideração que no Brasil só é jornalista quem tem um diploma de Jornalismo, eu não sou jornalista então. (Quem quiser, leia esse post da DaniCast que reflete bastante a minha opinião também.)

A mídia do cidadão consciente encontra, portanto, um potencial enorme com o advento dos blogs, um meio sem muitas regras onde as pessoas participam e uma infinidade de assuntos podem ser abordados ao belprazer do "dono" do blog. Essa tendência ao caos pode levar a um buraco negro ou ao nascimento de uma estrela nova, e nesse ponto, cabe ao cidadão a escolha.Tudo é válido nesse universo. Eu sei, essa realidade está longe, muito longe, no Brasil, onde a maior parte da população não tem acesso sequer a educação, quanto mais a computadores e internet. Mas ela já funciona na Coréia: por exemplo, o abaixo-assinado contra a candidatura do Japão à vaga no Conselho de Segurança da ONU foi em massa assinado eletronicamente, com apoio das operadoras de internet e portais locais (Yahoo!Korea, Daum e Naver, principalmente), e contou com uma difusão em peso por blogs coreanos. E se funciona aqui, será que no dia que o brasileiro tiver acesso à educação tecnológica, ela também funcionará lá? Eu acredito que sim. Mais uma vez, está ao alcance dos nossos dedos no teclado.

Mas, continuando com algumas reflexões sobre impressões da visita do Lula a Coréia do Sul, acho necessário deixar claro também que em momento algum eu expus a minha opinião pessoal sobre o governo Lula de forma veemente. Primeiro, porque apesar de eu ler os jornais brasileiros pela rede, não estou vivendo o governo dele como se estivesse no Brasil, e isso por si só já me deixa em desvantagem analítica - ou não, dependendo do nível de imparcialidade requerido no momento. Segundo, porque eu queria esse formato "diário de viagens", algo como o relato do que eu estava vendo ao meu redor, sem muita análise contextual profunda, apenas pitadas. E nesse item, o jornalismo tradicional é mais efetivo, porque não só a investigação da pauta é maior, como a acuidade da informação divulgada é mais refinada. Particularmente, eu acho que é nesse momento que o jornalismo tradicional perde a identificação com o leitor e se torna estéril, ou apenas uma máquina de moldar opiniões de acordo com interesses esdrúxulos. E é quando os blogs ou qualquer outra forma de mídia do cidadão consciente (ou o pseudo-jornalista-escritor nas horas vagas) pode entrar e cobrir esse vácuo. Acho que os dois meios de dissipação da informação podem andar lado a lado, numa boa, sem atritos, apenas com a consciência das diferenças de forma entre ambos. Afinal, quanto mais opiniões boas que nos façam pensar, melhor.

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Eu estou absolutamente comovida e encantada com todo o apoio sincero que me foi dado a esse "trabalho" - que foi bem divertido, diga-se de passagem - na caixa de comentários do meu bloguinho de viagens. Normalmente, eu já sou uma pessoa que adoro "ouvir" as viagens de cada um (além de delirar nas minhas próprias viagens), mas perceber o quanto as pessoas me acompanharam nessa maratona - fenômeno que eu pensava que só os meus amigos chegados e familiares fariam - foi simplesmente emocionante. Meu coração está repleto de alegria, graças a todos vocês, viajantes desse blog "Malla". Vocês merecem palmas.

A Associação Brasil-Coréia (ABC), que eu conheci há 3 semanas no máximo, fez um trabalho exemplar. A organização do "Café com o Presidente" foi de primeira, tudo pensado, repensado, treinado e protocolado. É óbvio que a visita do presidente altera o ritmo da comunidade brasileira, mas o fato de ela ser minúscula (praticamente todos os brasileiros na Coréia foram no encontro) ajuda muito na boa organização. Não imagino tal situação acontecendo de forma tão tranquila em Boston, com sua mega-comunidade brasileira. Foi tão divertido estar com os brasileiros lá, que acabei de chegar de um showzinho num bar com as mesmas pessoas - e quero crer que um pequeno círculo de boas amizades pode brotar daí.

Preciso agradecer também aos blogueiros que me deram uma força desde a semana passada através de dicas valiosas: Rafael, Leila, Alex, Idelber, Suzana, Mônica, Donizetti, Cristiano e Sergio Leo. Valeu demais!

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Alguém viu a notícia de que os chineses querem levar a tocha olímpica acesa até o topo do Everest? E é nesse fim de semana que o Waldemar Niclevicz começa a escalada final, representando o Brasil por lá. Ou vocês acreditam que é só o Lula que representa o país em terras estrangeiras?

Tudo de bom sempre.

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P.S.: Estou com o discurso do Lula em mp3 pronto pra ser compartilhado, mas o arquivo tem 6.9 MB (são 12 minutos). Em formato original, fica mais monstrengo ainda. Os interessados em ouvir, não hesitem em me mandar um email (no rodapé deste blog), que eu envio o arquivo com o maior prazer. Não se acanhe.

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quarta-feira, maio 25, 2005

Uma lula para o Lula

Lula e a lulaA lula
Lucia Malla e André (o melhor fotógrafo subaquático do mundo!) entregando o presente especial ao Lula. D. Marisa pareceu muito feliz com o presente! Ao lado, a foto sub que foi dada: uma lula (Sepioteuthis lessoniana) de "olhos azuis", de acordo com o presidente. A foto da lula foi tirada nas Filipinas, viagem do ano passado.

Lula vendo a lulaHomem-mascara
Nós entregando o quadro da lula; ao lado, outro presente, as máscaras tradicionais coreanas, que o presidente e a primeira-dama fizeram questão de colocar no rosto - para deleite dos fotógrafos.

Conseguimos. Poucos segundos, mas conseguimos. Entregamos o presente que André com muito esmero preparou para o presidente. A idéia luminosa dele ("uma lula para o Lula"), que começou há uns dias numa conversa de elevador no trabalho, mostrou ser a única estratégia plausível para que chegássemos perto do presidente e pudéssemos trocar algumas palavras, além de conveniente: ele, biólogo marinho e fotógrafo subaquático, dando uma foto de um ser marinho que apenas "coincidentemente" leva o nome do presidente - melhor seria dizer o contrário...

Quando chegamos no salão Ônix do Hotel Lotte, onde o encontro armado pela Associação Brasil-Coréia aconteceu, logo entramos em contato com o presidente da Associação, para mostrar que tínhamos um presente "original". Todos adoraram, embora de início alguns não sacaram a tirada - seria uma piada muito biológica? Fato é que o presidente entendeu ao receber. Mas o que ninguém entendeu interessantemente foi a orientação do animal: Lula achou que estávamos dando o quadro de cabeça para baixo. André teve que mostrar a orientação correta da foto pro Presidente. (Depois dessa, acho que preciso escrever um post sobre lulas, polvos e demais moluscos marinhos para tirar esse peso biológico da consciência...)

Os presentes foram entregues ao Presidente logo após o início da cerimônia. Alguns presentes coreanos, como uma máscara tradicional que ele e D. Marisa vestiram, e uma caixa de ginseng vermelho da melhor qualidade - o que levou Lula a primeira "tirada": o Presidente fez sinais com o punho fechado denotando o famoso poder afrodisíaco do ginseng vermelho, com risadinhas sarcásticas. Imprensa de ouvidos abertos e olhos atentos. A Associação deu ao Lula um álbum com fotos de eventos de divulgação do Brasil (incluindo fotos da Copa 2002), o que achei muito simpático. Aliás, a Associação deu um show, estão de parabéns: não houve sequer uma gafe, a organização do "Café com o Presidente" estava primorosa, e os discursos foram curtos, sinceros e elegantes. Nada de demagogia ou baboseira, foi tudo preciso.

Nós fomos os últimos a entregar presentes, e entramos como "os cientistas brasileiros na Coréia". Acho que eu nunca tinha sentido tamanha responsabilidade como cientista na vida como representar a classe perante o Presidente da República. Mesmo que isso não seja nada na vida de alguém - com certeza, meu currículo não acrescentará pontos por esse evento. Mas que foi um certo peso, foi. E aí, voltando àquele velho estigma do cientista, até o Presidente nos olhou com aquela cara de "cientistas? Puxa..." Como se fôssemos ETs nerds que desembarcaram na Terra por ledo engano. Nos poucos segundos com Lula, ele perguntou há quanto tempo estávamos na Coréia e com o que trabalhávamos. (André espertamente havia escrito atrás uma dedicatória aludindo aos 30 anos de aniversário de casamento entre eles - talvez o motivo pelo qual a D. Marisa, que parecia impaciente, tenha aberto um sorriso generoso. Afinal, parabenizar pelo casamento é muito mais seguro e sincero que parabenizar pelo governo...)

Logo depois do nosso momento histórico, Lula fez um discurso de improviso, para delírio dos jornalistas de plantão. E aí entendi um pouco do porquê foi eleito Presidente da República: ele tem um carisma com o público inacreditável, digno de grandes oradores. Ele olha nos olhos das pessoas quando fala, profundamente, como se esperasse que a sua resposta ou seu balançar de cabeça confirmando que está prestando atenção. Seu discurso não é intelectualizado, de forma alguma. Fica claro que quem está falando é um homem do povo, com linguajar do povo, com as brincadeiras do povo. Por favor, não estou sendo pejorativa ou embasbacada, simplesmente é uma característica que desponta acima de qualquer outra em seu discurso.

