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quinta-feira, junho 23, 2005

Ferias por 10 dias

Isso mesmo: Malla de malas prontas. (E apetrechos de mergulho.) As merecidas férias chegaram, oportunidade para descansar e repôr energias perdidas durante o semestre. Aproveitarei para visitar os amigos abaixo de quem sinto tanta falta.

Nemos na anemonaPeixe-mandarim
Peixes-palhaço (da mesma espécie do Nemo!) em sua anêmona; ao lado, peixe-mandarim macho acasalando com a fêmea. É bem raro ver essa espécie acasalando: são tímidos, e só o fazem após o entardecer, por entre corais-fogo - aqueles que ardem se você encosta neles...

Onde eu vou? Deixo pra vocês arriscarem...

Praia tropicalBarco típico
Vilarejo numa ilha que atualmente é um parque nacional marinho, exemplo maravilhoso do engajamento da comunidade local na proteção do ambiente com retorno para o próprio povoado: pesca de subsistência de melhor qualidade e ecoturismo (principalmente para mergulho). Ao lado, o barco típico desse local, com esses "tocos" nas laterais. Esse local é citado pela ONU como um dos melhores exemplos de conservação do planeta. Onde será? ;-)

Resposta (com mais fotos) daqui a 10 dias.

Até lá, tudo de bom sempre.

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terça-feira, junho 21, 2005

Do you speak English?

No post passado, a Manuela deixou o seguinte comentário:

"(...) Esse teu post me lembrou uma polêmica q meus amigos levantram certa vez, a da: "Estando em meu país, fale minha língua",ou seja, como somos obrigados a falar inglês nos E.Unidos, eles teriam q saber um mínimo de português...o q vc acha disso?(...)"

Eu, na realidade, estava há tempos pensando em escrever sobre o assunto. A Manuela deu o empurrãozinho que faltava; obrigada, Manuela! Vou tentar expor abaixo minha opinião - que é sempre passível de discussão, indignação ou admiração, lembrem-se.

No início deste ano, um senhor muito simpático chamado Fernando me enviou um email comentando sobre o esperanto, essa língua pré-fabricada para ser simples e facilitar a comunicação pelo mundo. Ele havia lido algo aqui no blog sobre a língua coreana, sobre a dificuldade dos coreanos em falar inglês, e sobre o incentivo ao estudo do inglês que existe aqui na Coréia - e na maior parte do mundo. Em seu argumento, seria muito mais interessante que os coreanos (e os demais habitantes que não têm inglês como língua-pátria) aprendessem esperanto, pois se todos começássemos a estudar esperanto, num futuro plausível, ela seria a língua dominante (e neutra) para trocas comerciais, comunicação entre os povos, etc.

Embora tenha lido todos os textos que o Fernando me mandou com muito carinho, tenho que dizer que eu não acredito muito na força do esperanto como língua "universal". Posso estar redondamente enganada, mas será difícil tirar a hegemonia inglesa desse páreo, principalmente na época em que vivemos, da tão falada globalização. Acho muito bonita e interessante a idéia de desenvolvermos uma língua única e exclusivamente pela neutralidade, uma língua que fosse utilizada em todas as transações comerciais do planeta sem refletir a hegemonia de uma cultura/povo/nação. A idéia é bonita, sem dúvida, com um senso de igualdade entre os povos utopicamente belo. Mas infelizmente na prática, eu vejo uma série de problemas.

Em primeiro lugar, acho que deveríamos pôr de lado um pouco o conceito de "língua do dominador". Sim, o inglês é a língua falada nos EUA (o "dominador" atual), é a língua falada no Reino Unido (o "dominador" do passado). Não dá para retroceder no passado e mudar a história, temos é que entendê-la e adaptá-la à nossa vivência atual. Mas o inglês também é (por causa da história ou de interesses econômicos, ou ambos) a língua OFICIAL de mais de 1 bilhão de pessoas: na Índia, na Austrália, na Nova Zelândia, nas Filipinas, em Hong Kong, em Singapura, na Guiana, na Namíbia, no Quênia, em Ruanda, no Zimbábue, na Nigéria, no Canadá, na África do Sul, na Jamaica, no Paquistão, na maioria das ilhotas do Pacífico, em outras tantas ilhotas do Caribe... sim, todos esses países (e olha que eu estou esquecendo mais alguns!) têm o inglês como língua oficial. Aprende-se inglês não por "curiosidade" mas porque é o vocabulário usado nas repartições públicas, nos serviços burocráticos, entre pessoas de tribos/comunidades distintas, etc. Algo como se em todos os órgãos do governo brasileiro as pessoas usassem inglês por exemplo - é isso que acontece na maior parte desses países. É a língua agregadora da Índia, por exemplo, um país que tem outras 21 línguas oficiais e mais de 1,000 dialetos. Além de toda essa "galera" falando inglês, a maior parte do mundo que não o tem como língua oficial, aprende nas escolas, por uma questão de necessidade: para inserção no mundo moderno.

(Parênteses: alguns filólogos - aqueles que estudam a língua - já desconsideram chamar "falantes de língua inglesa", dado que o inglês é tão abrangente que está incorporando características de cada povo por onde é falado, e se tornando muito mais um emblema global com características difusas. Outros filólogos já acreditam que essa expansão tem um limite. Quem está certo? Não sei, sinceramente. Mas eu apostaria minhas fichas nos primeiros, just in case. Fim do parênteses.)

Em segundo lugar, a não-existência de pessoas "nativas" em esperanto me faz desacreditar na acurácia do que será falado. Veja bem, eu aprendi inglês desde criança, e ainda cometo erros terríveis porque não fui alfabetizada/educada desde bebê em inglês. Há uma diferença enorme entre aprender uma língua quando bebê e aprender quando já se é mais crescido, e outra diferença abissal entre aprender de um falante nativo da língua e de um professor que foi lá e aprendeu também de alguém. E são essas diferenças que se refletirão friamente na quantidade de erros crassos que você cometerá ao expressar-se naquela língua. Por isso, acho difícil que o esperanto venha a ter essa acurácia - seria necessário que as pessoas adotassem esperanto como língua para seus filhos, e assim um trabalho de gerações se iniciaria.

Em terceiro lugar, o mundo está todo adaptado ao inglês. Não dá para negar isso. É talvez triste para um utópico sonhador ver que não há por onde lutar mais por uma outra língua que tire essa hegemonia. Mas é um fato: em qualquer país de outro idioma (Alemanha, Coréia, etc.) que você vá, as instruções estarão na língua do país e em inglês - pelo menos nas principais cidades, e dependendo do nível de desenvolvimento e organização pro turismo que o país tenha, nas cidades menores também. Faça o teste: entre no metrô e grite "Help!". Mesmo no Brasil, vai aparecer alguém querendo saber o que aconteceu, querendo te ajudar - mesmo que a pessoa não fale inglês, ela entenderá que você precisa de ajuda e tentará uma comunicação básica. (Eu já fiz esse teste num metrô do Rio de Janeiro, by the way.)

