Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

terça-feira, agosto 30, 2005

Problemas de fuso

Hoje eu estava lendo um fórum de estrangeiros na Coréia do Sul, e achei um tópico cuja pergunta era simples: "O que você fez em seu primeiro dia na Coréia?"

Achei interessante a indagação. Se bem me lembro, os dias anteriores a minha chegada aqui foram tão corridos, mas tão corridos, e eu estava tão cansada, mas tão cansada, que, associados ao jet-lag, me deram uma certa amnésia temporária. Ao chegar na Coréia (era 7 da noite, disso eu lembro), não me lembro bem da sequência de eventos que procederam, nem como as coisas realmente aconteceram. Há uma nebulosidade das lembranças, e percebi isso já no dia seguinte. 11h dentro de um vôo da Korean Air vindo de Honolulu - isso porque no dia anterior havia voado de São Paulo para Los Angeles (10h) e de lá para Honolulu (5h). Cheguei em Seul um caco humano, esmigalhada. E tudo que recordo é que 2 pessoas da empresa nos esperavam, saímos pra jantar (meu primeiro choque com a comida apimentada...), Catupiry não quis sair de dentro da casinha dele - ainda assustado com a viagem que teve no bagageiro do avião, provavelmente - e eu dormi, muito. Muitas horas. Foi extremamente cansativo para mim.

Entretanto, comecei a revisar mentalmente todas as viagens que fiz por aí e percebi que em todos os lugares onde eu chego, o cansaço é grande e eu vou logo dormir. Um sono incontrolável. Quando cheguei em Potsdam (Alemanha), em 97, lembro que ao me instalar, estava cansada e disse a mim mesma: "Vou dormir uma horinha só, para ainda hoje dar umas voltas no parque" - eu morava num alojamento dentro de um parque lindo. Essa uma horinha transformou-se na realidade em 8 horas. Em Boston (2000), foi a mesma coisa: o avião chegou de manhã cedo, eu me instalei, e dormi até cerca de uma da tarde. Até de San Diego para Honolulu, que são apenas 5h de viagem, quando cheguei em casa caí num sono profundo de muitas horas.

Em todas essas viagens, além do cansaço e stresses comuns da jornada - vigiar malas, pensar em documentação, impacto da língua, a ansiedade do desconhecido, etc. - havia uma diferença de fuso considerável do ponto de partida para o local de chegada. Donde concluí prontamente que sou bastante suscetível a sofrer de jet-lag.

O jet-lag é uma perturbação do seu relógio biológico intrínseco, causada pela variação de fuso horário. O organismo humano tem uma série de reações (comer, dormir, liberar certos hormônios, etc.) ajustadas para um ciclo padrão de luz-escuridão. As mudanças nesse padrão são ajustadas gradualmente, com tempo. É por isso que não sentimos muito a mudança da extensão do dia durante o ano - porque cada dia vai encurtando e/ou aumentando aos pouquinhos, e a isso o organismo consegue adaptar-se facilmente. O problema do jet-lag começa ao viajarmos cruzando áreas de fuso (viagens em longitude) em pouco tempo, e nesse caso, quanto mais fuso, mais bagunça no organismo.

Essa perturbação do ciclo dia-noite é sentida pela glândula pineal, que fica próxima a região central do cérebro. Essa glândula produz a melatonina, o principal hormônio envolvido na regulação do nosso ritmo circadiano. A produção de melatonina é estimulada pelo escuro, e inibida pela luz, por isso a melatonina é a principal responsável pela "noite biológica". Por isso também, ela vem sendo utilizada no tratamento de vários problemas de sono, assim como no jet-lag. Embora controvérsias ainda existam quanto à dose, frequência de uso e outros detalhes, já se faz uso terapêutico do hormônio na medicina, que é vendido nas farmácias - embora estudos sobre a melatonina em outras funções como agente anti-oxidante, anti-depressivo, etc. sejam ainda unicamente especulativos. E como a pineal sente toda a mudança de luz? Ela possui ramificações nervosas que indiretamente desembocam na retina. Simples assim.

Tendo o relógio biológico um marcador bastante representativo - a melatonina - e sendo ela um hormônio protéico, é evidente que a variabilidade de produção do mesmo varia de indivíduo para indivíduo. Podemos especular que, a grosso modo, é a diferença intrínseca que temos de produção de melatonina que nos predispõe a sofrer mais, ou menos, de jet-lag numa viagem longa. Em geral, o relógio biológico das pessoas é de características matutinas ou vespertinas. Matutinos são os que têm o pique de atividade pela manhã, e vespertinos aqueles que começam a se empolgar em qualquer atividade em torno das 6 da tarde. (Eu sou vespertiníssima.) Além dessa divisão geral, existem as nuances da produção de melatonina e as diferenças de metabolismo de cada um. Conheço pessoas que viajam do Brasil ao Japão e não sentem nada, nenhuma diferença (ou mínima que seja), enquanto outras - como eu - basta cruzar um fuso horário que já sentem em demasia.

Quando em jet-lag, tenho um sono incontrolável. Meu olho se fecha sozinho, e a desatenção toma conta. Não consigo fazer uma linha simples de raciocínio que seja, desconcentração total - meu organismo precisa dormir de qualquer forma. Do Brasil para Honolulu, por exemplo, quando você volta 7h no passado (você viaja mais de 15h dentro de um avião e chega em Honolulu e só passaram 5 horas do mesmo dia!?!?!?), meu organismo pira, simplesmente. Acho que acrescento à minha pineal a informação de que fui pro passado, e ela entra em parafuso. Levei mais de 1 semana para voltar à normalidade do ritmo biológico.

E quando cheguei aqui na Coréia foi muito mais trabalhoso. Praticamente vindo direto do Brasil, a diferença de fuso foi de impressionantes 12h, havendo então uma parada em Honolulu - que estava no passado - e cruzando a Linha Internacional do Tempo no Pacífico - me conduzindo filosófica e literalmente ao futuro (!!). Resultado dessa bagunça temporal: quase 2 semanas para me adaptar ao horário coreano. Na primeira semana era muito comum eu acordar às 2 da manhã e não conseguir mais dormir, assim como não aguentar de sono às 3 da tarde. O conselho geral para o mínimo de jet-lag é tentar entrar no horário do local, forçar a dormir se for noite e tentar ficar acordada ao máximo durante o dia. Eu juro que eu tento. Mas não dá, o sono é sempre o vencedor.

Aliás, já tentei de quase tudo: chazinho de camomila, dormir bastante no vôo, não dormir, comer pouco, comer bastante, tomar um vinho, não beber álcool, beber muita água, ler livro... simplesmente nada ameniza. Sei que existe um kit "anti-jet-lag", que possui iluminação artificial e mais um monte de engenhocas que te fazem ajustar o horário - nunca testei, será que funciona? Acho que cada um é cada um, e tem sua receita pessoal. Como meu jet-lag está sempre lá, a solução mais fácil que encontrei foi aprender a conviver com ele de forma pacífica. Por isso, se viajo para algum lugar novo, já deixo reservado o primeiro dia para um descanso necessário. Caso a viagem seja curta, dou um jeito de aguentar as pontas (entenda-se baldes de café) e dormir só na volta, em casa. E se a viagem é de volta pra casa... ah! Dormirei na minha cama como uma passarinha por muitas horas, tenha certeza... Porque só uma coisa é certíssima: não tem jet-lag no mundo (e olha que eu já enfrentei uns bem fortes) que me impeça de fazer o que eu mais gosto - viajar.

Tudo de bom sempre.


P.S.: No início foi muito estranho para acostumar, mas hoje em dia me divirto com a diferença de fuso do Brasil em relação a Seul. 12 horas! Em geral, quando acordo, um mundo de coisas aconteceram do outro lado do planeta. Parece que todos os dias estou chegando de uma viagem de alguns dias, tamanha a informação que é gerada em um só dia no Brasil e no mundo. Isso tudo enquanto estou alheia a qualquer acontecimento, apenas dormindo...

Marcadores:

domingo, agosto 28, 2005

O melhor juiz (de futebol) do mundo

Quando criança, eu costumava falar pras minhas amiguinhas de colégio que eu era filha de juiz. E, bom, eu não estava mentindo - meu pai era mesmo juiz: de futebol, entretanto. Atuou até meados da década de 80, era da CBF, numa época em que a profissão de árbitro tinha glamour quase zero. Aliás, nem era profissão, visto que a maior parte dos juízes que frequentavam lá em casa tinham outra profissão com a qual garantiam o sustento; como meu pai, que era gráfico.