Lula e PallocciCartaz da Monica
Lula discursando enquanto Palocci viajava na maionese atrás. Ao lado, o cartaz na entrada do salão, com a Mônica, uma das minhas personagens prediletas, falando em coreano. Com o Cebolinha na cola, é claro.

Lula fez questão de apresentar todos os membros da comitiva, e dei uma certa risada irônica quando ele apresentou o ministro Palocci, pois me lembrei de todas as charges que normalmente vejo neste site. E deu um pequeno furo, pequenininho, mas deu: ao comentar sobre os brasileiros na Coréia, falou da facilidade com que nos destacamos pela diferença fisionômica (ou seja não temos olhos puxados). Acho que ele esqueceu dos mais de 40,000 descendentes de coreanos, e os outros milhares, quiçá milhões, de japoneses e chineses que lá estão e que são cidadãos brasileiros. Eu sempre tenho cuidado ao falar sobre aparência física de brasileiro com estrangeiros - aí vem o presidente e chuta o pau da barraca. Êita nóis.

(Mas foi um pequeniníssimo furo, se contarmos com a probabilidade do que poderia sair errado num discurso de improviso. Além da alusão de celebrar a vitória econômica do Brasil com champanhe - por que não com fogos de artifício, que seriam menos complicativos para a imagem dele? Improviso é isso...)

Ao terminar o discurso, Lula foi abordado por trocentos repórteres, e saiu às pressas. Depois, conversando com um repórter da Folha, ficamos sabendo que o governo Lula tem sido o pior para os repórteres, numa verdadeira censura. Esse cara da Folha já está a mais de 20 anos cobrindo viagens presidenciais (desde a ditadura!) e disse que nunca sentiu tanta censura por parte do governo quanto agora. Talvez por isso, no momento que a oportunidade surgiu, eles voaram em cima do homem.

ChegadaFabio
O Presidente entrando no salão em companhia da primeira-dama, enquanto Fábio cantava e homenageava não só Lula, mas todos os ouvintes com sua voz.

Depois que o presidente foi embora com sua comitiva, finalmente rolou o café propriamente dito, num clima entre amigos, sem protocolos. Muito divertido. Pudemos conversar com o Fábio, um cantor brasileiro de voz impressionante, presença de palco perfeita e que fez uma homenagem fofa ao presidente: quando Lula chegava no salão, ele cantava com voz poderosa a música: "Isso aqui, ô ô/ é um pouquinho de Brasil, iáiá/ Esse Brasil que canta e é feliz/ Feliz, feliz/ É também um pouco de uma raça/ que não tem medo de fumaça, ai ai/ Que não se entrega não." Alguém sabe quem canta essa música? Eu estou em estado de branco total no cérebro, não lembro a nenhum custo. O presidente elogiou a voz do Fábio - que honra!

E essa maratona tinha que terminar com uma tirada exótica. Depois que saímos do hotel, fomos ao supermercado comprar umas comidas. Adivinhem o que encontramos lá? Arranjos e esculturas feitas de... lulas secas! Inclusive uma lula feita de lulas.

É muita "lula" pra um dia só, não?

Tudo de bom sempre.

IMG_0067lulaIMG_0070lula
Arranjos com lulas desidratadas no supermercado em Seul.


P.S.: O discurso do Lula foi gravado no iPod. Assim que eu transferi-lo pro computador, vou deixar aqui o link. Não faço isso agora porque estou com muito sono...

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terça-feira, maio 24, 2005

Visita do Lula na Coreia - Alguns fatos e questoes pessoais

Primeira reportagem da Folha Online: ateh o momento nao tinha entrado nada do forum.

Primeira reportagem do Estadao Online: 23h17 horario de Brasilia

Primeira reportagem do Globo Online: Essa noticia no ar as 21h39, apenas relacionada ao Lula, nao ao evento.

Primeira reportagem do UOL Ultimas Noticias: 0h44 horario de Brasilia

Blogagem da Lucia Malla sobre o Forum: 22h39 (horario de Brasilia).

E eu, como sempre questionando, me pergunto: qual a razao da diferenca de tempo entre todos - pequena, mas existente - visto que todos tinham tecnologia como a que usei a disposicao? Serah que a necessidade da informacao imparcial gera esse pequeno atraso - ateh o jornalista moldar o texto, por exemplo? E os jornais de TV, em que peh ficaram nessa historia? (Visto que obviamente nao tenho como saber.)

Ou seria este forum um evento menor na agenda de noticias do pais? Serah que estou valorizando demais um mero evento internacional - o presidente participa de zilhoes deles por ano...?

Duvidas, duvidas, na cabeca de uma brasileira...


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Agora que a adrenalina diminuiu na minha corrente sanguinea, posso parar e pensar um pouco sobre o discurso do Lula. A impressao que tive foi a de que era um discurso antigo, que foi apenas rearrumado. Falou as mesmas coisas: sobre o Fome Zero, violencia, desigualdade social, a iniciativa brasileira do encontro com paises arabes... Parecia que eu estava lendo aquele discurso de jornal.

Veja bem: o tema do forum era "Em direcao a governancia participativa e transparente". Onde estava a explicacao sobre transparencia no ato de governar que eu nao ouvi? Acho que meu ouvido viciado em ciencia pede objetivos claros, infelizmente. Nao estou acostumada a esse blablabla politico. Imagine se eu fosse num congresso de diabetes e chegando lah comecasse a versar sobre, sei lah, ecologia do Pantanal? Eu sei que o exemplo nao estah perfeito, mas essa foi a sensacao que eu tive ao ouvir o discurso. E nao foi soh o do Lula. Por isso que eu acho que essa eh a norma politica. Uma pena que meu ouvido realmente nao acha isso normal.

(Parenteses: um dos discursos, de um representante da OED (?), foi talvez o unico a chamar a atencao para o fator transparencia de governo, perguntando "Por que os governos nao sao transparentes?" e a partir daih discursando a respeito. Coincidentemente, foi o discurso que considerei mais articulado de ouvir.)

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A saga continua amanha, depois de uma merecida noite de sono: haverah uma recepcao ao presidente promovida pela Associacao de Brasileiros na Coreia a tarde, para 100 pessoas. Estarei lah com o meu namorado, a quem alias eu devo infinitos agradecimentos hoje pelo apoio irrestrito, por tolerar minhas "viagens na maionese" pela manha, e pelas discussoes levantadas, sempre com perspicacia, bom humor e cientificismo brilhantes.

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Li todos os comentarios e agradeco muito, muito, muito a todos que me desejaram boa sorte e me deram forca - que precisei, sim. Estou emocionada com a repercussao que essa experiencia teve, e principalmente com a experiencia em si pra mim. Se fiz um bom trabalho ou nao, nao cabe a mim avaliar no momento. Apenas afirmo que me sinto feliz de ter conseguido fazeh-lo - minha primeira vez brincando de pseudo-jornalista. Eu sei, eu sei, repercussao na blogosfera eh tao valido como ser Miss Minisaia no Rodeio de Valinhos, blablabla... Mas eu gostei deveras de saber que meus familiares e amigos (velhos e novos) estiveram aqui e me apoiaram. A todos, muito, muito obrigada.

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Agora back to work que o tempo nao para.

Tudo de bom sempre.

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segunda-feira, maio 23, 2005

Visita do Lula a Coreia - Um detalhe

Ao sair do auditorio, dei meu cartao com o endereco do meu blog pra um reporter brasileiro nao sei de que jornal. Serah que ele vai querer ler? ;-)

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Visita do Lula a Coreia - Algumas fotos exclusivas

Lula discursandoLula ouvindo
Presidente Lula em seu discurso na cerimonia de abertura do Forum Global da ONU sobre Governancia. Ao lado, com seu "discreto" fone de ouvido, prestando atencao ao discurso do repsidente Roh, da Coreia.

Coral coreano de aberturaPresidente coreano
O coral coreano se apresentando na abertura, e o presidente sul-coreano Roh discursando.

IMG_0021 ONUBlogando
Dois momentos de blogagem no Auditorio do COEX. Por favor, reparem no meu cabelo que levou horas pra arrumar, ok? :-)

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Visita do Lula a Coreia - o Forum da ONU sobre governancia

Antes de mais nada, desculpem o atraso. Nao foi ao vivo – nao tinha internet aberta dentro do auditorio. Mas ai vai meu relato.

Nossa viagem de metro foi anomalamente tranquila. Metro vazio, e terminamos chegando bem mais cedo, as 7:30. COEX cheio de segurancas, muito mais que nos dias normais – o que nao eh uma novidade, vista a presenca de chefes-de-estado e pessoas ilustres do poder. Deu tempo de pegar os crachas com muita calma, e tomar um cafe. No cafe, encontramos o primeiro brasileiro, chamado Geraldo Machado, baiano simpatico com quem trocamos um bom papo.

Ao passar pela seguranca, pediram que ligassemos toda a parafernalia eletronica que eu carregava: maquina fotografica, iPod e laptop. Entramos no Convention Hall, onde a Cerimonia de Abertura estava para comecar. Logo encontramos a midia brasileira: rede Globo, Folha de Sao Paulo, Estadao… Havia o sinal de wireless internet, mas o sinal estava fechado, com acesso restrito a sei la quem, porque a imprensa brasileira tambem nao conseguia conexao. Uma reporter de video da Globo acabou de passar, mas eu sou pessima com nomes, nao lembro, e tambem nao consigo ler seu cracha.

Na terceira fileira do auditorio, o ministro Palocci. E nos estamos sentados pra la da decima fileira, ja que as da frente sao de comitivas oficiais.