Essa adaptação transcende ao mundo dos negócios, onde contratos internacionais são fechados em inglês entre membros de países que não falam inglês; ao mundo do turismo, onde você passa a poder ir a qualquer lugar do planeta sem passar grandes apertos sabendo se expressar em inglês - sempre vai aparecer um fariseu entendendo; ao mundo da ciência, onde qualquer descoberta para ser validada, precisa estar publicada numa revista indexada em inglês; no mundo virtual, onde as ferramentas, se não estão em inglês, já utilizam palavras derivadas do idioma - ou alguém não sabe o que é um mouse, deletar um folder, ou resetar o PC (Personal computer)? Aqui na Coréia, por exemplo, é comum vermos letreiros escritos em alfabeto coreano (aqueles "desenhinhos") mas ao ler, percebemos que são palavras em inglês, como "newspaper" - em coreano, 뉴스 패 퍼.

O inglês é a língua da inserção, não há como negar. Eu já a chamaria como a língua da neutralidade. Por exemplo, perdi as contas de quantas festas, reuniões sociais e/ou eventos eu fui pelas esquinas da vida onde nenhum dos presentes era de um país nativo de língua inglesa - e no entanto, todos falávamos inglês para nos comunicar. (Essas são as festas que eu carinhosamente chamo "Festas ONU".)

Por mais difícil que possa parecer aprender inglês (eu não acho que seja, mas aprendi desde criança, então acho que não posso me ter como exemplo nesse caso), é necessário no mundo atual saber se comunicar em inglês, para que você esteja inserido nele. É uma constatação, e nesse ínterim, acho quase impossível, a esse andar da carruagem, que outra língua consiga fazer esse feito. "Ah! Mas o francês também já foi hegemônico, e hoje é apenas mais uma língua..." Sim, eu sei. Mas os tempos mudaram. O francês foi hegemônico numa época que não existia nem telefone direito, quiçá internet, para requisitar a demanda da comunicação internacional. Numa época em que boa parte da população tinha um acesso quase inexistente à alfabetização, quiçá a aprender línguas. Numa época muito menos interligada, intercultural, numa época pré-TV, pré-National Geographic, eu diria.

Por outro lado, confesso que sou apaixonada por línguas, e mesmo indo para lugares esdrúxulos com línguas escabrosas, eu tento aprender o mínimo para tentar me comunicar na língua local. Por exemplo, antes de ir para a Alemanha, frequentei aulas do típico "Alemão de sobrevivência". Ao chegar no Havaí, a primeira coisa que fiz foi me matricular na aula de havaiano. Antes de vir para a Coréia, fiz questão de pelo menos aprender o alfabeto deles, pra não chegar "analfabeta", excluída de boa parte do mundo coreano. Lembro do Jeff, um americano companheiro de república em Boston, alucinado por culturas exóticas, que se dizia muito incomodado ao chegar na Turquia e ter que falar inglês - ele queria praticar o parco turco dele, mas as pessoas, por saberem inglês e depararem-se com um americano, não pensavam duas vezes ao começar um papo com ele. Tascavam o inglês na lata.

Acho que é uma questão de educação, de simpatia. Quando mais de uma nacionalidade com línguas diferentes estiver reunida, falar inglês passa a ser uma questão de polidez. Se você estiver conversando com apenas uma pessoa, pode perguntar em que língua ela prefere a comunicação. Tenho amigos alemães que me visitaram no Brasil que queriam aprender português, e me pediam para conversar em português. Nenhum problema nisso, muito menos ainda se eles pedissem para conversar em inglês.

Não posso tacar pedra no inglês, como muita gente prefere fazer. Pelo contrário: eu agradeço sempre o fato dos meus pais terem me obrigado a estudar inglês desde pequena. Porque eu constato dia após dia que é saber falá-lo que me salva de boas roubadas, que me diverte e que me abre horizontes. Pra quem quer ser cidadão do mundo, não tem escapatória: o inglês te acompanhará, para todo o sempre. Eu não quero me preocupar com língua ao me comunicar: eu quero é ser entendida, e se o inglês é a língua do entendimento, let's speak English.

Tudo de bom sempre.

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sábado, junho 18, 2005

Os coreanos em ferias

As férias de verão estão chegando no hemisfério norte, e com elas, os planos de viagens. Embora na Coréia do Sul o período de férias seja relativamente reduzido para os trabalhadores - em média 10 dias por ano - são aproveitados pela maioria da maneira usual: viajando. (Interessantemente, as crianças em idade escolar têm férias de um mês apenas em julho, e suas maiores férias são em dezembro/janeiro, no meio do inverno.)

O principal destino do turismo doméstico é a ilha de Jeju, ao sul da Coréia. Já estivemos lá duas vezes, um lugar muito bonito, com vulcões, crateras, praias bonitas e bons locais de mergulho. Cheio de resorts também, e boas pedidas de diversão em família ou passeios radicais - fazer hiking até a cratera do Monte Hala, por exemplo. Nesse verão em particular, outro destino certo é Dokdo, muito pela tensão política que o Japão criou por causa dessas rochas no meio do mar.

Entretanto, é sobre o turismo internacional coreano que eu gostaria de refletir um pouco. Ontem mesmo, a governadora do Havaí estava aqui, tentando fazer acordos para aumentar o número de visitantes coreanos às ilhas. A queda foi brusca depois do 11/setembro, principalmente pelo problema que se tornou tirar um visto pros EUA - sim, os coreanos também precisam pleitear vistos na embaixada. (Diferente do brasileiro, o coreano acredita não valer a pena enfrentar fila, pagar taxas altas, a e entrevista pessoal para ir pros EUA. Como a condição de vida lá é praticamente a mesma que aqui, e existem lugares tão "paradisíacos" aqui perto quanto o Havaí, eles simplesmente desencanaram da "América". Ponto pra eles.) Em 1997, eram 120,000 coreanos por ano visitando o Havaí; hoje são 40,000. É uma queda muito grande para a indústria do turismo. Mas a questão é: os coreanos não deixaram de viajar. Esses 80,000 turistas mudaram seus destinos, simples. Para onde?