Mas ser juiz nos deu muitas histórias pra contar. Engraçadas, arriscadas. A mais vívida? Lembro-me uma vez de ter ido assistir a um desses jogos pelo interior do Brasil - jogos perdidos - com minha mãe. Time da casa contra o visitante. O time da casa estava mal no campeonato (acho que era estadual), e precisava ganhar. O campo era uma várzea daquelas, mas estava lotado - a cidadezinha praticamente inteira estava ali torcendo. Meu pai, sabendo que poderia ser um jogo tenso, pôs eu e minha mãe na arquibancada sentadas próxima a uma senhora mais idosa - com certeza pensando que as pessoas teriam mais respeito com a senhora ao lado. Lá pelas tantas do jogo, a velhinha começa a gritar: "Juiz ladrão, filho da p***!" Eu, com 4 anos na época, não entendi nada daquilo e tive a pior das reações: comecei a chorar. "Buáááá! Estão xingando meu pai!" - eu berrava. Minha mãe, sempre tranquila, tentava me acalmar e não deixar que os vizinhos de arquibancada percebessem quem éramos. Não teve jeito. Saímos logo do estádio, minha mãe com receio de que apanhássemos ali mesmo. Ao fim do jogo - que o time da casa perdeu - meu pai teve que sair escoltado, pois a torcida insana jogava de tudo nos árbitros - e numa dessas inclusive, algum torcedor jogou um radinho de pilha, radinho esse que está lá em casa até hoje, como troféu dessa época aventureira pelas várzeas Brasil afora.

(De acordo com meu pai, nesse evento, o time da casa era muito ruim mesmo. E ele, honestamente apitando, não teve como abrandar a derrota.)

Mas o futebol está na veia dele, desde sempre. Não dá pra separar o futebol de sua personalidade, e sempre admirei essa paixão magnética pelo esporte que ele tem. Assistir a jogos pela TV sempre foi muito divertido lá em casa: meu pai apitava o jogo em voz baixa, deitado no sofá. Sempre ouvíamos os sussurros: "Pênalti." "Cartão amarelo." "Lateral." "Não, está impedido." Fora as discussões surreais dele a cada comentário de Arnaldo César Coelho - que obviamente nem sabe do que se passa lá em casa. Dizem que juiz de futebol não tem time, pelo menos não deveria ter. Mas meu pai tem: ele diz para mim que é torcedor do Flamengo (só para tirar uma tricolor do sério...), mas eu sei que no fundo ele torce pelo América, do Rio de Janeiro. Torce, não: é testemunha. Ou alguém aqui conhece outra pessoa - que não seja o pai do Romário - que torce por esse time?

Crescendo num lar cheio de futebol, tive mesmo que pegar um pouco dessa paixão por osmose. Sou uma torcedora tricolor do coração. E gosto de assistir, discutir futebol. No Brasil, dava altas risadas com os programas de mesa-redonda e hoje, fora do país, me divirto muito lendo blogs de futebol, como o Balípodo, o Malas do Esporte e o Jogos Perdidos - que me trazem de volta essa nostalgia de estar no sofá da sala lá de casa, dando risadas, discutindo nonsenses futebolísticas e torcendo muito. (Meu pai lê alguns desses blogs também, para podermos discutir pelo Yahoo!Messenger.)

Atualmente, aliás, ele é um iniciante leitor de blogs. De política, em sua maioria, outro assunto que adora discutir. Lê o Noblat, o Barnabé, o César Maia, o Idelber (que alia política e futebol, duas coisas que ele adora); sugeri o Sítio do Sérgio Léo, acho que ele vai gostar da abordagem mais imparcial. E para descontrair, ele lê o Suburbia Tales (porque nossa alma suburbana jamais morrerá!), e principalmente o meu bloguinho, é claro. Como pessoa de alma jovem, ele está sempre antenado nas novas tendências e modismos. E eu poderia passar o resto da semana detalhando milhares de características que eu acho maravilhosas, humanas, em sua pessoa, e escreveria textos enoooormes. Razões que me fazem achá-lo o melhor pai do mundo.

Mas não vou. Porque hoje é dia 28 de agosto, e não quero tomar seu tempo. Ele vai passar o dia num jogo do Sub-60, seu time de fim-de-semana. Todo domingo tem jogo, e hoje especialmente, um churrasco em sua homenagem será realizado pelos companheiros de time. Porque hoje, 28 de agosto, é seu aniversário. Gostaria muito de estar lá, estarei representada pela mamãe e demais parentes, mas faço questão de quando for ao Brasil, ir assisti-lo jogar num domingo.

E para aquele que é para mim o melhor juiz do mundo, nada melhor que um jogo pra comemorar um dia tão especial.

Papai, parabéns pelo seu dia!

Tudo de bom sempre pra você, papi.


(E depois me conta quanto foi o placar do jogo...)

Craque do futebol capixaba

Marcadores:

sexta-feira, agosto 26, 2005

Apenas uma ponte

Ponte para o nada

Eu adoro essa foto aí de cima. Não tanto pela foto em si - é apenas mais uma paisagem havaiana... Mas pelo que eu viajo filosoficamente com ela. Uma ponte para o nada.

(A ponte em questão fica na baía de Kane'ohe, numa ilhota do lado leste da ilha de O'ahu, Havaí. Onde está instalado o Instituto de Biologia Marinha do Havaí. Esse lado de O'ahu tem um visual maravilhoso, dramático, das montanhas vulcânicas Ko'olau.)

A primeira vez que vi a ponte, fiquei embasbacada. Deslumbrada mesmo. "O quê?? Você achou essa ponte de araque interessante? Esse nada?" Sim, eu achei. Porque ela não leva a lugar algum a priori - a não ser que você queira cair dentro d'água. A foto não mostra, mas ela obviamente sai de um pedaço de terra. Ninguém sabe porque está lá, ligando o quê a o quê. Está instalada num instituto de pesquisa, um lugar onde se faz ciência, essa atividade altamente objetiva. Mas nada podia ser mais subjetivamente contraditório do que ela por lá.

Eu imagino essa ponte como a metáfora perfeita do caminho para os sonhos - todos, desde os mais impossíveis até os mais risíveis. Temos várias pontes iguais a essa representando cada sonho da gente lá no fundo. Afinal, sonhos não surgem de uma realidade em terra firme? Não são fluidos como água? E depois os sonhos não se expandem num infinito de incertezas? E não é a nossa vida esse pequeno trecho de cimento, com uma pequena estrutura pra você se segurar e não cair na água - para que todo o caminho seja percorrido até sua realização máxima? Não é o sonho um etéreo nada?

E quando você chega no final da ponte, você entra de cabeça na água... o que tem lá embaixo? Como você sairá de mais essa experiência? Vai se afogar ou vai curtir o novo? Vai nadar até a terra firme do outro lado? Vai nadar pra frente, por lado? Ou vai boiar um pouquinho e rapidamente subir na escadinha de volta? Ou vai dar meia-volta e desencanar do sonho, voltar à terra-firme pelo mesmo caminho sem ao menos pôr o pé na água?

Diante de tantas possibilidades nesse pequeno trecho de cimento que é nossa vida, deve-se apenas lembrar de olhar para as laterais e pra frente - a vista pode ser muito mais bela que o final da ponte em si.

Vista no fim da ponte
A vista um pouco depois do fim da ponte.

Tudo de bom sempre.

Marcadores: ,

terça-feira, agosto 23, 2005

Biodiversidade marinha

Biodiversidade é palavra da moda. Acho que já esteve mais na mídia num passado não muito longínquo, mas ainda hoje é um assunto para acaloradas discussões. O conceito de biodiversidade quase todos sabemos: a diversidade da vida. De bactéria a baleia azul. No conceito mais utilizado por aí, é o número de espécies diferentes existentes numa área qualquer ou num ecossistema qualquer. Entretanto, quantas espécies são necessárias para que uma área seja considerada "biodiversa"? E quais espécies são essas? Bem, em cima dessas perguntas boa parte dos ecólogos e ambientalistas do mundo inteiro quebram a cabeça diariamente, as plausíveis respostas geram reportagens em jornais e, em última instância, ações governamentais. As pessoas que tomam decisões políticas em cima de problemas ambientais prestam atenção nos números - daí a necessidade dos biólogos em "medir" a biodiversidade. Mas às vezes elas se esquecem que no caso da biodiversidade, é complicadíssimo reduzir tudo a um simples "número" porque fica sempre a impressão de que um aspecto crítico da análise ficou de fora desse cálculo mágico. (Esse é talvez o maior causador de boa parte do embate entre políticos e ambientalistas que vemos pelo mundo, a diferença de linguagem: de um lado, os números que os políticos querem, e de outro a realidade natural, muitas vezes inquantificável de forma adequada pelos biólogos.)