E nesse momento, um coral coreano, com as mulheres vestidas em trajes tipicos, introduz um pouco da cultura local. Aguardamos ansiosamente a chegada do Lula.

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9:15 am - O coral esta saindo do palco. A moderadora esta discursando um pouco, e em breve os chefes de estado entrarao.

(Parenteses: boa parte dos brasileiros ainda esta de peh. Os demais estrangeiros, em sua maior parte – com excecao da imprensa geral – estao sentados. Sera isso um comportamento tipico nosso, uma leve falta de respeito salpicada de sorrisos simpaticos?)

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9:30 am - Presidente Roh, da Coreia do Sul, entrando ao lado de Lula, e sendo aplaudido. Uma musica coreana ao fundo, parece uma marchinha marcial de qualidade duvidosa. … aberto o forum.


Discuros em coreano. Meu tradutor de ouvido nao esta funcionando direito, e nao tem portugues, e sim ingles, espanhol, frances e chines. Presidentes presentes no momento: Tailandia, Tajiquistao e Brasil, alem do coreano. Um reporter subiu na cadeira na minha frente pra tirar fotos do Roh – ainda bem que meu namorado eh alto e suplanta o baixinho.

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9:45 am – Discurso de um dos secretarios da ONU, Jose Antonio Campo (?), em ingles. Outro reporter brasileiro se posta na minha frente em peh. O iPod jah estah ligado, esperando pelo momento em que Lula comecarah a falar.

O reporter da Globo estava nos filmando agora. Serah que estaremos no Jornal Nacional de amanha? :-)

E que discurso mais enche-linguica. Serah isso politica, essa falta de objetividade na oratoria? Nao consigo tirar uma sentenca sequer, a nao ser: “Obrigada a Coreia e demais paises por participarem desse Forum para desenvolvimento da agenda da ONU.”

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9:55 am – Comeca o discurso de Lula. E nao eh que ele tem mesmo a lingua presa? Bricnadeirinha... nao resisti. Discurso em portugues, um bom alivio pra minha orelha sem esse tradutor desconfortavel. Eu estou vendo o Lula a menos de 50 m!!!!!!!!!!!!!!!!!

(E como ele estah rosado…)

Agradece ao bom recebimento pelo povo coreano. E comeca um discurso sobre democracia. E ele fala sobre fome e desemprego, como obstaculos a manutencao do caminho para a democracia.

Algumas frases captadas ao leu em seu discurso:

“Meu amigos e minhas amigas…”

“Um bom governante eh o que une razao com paixao.”

“A boa governancia implica tambem eh boa administracao dos recursos naturais e meio ambiente.”

“A politica externa (…) eh importante para a defesa de nossos interesses comerciais.”

“Um mundo ameacado por armas de destruicao em massa, terrorismo, mas sobretudo por profundas desigualdades sociais.”


Lula termina seu discurso e eh modestamente aplaudido.

E eu saio correndo atras de uma conexao para colocar isso no ar, antes dos jornais. A vantagem de conhecer o COEX vem aih - sei cada esquina de internet cafehs por aqui. Corro pro que eh mais escondido e perto, que sei que fica no primeiro andar.

Espero que tenha valido a pena.

Tudo de bom sempre.

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Visita do Lula a Coreia - De saida

São quase 6 da matina, estou de pé, e pronta para sair a qualquer momento pra mais uma aventura. (Pensando bem, o clima "expedição" que eu vivo normalmente não é tão diferente de agora...)

Desejem-me boa sorte, e que nenhum mega-imprevisto aconteça - sim, eu já espero pequenos imprevistos.

Será que o Lula já acordou de seu jet-lag?

Seul, aí vamos nós.

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Visita do Lula a Coreia - Logistica

A logística de amanhã não me sai da cabeça. O receio do fiasco, que é o maior de todos os problemas que paira no meu cérebro no momento. Será que vai dar certo?

Problema número 1: como despertar

Normalmente, o que me acorda é um despertador laranja endotérmico da família dos felinos que pula na cama pontualmente (parece até que ele é suíço e não havaiano) às 7 da manhã com grunhidos de fome. Preciso que ele me desperte amanhã às 5. Como alternativa, há o alarme cujo volume máximo eu não escuto direito. Em que confiar?

Catupiry, não me decepcione.

Problema número 2: A ida pra Seul

Moro a 1 hora e meia de metrô do COEX Mall, e quando você sai da estação lá, ainda precisa andar uns 10 minutos por dentro do shopping para chegar no Centro de Convenções. Ainda bem que será de manhã cedo e o BodyShop estará fechado. Sem distração é mais fácil chegar ao destino final.

Entretanto, nada é previsível quando a viagem de metrô inclui uma troca em Sadang às 7 da manhã. Sadang é o equivalente coreano à estação da Sé em São Paulo, com direito a guardinha socando pessoas no trem e filas quilométricas, naquelas cenas que mais parecem saídas de Tóquio.

Problema número 3: a conexão à Internet

Tudo nessa empreitada maluca dependerá da conexão à rede. Claro, tenho um plano alternativo. Mas estou confiando que meu computador não vai dar chilique algum ao ser ligado em wifi no COEX.

E só pra deixar claro mais uma vez: eu estou experimentando ser pseudo-jornalista por um dia (talvez 2). Nunca fiz isso na vida antes. O processo inteiro é passível a falhas humanas ou mecânicas, além de atrasos inexplicáveis. Tudo que está/será escrito é uma perspectiva pessoal, de uma brasileira no exterior vendo o presidente.

É o diário da Lucia Malla sobre o Lula na Coréia.

Tudo de bom sempre.

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Visita do Lula a Coreia - Com a Posco?!?!

Como eu já disse numa discussão no Smart e repetido aqui, a Posco é uma das 5 grandes empresas coreanas, que detém o mercado siderúrgico e afins. Estive em 2004 em Pohang, onde está a empresa, e o tamanho da fábrica é realmente impressionante: toma quase toda a faixa litorânea da cidade, cobrindo tudo com aquela poluição siderúrgica que só quem passou a infância em Vitória/Vila Velha ou Volta Redonda sabe bem o que é...

E agora, como efeito da visita do Lula à Coréia, um acordo privado bilionário entre 2 grandes produtoras de aço mundiais se realiza. Vitória brasileira, sem dúvida.

Pohang, Coreia
Vista aérea da siderúrgica da Posco em Pohang, costa leste da Coréia do Sul.

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Visita do Lula a Coreia - Vaidade feminina

Acabei de chegar do salão, onde fui dar um jeito na minha juba querida para o grande evento de amanhã, e talvez depois de amanhã (caso se concretizem os planos de uma reunião dos brasileiros com o presidente). Deixarei de lado por alguns dias o meu visual mix de "pronta-pra-expedição-na-Amazônia" com "pseudo-patricinha-rebelde" que será trocado devidamente por um visual mais formal, apropriado ao momento. Apenas acrescentei mais uma preocupação a minha já lotada agenda de preocupações para amanhã: agora tenho que torcer para que não chova, senão minha chapinha no cabelo vai pro beleléu.

No salão, vi algo genial: eles tinham 3 computadores com monitores gigantes de alta definição, recheados de games. Pra quê? Pras crianças brincarem enquanto as cabeleireiras fazem seu trabalho. Perfeito! A criança, entretida com os joguinhos, mal pisca o olho, quiçá mexer a cabeça, o que torna o trabalho de cortar e embelezar o cabelo dos baixinhos muito mais simples pro cabeleireiro. Idéia a ser copiada, sem dúvida.

E não consegui fazer minha unha. Vou ter que improvisar em casa mesmo. Seja o que Darwin quiser.

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Chego em casa, e minha amiga coreana tinha ligado. Sua mãe quer informações de "insider" sobre a visita do Lula. Quer histórias, fábulas sobre nosso Presidente. Alguém pode me contar alguma porque minha cabeça está em estado de "amnésia letárgica com foco único à visita presidencial" e eu não consigo me lembrar de nada que já não esteja na mídia coreana totalmente destrinchado.

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Mas está uma noite linda de lua cheia lá fora, e a sensação de conforto e tranquilidade me abraça de repente.

Tudo de bom sempre...

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Visita do Lula a Coreia - De tabela

E nao eh que a visita do Lula jah estah trazendo beneficios indiretos a comunidade de brasileiros na Coreia antes mesmo dele chegar?

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Visita do Lula a Coreia - Sobre o Forum da ONU

Este eh o sexto forum sobre governancia que a ONU promove - o primeiro foi nos EUA, seguidos por Brasil, Italia, Marrocos e Mexico. A tematica de "reinventar o governo" jah abriu espaco no passado para discussao sobre as instituicoes democraticas, para o e-governo, para aliancas para a democracia. Neste forum, o tema eh "Toward Participatory and Transparent Governance" - algo como "Em direcao a Governancia Participativa e Transparente". Alem de Lula, os presidentes da Tailandia, Tajiquistao, Coreia do Sul, Australia e varios outros representantes de governos estarao passeando por Seul nestes dias.

A lista de agencias ligadas a ONU que contribuem para o evento eh longa. Veja aqui os objetivos do forum e maiores detalhes. Aos mais curiosos, a brochura oficial pode ser baixada da internet, basta ter o Adobe Reader funcionando no computador.

A visita de Lula tambem jah estah obviamente na primeira pagina da Agencia Nacional de Noticias.

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Visita do Lula a Coreia - Nos jornais coreanos

A visita presidencial a Coreia do Sul jah estah nos principais jornais coreanos. Eh dito pelo Korean Herald que dos presidentes que aqui estarao, o brasileiro eh um dos mais esperados.