A China é, sem dúvida, o destino mais previsível, pela proximidade e parentesco cultural. Entretanto, boa parte dos coreanos que visitam a China vão a trabalho, em viagens de negócios - os famosos negócios da China. De férias mesmo, o destino é bastante similar ao dos demais mortais do planeta: paraísos tropicais ou cidades badaladas. Não há dúvidas que é muito "chique" viajar para Paris, Londres ou Roma - ultimamente, Praga parece ter se transformado no lugar must-go para os coreanos dada a quantidade de propagandas e programas de TV coreanos mostrando aspectos da vida tcheca.

No quesito "destinos tropicais", várias ilhas maravilhosas estão próximas daqui - a maioria a poucas horas de vôo de distância: Filipinas, Guam, Ilhas Marianas, Palau, mas sem dúvida, o maior número de propagandas é para as Maldivas. Todos esses lugares são extremamente bem-servidos de hotéis, com infra-estrutura turística excelente. O turista coreano não é muito independente: ele gosta de viajar em pacotes de agência, com tradutores e pessoas que farão tudo para eles. Turismo de gado, como chamamos.

Esse turismo de pacotes coreano é muito interessante. Quando estive na Nova Zelândia, pude perceber que em todas as cidades por onde passei, havia lojas de souvenirs e outras tranqueiras, assim como restaurantes, com letreiros apenas em coreano. Isso mesmo: os coreanos têm oásis para compras no exterior também. Algo como se visitássemos Casablanca e lá comprássemos lembrancinhas somente em lojas de brasileiros. Estranho? Mas é assim que a maior parte deles se sente bem no exterior - com o mínimo de imersão na cultura local. Mas fato é, que mesmo dessa forma, eles gastam bastante quando viajam, sendo portanto, turistas desejáveis em qualquer lugar que queira ganhar dinheiro com turismo.

É, o Havaí tem que estar mesmo preocupado com a mudança de rota que os coreanos decidiram para suas férias de verão...

Tudo de bom sempre.

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quarta-feira, junho 15, 2005

Lugares Impossiveis - pelo menos por enquanto

Decidi sem mais nem menos fazer uma lista de 5 lugares que eu gostaria muito muito muito muito muito de visitar um dia - mas que não há a menor chance atualmente (e talvez nunca haverá) por diversos motivos. Eis que são:

1) O topo do Everest - não tenho saúde para tamanha hipóxia nem fôlego para tal subida muito menos tolerância a temperaturas constantes abaixo de -20 graus. Mas ia ser um sonho chegar lá em cima... Se você quer ter um gostinho do que é estar lá em cima, esse site aqui te dá esse aperitivo.

2) A Fossa Mariana - deve ser um barato aquela escuridão total do fundo do mar, sabendo que você está no local mais próximo do centro da Terra que existe (está a 10,911m de profundidade). Fora os seres vivos que lá habitam, que devem ser um oásis de adaptações esdrúxulas pros biólogos. Se a tecnologia permitir, um dia, quem sabe...

3) Antártica - uma expedição na Antártica não ia ser nada mal, principalmente para ver todo aquele ecossistema dependente do gelo. Um cruzeiro eco-turístico servia, pra falar a verdade. Gostaria de mergulhar lá, mas sei que não sobreviveria à água super-hiper-ultra-gelada, nem com roupa seca de mergulho. Será que se alguém escrever um projeto de pesquisa sobre o metabolismo de geração de calor entre os seres humanos da subespécie Homo sapiens mallas, alguma instituição idônea financia?

4) Ilhas Comoros - na realidade, eu gostaria de poder ir num daqueles submergíveis até uma profundidade de uns 250m para ver um celacanto ao vivo de perto, em seu hábitat natural. Como nas Ilhas Comoros é onde a maior população deles se encontra, é lá que esse submergível utópico teria que descer.

5) Deserto da Namíbia - Embora não tão complicado de se chegar lá, é um local completamente inóspito, principalmente onde eu gostaria de ir, na costa do Esqueleto ao norte. Sonho com este lugar desde que vi em 1998 uma propaganda do cigarro Hollywood filmada lá, onde uns garotões desciam de sandboard por uma duna imensa vermelha que terminava numa praia. Na época, procurei no site da Hollywood e achei a informação do local exato onde foi filmada a propaganda. O lugar era lindo na TV, e desde então, sonho com essa aventura.

Sonhar não custa nada...

Tudo de bom sempre.

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P.S.: Feliz aniversário à jornalista especialista em TV e grande amiga de infância, adolescência, vida adulta e o que vier pela frente, Liana. Ela tem um blog de trabalho, onde publica assuntos que interessam aos seus alunos do curso de Comunicação. Mostrando sempre que está antenada com o mundo a sua volta... Parabéns, Liana! Muitos anos de vida, Liana!

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domingo, junho 12, 2005

Romance no Hawai'i?

Viagens românticas nutrem o sonho e a imaginação das pessoas em geral. Ir para "aquele" lugar especial, com "aquela" pessoa que amamos é sempre gostoso de pensar. Entretanto, tenho dificuldade em classificar um local em si como romântico. Pra mim, mais de 90% do romance de uma viagem dependem da interação com a pessoa que está com você, e não do lugar em si.

Veneza, por exemplo, é considerada um dos destinos mais românticos do planeta. Quando lá estive, minha única companhia era minha mochila nas costas. Adorei me perder pelas ruelas e canais de Veneza - embora não tenha sentido/visto/vislumbrado nenhum romance. Estava sozinha, e isso me bastou naquele momento. Já ouvi pessoas desistirem de visitar lugares interessantes por não terem com quem ir - e eu olho pra essas pessoas com um grande ponto de interrogação. Se eu tivesse esse mesmo questionamento, não teria ido a mais da metade dos locais onde fui na vida.

Entretanto, é claro, viajar acompanhado da pessoa amada é mais legal, divertido e interessante, sem dúvida. A troca de experiências, as conversas, os momentos mágicos, o companheirismo, tendem a aflorar, o que contribui mais para o sucesso total da viagem. Até os eventuais problemas são encarados com espírito mais relaxado. Ou na falta de outro termo, mais... romântico, enfim.

Um dos lugares mais "vendidos" como destino turístico romântico no mundo (principalmente para casamentos e luas-de-mel) é o Havaí, onde morei por um ano e meio. Mais enfaticamente, o Havaí representa o sonho do casamento "simples" numa praia tropical, com colares de flores no pescoço (os leis), brisa do mar, coqueiros, um belo pôr-do-sol e aquela sensação de isolamento do mundo. É o desejo da ilha deserta revisitado pelos padrões atuais. Só você e o seu amor eterno. (O Havaí é o local mais isolado do planeta: a terra mais próxima das ilhas está a cerca de 3,000 km ao sul, na Polinésia). Com alguns milhares de dólares, você contempla esse sonho - é o que fazem muitos americanos, japoneses e coreanos. Casar no Havaí (ou passar a lua-de-mel por lá) está na lista do "ser chique", e a indústria por trás dessa idéia rende milhões e sustenta as ilhas, a grosso modo.