Semana passada, eu estava lendo na Nature mais um artigo que trazia questionamentos interessantes sobre o que é uma área "biodiversa" - os chamados "hotspots de biodiversidade". Seria uma área com muitas espécies diferentes, como a Amazônia? Ou uma área com muitas espécies ameaçadas, como a floresta Atlântica? Ou ainda uma área com grande número de endemismo (ou seja, com espécies que só vivem ali), como o Hawai'i? O conceito atualmente utilizado por boa parte das ONGS é uma certa "mistura" dos 3: quantidade, raridade de espécies e endemismo. Como em geral reconhecem-se áreas biodiversas por causa de espécies que estão de alguma forma desequilibradas (pra mais ou pra menos, tanto faz), as estratégias de conservação terminam abordando algum dos fatores mencionados, e o que mais se adequa ao caso é o fator final "escolhido" para diálogo com os políticos fazedores das leis.

hotspots terrestres
Os 25 hotspots de biodiversidade terrestre no planeta, mapeados por Norman Myers em 1998. Áreas em vermelho são as mais biodiversas. Um dos hotspots mais quentes em diversidade é a ilha de Madagascar. Repare que o densamente populoso sudeste asiático está vermelhinho, vermelhinho... ou seja, choques intensos de política econômica, social e ambiental provavelmente acontecem por lá. E repare também que a Amazônia Equatorial está assinalada, mas não a Amazônia brasileira. Porque um dos fatores da equação "biodiversidade" é a densidade, e na Amazônia, as espécies estão mais diluídas por causa da imensa área. Esse é o típico problema do número mágico da biodiversidade que os ecólogos tentam achar e que fica claro com esse mapa que ainda falta pelo menos esse item da equação. Mapa tirado desse artigo publicado na Nature.

Mas, mesmo não sabendo o número exato suficiente para a tarja "área biodiversa", todos conseguimos reconhecer por exemplo que a Amazônia é uma área mais biodiversa comparada à cidade de São Paulo. A facilidade dessa análise é simples: a gente consegue no geral, "ver" o que se passa nos 2 ecossistemas (nem que seja pela TV) e consegue fazer muito grosseiramente essa afirmação. Todos somos nesse quesito meio como São Tomé: ver para crer.

Dessa forma, muito mais dificuldade existe para o diálogo conservacionista quando a área "biodiversa" em questão está embaixo d'água. Se medir biodiversidade terrestre é difícil, medir biodiversidade marinha torna-se mais complicado ainda. Porque o mar dá essa ilusão da infinitude (inclusive de espécies), que infelizmente é apenas ilusão. Ninguém está vendo ao certo o que está lá embaixo. Não dá para ser São Tomé.

(É essa falsa infinitude que faz com que, em nome da cultura "humana", devoremos tudo que vem do mar sem dó - os japoneses afirmam que a população de baleias não está em declínio; os chineses pensam que tubarões devem virar sopa; e outras baboseiras infundadas.)

Embora difícil, não é um trabalho impossível. Tem gente fazendo bastante. E outros pesquisando melhores maneiras de medir a biodiversidade no mar, anotando a quantidade de espécies e a raridade de cada uma, tentando agrupar esses fatos e chegar numa conclusão que gere um reflexo político eficaz na mesa de negociações por um planeta melhor. Tudo ainda em fase embrionária, mas já temos dados interessantes. Nesse sentido, o texto da Science linkado aí em cima é maravilhoso (infelizmente só acessível a assinantes), pois gerou um mapa real da biodiversidade marinha, que reproduzo aqui embaixo.

Marine Hotspots - Science
6 mapas mostrando graus de biodiversidade de: A) peixes; B) corais; C) lesmas-do-mar; D) lagostas; E) os 4 anteriores superpostos (as áreas mais vermelhas são consequentemente as mais biodiversas); F) Maiores ameaças ao ecossistema da área - quanto mais vermelho, mais ameaçado, de acordo com um cálculo complicado que está explicado no artigo; G) Áreas de grande endemismo. Os números mostrados sao os famosos "números mágicos de endemismo". Como todo bom gráfico, esse aí tambem é visualmente poderoso.

O Brasil é pobre em biodiversidade marinha quando comparado ao resto do mundo. Toda vez que eu falo assim, tem alguém que me olha com cara de ponto de interrogação ou de lunática. Ou cara de ofensa a nação, o que me entristece mais ainda, pois eu gosto muito do meu país. E entendo o porquê da reação das pessoas: sempre ouvimos que somos o país da biodiversidade - afinal temos a Amazônia. Biodiversidade TERRESTRE, entenda-se. E biodiversidade subaquática de ÁGUA DOCE. Mas basta olhar pra parte "E" do gráfico acima para percebermos que, embaixo da água do mar, nenhuma região do mundo se compara com o hotspot cujo centro é nas Filipinas, mas que engloba também a Indonésia, a Malásia (o chamado "triângulo de corais") e estende-se pela Papua Nova Guiné, Austrália e parte da Melanésia e Micronésia. Num segundo lugar modestíssimo vem o Caribe. Essas 2 áreas têm as 3 características necessárias para a biodiversidade: têm um número de diferentes espécies simplesmente exorbitante, muitas delas estão ameaçadas de extinção pela intervenção humana e há alto endemismo. O Brasil, nesse quadro, tem menos de 5% dos recifes de corais do mundo.

É difícil mudar esse paradigma da "biodiversidade plena" no raciocínio brasileiro. Então, ao ouvirmos que uma espécie marinha está ameaçada, pensando naquela falsa infinitude e na falácia de que somos o "centro de biodiversidade do mundo" para tudo, pouco fazemos para melhorar o quadro. Pois assumimos de antemão que há diversidade. Não! O Brasil é pobre em número de espécies marinhas, e os poucos estudos que temos mostram isso. Deve haver um número enorme de espécies que ainda não foram nem descritas, mas mesmo assim, não se compara ao centro de biodiversidade marinha do mar de Sulu, no triângulo de corais. O Brasil é relativamente rico em endemismo, e isso sim, é uma excelente moeda de barganha com os fazedores da lei nacional. Qualquer espécie que desapareça num contexto de pouca biodiversidade faz uma enorme falta no número total. E ora, se somos brasileiros, temos que defender o que está ao nosso alcance, não é mesmo? É nesse aspecto que eu acredito que precisamos de mais iniciativas maravilhosas como o Tamar, o Jubarte e o Projeto Peixe-boi, que já existem e fazem um trabalho belíssimo. Esse estudo, por exemplo, mostra que temos 1,298 espécies marinhas de peixes, um número considerado até elevado. Mas nas Filipinas, um país muito menor, esse numero é de pelo menos 2,000. Sem falar em corais, que no Brasil são menos de 30 espécies diferentes, enquanto nas Filipinas, Indonésia e Malásia são 488 (do total de 500 conhecidas e descritas no planeta). Exemplos e mais exemplos esporádicos aparecerão, mas no geral, o centro de biodiversidade marinha é no triângulo de corais no Pacífico, e os brasileiros precisam valorizar e proteger cada vez mais as espécies que têm no mar. Porque é muito provável que numa mesa de negociação internacional, áreas com problemas tão graves como os que temos mas de maior diversidade vão vencer a batalha por recursos para conservação. São os brasileiros que devem ser os primeiros a defender a diversidade do país.

Diversidade filipina
Um pequeno exemplo do que é a biodiversidade filipina pode ser verificado nessa foto tirada na Ilha Verde em junho deste ano, quando lá estivemos. Os números representam diferentes espécies que grosseiramente podemos identificar - se formos analisar com cuidado o local muitas outras aparecerão. As espécies são: 1) peixe budião Thalassoma lunare; 2) coral Tubastrea faulkneri; 3) coral Pocillopora verrucosa; 4) peixe antias Pseudanthias squamipinnis; 5) Esponja Clathria sp.; 6) peixe budião Scarus sp.; 7) coral Acropora palifera; 8) peixe-borboleta Chaetodon kleinii; 9) esponja Xestopongia sp.; 10) coral-fogo Millepora sp.; 11) coral Acropora sp.; 12) peixe ídolo mourisco Zanclus cornutus; 13) coral Tubastrea micrantha; 14) coral Anthelia sp.; 15) coral Agariciidae sp.; 16) ascídia Didemnum molle; 17) peixe donzela Chrysiptera parasema; 18) esponja Stylotella aurantium; 19) coral Xenia sp.; 20) ascídia Clavelina sp.

Biodiversidade de um ecossistema é a diversidade da vida ali, em todas as suas formas - de bactérias a mamíferos. Se temos muitas tartarugas, não significa que teremos muitos ouriços. Isso deveria ser considerado no cálculo final para fazer política de conservação. O ecossistema é tudo, não apenas uma espécie. Bactérias podem gerar tanto ou maior prejuízo que uma super-população de estrelas-do-mar. Nas questões financeiras que movem o mundo, falta boa argumentação por parte dos biólogos para que o ambiente seja favorecido.

biodiversidade viva
Aos que, como eu, custaram a acreditar na supremacia absoluta de diversidade dos insetos, o gráfico acima representa, dentre todas as espécies catalogadas no planeta até 1995, as que mais abundam em diversidade (terrestres e marinhos inclusos). Insetos são a fatia gorda em azul claro. Todos os animais vertebrados (de peixes a humanos) estão espremidos na fatia amarela. Gráfico tirado deste artigo da Nature.