Interessante a entrevista do Lula ao Chosun, vale dar uma conferida.

E aproveitem para passear um pouco pelos jornais da Coreia do Sul. A perspectiva da noticia muda, e pode ser uma boa pausa na midia convencional americana e brasileira. Minha dica pessoal: noticias sobre celulas-tronco e sobre novas tecnologias de celular.

E se quiserem sentir um pouco como eh estar "lost in translation", vejam a pagina do jornal Joongang e divirtam-se...

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domingo, maio 22, 2005

Visita do Lula a Coreia - Preparativos

De segunda até quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará na Coréia do Sul, para participação em um seminário de investimentos e dar uma palestra no Sexto Fórum da ONU sobre Governância. Fiquei sabendo dessa participação através do grupo de brasileiros que encontrei em Seul há 2 semanas, no festival primaveril "Hi Seoul!". Embora tenho críticas a algumas medidas adotadas por Lula - mas sempre tentando entender que a figura dele é representativa, que ele não governa sozinho, blábláblá - é uma oportunidade única de ver o presidente do meu país de cidadania num evento gratuito em outro país.

Decidi então ir a esse fórum: pedi dispensa do trabalho por meio dia, e estarei lá com meu super-kit "máquina fotográfica + laptop + AirPort", tentando uma proeza que jamais me imaginei fazendo...

Estarei blogando ao vivo, direto de Seul, a partir das 9 da manhã de terça (horário coreano - 9 da noite de segunda horário de Brasília). (Eu sempre blogo em horário coreano, portanto, todas as menções a horários aqui devem ser ajustadas para o local onde o leitor está.)

Direto do COEX Mall, Auditório principal, onde será a abertura do evento da ONU. A palestra de abertura será ministrada por Lula. E como eu estive no mesmo lugar na quinta passada, não estarei tão perdida assim. A tarefa de ser pseudo-semi-jornalista é que me deixará perdida, pois nunca foi meu forte ir atrás de notícias in loco, sou uma leitora, acima de tudo. Enfim, desejem-me boa sorte... precisarei.

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Hoje já comecei a me preparar para tal empreitada. Cadastrei-me através da Associação de Brasileiros na Coréia (ABC) para um possível evento/recepção com o presidente e os membros da comunidade brasileira (que é minúscula comparada com as de outros lugares onde morei). Serão permitidos apenas 100 membros, e pelo andar da carruagem, parece que haverá lugar sobrando, os brasileiros aqui são realmente minoria. Inacreditável: pode ser que nessa semana eu conheça ao vivo e a cores, de pertinho, o presidente do país. Muito louco pensar nisso, nunca imaginei mesmo. Não estava nos meus planos de viagens pelo mundo, mas já que a oportunidade pintou, não a desperdiçarei. Com fotos se possível, é claro.

Além disso, hoje passei o dia neuroticamente tentando organizar os detalhes: graxa no sapato, passar ferro nas roupas, testar a Internet sem fio, recarregar pilhas da máquina fotográfica, ler com cuidado os detalhes do evento.

E nessa confusão toda, ainda me apareceu domingo de manhã um email na minha caixa postal do rapaz responsável pelo site do EverestNews, para que eu traduzisse o último relato do Irivan pro inglês. Isso mesmo: eu acessei o site deles tantas vezes, e enchi tanto o saco do cara com perguntas de montanhismo (sim, eu sou uma malla) que ele me convidou pra essa nanoparticipação. Eu adorei, é claro. Afinal, estou traduzindo os brasileiros do Everest pro mundo. Assim que entrar no ar eu ponho um link aqui.

Update: Minha contribuicao ao EverestNews estah aqui.

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Como parte da minha dedicação exclusiva à visita do Lula a Coréia do Sul, blogarei nesses dias com maior freqüência e textos menores, com minhas impressões particulares de um evento que provavelmente estará na mídia brasileira sendo reportado de maneira impessoal.

Poderemos chamar no melhor estilo diarinho de "minhas impressões do Lula na Coréia". Aguardem cenas do próximo capítulo a partir de terça.

Tudo de bom sempre.

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sexta-feira, maio 20, 2005

Da tristeza a alegria: pequenas anotaçoes de viagens virtuais 4

Começo o meu dia com a triste notícia do falecimento do Gegê, professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. Embora meu contato com ele tenha sido uma meia dúzia de "ois" pelos corredores do ICB na época em que estava lá, não posso deixar de relembrar da sua voz brincando com seus estudantes no laboratório mais alegre do departamento, de suas pedaladas e corridas malucas pela USP - pedaladas estas que lhe custaram a vida, ontem de manhã, quando um Santana desvairado resolveu dar fim a mesma. A vida é isso aí, um segundo é, no outro não é mais. E não paro de pensar como a Marília, sua esposa, deve estar passando por essa barra pesadíssima. A ela e seus filhos, meus pêsames. O Gegê e sua descontração com certeza vão fazer falta pelos corredores da USP.

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Já morreram também 2 pessoas nessa temporada no Everest, e mais de 10 pessoas foram impedidas de tentar chegar ao cume por lesões diversas ou congelamento de dedos dos pés ou das mãos, além de manifestações leves do "mal da montanha". Várias desistências, por motivos diversos. O tempo tem estado muito ruim por lá, não dando nem uma janelinha de céu azul e ausência de vento que permita aos alpinistas alcançarem seu tento - principalmente os de expedições comerciais, com menos experiência em escaladas. Apesar de São Pedro não estar colaborando, os alpinistas mais profissionais estão neste exato momento aproveitando cerca de 48 horas de calmaria e tentando subir, quase que num fôlego só, até o topo do mundo. Entre as expedições que já estão rumo ao topo, estão os chineses que estão (re)medindo a altura do Everest; o diabético tipo 1 Will Cross, que ainda está no acampamento-base, mas continua firme e forte na aventura; os brasileiros Waldemar e Irivan pelo Nepal na expedição que celebra os 10 anos da primeira conquista brasileira na montanha mais alta do mundo; os também brasileiros Vitor Negrete e Rodrigo Ranieri pelo Tibet na expedição Everest 2005 (mais óbvio, impossível), que estão escrevendo toda a aventura no blog Everest 2005 e tentarão a escalada sem uso de oxigênio auxiliar, ou seja, literalmente no peito, confiando apenas no ar rarefeito que a montanha oferece. Fato é: os primeiros alpinistas poderão estar chegando ao topo do Everest neste fim de semana. Portanto, Lucia Malla neste fim de semana não desligará em momento algum o computador do site do EverestNews e demais links acima citados, esperando e torcendo por todos em mais uma temporada dessa aventura extenuante e incrível. Boa sorte aos cavaleiros das montanhas! O topo do mundo os aguarda!

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Já chegaram ao cume, mas da ciência mundial, os coreanos do laboratório de células-tronco da Universidade de Seul. Hoje de manhã, a Science publicou a esperada notícia. Há um ano, os mesmos pesquisadores mostravam ao mundo o desenvolvimento da linhagem de células-tronco a partir do óvulos de doadoras. Hoje, eles já mostram o desenvolvimento das linhagens a tecidos específicos, aumentando a esperança para portadores de patologias como diabetes, mal de Parkinson, lesões de coluna e mal de Alzheimer. Enquanto isso, em Jesusland, sr. Arbusto continua misturando ciência, política e religião, impedindo o avanço da pesquisa por lá e de tabela, diminuindo a participação americana no que será o negócio do futuro para as indústrias farmacêuticas. Estagnação, essa é a palavra. A melhor frase dessa descoberta inovadora importantíssima veio do cientista Rudolf Jaenisch, do MIT (EUA): "Algumas pessoas vão odiar, outras vão amar; mas [a descoberta] põe a discussão num sustentáculo muito mais firme agora. As pessoas terão que repensar o argumento de que não é "eficiente"." Cutucão melhor, impossível. Simplesmente perfeito.

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Ciência coreana na pauta ainda: ontem estive no COEX Mall, onde estava sendo realizado o Congresso Coreano de Bioquímica e Biologia Molecular. Além das zilhões de palestras e posters interessantes, a palestra sobre o Projeto de Identificação das Proteínas do Plasma Humano, que tem a ambiciosa meta de identificar o maior número possível e imaginável de fatores circulantes no plasma, mostrou alguns dos seus resultados. Números simplesmente impressionantes, um esforço conjunto de mais de 30 laboratórios pelo mundo que sem dúvida entrará pra história da ciência mundial. Em breve, teremos resultados interessantes, mostrando que o esforço humano aliado à tecnologia avançada vai render bons frutos. O palestrante nesse caso era ninguém mais, ninguém menos que o pesquisador Gilbert Omenn, diretor geral do projeto, presidente da Academia Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), que é nada mais nada menos que a maior sociedade científica do planeta, órgão responsável pela excelente revista Science e pelo periódico de alto impacto PNAS. Além de brilhante cientista, Dr. Omenn mostrou-se também muito simpático, sorridente e extrovertido, quando uma mera cientista brasileira abordou-o e ouviu que ele reprova veementemente a intervenção da política conservadora-religiosa na ciência - que ele repetiu inúmeras vezes ser baseada em evidências, não em achismos passionais baseado em entidades supra-naturais. Não é uma preciosidade esse cientista?

Lucia e Dr Omenn
Ouvindo os bons conselhos científicos do Dr. Omenn em Seul.