E eu, como morei lá e vi a cena de noivas pela praia sendo fotografadas (vestidos e estilos os mais variados possíveis) muitas vezes, passei a acreditar que nenhum marketing turístico foi melhor elaborado e mais bem-sucedido no planeta que o do Hawaii. Vou explicar minhas razões.

Antes de mais nada, deixo claro que para mim o Havaí é realmente um dos paraísos na Terra. Não discordo dessa idéia que a indústria do sonho construiu, apenas tenho razões diferentes para acreditar nesse aspecto. É paraíso não pelo que se vê nos folhetos de agências de viagens, não pelo romance fantasiado, mas pela cultura, pelo povo e suas tradições, principalmente pela diversidade de ecossistemas e belezas naturais num lugar tão pequeno: tem desde praias para surfe radical a montanhas com neve para snowboard, passando por florestas tropicais, cânions sedimentares, praias cristalinas, arco-íris quase diários, vulcões em erupção, cidade grande (Honolulu tem quase de 1 milhão de habitantes e fervilha de atividades interessantes), vilarejos com meia dúzia de casas, áreas desérticas, cachoeiras,... recantos para todos os gostos. Essa diversidade e essa cultura são o que fazem para mim a diferença no conceito de paraíso.

Entretanto, é o Havaí-romance-dos-sonhos-e-dos filmes-de-Elvis que as pessoas acham ser verdadeiro, fruto desse marketing bem-sucedido. E por quê é apenas sonho?

Vista aérea de Honolulu com Waikiki ao fundoHotéis em Waikiki
Vista aérea de Honolulu, com o vulcão Diamond Head ao fundo e o Oceano Pacífico envolvendo a ilha de O'ahu. Ao lado, praia de Waikiki, onde a maior parte dos casamentos (e dos sonhos) dos turistas se realizam.

Em primeiro lugar, boa parte dos turistas românticos que desembarcam em Honolulu para casar ou lua-de-melzar não saem de Waikiki, a praia mais famosa da ilha de O'ahu. Waikiki, um bairro de Honolulu, é o retrato mais descarado do estereótipo americano: era um alagado até 1921 (quando o canal de Ala Wai foi construído) e se tornou uma praia por aterro usando areia branca de outras ilhas (principalmente da vizinha Molokai), com o local geograficamente escolhido de acordo com a posição do sol (garantindo belos pores-do-sol diariamente), o volume de chuvas na área (é um dos locais menos chuvosos no Havaí, o que garante quase sempre dias ensolarados de céu azul pra todas as fotos), o vento quase inexistente (apenas a brisa do mar é válida nos sonhos), a serenidade do mar (ao contrário do que todos imaginam, surfe em Waikiki é visto pelos nativos como patético - as ondas de lá são apenas para iniciantes ou completos analfabetos do surfe como eu), a presença de um vulcão típico dormente ao fundo, o Diamond Head (mais uma vez, para sair bonito na foto) e outros fatores previsíveis de bons lucros no turismo. Um lugar que deveria por definição agradar principalmente adultos enamorados, mas que também fosse acessível a crianças, solitários, idosos, famílias inteiras, enfim, todos os gostos possíveis. E esse marketing foi bem-sucedido. Passeando pelas ruas em Waikiki - diga-se de passagem, um bairro em que os havaianos mesmo pouco vão - é fácil esbarrar com toda essa miríade de "clientes", a entrar e sair das inúmeras lojas chiques ou de algum dos vários hotéis à beira-mar. Convite certo ao consumismo desvairado tão americano de ser.

Em segundo lugar, a outra boa parte dos turistas românticos se enclausura nos resorts de luxo presentes nas 3 principais ilhas (O'ahu, Hawai'i e Maui), afastados de qualquer civilização, onde as cerimônias de casamento são ainda mais chiques e a sensação de paraíso artificial é mais forte ainda. Nesses resorts, vive-se com intensidade o Havaí dos filmes de Elvis - a imagem do romance perfeito se perpetua em vários rituais como luaus, shows de hula, drinks coloridos, tudo embalado num pacote só, de areia branquinha com água cristalina e peixinhos coloridos - talvez até golfinhos, dependendo do resort.

Em terceiro lugar, foi consolidada com os filmes de Elvis Presley uma imagem do Havaí como ilha da fantasia e do amor, onde você chega e ganha colares de flores (isso só acontece se você vai por uma agência ou se seus amigos compram um colar para você numa das inúmeras vendinhas no aeroporto), é recebido por uma havaiana deslumbrante e pode literalmente esquecer dos seus problemas - vivas mais uma vez ao isolamento da ilha de tudo e de todos. Quando morei lá, uma das percepções mais vívidas em mim era a de que os problemas chegavam ao Havaí diluídos: tudo é muito distante da realidade em que você vive, mesmo não estando no circuito "paraíso artificial" dos turistas comuns. Afinal, o arco-íris está quase todos os dias brilhando no céu para todos indiscriminadamente, confirmando que não há problema que não se resolva quando o espírito de aloha está no ar. O Havaí era uma boa fuga da realidade do mundo, independente do marketing utilizado.

Praia de Hanauma BayWaimea canyon
O que muitas vezes é deixado de lado pelos turistas de Waikiki: a maravilhosa e única, praia de Hanauma Bay, que está dentro de uma cratera de um vulcão, com um recife de corais lindo cheio de peixinhos coloridos, ideal para snorkell e uma das minhas praias favoritas no planeta; ao lado, cânion de Waimea, na ilha de Kauai, um exemplo da diversidade de relevo e ecossistemas existente naquele pedacinho mágico no meio do Pacífico. Hanauma Bay é um parque estadual, e leis de proteção ambiental restringem o número de pessoas que visitam, para benefício do ambiente.