Fato é que no planeta inteiro a biodiversidade marinha está em declínio acentuado. Toda vez que alguém te disser o contrário, está deslavadamente mentindo. Pode ser que algumas espécies estejam aumentando em demasia - o que por si só já é um indício de que há desequilíbrio ambiental localizado. Pode ser que nas Filipinas a diversidade ainda seja estonteante. Mas ainda é necessário que haja um esforço de preservação como em qualquer outro lugar do planeta. No geral a população humana mundial só tende a crescer - e cada vez mais, os recursos marinhos serão requisitados.

Boa parte dos problemas ambientais no mar é gerado por esse único fator, a intervenção humana. É no fundo tratando dos problemas humanos que poderemos vislumbrar soluções e melhorias pro futuro da natureza. Mas infelizmente, em muitas áreas, não dá mais pra esperar por soluções humanas. Precisa-se preservar já. Tirando esses casos urgentes de "preservação já" (que são infelizmente maioria), vejo algumas soluções no horizonte a longo-prazo: mais desenvolvimento sustentado e mais áreas de proteção delimitadas por lei e efetivamente bem cuidadas. Menos politicagem e mais austeridade política ambiental, para o benefício de todos. Criação de parques e reservas ambientais. E principalmente, mais educação de qualidade para as pessoas. Exemplos como na Ilha de Apo podem - e devem - ser repetidos. Basta educar.

Utópico, eu sei, mas é assim que eu vejo: uma utopia necessária a nossa prosperidade biológica.

Mas essa é apenas a minha opinião pessoal.

Tudo de bom sempre.

Marcadores: , , ,

quinta-feira, agosto 18, 2005

Nos confins de Caixa-Prego*

Quantos já ouviram alguém insultar outra pessoa mandando pra Caixa-Prego? Ou desprezar um lugar dizendo: "É pior que em Caixa-Prego..." Ou então afirmar que um lugar é muito loooonge dizendo: "Ih, é nos confins de Caixa-Prego..."

Boa parte das pessoas que falam assim provavelmente nunca estiveram em Caixa-Prego. Como é um lugar cujo nome soa "depreciativo", associa-se Caixa-Prego à pobreza, sertão, seca, e todas as mazelas negativas de um povoado. Nada mais errado: Caixa-Prego fica na Bahia, mais especificamente na Ilha de Itaparica - essa mesma, a do resort chique. É a última cidade da pequena rodovia que você pega ao sair do ferry-boat que cruza de Salvador até lá. Tem um manguezal bem interessante, pelo menos aos meus olhos de bióloga. E tem praia. Não é paradisíaca de água cristalina, mas é praia (de mangue), e está valendo.

Cresci ouvindo minha vó contar histórias de Caixa-Prego. Meu avô viveu na próxima Nazaré das Farinhas, e vovó nessa época via Caixa-Prego como uma espécie de cidade-resort: era o destino de "férias na praia". As lembranças de vovó e de minha mãe (criança na época) sempre me enchiam os ouvidos de curiosidade para esse lugar de nome tão engraçado. Afinal, o que se passava na cabeça de alguém para dar o nome de Caixa-Prego a uma cidade?

(Cidades pequenas em geral orgulham-se de singularidades interessantes. Pois Nazaré das Farinhas orgulha-se hoje de ser a terra do Vampeta.)

O tempo passou, e quase 2 anos atrás tive a oportunidade de visitar a Ilha de Itaparica. Tínhamos alugado um carro, e rodávamos pela Bahia, num calor escaldante de dezembro. Uma viagem "on-the-road". Após alguns dias subaquaticamente desiludidos em Salvador, decidimos atravessar a Baía de Todos os Santos no ferry-boat. Fugíamos para Itaparica com o objetivo de chegar a alguma praia snorkelável. Ao sair do ferry, pegamos a rodovia e fomos. Fomos, fomos, fomos. A rodovia acabou, e de repente, eis que eu me via no lugar das memórias tão agradáveis de vovó: Caixa-Prego.

Parecia que as histórias de vovó estavam todas vivas ali, cristalizadas pelo tempo, que de certa forma não havia passado. A única alusão à modernidade que vi foram alguns equipamentos eletrônicos num bar: TV, vídeo, aparelho de som. E uma antena parabólica, no telhado de uma casa. A cidade ainda é pequena, minúscula. Era uma segunda-feira, aproximadamente 2 da tarde, e as pessoas estavam sentadas nas calçadas, proseando despretensiosamente. A maré estava baixa - e parece que Caixa-Prego vive em função da maré: é ela que traz o peixe, o marisco, o caranguejo, o barquinho cheio. Não precisamos andar muito para achar o portinho de onde os barcos de pesca saíam. E achar o mangue, de onde algumas pessoas informaram que saem tours. A área de Caixa-Prego é conhecida como "pantanal baiano", um nome pomposo cuja única pretensão deve ser atiçar os curiosos para um manguezal ameaçado. A causa é válida, penso. O mangue de lá é peculiar.

Mangue de Caixa-PregoCaranguejos
Mangue de Caixa-Prego e suas árvores de raízes aéreas (como de qualquer mangue), maravilhas da adaptação. Além dos caranguejos pelo chão, é claro.

Estacionamos o carro e embrenhamo-nos no mangue. Todo mangue é único aos olhos dos biólogos, e o de Caixa-Prego não é diferente. Ficamos um tempo lá, fotografando e observando. As adaptações que as plantas de mangue desenvolvem ainda hoje, passadas as inúmeras aulas e cursos de campo, me tiram o fôlego, assim como a imensa quantidade de caranguejos que habitam esse ecossistema. Centenas e centenas deles, saindo e desaparecendo no lamaçal, em todas as cores, um verdadeiro chão vivo.

Mas a maré começou a subir, e tivemos que nos apressar para voltar ao portinho. Lá, um rapaz pintava sua canoa. Outros barcos de pesca, parados, esperando a hora certa de saírem para a pescaria - o povoado vive basicamente da pesca de subsistência. Esbarramos numa casa de telhado hilário: será que moraria ali um alucinado ou um curioso? Vários objetos feitos de maneira artesanal funcionavam como birutas coloridas. Exótico, no mínimo.

Andando de volta pro carro, um grupo de pescadores orgulhava-se de 3 lagostas enormes pescadas, esperançosos de que os forasteiros (nós) se interessassem em comprá-las. Exibiam os crustáceos na grama lateral da rua de terra de frente pro mangue. Trocamos meia-dúzia de palavras e continuamos andando.

Barcos de pesca em Caixa-PregoPraca do Pau Mole
Barcos de pesca no portinho de Caixa-Prego, esperando pela subida da maré; ao lado, a famosa desconhecida praça do Pau Mole, ponto de encontro das gerações que se cruzam por lá...

Foi aí que eu vi a praça principal da cidade: a Praça do Pau Mole. Pequena, apenas uns bancos embaixo de uma árvore enorme. Homens jogavam baralho (ou seria dominó?), rindo, divertindo-se, deixando o tempo passar. Mas o tempo parado, parado. O tempo não passava!

Uma melancolia tomou conta de mim. A Caixa-Prego das memórias de vovó parecia mais viva... Talvez seja ainda a que eu via ali com meu olhos, do mesmo jeitinho que ela sorridentemente me contou quando criança. Caixa-Prego, assim como a lembrança da vovó, parou no tempo. Num tempo passado. Cristalizado.

Quais serão as preocupações no dia-a-dia daquelas pessoas? E as perspectivas?

Saí de lá com a certeza de que havia finalmente visitado o passado dos meus antepassados.

Entendi o porquê do nome ter virado escárnio, sem ninguém precisar me explicar. Caixa-Prego fica nos confins do tempo. E o único meio de transporte até lá é um coração com saudade.

Tudo de bom sempre.

*Qual a grafia correta de Caixa-Prego? Nao sei. Na pagina do governo da Bahia fazendo uma busca, aparecem duas formas: Caixa-Prego e Cacha Prego. Entao eu deixo a vontade de voces, para cada um decidir a que melhor lhe apetece.

___________________________________

UPDATE: Na caixa de comentários desse post, muitas pessoas comentaram sobre a existência de Caixa-Prego no Piauí. A expressão "ir pra Caixa-Prego" estaria referindo-se a essa cidade piauiense, não à cidade baiana. Como pesquisadora inata, fui pesquisar e procurei por algo no Google. O que achei:

- Existe um livro de ficção de Herberto Sales em que parte da estória se passa no vilarejo de Caixa-Prego, no Piauí. É uma obra de ficção. Esse vilarejo ainda existe? Não sei, nada no Google aparece por aquelas bandas.

- Não há município de Caixa-Prego listado no site do Governo do estado do Piauí, com nenhuma das grafias cabíveis - mas até aí, pode ser apenas uma cidade ou vilarejo. Só exclui a municipalidade nesse caso, não o status de existência. A Manu afirma que Caixa-Prego fica próximo a Picos, no Piauí. Picos existe. Eu acredito então na Manu.

- Há uma agência do Unibanco filial "Caixa-Prego"... no Paraná! Perto da região de Cascavel. Teríamos então 3 supostas Caixa-Pregos no Brasil!!