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Falando em influência da religião sobre a ciência, o Panda's thumb está mostrando uma extensa discussão sobre a confusão em Kansas, EUA, envolvendo mais uma vez os defensores do "design inteligente", essa teoria mais furada que peneira. Vale a leitura.

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Ontem, dia 19 de maio, foi o dia Nacional da Física, no Brasil. Como estamos no ano mundial da Física, essa data passa a ter uma certa importância. O "Por dentro da ciência" parabenizou os companheiros de Einstein na labuta pelo melhor entendimento do nosso mundo físico. Eu também parabenizo, pois adoro a Física, geradora e interrogadora das grandes filosóficas questões do universo. Principalmente os raríssimos físicos que eu sei que lêem esse blog, entre eles o prof. Wayne.

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Outra data importantíssima: hoje é aniversário da Mônica, dona do melhor divã da blogosfera brasileira e figurinha fantástica, amiga virtual de BH que sonho um dia virar realidade virtual, ou simplesmente realidade. Mônica, muito, muito, muito feliz aniversário!! Você merece um grande beijo e um... um...

Tudo de bom sempre: pra você, especialmente!!

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UPDATE! Waldemar e Irivan já voltaram pro acampamento-base, e abortaram essa tentativa do fim de semana. Estão mais uma vez no base, esperando a chegada da tão sonhada monção de verão - que é prometida pra esse fim de maio. De acordo com o site do Waldemar, eles estão bem de saúde, e muito animados para a escalada no momento em que ela surgir. É aguardar.

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quarta-feira, maio 18, 2005

Ciência pro futuro

Passeando pela rede outro dia, achei esta página do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, com um pequeno documento sobre a política de biotecnologia na Coréia do Sul, com referências para algumas características da mesma política no Brasil. Afinal, o assunto é um tema da agenda internacional brasileira - pelo menos é assim que está sendo referido no site do ministério.

Logo de cara, a seguinte frase do ministro de Ciência e Tecnologia coreano me chamou a atenção (traduzida por mim):

"Tecnologia é um jogo para o rico e um sonho para o pobre, mas uma chave para o sábio."

Sábio, realmente. E no decorrer do documento, disserta-se sobre a evolução da política científica coreana, com muitos números e percentagens, desde a década de 60. Mas o que realmente me fez parar e refletir foi o trecho seguinte no item 3.1:

"Ao examinar a evolução da atividade de biotecnologia na Coréia pode-se constatar que o seu desenvolvimento ocorreu em três grandes fases, a saber (Rhee, 2000):

- durante a década de 80 – fase de alavancagem. Nesta fase, principalmente, a comunidade técnico-científica e o governo lideraram as várias iniciativas para desencadear o desenvolvimento da biotecnologia na Coréia. (...)

- durante a década de 90 – fase de decolagem. Com o desenvolvimento da biotecnologia e áreas correlatas, o setor privado se envolve mais intensamente. (...)

- ano 2000 – fase de cruzeiro. O ano em curso é marcado pelo lançamento do grande programa coreano de C&T: "The 21st Century Research Program". A biotecnologia é considerada atividade estratégica perpassando vários setores. O Programa prevê grandes investimentos em recursos humanos e avanços no conhecimento básico visando ampliar a capacidade inovadora da biotecnologia coreana."


A comparação com um avião decolando cabe muito bem, pois o país literalmente soube construir seu transporte que levasse ao que vemos hoje aqui, uma ciência forte e de ponta, sendo encarada de forma muito profissional e precisa.

O documento continua mostrando as fases da biotecnologia em países como EUA, China, Japão e Europa, todos com programas institucionalizados, sendo alguns com parcerias público-privadas. Planos bem delineados, embora detalhes estejam omitidos.

Aí chegamos na evolução da política de biotecnologia brasileira, onde a primeira frase já me fez parar no texto e gritar: "Epa! Tem algo errado aqui":

"A biotecnologia brasileira evoluiu de forma diferente dos outros países, caracterizando-se por uma evolução não linear e não coordenada."

Evolução não linear e não coordenada. O que isso significa - será que é: os planos foram escassos, pouco produtivos ou não houve um projeto consistente, a longo-prazo? Lendo o resto do parágrafo, percebi uma valorização da construção dos chamados centros de biotecnologia (um deles, inclusive, onde trabalhei), e dos respectivos programas científicos que o governo respaldou. Ok, ponto pro Brasil. Entretanto, fica notória a ausência de um plano linear a longo-prazo, robusto e com ênfase no desenvolvimento industrial. A pesquisa brasileira de ponta está na área agrícola, ainda - as EMBRAPAs são um programa de sucesso, não há como negar. Não estou reclamando, pelo contrário: se vendêssemos nossa tecnologia agrícola de forma eficiente, rendimentos bons seriam gerados para melhorias gerais da população. Mas é necessário que isso seja delineado de forma clara, não "salpicando" medidas a esmo.

Se olharmos por exemplo para o projeto brasileiro que obteve relativo "sucesso em biotecnologia" (pra usar um termo batido) na mídia nos últimos anos - o projeto Genoma da Xylella, financiado pela Fapesp - vemos mais uma vez essa característica de pensamento a longo-prazo deficitária. Temos hoje o organismo sequenciado, alguns laboratórios dedicando-se a pesquisar mais sobre certos genes dessa bactéria, mas nenhum "produto" final foi aludido a partir de tamanha informação gerada. Produzimos o conhecimento - o que já é louvável, mas não é tudo. Porque faltou o objetivo pragmático no caso. (Talvez seja questão de tempo: ainda veremos um belo produto/tecnologia saindo daí, e eu torço muito, muito, muito, muito para que isso aconteça e gere mais incentivos à ciência no Brasil.) Alguns podem dizer: "Ah, mas é necessário investir em pesquisa básica." Ninguém repugna mais essa dicotomia "ciência básica X ciência aplicada" do que eu. Tudo é ciência e precisa de investimento igualmente. Mas precisamos pensar a frente, no futuro, em termos teóricos E pragmáticos, em termos de ciência E tecnologia, porque isso sim faz a diferença na robustez de um projeto de governo que quer avançar pro futuro, e não estagnar no presente. Fez para a Coréia do Sul, com certeza.

Ciência é uma atividade a longo prazo. Mas é a tecnologia, um subproduto valiosíssimo da ciência, é que gera riqueza para uma nação. É preciso acreditar e investir tempo e dinheiro nas duas; não pensar apenas nas próximas eleições, porque é um legado para algumas gerações depois. E acho que aí é que o Brasil tem falhado um pouco. Mas só o fato de já haver um relatório desses apontando os caminhos de sucesso, a meu ver, já é um bom começo. Agora só falta agir.

Tudo de bom sempre.

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domingo, maio 15, 2005

Devore Seul

Lucia Malla tarda mas não falha. Prometi escrever sobre Seul há uns dias, e eis que a promessa hoje será parcialmente cumprida. Por morar aqui, há mais aspectos a serem abordados do que sonha nossa vã filosofia. Falar de tudo é praticamente impossível, por isso vou-me ater a algumas considerações.

Mas antes de falar da cidade propriamente dita, eu gostaria de repetir um comentário que fiz num post do Smart Shade of Blue essa semana, depois de uma longa discussão entre algumas pessoas sobre modelos econômicos de sucesso, onde alguém citou a Coréia do Sul e comparou com o modelo adotado pelo Brasil:

"Na minha humilde opinião de moradora local: o sucesso da Coréia do Sul como Tigre Asiático representa a vitória da economia de grandes corporações privadas. O país é praticamente regido/governado por 5 grandes corporações, que empregam uma parcela considerável da população economicamente ativa: LG, Hyundai, Samsung, SK Telecom e Posco (siderúrgica).

Agora se isso é sustentável a longo-prazo, e quais as razões que fizeram com que as corporações fossem a "temática" escolhida do governo para o desenvolvimento sócio-econômico como um todo (...), aí, eu já nao sei te dizer."

"(...) é difícil comparar Coréia do Sul e Brasil, em termos de projetos de desenvolvimento. Porque vai uma hora esbarrar na filosofia oriental de viver e ser: os coreanos são muito mais preocupados com a coletividade do que com o individualismo, com a tradição e manutenção do bem-estar do todo que a efemeridade do eu - isso a gente percebe no dia-a-dia, em atitudes pequenas como pegar o metrô ou ver as crianças voltando da escola. Eles largam qualquer noção de individualismo pelo bem da coletividade. Coisa que eu acho muito difícil de vislumbrar no Brasil."


Ao que o Smart respondeu:

"(...) A Coréia escolheu o caminho que, em economia do desenvolvimento, chamamos "campeões nacionais". Um dos problemas do Brasil é que nosso modelo de desenvolvimento _ o de substituição de importações _ jamais gerou a escala necessária para criar grandes corporações; das empresas brasileiras, só a Petrobrás e talvez hoje a Vale apareçam nas listas das maiores empresas do mundo. Na Coréia e no Japão, e na China de hoje, a aposta no mercado exportador permitiu uma acumulação de capital muito maior. Resultado: nossas empresas são nanicas, e costumam muito mais ser alvo de compra por empresas estrangeiras do que embriões de multinacionais brasileiras. (...) com a internacionalização o locus decisório das prioridades de investimento se move para fora do País."

Seul aéreaSeul - museu nacional
Vista aérea de Seul (as montanhas ao fundo estão na mais próximas à zona desmilitarizada); ao lado, prédio do Museu Nacional da Coréia.