Toda essa propaganda eficiente da indústria do romance termina por moldar os sonhos das pessoas e traz enormes lucros ao Havaí. Veja bem, não acho que isso seja um pecado, pelo contrário: o Havaí merece ser visitado por todos pelas mais diversas razões, principalmente se entre elas estiver o fato de ser o seu sonho pessoal. O que me incomoda é o turismo de um lugar só - o Havaí é tão diverso e tão bonito, não entrava na minha cabeça que alguém passasse uma semana lá e não fosse a Hanauma Bay, por exemplo, uma praia dentro de uma cratera vulcânica que é um verdadeiro aquário natural e sem dúvida uma das jóias havaianas mais preciosas. É triste que as pessoas não se interessem pela cultura local verdadeira, apenas pelo que lhes foi moldado. Não há o questionamento: "será que os havaianos realmente vivem assim o tempo todo?"; e isso me incomodava um pouco. Mas entendo perfeitamente que existe a questão tempo também: o casal compra um pacote turístico de casamento/lua-de-mel por 4 dias no Havaí, quer viver um sonho colorido tropical naqueles 4 dias, se afastar da realidade e se divertir, não quer esquentar a cabeça fazendo tours chatos ou cansativos. Quer mais é entrar no espírito de aloha mesmo. O que só mostra mais uma vez o quanto o marketing de turismo do Havaí foi realmente bem-sucedido: traga o ideal de paraíso para um lugar e as pessoas virão visitá-lo. Verdadeiro campo dos sonhos.

Arco-íris no HavaíPôr-do-sol em Waimea Bay
O Havaí dos sonhos: o "estado do arco-íris" e seus maravilhosos e românticos pores-do-sol... Esse aí, em Waimea bay, no North Shore da ilha de O'ahu.

E sonhos são sonhos. Não temos domínio total sobre eles. Deixar que sejam moldados ou não é uma decisão individual: você permite ou não que a propaganda te seduza. "Mais vale um gosto que dinheiro no bolso", já diz o ditado popular.

Eu particularmente, prefiro que a chamada "viagem romântica" dependa mais do paraíso mental a dois, e menos do paraíso real em si. No Havaí ou no Haiti.

Tudo de bom sempre. E feliz dia dos namorados!

P.S.: Devo confessar que o Havaí realmente possui um dos mais belos pôr-do-sol que eu já vi. E que a presença quase diária de arco-íris no céu me emocionava, sempre. Portanto, não é propaganda enganosa - é propaganda bem-feita, confiando no produto que tem em mãos. Mas isso porque eu sou uma romântica assumida...

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quinta-feira, junho 09, 2005

A vida de cada arte

E já que ninguém se arriscou a adivinhar o que as fotos do post de baixo eram, aí vão as respostas, para acabar com o misterio...
(Primeiro vem o meu título viajante, depois o que é na realidade.)

1) "O Abraço" ou "O Beijo de Klimt no mar" - uma água-viva em Jeju, Coréia do Sul

2) "Cortina de Vento" - um crinóide da Grande Barreira de Corais, Austrália

3) "Abstração de Linhas" - detalhe do manto de uma ostra gigante, Ilhas Marshall

4) "Uma Rosa é uma Rosa" - amontoado de milhares de ovos de nudibrânquio, Hawaii, EUA

5) "Almofada" - detalhe de uma anêmona-do-mar das Filipinas

6) "Textura morta" - detalhe do tronco de uma Manuka, árvore endêmica ameaçada de extinção, Nova Zelândia

7) "Alegria da Tristeza" - Células de mesotelioma humano (um tipo de câncer de pulmão) coloridas com corantes fluorescentes e vistas sob microscópio confocal a laser. Em azul são os núcleos celulares (onde está o DNA); verde e vermelho são proteínas específicas do metabolismo de selênio nessas células.


A vida é linda mesmo, e é por isso que eu sou apaixonada pelo seu estudo...

Tudo de bom sempre.


P.S.: Super-news!!! Senhor Biajoni finalmente tem um blog!!! No Verbeat, do mesmo pessoal do manifesto pela liberdade da Comunicação. Fantástico, e nem precisa falar muito: tenho certeza que será um sucesso.

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quarta-feira, junho 08, 2005

Arte na vida, sem designer

Não, eu não vou discursar sobre arte (atividade humana vasta da qual entendo quase nada, apenas admiro) nem sobre biologia (estudo científico da vida, um mundo tão vasto quanto); não é minha intenção hoje. Arte é, vida é. Intransitivo, sem predicativo.

Eu prefiro deixar aqui sete fotos, pequena demonstração de quão próxima da arte a vida realmente está (aos olhos humanos), e quão inspirada na vida a arte pode ser. Vida: fruto de evolução natural darwiniana, simples assim. Arte: fruto de evolução cultural humana, mais simples ainda. Processos com origens completamente diferentes, cuja força motriz é a mesma: perpetuação.

E deixo também para vocês a brincadeira de tentar descobrir que vida cada arte é.

12
Na minha viagem na maionese, a primeira eu chamo de "O Abraço" ou "O Beijo de Klimt no mar". A segunda é "A Cortina de Vento".

34
Terceira: "Abstração de linhas". Quarta: "Uma rosa é uma rosa".

56
Quinta: "Almofada". Sexta: "Textura morta"

7
Sétima: "Alegria da tristeza". (Como percebem, os títulos que eu invento são umas viagens...)

Tudo de bom sempre.

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Mais viagens...

- Via NemoNox, esse artigo em português comentando (ou melhor, criticando com excelente razão) a iniciativa da Unifesp em dar uma palestra sobre criacionismo - ou melhor, a versão maqueada trash bushista chamada "Design Inteligente" (só de falar essa palavra eu já tenho azia). O mais legal é ver o nome de cientistas conhecidos propondo um documento de condenação à realização de tal palestra numa universidade federal. Esses são os que amam a ciência de verdade, e pra eles eu bato palmas. Mobilização já.

- A Cilene me surpreendeu com uma entrevista divertida de responder. Muito simpática a moça. Quem estiver curioso por mais viagens na maionese da Lucia Malla, corre lá e dá uma olhada na entrevista, que foi
publicada no dia 05/junho.

- Esse post é dedicado à Denise, que postou mais artes da natureza no domingo passado e que me inspirou a colocar aqui um pouquinho dessa arte também... Obrigada, Denise!

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domingo, junho 05, 2005

Fernando de Noronha: exemplo para o mundo

Hoje é dia Mundial do Meio Ambiente, uma data definida pela ONU para reflexão sobre o impacto humano no lugar que vivemos, a Terra, nos mais variados âmbitos. Acho importante que haja uma data especial para isso, embora devêssemos teoricamente pensar todos os dias no ambiente. Mas já que tantos outros problemas desvinculados do problema ambiental também assolam o mundo, na prática pelo menos um dia de conscientização já é algo a se comemorar.

Não gosto do termo "meio ambiente", porque pra mim é redundante: ou é ambiente, ou é meio; os dois juntos dão a impressão errônea de "metade do ambiente". (Conservar só metade??) Meu professor de Ecologia da faculdade também não gostava, e pedia sempre para usarmos um ou outro. Entretanto, meio ambiente é o termo português que se popularizou. No fundo, se as pessoas entendem o que é o ambiente, os problemas que enfrentamos e a necessidade de preservação ou desenvolvimento sustentável, já é o suficiente, em minha opinião. O termo usado vira semântica.

Poderia aqui citar vários problemas de conservação, as lutas infinitas que diferentes grupos travam em defesa do ambiente, a importância da Ecologia no nosso dia-a-dia, etc. Por exemplo, o tema da UNEP (órgão da ONU responsável por gerir a proteção ambiental) deste 05/junho é "Cidades Verdes - plano para o planeta". Alertar sobre um planejamento urbano adequado - que no final das contas melhore a qualidade de vida do ser humano sem prejuízo ambiental - é um dos desafios do mundo atual que merece melhor avaliação e mais opções. Muito interessante, sem dúvida.

Entretanto, prefiro não discutir problemas hoje, escrever sobre o que para mim é um dos exemplos mais positivos de boa conservação ambiental sustentada no planeta: o arquipélago de Fernando de Noronha.

Vista aérea de NoronhaPortinho de Noronha
Vista aérea do arquipélago de Fernando de Noronha; ao lado, o Portinho da Vila dos Remédios, de onde os pescadores e barcos de mergulho saem diariamente para suas aventuras no mar...

O projeto do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha (que compreende 2/3 da ilha principal) nasceu em 1988, numa idéia luminosa do IBAMA. Nesse mesmo ano, o arquipélago passou a ser jurisdição do Estado de Pernambuco, e desde então tem se mostrado um dos maiores exemplos de como fazer uma boa política de conservação funcionar.

Fui a Fernando de Noronha em 2003, 5 dias a passeio, e estava louca para conhecer a ilha e com olhinhos e perspectivas de bióloga, entender um pouco de como esse projeto de conservação funcionava. Uma viagem sonhada ao paraíso ilhéu brasileiro. Ilhas são em geral ecossistemas limitados, e quando são povoadas, existe uma forte tendência ao surgimento de problemas gerais, como lixo e obtenção de água potável, que se não forem bem administrados, levam a um caos sem limites (vide o exemplo das Ilhas Marshall, no Pacífico). Estava curiosa para ver como essa ilha brasileira funcionava.

Assim que chegamos no aeroporto da ilha, fomos logo pagar a taxa de permanência - um preço salgado pros moldes brasileiros, mas que é absolutamente necessária para a boa manutenção desse sistema de desenvolvimento sustentado. O número limitado de visitantes em Noronha também traz benefícios: fica mais fácil gerenciar problemas típicos humanos, como consumo de água e electricidade, geração de lixo, e também permite um certo "isolamento" que dá ao turista em alguns recantos aquela sensação libertadora de ilha deserta.

Também logo percebi que o nível de engajamento da população nos desafios ambientais da ilha era muito forte. Todos sabiam explicar de forma satisfatória a importância da preservação. É claro, a chave do sucesso do programa de conservação de lá é esse: envolvimento da população! A maior parte das pessoas tira seu sustento de atividades ligadas ao turismo ou à proteção ambiental do Parque. Mas o IBAMA teve preocupação especial com os pescadores, dando atividades alternativas ou viabilizando a pesca não-predatória, de forma que eles não sentissem o impacto do projeto de preservação de forma drástica. Na realidade, uma vez que a preservação de certas áreas começa, o número de animais marinhos tende a subir, o que só beneficia a pesca de qualidade sem destruição ambiental. O pescador passou a ver a importância de preservar no seu próprio bolso.

Além disso, outra atividade primorosa é a exibição de palestras noturnas diárias na sede do IBAMA. A ilha não tem muitas opções de lazer à noite, e uma boa propaganda levou à popularização dessas palestras: elas viraram point de juventude e paquera saudável. Nada melhor que aliar diversão com conscientização ecológica. As palestras são sobre diversos aspectos da ilha, explicações sobre as diferentes espécies animais que lá habitam e são alvo de conservação mais rigorosa (golfinhos rotadores, tartarugas marinhas, tubarões, etc.). São claras, em linguajar lúcido, acessível a todos, e muito bem articuladas pelos biólogos envolvidos.

A qualidade dos biólogos que estão em Noronha é outro ponto de elogios. A eficiência com que eles conseguem envolver a população local nas estratégias de preservação é inacreditável. Eu particularmente fiquei emocionada quando um ilhéu me citou o nome em latim de uma das espécies de tartaruga marinha. E não é só isso: as pessoas têm conhecimento sobre o comportamento dos bichos, a sazonalidade de algumas espécies, até formas de reprodução (com nomenclatura biológica!) são recitadas de forma clara pelas pessoas. Biologia no dia-a-dia das pessoas, o sonho de qualquer educador ambiental.

Tartaruga-verde nascendoGolfinhos rotadores
Duas espécies simbólicas dos programas conservacionistas exemplares em Noronha: a tartaruga marinha (a da foto é uma tartaruga-verde nascendo na Praia do Leão) e os golfinhos rotadores.

E como bióloga/viajante, gostaria de ressaltar algumas peculiaridades de Fernando de Noronha que me chamaram a atenção...

- A clareza da sinalização e cuidados com as diferentes trilhas da ilha. É praticamente impossível se perder por lá, e a qualidade da orientação permite investidas no mato até ao mais urbano dos turistas, permitindo a todos o acesso a vegetação. Poder experimentar de forma saudável o ambiente é uma boa forma de conscientização.

- O reduzido número de turistas estrangeiros. Talvez tenha sido a época em que fui, mas esperava muito mais estrangeiros - principalmente europeus, que são mais mochileiros em geral. Considerando o exemplo de desenvolvimento sustentado e refúgio ecológico que a ilha é, tenho certeza que atrairia muitos ecoturistas, principalmente nas épocas do ano menos visitadas por brasileiros. Se um estrangeiro me perguntasse uma dica de turismo ecológico no Brasil (ô, pergunta difícil de responder!) eu diria Fernando de Noronha.

- O trabalho de conservação dos diferentes projetos, principalmente o Tamar na Praia do Leão, e o dos Golfinhos Rotadores, na Baía dos Golfinhos. A seriedade e eficiência com que esses projetos são desenvolvidos mostra um amadurecimento na consciência ecológica marinha nacional - ao ponto das embarcações não reclamarem sequer da proibição de se aproximar da Baía dos Golfinhos. Isso por exemplo não existe no Havaí, o outro local no planeta onde os golfinhos rotadores tendem a se agrupar num local específico, e onde os barcos chegam bem próximos aos animais. Se por um lado aproximar-se de um golfinho pode gerar mais consciência ambiental e ecológica, por outro lado, pode estar perturbando seu comportamento natural (os golfinhos que se aproximam em geral são os machos, tentando desviar a atenção do "invasor" das fêmeas que ficam mais afastadas do grupo).

- A regulamentação do IBAMA levada à sério quanto ao horário de visitação (de acordo com a maré), ao tempo de estadia e ao número de banhistas na praia do Atalaia, um aquário natural rico em vida marinha, de águas cristalinas, onde se pode snorkellar em meio a cardumes de peixes coloridos. A existência de pequenas regras, como a proibição do uso de nadadeiras, mostra o quão detalhada é a preocupação ambiental do IBAMA, em prol da biodiversidade ali existente.

Cardume de cocorocasPraia do Atalaia
Um cardume de cocorocas nas águas de Noronha, cristalinas como as da praia da Atalaia (ao lado), verdadeira piscina natural.

A fauna e a flora de Fernando de Noronha provavelmente agradecem todo esse esforço que deve ser visto como um orgulho do Brasil perante o mundo.

Tudo de bom sempre para os ecossistemas do planeta.

Baía dos PorcosEntardecer em Noronha
Dois Irmãos, um dos símbolos de Fernando de Noronha, em dois momentos: visto da trilha que vai para a Baía dos Porcos, e ao entardecer na praia da Cacimba do Padre (point surfista).

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sexta-feira, junho 03, 2005

Memetica musical

O Fernando, como sempre, aprontando. Não bastasse ter um blog divertidíssimo, estar à frente do Stuck in Sac durante as férias da Leila, sugerir post pra mim (há tempos, mas tá valendo), agora me passa esse meme musical.

(Parênteses: Memética é um termo derivado da idéia de "meme", cunhado pelo biólogo evolucionista Richard Dawkins em seu best-seller biológico "O Gene Egoísta" para descrever o que seria uma unidade hereditária cultural (meme) análoga à unidade hereditária biológica (gene). Em seu livro, ele discursa sobre o fato de que, enquanto a evolução da vida segue o molde darwiniano, a evolução cultural, ou dos memes, seria de caráter lamarckista, ou seja, características adquiridas sendo passadas pra frente. Considerações e refutações brilhantes à essa hipótese existem, feitas por biólogos de calibre como Edward Wilson e Ernst Mayr. Boas discussões em português sobre Dawkins você encontra no blog Ciência em Dia, e na seção Ciência e Sociedade do blog supra-citado você verá a fogueira que virou o debate sobre as idéias de Dawkins no post de 25/maio. Recomendadíssimo para quem se interessa mais a fundo por evolução... E o Marcelo Leite, "dono" do Ciência em Dia é um jornalista científico que não decepciona, muito antenado. Fim do parênteses.)

Bom, aí vão minhas respostas a esse meme musical - ainda bem que é curto...

1) Volume total de arquivos musicais no meu computador:

Até esse momento, 32.6 GB em hard-drive, mais DVDs com coleções (Zappa, John Cage e cia. ltda.) enviadas especialmente pelo meu amigo-adorável-biólogo-nota-10 Gabriel. Realizei um mini-projeto pessoal dando fim à minha coleção de cds: converti tudo pra mp3, passei pro iPod e pra esse HD externo, para me livrar das caixinhas e ficar mais leve o empacotamento de cds pra viagens. Valeu a pena.

2) O ú�ltimo CD que comprei foi...

"The Way Up", do Pat Metheny. Porque eu fui no maravilhoso show, queria me inteirar das músicas novas com antecedência.

3) Música que estou ouvindo neste momento:

"No attention", do Soundgarden.

4) Cinco m�úsicas que andei escutando bastante neste ú�ltimos dias:

Ouço várias ao mesmo tempo: Audioslave, Pat Metheny, Hermeto, Chico Buarque, Stockhausen, Marina Lima... Mas a que tenho ouvido com mais frequência é a do Bob Esponja, todo dia, na hora do desenho... E serve também o "Concerto Gatofônico em miau maior" do grande Catupithoven? Todos os dias pela manhã no mesmo bat-horário de despertador... ;-)

Ah, e contrariando um pouco as leis da memética de Dawkins, não vou passar pra ninguém. Quem quiser herdar esse meme, fique à vontade...

Tudo de bom sempre.

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quarta-feira, junho 01, 2005

Educaçao coreana: verdades e surrealidades

Ainda na era Paleozóica deste blog, o Fernando me perguntou sobre como era o sistema educacional na Coréia do Sul pois havia lido uma reportagem no Washington Post sobre a pressão que os estudantes coreanos sofrem para serem os melhores. Foi mais ou menos na mesma época em que saiu uma reportagem de capa da Veja no Brasil sobre o mesmo tema (na edição de 16/fevereiro/2005, infelizmente inacessível para quem não tenha assinatura paga). Prometi escrever sobre o assunto assim que tivesse essa Veja em mãos, pois leria a reportagem e poderia comparar com as opiniões que angario por aqui. Pois bem, a Veja chegou pelo correio semana passada, depois de longo e nada tenebroso inverno. E eis a minha opinião geral, 100% passível de discussão.

Há alguns anos eu não pegava uma revista Veja de papel. Confesso que me incomodou um pouco no início. O primeiro fato que me chamou a atenção foi a (falta de) qualidade do papel e da impressão, comparada às revistas que leio por aqui. O segundo fato foi logo na seção "Carta ao Leitor" dessa edição, uma foto da repórter responsável pela matéria da capa no castelo de Gyeongbokgung em Seul - infelizmente não tenho como mostrar a foto aqui. Mas das duas, uma: ou a foto foi tirada às pressas e não passou por um crivo técnico (entenda-se Adobagem ou Photoshopada) ou era uma montagem bem-feita - e aí teve uma adobagem feita nas coxas. Sim, porque a repórter está mais desbotada que todo o resto da foto, as tonalidades de preto não batem, a iluminação não condiz, e a sombra dela contradiz a sombra do palácio. A explicação surreal pro fenômeno seria que dois sóis levemente separados estivessem no céu no momento do clique. E ainda vivemos na Terra, não no planeta de Luke Skywalker, certo? O terceiro fato que me incomodou foi uma tabela vista ao folhear rapidamente no Guia de Saúde sobre tipos de colesterol: a tabela está completa e biologicamente ERRADA. Como isso é publicado??? Será que não houve revisão? (Diga-se de passagem, tabela nunca foi o forte da Veja.)

Passado o impacto inicial, pus-me a ler a reportagem sobre as "lições que o Brasil deveria aprender com a educação coreana". Gostei muito de saber os números e estatísticas sobre a Coréia, principalmente em comparação com o Brasil, informação que eu não compilaria sozinha por divertimento. A reportagem inteira é um grande elogio ao sistema coreano, ao investimento maciço em educação básica que foi feito pelo país há mais de 20 anos, e que hoje recolhe excelentes frutos, através de desenvolvimento tecnológico. Até o ponto negativo colocado do sistema é visto com olhos brandos: a alta taxa de suicídio juvenil rivaliza com o Japão, mas não é maior que o do vizinho, assim como o fato de ainda existirem castigos físicos caso os alunos falhem. Esses problemas não merecem mais de um parágrafo para a Veja, afinal a matéria é sobre as benesses do sistema. Jornalismo "imparcial" é isso aí.

É fato que a Coréia soube sair do buraco do subdesenvolvimento com um planejamento e força de vontades titânicas. Aplicar uma parte substancial do capital em educação básica foi crucial para o sucesso da economia e da sociedade como um todo. Além disso, investir em ensino profissionalizante, erradicar o analfabetismo, e principalmente pagar bem os professores primários, sem dúvida, foram medidas acertadas que trouxeram (e trazem) benefícios múltiplos. Isso o Brasil deve realmente copiar.

Entretanto, ao terminar de ler a reportagem, fiquei mais curiosa sobre a educação aqui, e comecei a perguntar às pessoas com quem convivemos o que elas achavam. Existe uma unanimidade em se dizer que o ensino público aqui é ruim, fraco. "Ahn??? Como é que é???" Depois do que eu havia lido, essa informação parecia vinda de um outro planeta Coréia.

Arte infantil no metro de SeulFamily education
Alunos de escola primária expõem seus desenhos numa estação no centro de Seul; ao lado, educação familiar, também extremamente valorizada pela tradição coreana.

Logo comecei a me situar. A educação coreana festejada, modelo para o mundo, é extremamente tecnológica, voltada para o afunilamento do conhecimento. Desde cedo, tenta-se descobrir qual a melhor aptidão da criança e incentivá-la a desenvolver ao máximo essa aptidão. Dessa forma, temos profissionais excelentes, pois eles foram treinados a o serem desde sempre. Especialistas, principalmente em qualquer área ligada à tecnologia. Entretanto, é a base do ensino geral, aquela que ensina os fundamentos de uma célula por exemplo, ou os meandros da história crítica, que é lamentável no ensino coreano - e razão principal pela qual a maior parte dos coreanos sonha em mandar os filhos estudarem nos EUA a qualquer custo. (Pra aprender inglês também, outra deficiência que será amenizada com o tempo.)

Para aprender um pouco mais e melhorar seu afunilamento, a maior parte das crianças são colocadas em escolas de reforço privadas, os Hagwons, onde aulas específicas de matérias como matemática, ciências, inglês e artes são incorporadas ao considerado "falho" sistema público de ensino. Vale ressaltar que os hagwons são um grande negócio em termos financeiros, além de responsáveis por trazer hordas de estrangeiros de língua inglesa para cá - o melhor professor de inglês é aquele que fala inglês desde sempre, essa é a idéia. Entretanto, conversando com alguns desses professores, percebemos que o hagwon nada mais é que a extensão da escola, no sentido de memorização. Aperfeiçoar-se, nesse caso, significa decorar mais e mais, adquirir destreza e agilidade de raciocínio tecnológico.

O estudante coreano da escola básica portanto não aprende a pensar, raciocinar de maneira confrontativa, crítica, nem mesmo no hagwon. O ensino é todo baseado em memorização, decoreba, do prezinho à pós-graduação. Eles sabem desmontar e montar de novo qualquer iPod, dão de 10 X 0 em qualquer estudante de outro país em Olimpíadas de Matemática, mas se você pergunta a opinião deles sobre aquecimento global, por exemplo, não vai ouvir mais que meia dúzia de palavras-chavões relembradas fracamente de algum parágrafo memorizado, se muito. Nada se discute, tudo se ouve de um mais velho ou lê-se num livro: aquilo é verdade absoluta, está certo. E a realidade é que essa visão não podia estar mais distorcida do mundo que vivemos.

Devido ao passado político de corrupção e subdesenvolvimento, o coreano é paradoxalmente muito politizado em assuntos internos. Os diversos conflitos que de vez em quando pipocam em Seul entre estudantes e polícia são reflexo dessa politização desatrelada de ensino crítico - ou do anti-americanismo que vem crescendo de uns tempos pra cá. Não me perguntem como a cabeça de alguém funciona sabendo política sem discutir suas bases ideológicas a fundo, mas parece ser o que existe aqui.

De forma alguma, quero desmerecer com esse post a educação na Coréia. Sem dúvida, o projeto educacional como um todo é vencedor, só facilitou o incrível desenvolvimento que vemos aqui, e é digno de muitas palmas. A filosofia oriental de valorização do trabalho e do saber também não podem ser rejeitadas na discussão de porquê o sistema funcionou. Mas, se esse modelo deve ser seguido pelo Brasil, é preciso que os pequenos erros que eles próprios vêem sejam analisados e levados em consideração, para que se tenha uma educação de qualidade no nosso país, já tão castigado pela falta da educação básica de qualidade.

Tudo de bom sempre.

Coreaninho com celularPasseata anti-EUA
Duas cenas muito comuns em Seul: criança com seu próprio celular em mãos, e passeatas de protesto - a da foto especificamente anti-americanos.

Viajando na maionese um pouco mais...

- Outra reclamação comum do sistema educacional entre coreanos é que as crianças têm pouco tempo para brincar, informação que eu discuto um pouco, dada a quantidade de crianças que todos os dias a tardinha estão no playground do condomínio em que moramos. E lendo livros no balancinho é que elas não estão...

- Um efeito colateral da atual preferência por uma educação mais "ocidentalizada" é o fato de valorizar-se em demasia quando as crianças aprendem/ouvem música clássica (Beethoven, Bach, etc.), jazz, ou então vão a teatros, óperas e afins. Como se isso fosse o único parâmetro de medição do grau de cultura de um povo. Aliás, o que é cultura mesmo?

- Todas as escolas coreanas têm um tamanho mínimo de área livre, de acordo com o tamanho da área construída. É lei. Criança não pode ficar confinada igual gado, pois isso afeta o aprendizado também.

- Esse humilde bloguinho (e sua reportagem sobre o Lula na Coréia) foi citado de forma delicada e agradável na coluna desta semana do Gravatá, no jornal O Globo. Senti-me honrada e agradeço à lembrança ao Gravatá. Eu, uma sentimentalóide de carteirinha, fiquei profundamente tocada pelo gesto.

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