- Como só conheci a Caixa-Prego da Bahia, fiquei curiosa por fotos das demais. Quem as tiver, ou souber de um site, ou mais informações sobre essas outras Caixa-Prego, se não for incômodo, será que pode me enviar um email?

Desde já, fico grata aos meus amigos leitores por terem indiretamente me feito pesquisar e aprender mais! Viva a caixa de comentários! :-)

Marcadores: ,

sábado, agosto 13, 2005

"Clonespotting"

A ilha

Um dos comentários no site do IMDB (Internet Movie Database) sobre o filme "A Ilha" (The Island, 2005) tinha esse criativo título que coloquei aí em cima: Clonespotting. Achei o máximo a ligação das 2 idéias alucinantes, e resolvi transformá-lo descaradamente em título para esse post. Espero que o comentarista do IMDB não se chateie com o plágio, caso venha a saber.

Sou uma péssima cinemista - existe esse termo? Em geral, evito comentários sobre filmes porque tenho uma perspectiva meio estranha para a maioria deles, e tem gente muito mais competente por aí falando e analisando cinema melhor que eu. Não entendo nada de direção, produção, análise de luz e som, etc. Gosto de "O Sétimo Selo" e de "Mensagem para você", igualmente. Assisto, nada mais. Adoro uns filmes que todos detestam, e não gosto de nenhum filme de terror, por mais "clássico" que ele seja. História do cinema então, eu só dou furos. Tenho noção que um filme é entretenimento elaborado com precisão, mas em geral sou envolvida por ele, e choro, dou risadas e fantasio junto. Sou a verdadeira "pata" de Hollywood. Porque no fundo estou mais para documentários da National Geographic que para Harry Potter.

Enfim. Ontem fui assistir "A Ilha", filme de Michael Bay - mesmo diretor de "Pearl Harbor" (que nunca assisti), de "Armageddon" e de "A Rocha" (eu gosto muito de "A Rocha", aliás). Preciso comentar aqui sobre "A Ilha", porque o filme me tocou muito. Fiquei horas pensando depois, discutindo com meu namorado, analisando, e cheguei a sonhar com trechos dele. O filme é bom. E fala de um assunto que relaciona-se ao mundo biológico e que está na moda: clonagem.

(ATENÇÃO: se você não gosta de saber trechos do filme antes de assisti-lo, pare por aqui! Abaixo eu comentarei algumas partes que podem estragar toda a surpresa caso você não tenha assistido.)

O que mais me impressionou nessa ficção científica foi a sólida e macabra perspectiva do "tudo por dinheiro" na sociedade do futuro de 2019 - aliás, já vivemos isso hoje, né? Esse tom de realidade próxima me assustou e me encantou. Os atores principais são competentes - eu particularmente adoro o Ewan McGregor, desde os tempos de "Trainspotting" (para mim, um grande filme. "Choose life" é uma daquelas frases que eu repito e repito.). Além de bom ator, largou tudo por um ano numa volta ao mundo de motocicleta com um amigo - que outro ator hollywoodiano enfrentaria tal aventura em nome do prazer pessoal de estar "on the road"? E Steve Buscemi para mim é genial, sempre.

(Em dado momento, o personagem de Buscemi fala: "Just 'cause you wanna eat the burger, doesn't mean you wanna meet the cow." Traduzindo: "Só porque você quer comer o hambúguer não significa que você queira ver a vaca." A frase pro contexto do filme é sensacional.)

Ewan dá a vida estéril que o filme requer ao seu personagem Lincoln Six-Echo, sem ser muito meloso. O filme é Hollywood - cenas de ação rápida meio trainspotting misturadas ao romance chavão - mas são os meandros do roteiro que para mim fizeram toda a diferença, não o roteiro geral em si. E a assustadora possível realidade.

Alguém diria: ""2001" quando foi lançado também retratava uma realidade que parecia possível; no entanto, a humanidade rumou para caminhos muito diferentes e aquele futuro não foi realidade". Sim, é verdade, e quero acreditar que a idéia central de "A Ilha" - clonar humanos para reposição de órgãos, mantê-los num grande biotério como camundongos para pesquisa, tudo isso a um custo exorbitante, acessível apenas aos mais ricos - também terá o mesmo destino: ficção. Entretanto, as recentes investidas do sul-coreano Dr. Hwang clonando cachorro (o próximo passo de acordo com o noticiário coreano é clonagem de tigres, para reposição de espécies ameaçadas de extinção, algo que soa extremamente benéfico para a humanidade, não?) aliada à quantidade de dinheiro que ele tem para investir nesses projetos de clonagem, me fazem acreditar que a ética humana está próxima de uma linha tênue no estilo que "A Ilha" nos oferece. Isso sem falar nas outras fronteiras científicas para produção de órgãos que já estão sendo testadas e analisadas.

O assunto é complexo, e eu, bióloga, particularmente não vejo tão distante a possibilidade de termos órgãos, tecidos ou células criados em laboratório para reposição em pessoas que precisem - o transplante se tornaria uma arma mais poderosa que já é para a maioria das patologias. Penso que é a esperança, aliás, de muita gente, e só quem sofre de uma patologia crônica sabe o quanto esse avanço pode trazer melhoria na qualidade de vida. Mas repito: a linha ética é muito tênue. O que nos garante que não iremos - em nome do bem da humanidade - manter pessoas em biotérios para reposição de órgãos? Já mantemos animais e embriões congelados. E já temos tecidos humanos para reposição em muitos casos. Mais um problema prático: essas pessoas, elas teriam direitos iguais aos cidadãos normais, ou seriam apenas cobaias em um grande empreendimento? Afinal, no filme, elas são meros produtos. Estariam sob as leis do consumidor ou sob as leis dos direitos humanos?

No filme, fica claro na parte hollywoodiana-vilanística que o dono da corporação produtora dos clones faz propaganda enganosa para seus clientes, dizendo que os mantém em estado vegetativo. Ok, isso é Hollywood, alguém tem que ser o vilão da história. Mas como saberemos se, na vida real futura, alguém extrapolará essa idéia? Se os produtos estiverem confinados a um laboratório, como descobrir a verdade? Se a existência desse laboratório tiver o apoio de políticos a quem interessam os lucros enormes gerados por esse mercado, os órgãos fiscalizadores saberão a verdade completa? O quão competente é a fiscalização? E as leis? No filme, o presidente dos EUA tem um clone lá - afinal, é uma questão de segurança manter um presidente-extra para casos de necessidade.

E o mais interessante de tudo é a engambelação do sonho. A "ilha" em si. A manipulação da memória das cobaias. A constante experimentação que é feita. O enganoso despertar do desejo de ir para "a ilha", esse paraíso estéril que restou depois da " grande contaminação", o melhor engodo que alguém poderia ter pensado. (Teria sido inspirado no evento da "Grande Peste" que devastou a Europa há alguns séculos?)

O filme levantou sérias questões. Mesmo sendo Hollywood, mesmo tendo explosões, perseguições típicas, romance chavão, mesmo sendo apenas "uma diversão", mesmo depois de vários buracos de roteiro - ele ainda levanta questões interessantes, que valem a pena pensar e analisar, que o tornam um bom filme. Conclusões? Nenhuma. Por enquanto, só o tempo dirá se teremos nossa "ilha" ou não.

No momento, tudo não passa de mera ficção científica.

Tudo de bom sempre.

***************************************

P.S.: 1) Estou tendo dificuldades para visualizar meu próprio blog, ele não abre de jeito nenhum. Consigo logar no Blogger, publicar, etc. mas não consigo abrir a página em si. Não sei o quão localizado esse problema é, só sei que as pessoas no Brasil e nos EUA estão abrindo a página normalmente. Eu não estou - e nenhuma página armazenada no blogspot está abrindo aqui na Coréia, inclusive a página de status do site do Blogger. Já testei diferentes navegadores, diferentes computadores, e nada. Próximo passo é testar diferentes servidores para saber se o problema é na minha conexão ou algo mais geral. Portanto, amigos de blogspot, não pensem que os abandonei. Estou lendo tudo via Bloglines, apenas não posso comentar. Os comentários que vocês deixam aqui no meu blog eu tenho como acessar e responder pelo site do Haloscan, portanto, a caixa de viajantes continua funcionando normalmente.

2) Hoje é aniversário da super-Denise, dona de um dos blogs mais elaborados, visitados e legais de se ler. Seus posts são quase sempre muito bem embasados, e mesmo os que não são, refletem a maravilha de pessoa que ela deve ser pessoalmente. Um dia, ainda tomaremos café juntas. Por hoje, fica meu desejo de feliz aniversário e muitas felicidades pra você, Denise!
Tudo de bom sempre hoje pra você, em especial.