E a pergunta é: o que isso tem a ver com Seul? Tem bastante a ver. Sem entender essa perspectiva econômica da cidade e do país (e isso vale pra qualquer lugar do mundo), fica difícil uma boa assimilação do enigma que cada cidade impõe. E Seul é um grande enigma da Esfinge para quem chega vindo de um país ocidental, seja lá qual for. A começar pela língua, que te dá a sensação de "Lost in translation", passando pela organização dos endereços, pelo comportamento das pessoas, pela cultura oriental. Num primeiro momento, senti-me completamente perdida como nunca havia estado antes. "Decifra-me ou te devorarei." Percebendo isso, tratei de me empenhar em decifrar aos poucos cada mistério da cidade, tentando ao máximo ver a lógica coreana de decisões, o quanto o sucesso econômico influenciava neste ou naquele aspecto, qual a história presente por trás de um hábito ou de uma rua, o efeito da escolha pelas grandes corporações no subconsciente das pessoas ou na perspectiva de futuro. Hoje, sinto-me confortável andando por lá. Não a decifrei completamente, deixei-me devorar aos poucos.

Atualmente, não chego a me sentir turista em Seul, mas também não sou local. Um meio-termo agradável, que me traz alguns benefícios e alguns prejuízos. Moro numa cidade-satélite, a cerca de 40 minutos de metrô do centro de Seul. Portanto frequento a cidade nos fins-de-semana ou quando algum evento especial aparece. Aliás, locomoção não é um grande problema por aqui, pois o sistema de metrô é excelente, te leva para qualquer canto da cidade. São 10 linhas com inúmeras interseções, e em todas as estações há sinais em inglês, bastando apenas prestar atenção para os nomes similares de alguns lugares - por exemplo, existe Sincheon e Sinchon (fala-se da mesma forma), obviamente estão situadas em lados bem opostos, e obviamente também eu algumas vezes já fui parar no lugar errado.

COEX MallInsadong
Predio SeulArtista de rua - Seul
Modernidade no World Trade Center Seoul e no centro da cidade, contrastando com as ruazinhas estreitas em Insadong, área de comércio tradicional, onde um artista de rua coreano nos remete à paciência típica oriental.

Uma vez nas ruas, Seul parece ser igual a qualquer outra metrópole: prédios modernos, letreiros luminosos, muitas pessoas andando apressadas, trânsito pesado, um certo fog no ar e ruído. Além daquele estilo próprio que só uma grande urbe possui. Mas... tem algo a mais. Tem esse mistério oriental, essa sensação de parado no tempo mas com o tempo andando aceleradamente. É um paradoxo, mas a cidade é composta de vários momentos de choque entre opostos: o novo e o velho, o moderno e o tradicional, o fácil e o difícil, o cheio e o vazio, ruas estreitas que desembocam em avenidas muito largas. Em cada esquina uma dessas contradições maravilhosas, que só dão mais sabor à tentativa de decifrar a cidade.

Não há endereço como no ocidente: rua tal, número X, bairro Y. Não, aqui o sistema é completamente diferente, resquício da época das dinastias, e muito mais confuso. Cada casa do bairro tem um número, e o endereço passa a ser bairro tal, número X. Só. Nada de nome de ruas ou avenidas nas calçadas. Um bairro, como todos sabem, é formado por inúmeras ruas, e daí dá pra imaginar a confusão que é achar um endereço. Para dar boas pistas, a cidade possui mapas com referências em todas as estações de metrô, e pasmem, quando queremos achar um local, as pessoas dão dicas tipo: ao lado do prédio que tem o MacDonald's, após o muro do Palácio, etc. E isso é levado a sério. Em coreano faz mais sentido essa confusão, mas para um ocidental desavisado, pode se tornar impossível em inglês - dependerá da sua persistência em decifrar a cidade. Ela já está te devorando aos poucos.

Museu de arte modernaTroca da guarda - Seul
Painel permanente no Museu de Arte Moderna de Seul, contrastando com a tradição da troca da guarda no antigo Palácio Real de Gyeongbokgung.

Seul é cortada pelo rio Han, local de lazer e divertimento para a população. O rio é incrivelmente limpo, há passeios turísticos no verão, e em suas margens está o imponente prédio do Parlamento e um dos estádios olímpicos da cidade, além de alguns prédios modernos como o 63, onde fica o cinema IMAX que eu adoro. A maior parte da cidade está ao norte do rio, indo em direção à Coréia do Norte, e o palácio do Governo, um prédio estrategicamente escondido nas montanhas, está a poucos quilômetros da zona desmilitarizada (DMZ). Um esquema de segurança mais-que-especial guarda a área, e fotos são terminantemente proibidas a quarteirões de distância. Seul também hospedou as Olimpíadas em 1988 e foi uma das cidades da Copa do Mundo vencedora de 2002, e por causa disso todas as placas de sinalização da cidade são bilíngues, embora a população fale um inglês sofrível em geral.

Cada bairro de Seul tem uma característica peculiar e aqui cito alguns - os mais interessantes pra mim, talvez: Insadong é uma área bem turística, com cafés e lojinhas de artefatos tradicionais; Gangnam é a Quinta Avenida, onde as lojas de grife mais sofisticadas estão; Yongsan é um mega-shopping-feira de venda de produtos eletrônicos de primeira linha; Itaewon é a área dos gringos, onde os estrangeiros se encontram e onde a base americana está instalada; Jongno-gu, a área administrativa, onde estão o palácio do Governo, as embaixadas de vários países, o antigo palácio real; Apujeong é o point chic-alternativo, onde os artistas estão - eles estão também concentrados na região de Jongno; Namdaemun é onde todas as ajumás se encontram para comprar o ginseng nosso de cada dia. E outras raízes, plantas medicinais, e temperos esdrúxulos/exóticos, que enriquecem a culinária coreana. Aliás, se você tiver um dia em Seul apenas, não deixe de conhecer o Namdaemun, porque lá está a essência da cultura coreana tradicional.

Ritual budista em SeulArquitetura coreana
Cena de um ritual budista no centro de Seul; ao lado, detalhe arquitetônico do telhado de um palácio coreano tradicional - as cores definitivamente me impressionam nesse estilo.

Os bairros são apenas nomes, eu sei, mas dão uma leve idéia de como a cidade se divide. A cada esquina desses bairros, sempre aparecerá algo para te deixar com uma pulga atrás da orelha, um questionamento tipo: o que será que esse coreano está fazendo/ testando/ comendo/ pensando? Invariavelmente, em todos esses locais, as pessoas estarão falando ao celular, esse artefato sem o qual 100% da população coreana não vive. (O celular é uma instituição, assim como mp3 players, dvd players de mão, palms, e todo o aparato tecnológico imaginável.) E como não há criminalidade alguma, as pessoas ficam à vontade para usar seus eletrônicos em todos os cantos e recantos da cidade, sem medo.

MetroOnibus em Seul
Cena chavão no metrô: alguém com a central de jogos e diversões (entenda-se o celular) em mãos; ao lado, um cartaz publicitário do novo livro do Paulo Coelho num ônibus em Seul.

Mas aí vem a pergunta: e qual a característica marcante de Seul? O que faria um turista vir a essa cidade? Não há pergunta mais difícil que essa para mim. Hoje, depois de viver a cidade em vários âmbitos, tento vislumbrar a atração máxima - e não acho. Não há um Cristo Redentor, uma Torre Eiffel, um Coliseu. Existem alguns palácios interessantes, museus, mas nada que seja um cartão-postal característico pro mundo, nada que venda a cidade num pacote de agência de viagens. O charme da metrópole Seul está nesse mistério que paira no ar, nesse momento perdido no espaço-tempo, nas esquinas abarrotadas de gente, no comportamento dos coreanos, no não entender absolutamente nada do que se está falando ao seu redor. E isso tudo, só provando/vivenciando é que as pessoas conseguem entender. Deixa a Esfinge Seul te devorar - eu garanto que vale a pena.

Tudo de bom sempre.



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P.S.: Hoje começa mais um ciclo de discussões do Clube de Leitura do LLL. O livro da vez é "Dom Quixote" de Miguel de Cervantes. Com sinceridade, Dom Quixote foi um personagem que não me impressionou. Li o livro aos 19 anos - e como diz o Rei Açúcar neste post, pode ser que a idade da leitura tenha me influenciado a não gostar tanto do livro. Achei enfadonho e cheguei no final do livro decepcionada. Acho que, embora eu goste de viajar na maionese, prefiro a lucidez do Sancho Pança.

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quinta-feira, maio 12, 2005

O lixo pelo mundo

Saí do Brasil pela primeira vez para um estágio em Potsdam, Alemanha (ex-Alemanha Oriental). Cidadezinha ajeitada a 30 minutos de trem de Berlim, cheia de castelos suntuosos e ruas organizadas, e que havia sido destruída completamente durante a Segunda Guerra Mundial. E com o suor restante da dor da separação que as Alemanhas sentiram por tanto tempo, visto que sua fronteira com Berlim Ocidental era um lago não muito largo. (Acho que caberia um post inteiro um dia para elogiar essa delícia germânica.)

Com os olhos deslumbrados de quem nunca havia tido a experiência internacional antes, muitas coisas me maravilharam naquelas primeiras 24 horas do verão alemão de 1997. Entretanto, devo confessar que o que mais me chamou a atenção ali, naquele meu primeiro dia foi... o lixo. Sim, o lixo.