Marcadores: ,

quarta-feira, agosto 10, 2005

A matematica das listas de viagem

Há 3 dias, um dos meus melhores amigos embarcou em sua primeira aventura no hemisfério norte: vai passar um mês aperfeiçoando seu inglês em Vancouver, no Canadá. Na semana passada, trocamos algumas mensagens pelo MSN, e percebi que ele parecia ansioso com a nova experiência internacional. Tentei acalmá-lo com a minha nova “arma”, o Google Earth: tirei várias “fotos” aéreas da futura moradia de um mês dele e enviei por email. Mas é claro, fui inócua, já que nunca estive no Canadá antes, minhas dicas valendo nesse caso apenas para generalizações de viagem e nada mais.

Google Earth - Vancouver
Ah, a vida pós-Google Earth...

Entretanto, cabe aqui explicar que esse amigo é um dos caras mais mentalmente organizados que eu conheço. Desde sempre. Conheci-o em Viçosa, na época de faculdade, quando ele andava pelo campus de bicicleta, apenas com um jaleco, óculos e uma caneta. Não carregava caderno nem livro nem apostila, porque simplesmente não anotava nada em sala de aula. Será que tinha memória fotográfica? - era a pergunta de todos da cidade. Sabia tudo e mais um pouco de estatística, e sua calculadora parecia dotada de poderes mágicos tamanha fluência em operações complexas ela apresentava. Um sujeito destacado da massa, pra dizer o mínimo.

(Parênteses: Nessa época, ele morava numa república de estudantes em que um dos quartos era pentagonal com nenhum dos lados similar ao outro, algo pra lá de estranho. Calcular a área exata daquela figura geométrica exótica? Era possível, mas me lembrava sempre um daqueles exercícios passatempo de geometria fractal, que nunca terminavam. Existem quartos quadrados, hexagonais, ou outros números pares, mas com 5 lados? Aos curiosos de plantão, foi dessa visão absurda de uma construção surreal de 5 cantos que surgiu aquela frase ali na descrição do meu blog “...pelos 5 cantos do planeta”. Porque, para mim, na lógica da vida viajante o mundo tem 5 lados, como um quarto surreal cheio de indagações. Fim do parênteses.)

Algum tempo depois encontrei-o em Florianópolis (ele havia mudado de faculdade) e impressionei-me naquele momento com sua agilidade mental para as enfadonhas tabelas do Excel. Convenci-me de que existem mais equações complexas no mundo que qualquer vã filosofia pudesse sequer sonhar. Por essas e muitas outras, sempre tive um respeito matemático gigantesco por ele.

Em um desses papos pelo MSN semana passada, ele me pediu para ajudar em sua lista de viagem – que estava pra lá de metodicamente organizada, como esperado. Era uma lista em formato txt (!!) com números que mais pareciam dispostos em uma equação à beira de um gráfico. Como alguém consegue se expressar dessa forma? E me peguei pensando na matemática intrínseca das listas de viagem. Ele nitidamente tem uma visão numérica do mundo, o que se observa até numa mera lista de viagem; será que eu conseguiria me livrar de excessos linguísticos, proselitismo repetitivo, etc. e passar tudo para uma forma matemática simplificada de expressão? Aceitei o auto-desafio. Ora, eu, que adoro viajar, tenho uma metodologia particularmente caótica para fazer uma mala ou mochila, mas será que a linguagem da matemática também poderia de alguma forma metafísica se aplicar a ela? Resolvi usar a mesma metodologia que ele utilizou e testar meus delírios: peguei minha última lista de viagem (feita num bloquinho qualquer, pra começo de conversa) e tentei transformá-la em matemática.

Em geral, divido uma lista de viagem em: roupas, acessórios, equipamento fotográfico, documentos e produtos de beleza. "Sapato" é um conjunto pertencente ao item “roupas”, por exemplo. Xampus, condicionadores e afins vão em “produtos de beleza”. Mas grosseiramente divido, e isso já é um sinal numérico. Entretanto, tudo em minha lista é altamente especificado, gramaticalmente expresso: 6 camisetas? Não, eu escrevo:

- 1 camiseta laranja que a Márcia me deu; a rosa de manga curta (como se existisse a rosa de manga comprida!), a amarela manchada que a Monalisa detesta (precisaria eu reenfatizar esse fato para a lista funcionar?), 2 brancas (a de Bonito e a do tubarão) e 1 azul-marinho baby-look.

Os números que compõem aquele item estão lá nessa profusão de palavras, e a somatória é apenas o que deveria importar no final, mas a linguagem utilizada na minha cabeça raramente é matemática. Sempre é uma sentença explicativa cheia de adjuntos nominais, verbais e supérfluos.

Continuei analisando. Em geral também, as roupas já vão para a mala aos pares (ou triângulos). Exemplo: short X só uso com blusa Y ou Z. Então, não levo blusa T. Tudo em nome da compactação máxima de uma bagagem - mas sem perder o charme feminino. Claro, dou preferência a tecidos que não amassem, que sequem rápido, e roupas que sejam “duas caras”: de uso tanto formal como informal, a diferença não deve ser percebida. O que por si só, sem querer, já pode ser visto como uma análise combinatória das roupas. Algo como o fatorial da blusa rosa.

No item “acessórios”, já me conscientizei que anéis são uma expressão de cálculo diferencial: o limite tende ao infinito. E se a base de existência de anéis novos no meu guarda-roupa for zero, é porque a matemática financeira está negativa: a solução é comprar mais anéis imediatamente e contabilizar na coleção. Anéis... meu vício sem tangente nem cossecante. Assim como “produtos de beleza”, onde a integral do perfume é sempre derivada do condicionador usado. Afinal, misturar odores também tem seu charme calculado.

Os "equipamentos fotográficos" ultimamente são a parte mais analítica de uma arrumação de mala: desde o advento da câmera digital, agora preciso carregar comigo máquina, flashcards, pilhas recarregáveis (vários grupos), carregadores... às vezes até o laptop - e em geral, tudo na mala de mão. O denominador comum finito dos antigos filmes ISO200 logaritmizou-se em estoque de bytes. A quantidade de fotos numa viagem virou uma exponencial, cujo valor máximo é o tempo que a pilha dura. E a variável luz elétrica passou a ser invariável, necessária ao extremo para manter esse monte de apetrechos funcionando.

Nos “documentos” já temos naturalmente vários números: identidade, cartão de crédito, cartão de milhagem, número da poltrona, horário... tudo é expresso em números. Aos mais alfamatematizados, fica o velho exercício de somar todos os numerais do cartão de crédito com os do seu passaporte, pegar o resultado e, feliz da vida, jogar no bicho ou na primeira roleta. Aos menos, como a blogueira que aqui vos fala, fica apenas o desejo linear de que o valor determinante da matriz "lista de bagagem X viagem tranquila" tenha sido o mais eficaz e que garanta a melhor experiência de todas nesse momento para o meu amigo no Canadá. Será a qualidade da viagem quantificável? Fica pra devaneios futuros, quem sabe.

Tudo de bom sempre na matemática das viagens pela vida a fora.

Marcadores: ,

sexta-feira, agosto 05, 2005

Pequenas anotaçoes de viagens virtuais 6

1) Quando a gente imagina que ele já fez tudo de errado possível e imaginável, ele (re)volta das trevas e solta a bomba das bombas, dessa vez apoiando o ensino do "ID" ou Design Inteligente. (O link da reportagem na Science está disponível apenas para assinantes, mas você pode encontrar a reportagem original aqui ou em português uma menção aqui.)

Nem precisa dizer, né? O Panda's Thumb e o Pharyngula (que escreve também pro grupo do Panda's Thumb) já começaram uma verdadeira "cruzada", levantando a blogosfera científica nos EUA para um debate caloroso - o Pharyngula está com uma lista enorme de blogs que estão contra o governo nesse assunto e que postaram sobre o mesmo. John Wilkins (que eu gosto muito, aliás) também demonstrou sua frustração com a reportagem e relembra bem que "a "teoria" do ID teve UM único artigo publicado em revista indexada - mesmo assim, às custas de um pouco de corrupção no processo editorial." Enquanto a evolução... todo mundo sabe, né? Está mais que testada, retestada, tretestada... O DailyKos não se absteve da discussão, é claro. Nem o físico Marcelo Gleiser. A Associação Americana de Professores de Ciências também rapidamente respondeu à batatada que o sr. Arbusto disse. E a melhor de todas as frases veio do próprio PZMeyers (autor do Pharyngula) nesse que já é um post histórico:

"This debate is not about assessing the evidence, but about getting faith-based bullshit taught as science."

Pra certas coisas, só falando desse jeito mesmo. A discussão está maravilhosa, e please, corram lá e leiam o post inteiro. Ou leiam os outros posts do blog do Pahryngula, um dos blogs que me deixa mais feliz quando acende no Bloglines.

(E se você não entende bem o que o design inteligente significa para a ciência, leia aqui uma bem-humorada explicação. Ou na tirinha deste post, que exemplifica onde o ensino do "design inteligente" entraria nas salas de aula. Mas não se esqueça que a política é a verdadeira força motriz de toda essa celeuma.)