Talvez seja melhor dizer nesse caso a falta de lixo. Ou a organização metódica da coleta do lixo. Eu morava num prédio de alojamento estudantil de 6 andares, 24 apartamentos/andar, e no estacionamento, uma área separada designava as grandes latas de lixo para os moradores depositarem seus restos de consumo. Eram 8 tipos de lixo diferentes: papel, plásticos, vidro verde, vidro marrom, vidro branco, metal, orgânicos, e o resto. Foi minha primeira experiência com reciclagem de lixo, e toda a teoria que eu tinha ouvido tanto em aulas de Educação Ambiental havia de repente tornado-se uma realidade: eu tinha que reciclar.

(Lembro dias depois de uma discussão durante o almoço em que meus colegas de trabalho reclamavam desse sistema, pois "gerava muitos lixos menores dentro de casa". Eu, mal-chegada do Brasil, decidi que não mencionaria os efeitos que a ausência de um plano de reciclagem do lixo pode gerar na sua cidade. Talvez fosse chocar demais meus novos colegas.)

Fato é que desde que tive esse primeiro encontro com um mundo onde reciclagem de lixo não era só teoria de sala de aula, e vendo os benefícios diretos que a reciclagem trazia (maior conscientização, limpeza urbana, etc.) reparo especialmente nos programas de coleta de lixo dos lugares onde vou. Ok, todos estão carecas de saber que o advento do lixo é diretamente proporcional ao consumo de uma sociedade, que podemos diminuir o consumo de um monte de porcaria, blábláblá... Mas eu acredito que muito mais que a geração do lixo, é a forma como processamos o mesmo DEPOIS de criado que faz a diferença pra nós no momento.

Ao voltar pro Brasil, depois do período na Europa, resolvi prestar mais atenção para o lixo que produzia. Sem necessidade de muitos comentários: em Vila Velha (ES), Rio de Janeiro e São Paulo, lugares onde morei, a reciclagem era praticamente inexistente. (Moradores dessa cidade, como anda a situação atual da coleta de lixo nesses locais? Por favor, me reciclem de informações!)

E aí fui morar nos EUA em 2000. Outro choque: o consumo exacerbado, a descartabilidade das coisas todas, o lixo que se acumulava em proporções que eu não havia presenciado até então. Não sei os dados atuais, mas não duvidaria muito de alguém que me dissesse que os americanos são os maiores geradores de lixo do planeta. Há um tempo atrás, os dados eram de que americanos eram os geradores de ~25% do lixo mundial. Entretanto, em Boston, tínhamos em casa uma grande caixa de plástico onde tudo que pensássemos ser possível reciclar era colocado (não havia regras de separação), e uma vez por semana o caminhão da reciclagem passava e coletava tudo que estava naquela mega-caixa de plástico. Um sistema que é a cara do comodismo americano: recicle em casa a seu belprazer, alguém toma conta do resto pra você no seu portão, a um preço no final, é claro. Mas pelo menos, reciclava-se.

O choque mesmo veio quando me mudei de Boston para Honolulu. Veja bem, todos sabem que numa ilha, espaço é um bem caro. Portanto, quanto mais lixo, maior o problema espacial. E o programa de reciclagem havaiano... dava vontade de rir. Era apenas: junte na sua casa o que você acha reciclável e leve você mesmo a um trailler de triagem numa escola - existiam poucos desse trailler na ilha toda. Ou seja, faça você mesmo tudo, do início ao fim. Poderia ser comparado ao alemão, com o detalhe da distância percorrida de casa até o lixo: enquanto na Alemanha eu andava uns 30 passos, no Havaí precisava ir de carro até um ponto X. Afirmo que, conhecendo a sociedade americana, esse não é um programa efetivo de reciclagem. Além disso, o excesso de lixo que os havaianos produzem (e é inacreditavelmente demais) é em parte queimado (fornecendo ineficientemente um pouco de energia para a ilha) e a outra parte levado para o continente, para algum estado no meio-oeste ou para alguma ilha do Pacífico, talvez, (como as Ilhas Marshall) que aceite em troca de um belo cheque a "hospedagem" do lixo do estado/país alheio. Será que as pessoas acreditam mesmo que o custo-benefício de mandar o lixo num navio pra sei lá onde é mais vantajoso que reciclar o que for possível, gerando inclusive adubo?

E aí chegamos na Coréia do Sul. Aqui, assim como na Alemanha, a área de reciclagem fica ali na esquina, no estacionamento do condomínio e está dividida em: metal, plástico grosso, plástico fino, papel, vidros, isopor, orgânico e o resto. Todos os domingos, deixamos lá nossa parcela de contribuição à melhoria do ambiente nesse país pequeno e de certa forma "ilhado" no mundo. Aqui acrescenta-se um ponto ainda: todos os lixos "comuns" (que não são reciclados) têm que ser colocados em sacolas especiais com a identificação do município, de forma que cada sacola é levada pro "lixão" da cidade a que pertence. O lixo é identificado. Essas sacolas custam alguns wons (e multa se você não as usa!), sendo portanto um incentivo à reciclagem: gaste menos sacola e economizarás no seu orçamento.

E pro Brasil? Bem, não sei a quantas anda o programa de reciclagem no Brasil - não costumo conversar sobre lixo com ninguém, pra ser sincera. Da última vez que estive no país, em 2003, era muito pouco que se fazia pelo lixo. Apesar do Brasil ser o país que mais recicla latinhas de alumínio no mundo, durante os muitos anos que morei no Brasil, o único programa de reciclagem que ouvia falar era o de Curitiba ou então as discussões teóricas que nunca saíam do papel. Eu acho que qualquer reciclagem é melhor que nenhuma. Faz bem pro bolso e pra alma do cidadão. No meio de todas essas diferentes experiências vividas em diferentes países com a questão do que fazer com tanto lixo, ficou patente para mim que a organização de um programa de reciclagem ameniza bastante o bolso do cidadão, mesmo que indiretamente, e gera esse espírito de "cidadania", a boa sensação de estar contribuindo para a melhoria das condições do ambiente ao redor. Além de gerar empregos para uma parcela da população em usinas de reciclagem.

Conformemo-nos: em menor ou maior quantidade, geraremos lixo. Temos é que tratá-lo de forma adequada e sem prejuízo ao ambiente do planeta.

Tudo de bom sempre.

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domingo, maio 08, 2005

Longe ou perto?

Quando encontro alguns amigos meus pelo Brasil afora, a primeira pergunta que fazem depois do básico "Tudo bem?" é: "Onde você está agora?" De brincadeira, respondo que estou no Brasil (cidade X) conversando com a pessoa que me pergunta. Mas obviamente, sei que a questão engloba uma curiosidade muito maior sobre o que estou fazendo da vida, e principalmente onde estou morando, onde é minha "base". Sim, porque todos sabem que adoro uma andarilhação.

(Alguns amigos sugerem que não ficarão surpresos no dia em que eu enviar um e-mail dizendo que estou morando na Antárctica, em Saturno - afinal, sou apaixonada por anéis - ou mesmo em outra galáxia! Veja bem: considero isso um elogio, não duvido das faculdades mentais de nenhum deles, pelo contrário, admiro-os cada vez mais.)

E inevitavelmente nessas conversas o conceito de distância vem à tona, como consequência natural.

Sempre tive uma resistência a considerar algum lugar "longe". Pode ser sentimentaloidismo barato, mas aquela frase-título do livro do Richard Bach sempre ronda minha cabecinha: "Longe é um lugar que não existe." Consequentemente, tudo é perto. Está ao alcance do seu desejo ou da sua vontade profunda. E passa a ser uma questão de atitude, muito mais que recursos.

É claro, existe uma necessidade logística em avaliar distância. Quanto tempo gasta-se para ir de ponto X a ponto Y? Vai-se de carro, a pé ou só de avião? Quanto custa essa viagem? Existem meios para torná-la mais econômica em todos os sentidos? Após toda essa investigação quase científica, toma-se uma decisão: ir ou não ir. Mas a distância física em si, o valor em km ou milhas, não chega nunca a fazer uma influência na minha pessoa. E a decisão é quase sempre IR.

Já viajei de carona, ou a bordo de empreitadas pra lá de esdrúxulas, no mais radical sentido da palavra mochilar. Também já participei de excursões/grupos de viagem com terceira idade, quarta idade, aborrescentes e com crianças pra diferentes lugares - e me diverti e aprendi com todos eles. Viajei muito sozinha, na maior parte das vezes, tomando as próprias decisões sobre ir aqui ou ali, e aprendendo principalmente com os erros. Mas nunca refutando um lugar porque era "longe". Porque tudo depende do seu objetivo: os meios para alcançá-lo não podem ser um obstáculo generalizado.

(Parênteses: Você sabe que distância não é um problema quando você: 1) Na infância, toda vez que seus pais, tios ou vizinhos falavam que iam para um lugar, você era a primeira a abrir a primeira gaveta que estivesse na frente, enfiar as roupas dentro de uma sacola de mercado e entrar no carro/ônibus, já imaginando os amiguinhos novos para "brincar" no novo lugar; 2) Na adolescência, você não perde uma única oportunidade de viajar com os amigos da escola, seja pra um sítio no fim do mundo ou pra cidade vizinha num "retiro espiritual" do colégio, sem falar das viagens pra casa de parentes em outros estados, who cares?; 3) Na faculdade, seu passatempo predileto nos fins-de-semana é ir pra rodoviária da cidade e ver com o pouco dinheiro que tem no bolso pra que lugar é possível comprar uma passagem de ida e volta e comer um sanduíche - e eu perdi as contas de quantas vezes fiz tudo isso. Mas como resultado de todas essas "viagens malucas", conheci inúmeras cidadezinhas do interior do Brasil, plantação de rosas e fazendas de cavalo, igrejas e monumentos desconhecidos, e me tornei amiga de pessoas maravilhosas em todos os lugares. E carrego essa filosofia comigo. Fim do parênteses.)

Distância é um número absoluto numa unidade qualquer inventada por humanos. A maior distância entretanto, é relativa: é medida entre a sua vontade de ir e a sua logística comodista - ou o medo da aventura, dependendo do caso. O sonho da viagem deve existir acima de tudo.

Hoje em dia, comodamente, temos a Internet, essa ferramenta que nos permite virtualmente viajar e nos aventurar por todos os lugares possíveis e imagináveis, num clique de mouse. Claro, não substitui a ida física aos diferentes lugares, mas ajuda na logística e no planejamento, e principalmente, te leva para lugares onde você efetivamente não pode ir ainda, como no topo do Everest ou nas novas galáxias descobertas. Sou da geração pré-internet, e tive que me adaptar ao conceito da rede nesse novo mundo, usando-o para meu benefício. Mas uma vez assimilado o conceito, aprendido como funciona, hoje posso afirmar que a rede é meu lugar número 01 de viagens: é na internet que meus sonhos vem se construindo pra novas viagens reais.

Mas todo essa divagação sem sentido sobre distância (que na física é um vetor com sentido! Faz sentido isso?) é apenas para dizer que nunca pude me sentir tão perto de minha mãe num dia das mães como esse: enquanto toda essa viagem na maionese foi sendo lançada na forma de texto por algumas horas consecutivas, eu conversava com ela pelo Yahoo messenger (com camera e voz), sobre a rotina nossa de cada dia, como se estivesse eu lá, no sofá da sala em Vila Velha, ao lado dela. E não estou perto mesmo todos os dias?

Feliz dia das mães para todas as mães que embarcam nessa viagem virtual com seus filhos, e podem curtir melhor a vida nesse mundo moderno, onde longe realmente é um conceito que não existe.

Tudo de bom sempre.

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terça-feira, maio 03, 2005

A força de um blog

Eu juro que imaginei ver essa notícia do New York Times espalhada por aí e sendo discutida pela blogosfera. Mas como me parece que ela meio que passou batido, resolvi escrever - ou pelo menos citar. Não sei sobre história dos blogs, nascimento da idéia, etc. Sei que alguns poucos blogs têm posts desde 2002, o que me indica que essa deve ter sido a data aproximada da concepção da idéia, mas isso é um chute. De qualquer forma, na minha recente procura pela Internet, nunca tinha ouvido falar de uma pessoa ter seu alto cargo administrativo numa instituição de pesquisa posto em cheque por uma rebelião via blog. Mas aconteceu.

E foi no Los Alamos National Laboratory, um centro de pesquisa nuclear avançado criado em 1943, e uma das instituições de maior renome científico e multidisciplinaridade do mundo. Grandes nomes da Física Quântica, da Geofísica, da Supercomputação, da Astrofísica passaram por lá - para citar só dois: Oppenheimer, o pai da bomba atômica, e Richard Feynman, prêmio Nobel de Física de 1965.

Entretanto, Los Alamos é um órgão do governo americano, e como tal, tem sua "agenda". Basicamente, é o instituto responsável por desenvolvimento e manutenção de armas nucleares, além de diretamente envolvido nos programas espaciais junto à NASA. Se você visita o site de Los Alamos, lê logo na introdução que a missão principal da insituição é com a Segurança Nacional, e que vários dos projetos por lá são secretos ou "confidenciais", em jargão CIA. Entenda isso como quiser no mundo pós-11 de setembro que vivemos.

Em janeiro deste ano, um funcionário do instituto abriu um blog para discutir os rumos "da casa". Uma espécie de fórum sobre diferentes assuntos, desde rendimentos de aposentadoria até políticas via Washington. Mas tudo começou a desandar quando na pauta foi colocado o erro de segurança ocorrido no ano anterior, quando um laboratório quase todo foi fechado pelo próprio diretor, que alegava o sumiço de um disquete com informações "sigilosas". Logo depois do circo armado, enquanto os demais funcionários trabalhavam na "melhoria das condições de segurança", soube-se que a história dos disquetes não era real - mas mesmo assim o laboratório permaneceu fechado por mais 7 meses, gerando um gasto de 750 milhões de dólares desnecesseario. Funcionários importantes pediram as contas. Essa atitude estranha do diretor (mais a atual confusão econômica que a instituição enfrenta), parecem ter sido a gota d'água para o início da "revolução do blog".

Anonimamente no blog, boa parte dos funcionários começou a discutir essa história e mais um monte de mancadas e políticas e regras e reclamações - e como não estamos aqui falando de gente idiota, os logins eram todos devidamente protegidos pelos nerds de plantão e não era possível deixar "cookies" nos computadores. Ou seja, impossível rastrear os donos dos posts de discussão, assim como quem postava comentários. Via blog, armou-se uma petição pedindo o afastamento do diretor do laboratório, que inventou a história do disquete. E o mal-estar gerado por toda a situação mudou o clima de trabalho, e pode levar o diretor a perder seu cargo importante.

100,000 visitas depois, uma reportagem no NYTimes e muito bate-boca, o blog parece ter mostrado que pode ser também uma boa arma de destruição em massa de pessoas incompetentes em cargos de responsabilidade. Talvez essas armas que seriam de Saddam Hussein estejam hoje ao alcance dos nossos teclados.

Tudo de bom sempre.

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segunda-feira, maio 02, 2005

Hoje é dia de festa!

Todo 02 maio pra mim é dia de festa, muita festa. Pode cair uma bomba atômica, pra mim não interessa - 02 de maio é dia de festa. Dia de celebrar o aniversário de duas das pessoas que eu mais amo na vida. E calham dessas duas pessoas serem mãe e filha. E eu ser, ao mesmo tempo, filha e neta delas. 3 gerações interconectadas por um sorriso singelo e meigo.

Vovo e mamaeVovó e mamãe, sentadas na calçada de casa, numa deliciosa tarde de verão em 1993.

Tenho 5 grandes amores no coração, órgão aliás que em mim é grande, cabendo bastante amor e carinho - e ainda sobrando espaço para todos os meus grandes amigos. Mas essas duas aí estão entre esses 5, num lugar especial primeira classe.

As lembranças de vovó - falecida em 2002 - são inúmeras e inesquecíveis, pois eu literalmente vivi a minha vó: ganhei cafuné, passei a mão na cabeça dela, puxei e amassei as bochechas, ouvi todas as histórias de Aracaju que ela tinha pra contar (e eram infindáveis histórias). Embora ausente, eu ainda a tenho comigo, e dou risadas lembrando de fatos, falas, conversas e gestos que para mim imortalizaram vovó. Porque nada melhor para se ter de uma pessoa que já não mais existe do que as boas lembranças. A felicidade de ter realizado e vivido tudo intensamente ao seu tempo.

Mamãe nasceu no dia do aniversário de vovó - que belo presente de aniversário! (E as duas pareciam ter esse cordão umbilical por toda a vida unindo-as: o simples fato de terem nascido no mesmo dia.) Tudo que sou, que penso, que exerço, devo à ela e à boa educação que me deu. Ensinou-me paciência, muita paciência, mesmo ouvindo meus gritos de aborrescente. Ensinou-me a perdoar, mesmo quando eu me machucava duramente. Ensinou-me a acreditar e amar as pessoas e a vida, mesmo quando as desilusões e frustrações apareciam. Ensinou-me a respeitar os diferentes pontos-de-vista, mesmo quando eles não faziam sentido - todos têm algo a nos oferecer de conhecimento, esse é seu mote. Ensinou-me a saber falar ou calar na hora em que é necessário. Ensinou-me a cantar pela vida afora, mesmo que os outros te chamem de ridícula. Ensinou-me a lutar sempre pelo que eu quero, mesmo quando era ela quem precisava estar lutando pela própria vida num CTI de hospital em 98.

(É nesse momento que as lágrimas de felicidade começam a escorrer do meu rosto, não consigo segurar a emoção de saber que ela está viva e feliz. Não acredito em milagres, acredito na força de vontade de cada um; e se alguém me ensinou essa lição, essa pessoa foi minha mãe, lutando com todas as suas forças por cada respiro, cada batida de coração, cada olhar, cada andar, cada gargalhar. Ela me ensinou o verdadeiro valor de cada copo d'água que tomamos, de cada pé que levantamos, um após o outro, pra seguirmos em frente pela vida. E me ensinou francês também, para os super-céticos que acham que emoção de mais é coisa de novela mexicana.)

Para ela, eu ainda sou uma criança, não cresci, e não devo crescer nunca. Pra quê? A vida lá fora já requer que eu seja adulta demais. Dentro de casa, sentadas na cozinha tomando café e jogando conversa fora, eu tenho mais é que voltar a ser a criança que eu sempre fui, aquela página em branco, e aprender cada vez mais e mais e mais, de ouvido em pé e olho arregalado, como se um mundo novo estivesse a se desdobrar em minha frente, cheio de mistério e fantasia.

Feliz aniversário, amor da minha vida! Você é a melhor e mais linda mãe do mundo para mim!

"Parabéns pra você/ nessa data querida/ muitas felicidades/ muitos anos de vida!! É pique, é pique, é pique! É hora, é hora, é hora! Rá-tchi-bum!!! Mamãe, mamãe, mamãe!!! Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!!!!"

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