********************************

2) E foi pelo Panda que eu achei um link divertido: Google Fight. Pelé vence Maradona nessa briga, mas o Brasil perde feio pra Argentina.

********************************

3) Falando em Google, eu não posso deixar de expressar aqui minha paixão arrebatadora pelo Google Earth. É simplesmente lindo. E viciante. Já marquei nele todas as casas que morei na vida, explorei lugares que quero visitar... Apenas uma decepção: ainda não mostra claramente as ilhotas do Pacífico que eu tanto adoro. Aguardo pacientemente um upgrade.

********************************

4) E pensando nas minhas ex-casas no planeta, achei também (via o turista profissional do blog Viaje na Viagem) esse link que constrói um mapa-múndi marcando os países que você já foi. Vale também, é claro, marcar os países que sonha visitar num futuro próximo. Ou marque onde achou as atrações mais exóticas. Ou onde foi em 1997. Ou de onde vêm os amigos que te enviaram email semana passada.

Vale tudo.

****************************

5) Você pensou que papel e água não combinavam? Ou papel e fogo? Pois bem, enganou-se. É só ver a nova agência de correios da ilha de Vanuatu, no Pacífico Sul, que já virou atração turística internacional. Mas preciso dizer: se eu fosse a Vanuatu, ia ficar em dúvida em postar um cartão postal nessa agência ou simplesmente deixar nessa outra caixa de correio! ;-)

****************************

6) Uma semana cheia de retornos deliciosos. Primeiro, a DaniCast, que reabriu sua casa de chá em novo servidor. Depois, o Guto, que voltou a escrever em seu blog. Logo em seguida, sua "juntada" e querida amiga Mônica, que reinstaurou para nossa sanidade o Monicômio. E aí, pra me deixar mais alegre ainda, o Camburizinho reformulou o layout do blog dele e disse que vai tentar com mais frequência postar crônicas, informações e bobagens viajantes e exploratórias. Aos 4, vida longuíssima e saudades!

****************************

7) Ele já tinha escrito em 11 de dezembro de 2004:

"Otimismo, de Pai pra Filho

Meu pai tinha uns grampos de prender arame farpado. Até morrer, ele dizia que ainda iria comprar uma fazenda.

Eu tenho um blog, mas ainda vou ter um site com domínio próprio, vocês vão ver."


O Smart está agora no tão sonhado domínio próprio. Em algum lugar de Aldebaran, papai-Blue deve estar orgulhoso do filhão.

*****************************

8) Rafael Galvão, o baiano de Aracaju, escreveu no blog do Alex um texto delicioso sobre "a superioridade filosófica do baiano". Um texto cuja idéia inicial surgiu a partir da leitura da entrevista com o Niclevicz que eu publiquei. E não é que às vezes minhas viagens na maionese podem produzir bons frutos? Valeu, Rafael!

*****************************

9) Mais sobre a Coréia do Sul: o blog Libellus, da Ana Maria, e o blog/fotolog Curiosidades sobre a cultura coreana, da Augusta. A Ana Maria mora em Porto Alegre, mas escreve com frequência sobre/para uma das melhores iniciativas que floresceram por aqui: o OhMyNews, um jornal online com artigos feitos por cidadãos comuns (não-portadores de diploma em jornalismo). OhMyNews foi uma idéia 100% coreana (que vale um post futuro, sem dúvida) e é uma forma de aplicar a mentalidade blogueira a um jornal de verdade. Ponto pros coreanos. Já a Augusta conta algumas curiosidades interessantes da vida por aqui, com fotos bem representativas. Apenas um detalhe: eu não ando com aquelas vestimentas de verão, não! hehehehehehe!! Vale a pena conferir.

*****************************

10) E a greve dos pilotos da Asiana Airlines, que tratei no post abaixo, continua... Perdas até agora somam 182 milhões de dólares. Já bateu o recorde mundial de tempo de greve em empresas de aviação (o recorde anterior era da United). Nesse ritmo, a coisa tende a ficar muito feia pra Asiana.

******************************

11) Há tempos eu tenho esse link separado pra divulgar aqui. A Tina Carvalho - que apesar do nome, não fala português - foi uma das minhas grandes amigas em Honolulu. Conversávamos horas a fio todas as vezes que eu a encontrava - o que acontecia uma vez a cada 15 dias, pelo menos. Ela é a responsável pelo laboratório de microscopia eletrônica da Universidade do Hawai'i em Manoa e aproveitou algumas poucas horas vagas para desenvolver esse website super-divertido, com fotos de diferentes organismos vistos sob o microscópio eletrônico - e coloridos no Adobe Photoshop. (Veja aqui como o processo é feito.) É uma outra vertente criativa da foto biológica. Uma delícia de apreciar e admirar. (Eu particularmente adoro a foto da Bug band!) Prepare-se para uma viagem a um mundo próximo ao nosso, mas que a gente despreza porque simplesmente não vê.

*******************************

12) O Dr. Cláudio Costa está dando uma consulta especial no blog dele. Como bom psiquiatra que é, diagnosticou direitinho o maior problema atual dos políticos brasileiros. O último parágrafo para mim diz tudo.

*******************************

Tudo de bom sempre para Alex Castro, que está de saída para seu doutorado em New Orleans. Boa sorte na terra do tio Sam, Alex!

Marcadores:

segunda-feira, agosto 01, 2005

Malla entrevista... Waldemar Niclevicz!

Everest - Niclevicz 2005
Brasil no cume do Everest: pela segunda vez, Waldemar Niclevicz chegou lá.

Aqueles que viajam comigo neste blog com mais frequência sabem da minha paixão platônica por montanhismo e afins. Admito, tenho a “febre do Everest”, e ela me faz sonhar com o impossível, o inatingível (dadas minhas condições físicas nada adaptáveis ao ar rarefeito). Neste ano, acompanhei virtualmente a expedição “10 anos do Brasil no Everest”, realizada por Waldemar Niclevicz e Gustavo Irivan Burda. Enviei emails pro Nepal, traduzi notícias do Waldemar pro site do EverestNews, fiz torcida aqui no blog, enfim curti comigo mesma a temporada de maio, viajando na maionese. Meu espírito aventureiro esteve no Nepal todos os dias, acompanhando clique a clique o desenrolar da expedição. O sucesso culminou com a chegada da dupla no dia 02 de junho ao topo do mundo. Coincidentemente, outro brasileiro, Vitor Negrete também chegou lá no mesmo dia – e naquele breve momento histórico, o cume do Everest se vestiu de verde-e-amarelo.

EverestEverest pb
8,848m da mais pura beleza... Monte Everest "sorrindo para a foto" em 2 momentos diferentes.

Waldemar Niclevicz é sem dúvida o maior nome do alpinismo brasileiro, e um dos grandes alpinistas mundiais. Tendo conquistado os Sete Cumes* e com vários dos 14 picos acima de 8,000 metros na sua lista, é uma referência mundial no montanhismo. Foi o primeiro brasileiro a chegar ao topo do Everest em 1995, junto com Mozart Catão. Waldemar também é dono de uma simpatia imbatível: respondeu com atenção e delicadeza a emails de apoio vindos de uma Malla – considerando quantos emails similares aos que enviei ele deve ter recebido enquanto estava no acampamento-base do Everest, paciência realmente é uma virtude que ele tem… e ele parece mesmo ser uma pessoa muito legal.

Enfim, a existência deste blog me trouxe a desculpa perfeita para entrar em contato, trocar palavras curiosas e realizar um pequeno sonho de fã: entrevistar Waldemar Niclevicz. E ele respondeu a tudo, rápida e carinhosamente, apesar de sua agenda lotada de compromissos e afazeres.

Com vocês, o resultado desse sonho realizado. É algo como “trivialidades que a Lucia Malla (LM) sempre quis saber do Waldemar Niclevicz (WN), e nunca teve uma oportunidade para perguntar”. A oportunidade chegou, e eis o que Waldemar tem a dizer:

"LM - A expedição “10 anos no Everest” foi sem dúvida um sucesso. No início da temporada, o mau tempo amedrontou um pouco, mas você e o Irivan mantiveram-se firmes no objetivo com determinação e equilíbrio. Pois bem, em 02 de junho vocês chegaram ao topo como previsto, e ainda foram surpreendidos e agraciados com a tripla presença brasileira no cume quando Vitor Negrete, que subia pelo Tibet, lá apareceu. Quanto tempo exato vocês 3 ficaram no cume? O que vocês falaram/conversaram no cume do Everest?

WN - O tempo exato que nós 3 ficamos no cume eu não sei, não foi mais do que 5 minutos, pois eu e o Irivan já estávamos prontos para iniciar a nossa descida quando o Vitor apareceu. O Irivan chegou no cume exatamente às 9:50, eu às 10 horas em ponto. Quando vi o Vitor se aproximando eram 11:50, apenas esperei ele chegar, dei os parabéns a ele, nos abraçamos os 3 e já comecei a descer, pois estava muito cansado.

LM - Como você vê o alpinismo no Brasil? E no cenário mundial, onde estamos?

WN - O montanhismo no Brasil vem crescendo cada vez mais a cada ano, isso é muito bom. No cenário mundial dificilmente teremos grandes expressões, uma vez que sempre seremos poucos e com recursos financeiros escassos.

LM - Você já conquistou os Sete Cumes. Pretende fazer também os 14 picos de mais de 8,000m?

WN - Gostaria sim de completar os quatorze 8 mil, uma vez que já escalei 6 deles, mas é um projeto muito caro (difícil conseguir patrocínio para isso), além do mais demoraria muito tempo.

LM - Qual o lugar do planeta você mais gostou de visitar?

WN - Já viajei tantos e não tenho como escolher apenas um lugar. Tenho uma paixão pela Cordilheira dos Andes, a região de Cusco é maravilhosa. O Nepal também é impressionante, especialmente Kathmandu. O Brasil é fantástico, principalmente a floresta amazônica.

LM - Qual a coisa mais estranha que você não deixa de levar numa escalada?

WN - Não levo nada de estranho em minhas escaladas, não sou preso a amuletos ou coisa parecida. Levo sim um montão de coisas úteis, uma lista bem grande com inúmeros equipamentos, material fotográfico e de filmagem, equipamento de comunicação via satélite, etc.

LM - Qual a condição que mais frustra os seus planos numa montanha: o frio, o vento, a hipóxia, a neve ou a presença humana? Se nenhuma dessas, qual outra seria?

WN - Frustrante é o mau tempo, pois muitas vezes faz com que a escalada seja muito arriscada ou até impossível.

LM - Qual a montanha tem a logística mais complicada para o planejamento de uma escalada?

WN - Muitas montanhas têm a logística complicada, principalmente no Ártico e na Antártida. Das que eu já escalei, acredito que as mais complicadas foram o Vinson (maior montanha da Antártida) e a do Carstensz (maior montanha da Oceania). Montanhas como o Everest e o K2 também exigem cuidado com a logística, pois deve-se levar em consideração mais de dois meses na montanha.

LM - Existe alguma característica de personalidade que você identifica na maior parte dos alpinistas, algo que é comum a todos (ou quase todos)? Qual é?

WN - Bem, isso varia de pessoa para pessoa, mas, sem dúvida, a determinação e a paciência são muito importantes.

LM - Qual sua opinião sobre as expedições comerciais ao Everest?

WN - Acredito que todos têm o direito de tentar realizar o sonho de escalar o Everest, mesmo aqueles que não são alpinistas profissionais, desde que tenham o mínimo de experiência e procurem guias e agências capacitadas.

LM - Sir Edmund Hillary recentemente sugeriu que o Parque do Everest, um Patrimônio Natural da Humanidade desde 1979, entre na lista da ONU de "áreas ameaçadas pelo aquecimento global". Ambientalistas em geral acreditam que a quantidade de neve nos Himalaias diminuiu bastante nos últimos 50 anos, e que o ecossistema da região já está criticamente em risco. Entretanto, essa medida pode desacelerar as expedições comerciais ao Everest, gerando um problema social pro povo sherpa, que depende bastante delas para subsistência. O que você acha da iniciativa de Edmund Hillary?

WN - Desconheço detalhes desta iniciativa. Mas, não é impedindo a entrada de alpinista, ou diminuindo o número deles, que se vai resolver este problema, já que se trata de um fenômeno causado pelo aquecimento global, problema que está afetando as montanhas de todo o mundo.

LM - Alpinismo é a sua profissão. E o que você faz por hobby? Seus momentos de lazer são dedicados a quê?

WN - Escalar é minha profissão e também o meu maior hobby, pois amo estar nas montanhas. Porém adoro praticar qualquer atividade junto a natureza como mergulho, rafting, balonismo, off road ou simplesmente viajar.

LM - A próxima viagem é para…

WN - Vou dar continuidade em 2006 ao Projeto Mundo Andino, que prevê a escalada das principais montanhas da Cordilheira dos Andes, fazendo, junto com uma equipe multidisciplinar, um estudo do entorno de cada montanha, visando levar melhorias às condições de vida das comunidades locais. A próxima expedição será para o Chile, região dos lagos, em janeiro e fevereiro.

***************************

E com algumas fotos gentilmente cedidas pelo Waldemar, a Lucia Malla viaja um pouco mais e fala das etapas de escalada do Everest...

Travessia do KhumbuEverest - Khumbu
Everest - cascata de geloAtravessando a greta
As duas rotas mais tradicionais de escalada do Everest são a face sul (Nepal) e a face norte (Tibet). Durante a escalada do Everest ou do Lhotse (montanha vizinha) pelo Nepal, a parte mais tecnicamente complicada a ser vencida é a famosa Cascata de Gelo (ou Khumbu Icefall), vista nas fotos em diferentes momentos. A Cascata de Gelo nada mais é que um rio congelado, que se move constantemente - por dia, cerca de 1m. Com isso, as gretas crescem e decrescem ao belprazer da física, elevando o nível de adrenalina de quem passa por lá. As gretas são cruzadas em escadas de alumínio que, de acordo com os alpinistas, parecem frágeis demais para sustentarem aquilo tudo - mas sustentam! Além disso, esses blocos de gelo podem a qualquer momento simplesmente cair, sem aviso prévio. Arriscadíssimo, sem dúvida.

Everest - camp 3Flanco do Lhotse
Após passar pela Cascata de Gelo e vislumbrar a face do Nuptse (outra montanha vizinha), a escalada continua. Dois momentos do que vem por aí: as barracas do acampamento 3 na montanha (fazem-se 4 acampamentos em geral no lado nepalês), e ao lado, subindo um pouco da face do Lhotse, rumo ao Everest. Nessa área, o ar já está pra lá de rarefeito, e a maioria dos alpinistas começa a usar oxigênio suplementar. Apesar de parecer uma "rampona", a velocidade de caminhada é ínfima, devido ao ar rarefeito e às condições inóspitas da área.

Everest Yellow fringeEverest - South col
Na montanha mais alta do mundo, momentos finais da escalada: na primeira foto, os alpinistas estão na chamada Franja Amarela ("Yellow fringe") e na segunda foto, estão mais próximos do cume, na região conhecida como Colo Sul ("South Col"), onde em geral o acampamento 4 é feito. Para completar a escalada a partir do Colo Sul, faltam chegar ao Southeast Ridge e subir o Hillary Step, outra parte tecnicamente complicada da subida. São 1,500m verticais do Colo Sul até o cume, e leva-se cerca de 12h para escalar essa distância. E ao chegar no cume... aí é correr pro abraço! Embasbacar-se com o visual ao redor... (E tratar de descer logo, para não congelar!)

Quero agradecer mais uma vez ao Waldemar por conceder essa entrevista especialíssima para deleite do meu pequeno e querido círculo de amigos leitores desse blog, e também por permitir gentilmente que eu usasse suas maravilhosas e valiosas fotos, de uma região que provavelmente é das mais bonitas do mundo. Obrigada Waldemar, pela cortesia e pela simpatia.

Niclevicz e Irivan
Waldemar Niclevicz e Gustavo Irivan Burda, após voltarem do Nepal: expedição concluída com sucesso é garantia de sorriso no rosto! Parabéns aos 2!

Tudo de bom sempre para a dupla vencedora Waldemar e Irivan! E para Vitor Negrete, que também chegou lá.

****************************
* Os Sete Cumes referem-se a escalada dos picos mais altos de cada continente: o Everest (Ásia), o Aconcágua (América do Sul), o Monte McKinley (América do Norte), o Kilimanjaro (África), o Elbrus (Europa), o Vinson Massif (Antárctica) e o Carstensz Pyramid (Oceania).

P.S.: 1) Entrevistas existem desde sempre. Entretanto, tive a idéia para esta em especial a partir das entrevistas que eu dei há algum tempo para a Karla Brunet, do projeto “Identidades: mantidas e perdidas”, e para o blog da Cilene. Às duas, obrigada pelo insight.

2) As perguntas que selecionei foram baseadas única e exclusivamente na minha curiosidade pessoal. Como sou uma fã de montanhismo que lê muito sobre o assunto, tenho consciência plena que muitas das perguntas que as pessoas têm não estão aqui representadas (como “Quando começou sua carreira no alpinismo?” e afins) - e talvez estas perguntas sejam as mais curiosas para os que não têm a febre everestiana. Nesse caso, aos interessados em saber um pouco mais, vale muito a pena visitar no site do Waldemar a página “Niclevicz responde”, onde ele nos brinda com mais detalhes sobre sua experiência como alpinista e responde boa parte das perguntas mais gerais sobre sua carreira. E conta também porque a escalada do Carstensz curiosamente é uma das mais complicadas do planeta…

3) Essa foi a minha maneira de fazer uma pequena homenagem ao sucesso da expedicao "10 Anos de Brasil no Everest".

Marcadores: