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terça-feira, setembro 27, 2005

Morte e vida - severina?

Nos na rede - azul
Hoje é um dia de conscientização e discussão na nossa saudável blogosfera, e o tema da vez é a descriminalização do aborto. Uma ação combinada aberta a quem quiser participar, cujo objetivo é levantar o assunto que é um desses "nós na rede" - e principalmente levantar a opinião e a reflexão das pessoas que passeiam pela blogosfera. Vale a pena dar uma olhada com calma e atenção em cada um dos blogs que estão postando sobre o tema. A lista está gentilmente hospedada na Verbeat e atende pelo singelo nome de... "Nós na Rede".

Quando me decidi a escrever sobre o tema, não sabia como poderia abordá-lo - e talvez o texto que vocês estão prestes a ler por aqui ainda não seja sequer razoável. Na realidade, acho a decisão de submeter-se a um aborto de fóro totalmente íntimo. O que se discute, portanto, é apenas a garantia do amparo do estado para que tal ato seja feito de forma segura e eficiente, com o mínimo de sofrimento humano e o máximo de dignidade. Descriminalizá-lo, basicamente. As razões que levam a pessoa a decidir por um aborto não são discutíveis nem cabíveis de discussão pelos legisladores - são questões pessoais, muito íntimas, particulares. E ninguém tem condições de julgar ninguém por isso. Deve-se lutar portanto pelo amparo do estado no caso da decisão pelo procedimento de um cidadão.

Segundo o Medline HealthPlus (um dos sites mais confiáveis sobre medicina, organizado pelo National Institute of Health), o aborto é "um procedimento cirúrgico ou médico para terminar uma gravidez através da remoção do feto e sua placenta do interior do útero." (Reparem que não se trata aqui do aborto espontâneo, ok? Porque esse a legislação não tem o que discutir.) O site cita também as 3 razões pelas quais a mulher pode (à luz da medicina, entenda-se) ter a sua gravidez terminada:

1) a mulher não quer completar a gravidez (aborto eletivo);
2) a saúde da mulher está de alguma forma em risco por causa da gravidez (aborto terapêutico);
3) o feto apresenta uma anomalia grave ou um defeito irreparável (aborto de razões genéticas ou de má formação).

As formas de execução de um aborto variam de acordo com o estágio da gravidez - quanto antes, menos invasivas, é claro. Se o aborto for requisitado até 49 dias após o último ciclo menstrual, a mulher pode pedir ao médico para se utilizar de pílulas bloqueadoras de progesterona (RU-486) ou pílulas de prostaglandinas, moléculas que induzem o útero a contrair-se em excesso, expelindo o feto. Após esse período, entretanto, é necessária a presença de um cirurgião, pois os métodos vão da curetagem simples a uma cirurgia de retirada. Um procedimento não muito simples que sem dúvida requer um aparato médico. Mas que é renegado a clínicas de décima categoria ou a agulhas de tricô pela terra brasilis afora por devaneios do mundo político - o desamparo da lei. É mais cômodo simplesmente fechar o olho para essa realidade: milhares de mulheres arriscando sua saúde todos os dias porque o estado, essa instituição etérea e distante, não as concede um direito de escolha sobre o próprio corpo físico delas. Reflexivo, sem dúvida.

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E aí, sábado passado, enquanto eu pensava como escreveria algo decente sobre o aborto (e não as viagens na maionese que normalmente escrevo; afinal aborto é assunto muito sério), decidimos ir à exposição do Sebastião Salgado em Seul. Meu segundo fotógrafo predileto, o mestre mineiro do preto e branco. É o próprio Salgado quem diz em seu site:

"I hope that the person who visits my exhibitions, and the person who comes out, are not quite the same."

Saí da galeria do Centro de Imprensa (onde a exposição acontecia) chocada, em lágrimas. De verdade, não era a mesma pessoa - afinal, sou como Salvador Dalí: "Everything alters me, nothing changes me." Sebastião Salgado é um fotógrafo fenomenal. Mais que isso, é um ser humano de coração compreensivo e benevolente, profundamente preocupado e engajado nas causas sociais da humanidade. As fotos que tira expressam de forma crua uma realidade humana dolorida, impactante, trágica - e extremamente verdadeira. Salgado é um artista de quem o brasileiro deveria ter muito orgulho: é representante especial da UNICEF, e é um desses cidadãos do mundo de verdade, que viaja a uma terra desconhecida num ônibus simples, que prefere viver a realidade do povo que fotografa para exercer com plenitude sua fotografia engajada. Um cidadão que faz a sua parte pela melhoria do mundo.

Possui um trabalho reconhecido nos 5 cantos do planeta como da mais alta relevância e poesia - tragédia poética, assim dizendo. O branco e preto das suas fotos torna-se o retrato maniqueísta da realidade de um mundo cruel, o conflito diário da vida com a morte, da luz com as trevas. A benevolência severina. É dramático. E de uma certa forma, ciente de sua essencial força criativa, Sebastião Salgado nos faz viajar com ele por terras áridas, esquecidas, povos em desespero, sofridos, conformados com a pobreza, o subdesenvolvimento, a miséria da alma. Povos tristes. Povos que sofrem por não terem o devido apoio governamental ou do sistema, por serem dizimados por doenças, por não terem a oportunidade de sequer discutir sobre questões básicas, como saneamento, educação, saúde, alimentação, aborto ou qualquer outra coisa, enjaulados que estão na luta pela sobrevivência diária mais animal possivel. Povos sem esperança da dignidade humana.

Povos que são abortados do básico direito de viver.

Povos que mostram muito bem o quão desesperadora pode ser a vida. É mais cômodo simplesmente fechar o olho para essa realidade.

Nas palavras de Salgado sobre as fotos na África:

"I was injured in my heart and my spirit. For me, it was terrible what I saw. I came away from this with incredible despair."

It's insanely true.

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Outro lado desse cubo...

O mais recente trabalho de Sebastião Salgado chama-se "Genesis", e tem como objetivo fotografar áreas do planeta que são talvez os últimos redutos pristinos e intocáveis, menos ameaçados pela interferência humana. O trabalho é uma espécie de luta pela esperança no futuro, como ele define. Seu trabalho anterior, o "Exodus", marcou-o deveras, e segundo as palavras dele que reproduzi acima, deixou uma marca de descrença na bondade da humanidade muito grande. Para remover essa mancha (como eu, ele quer acreditar nas pessoas a qualquer custo...), planejou esse projeto de 8 anos pelo mundo, onde fotografará o que ainda resta de belo na natureza. E desde 2004, as fotos desse projeto belíssimo estão semanalmente aparecendo no Guardian inglês. Já esteve por 3 meses em Galápagos, passou um tempo nos vulcões da tríade Ruanda/Congo/Uganda, outro tanto de tempo com as baleias na Patagônia, e agora está na Antárctica. Suas fotografias do mundo animal são tão emocionantes quanto as humanas, dramáticas em sua esperança, e mais uma vez eu não contive as lágrimas. Sebastião Salgado é pura emoção, das mais profundas e belas que se pode imaginar num ser humano. E fica mais uma frase dele próprio narrando a experiência de encontrar-se com as baleias em seu hábitat natural, como conclusão desse outro lado da moeda da vida:

"When you have them in front of you, you do feel the power of life."

It's insanely true.

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Tudo de bom sempre.

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*Por questão de postura pessoal, não coloquei as fotos do Sebastião Salgado aqui. Deixo a vocês a magnânima experiência de admirá-las em cada um dos links acima citados.

**Uma boa colocação científica/sociológica sobre o aborto encontra-se nesse post do blog Gene Expression, que analisa o caso do bebê gerado fora do útero e que nasceu saudável.

***Esse post foi escrito em meados de agosto. A exposição do Sebastião Salgado em Seul saiu de cartaz no início de setembro.

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segunda-feira, setembro 26, 2005

Orelhões do Brasil

Todo mundo tem uma bizarrice de viagem, um comportamento ou mania qualquer que o marca durante a travessia - pelo menos eu quero acreditar que todo mundo tem, para não me sentir sozinha nessa loucura saudável. Tem gente que coleciona ímãs de geladeira, outros pequenas pedras de rua, já vi até quem comprasse elefantinhos (!!) em cada viagem. Eu tenho várias dessas bizarrices, e uma delas é... fotografar orelhões. Os velhos telefones públicos, tão em desuso depois do advento do celular. E no Brasil, estão sem dúvida os mais divertidos do mundo. Não sei de quem foi a idéia criativa, nem onde começou - o primeiro que vi foi em 1995 em Porto Seguro, na Passarela do Álcool. O famoso orelhão de coqueiro, cuja foto não acho por aqui - deve ter ficado em algum álbum no Brasil... (Outra foto que também não achei foi do orelhão-caju de Aracaju, Sergipe, um dos meus favoritos.)

Não conheço muitas pessoas com tal "mania". Pra mim, é uma boa diversão em extinção - aqui na Coréia, por exemplo, é bem difícil encontrar um telefone público, já que a grande maioria das pessoas usa celular. O que me dá uma certa tristeza: de alguma forma, os orelhões têm um pouco da cara das cidades onde estão, e perdê-los me faz sentir um pouco como se as cidades estivessem perdendo um pouquinho da identidade de uma época. Esse site, por exemplo, mostra fotos de orelhões pelo mundo, e dá para tirar uma conclusão visitando-o: os orelhões brasileiros são os mais divertidos do planeta.

Compartilho abaixo uma alegre e minúscula coleção de fotos de orelhões que tirei em alguns lugares do Brasil, pra diversão de todos. Alguém já esbarrou sem querer em algum desses por aí?

Marlim azul - Vila Velha - ESConchas - Vila Velha - ES
Esses dois orelhões (marlim azul e conchas) ficam em Vila Velha, no Espírito Santo. A super-modelo na foto do orelhão-marlim azul é a mãe mais linda do mundo! :-)

Tucano - Bonito - MSArara - Bonito - MS
BR orelhoes006BR orelhoes04Onca pintada - Bonito - MS
Orelhões de Bonito (MS), uma das cidades com maior concentração dessas esculturas telecomunicativas no Brasil. (Mais fotos serão colocadas aqui em breve, assim que o Flickr voltar ao normal.)

Chapeu alemao - Oktoberfest - Blumenau - SCBerimbau - Salvador - BA
Ligando do orelhão-chapéu bávaro no meio do pavilhão da Oktoberfest em Blumenau, Santa Catarina. Ao lado, o orelhão-berimbau de Salvador, BA.

"Alô? Só estou ligando pra dizer...

Tudo de bom sempre pra vocês."

:-)

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quinta-feira, setembro 22, 2005

O sonho da reunificação das Coréias

Coréia do Norte, vista da DMZ
O máximo de proximidade física que os cidadãos comuns sul-coreanos têm hoje com a Coréia do Norte: bandeira flamulando na DMZ, lado norte-coreano visto do lado sul-coreano.

O Marcus Pessoa fez duas perguntas interessantes nos comentários do post passado:

"Você acha que o possível desarmamento da Coréia do Norte abre caminho para a unificação? Mas como é que fica essa questão de regimes políticos diferentes?"

Antes de mais nada, Marcus, obrigada pelas perguntas. Achei contundentes e pertinentes. Achei também que seria melhor respondê-la na forma de post, principalmente acrescentando algumas opiniões pessoais derivadas das histórias e mais histórias que ouvimos estando aqui, tão perto da situação toda, a apenas 45 minutos de metrô de Seul e a menos de 2h de carro de distância da Zona Desmilitarizada, na fronteira com a Coréia do Norte. Vamos então à batata quente.

As Coréias foram divididas após a Guerra da Coréia, cuja troca de balas terminou em 1953 - nunca foi assinado um tratado de paz, apenas um armistício de cessar-fogo; portanto tecnicamente, os 2 países ainda estão em guerra, embora é claro, não haja troca de balas, bombas ou coisas similares no momento. A Guerra em si foi o primeiro conflito após o fim da Segunda Guerra Mundial entre Aliados capitalistas (liderados pelos EUA e Japão) e a Cortina de Ferro comunista (liderados pela China), no melancólico período da Guerra Fria. É considerada pelo próprio Exército americano como uma das mais frustrantes já enfrentadas pelos americanos e ganhou o apelido de "Guerra Esquecida" (Forgotten War). Os EUA nitidamente não estavam bem-preparados para guerra naquele momento (pouco orçamento na época), principalmente para o estresse da pouca mobilidade dos exércitos nem para o rigoroso inverno da região. O palco principal da guerra foi Seul, e de lá não avançou nem retrocedeu.

No armistício declarado em 1953, os exércitos localizavam-se na zona do paralelo 38, e em torno dessa zona foi constituída a zona desmilitarizada (DMZ), que seria uma região amistosa por um período de tempo até que se chegasse a um acordo sobre o fim da guerra. Ao norte, o exército chinês com a liderança das províncias do norte; ao sul, o exército americano com a liderança das províncias do sul lideradas por Seul. Bem, estamos em 2005, e a DMZ ainda está lá, e nenhum acordo foi firmado.

Mas é claro, o mundo mudou. A guerra da Coréia foi um conflito da Guerra Fria, que há tempos já acabou, sepultada que foi com a Perestroika de Gorbachev (quando adolescente, ao invés de Tom Cruise, era do Gorbachev que eu e uma amiga maluca colecionávamos recortes). Mas a diferença dos regimes entre os dois países que derivaram da separação pela DMZ continua marcante, gritante, e impedindo um avanço maior das negociações.

É preciso entender que coreanos do norte e do sul são um só povo. Podem estar separados por uma causalidade da guerra, mas têm em comum muitas tradições, uma língua cujo alfabeto é único no mundo, e principalmente raízes ancestrais. É a ancestralidade, esse valor tão estimado pela sociedade oriental, que mais choca aos coreanos em si quando se fala nessa divisão política. No sul, sempre que perguntamos algo sobre a Coréia do Norte, a resposta vem com aquele ar melancólico, como do filho cujo pai saiu de casa pra comprar pão e nunca mais voltou. Mas que continua com a esperança de que o pai um dia bata na porta novamente. Os sul-coreanos até pouco tempo atrás eram totalmente proibidos de visitar o norte - exceção feita hoje em dia para algumas regiões de turismo nas montanhas próximas à DMZ que o seu Kim do Norte decidiu abrir para angariar alguns wons do sul. Além disso, a Coréia do Sul envia quantidades absurdas de comida, medicamentos, fertilizantes e outros produtos básicos para os irmãos do Norte - o caso mais famoso é o do dono da Hyundai (fabricante de carros) que é um coreano do norte que mora no sul, fugitivo do sistema comunista e que se dedicou a construir algumas das várias pontes que cruzam a DMZ, assim como a ferrovia que liga sul ao norte, por onde mantimentos e etcétera fluem.

Óbvio, esse envio de produtos não é puro altruísmo. E agora, eu passo a me aprofundar mais ainda no meu achismo de outsider e leiga em política. O paralelo com a Alemanha pós-queda do Muro de Berlim é inevitável. Assim que o muro caiu em 1989, uma das primeiras providências que o governo alemão ocidental fez foi distribuir dinheiro para os alemães orientais gastarem com o que quisessem - na época, se bem me recordo dos jornais, 2,000 marcos para cada um, bastando apresentar um documento de identidade. Veja só, se você tivesse um passaporte E uma carteira de identidade, você poderia apresentar os 2 separadamente e ganhar o dobro - bastava entrar 2 vezes na fila. Isso foi controlado de forma bem porca pelo lado ocidental, pois o objetivo final na realidade era que o maior número possível de alemães orientais gastassem e se "maravilhassem" nas lojas ocidentais. O sistema socialista foi minado pelo seu maior inimigo: o capital. Deram capital a quem não o tinha, uma jogada de mestre que, à parte pelos problemas que o regime socialista já apresentava, pela situação política que já pairava com a Perestroika em ação e pela própria tradição alemã (mais uma vez, eles eram um só povo como os coreanos são), foi certamente uma significativa ameaça a qualquer intenção de volta ao sistema da Cortina de Ferro.

Eu sinto meio que a mesma coisa acontecendo com a Coréia. O Sul fornece todos esses presentes pros irmãos do Norte, mas a meu ver a mensagem subliminar é clara: Nós temos dinheiro e melhor qualidade de vida, temos tecnologia ao alcance de todos, e vocês, com esse regime opressor, o que têm? Pobreza, fome, bombas nucleares? Imagine numa analogia tosca todos os norte-coreanos "ganhando" celulares high-tech com câmera, acesso a internet e maravilhas afins. É jogo ganho para o capitalismo do sul, pelo menos essa é minha opinião sobre uma eventual reunificação.

Mas outras questões se mantém fortes. A China, é claro, também quer seu quinhão de mercado consumidor. Além disso, tem fronteira com a Coréia do Norte - e lembre-se, porque a guerra tecnicamente não acabou, existem 30,000 soldados americanos estacionados aqui na península. Reunificar as Coréias seria permitir que a China tivesse fronteira com um país lotado de americanos (assumindo que os soldados permaneçam aqui por alguma razão depois da reunificação) e com influência mercadológica forte dos mesmos americanos. Isso poderia facilitar um maior policiamento sobre a questão dos direitos humanos na China, por exemplo. A presença americana tão próxima seria uma ameaça que pode custar caro ao governo chinês. E não sei se Beijing quer pagar pra ver.

Fato é que, por medo ou sei lá o quê de uma possível invasão do Norte a Seul - e dada a quantidade de túneis que já foram encontrados na DMZ que no final tentavam isso - não é devaneio do governo coreano a proteção pesada que possui em seu palácio do Governo, estrategicamente encravado numa montanha em Seul. A área é toda murada, não se pode fotografar nem à distância sob perigo de prisão, de qualquer ângulo que você tente ver o palácio, ele estará encoberto por árvores ou similares, com guardas vigiando 24h por dia, ao ponto do governo federal se manifestar sobre os perigos do Google Earth para a segurança sul-coreana. Eu sei, soa como teoria da conspiração, mas é isso que a realidade nos traz ao abrir os jornais às vezes: um sabor de aventura e emoção jamesbondiana.

Em Seul, florescem vários rumores criativos entre os coreanos - tudo que escrevo abaixo vem de conversas férteis com duas amigas relativamente bem-informadas, mas que não deixam de ser o que são no fundo: fofoca política. Como alguns já sabem, a Coréia tinha planos de construir uma capital nova no meio do país - chegaram a ir a Brasília analisar a experiência nossa de cada dia, etc. Entretanto, há poucas semanas essa idéia foi completamente descartada pelo Congresso. Agora, apenas as grandes empresas (gás, eletricidade, etc.) assim como alguns prédios do governo irão sair do perímetro urbano de Seul, não mais sequer das redondezas da cidade. Antes, dizia-se que essa saída estratégica era para que Seul fosse "liberada" para uma provável invasão da Coréia do Norte - existiriam nesse caso acordos secretos sendo feitos para que, em troca do mercado norte-coreano, Seul finalmente fosse do norte, eliminando a chance de reunificação. Agora, como a idéia da moderna capital no centro do país foi pro beleléu, diz-se à boca miúda que Seul está sendo reorganizada para a reunificação o mais rápido possível, e que o atual presidente deseja que tal compromisso seja firmado antes do término de seu mandato, para ficar com os louros da vitória. Nesse caso, o que seria feito com o Kim do Norte é teoria conspiratória a belprazer do cliente.

E voltando às perguntas do Marcus: sim, eu acredito na reunificação dos povos coreanos; e acredito que o regime vigente numa futura Coréia reunificada será o capitalismo. Por quê? Aposta pessoal, permeada com um pouco dessa conjuntura que citei acima. Entretanto, as nuances, problemas e questões reais que surgem daí são campo fértil para especulações mil... Use a imaginação política/estratégica/econômica/romântica/saudosista e viaje na maionese.

Eu viajo todo dia. Basta abrir o jornal.

Tudo de bom sempre.

Algumas curiosidades sobre o tema...

- Há alguns dias, li no jornal coreano o caso de um chinês que foi a primeira pessoa no mundo a se graduar pelas duas universidades do "conflito": Pyongyang e Seul. Ele fez a graduação em Pyongyang e o doutorado em Seul. Os chineses têm passagem livre nos dois países, o que explica como o cidadão conseguiu o feito. Mas foi tido como um "exemplo da reunificação".

- A Coréia do Norte é, por qualquer estatística que se veja, um país bem pobre. Que também precisa de energia para viver. A desculpa que mais se ouve nos jornais coreanos para a manutenção de um reator nuclear por lá é da geração de energia nuclear - uma desculpa plausível, dado que a Coréia do Sul tem 20 usinas nucleares abastacendo 40% do total de energia requisitado pelo país. Parte considerável da política energética num país que não tem grandes rios para hidrelétricas e tem que importar quase todo o carvão para as termelétricas.

- As famílias separadas pela guerra da Coréia encontram-se anualmente, num esforço político sem igual. Cada ano, esse encontro (que é vigiado) ocorre em Seul ou Pyongyang. Esse ano foi nas montanhas Kumgang, na Coréia do Norte. É sempre um momento emocionante, que os jornais mais dramáticos fazem questão de mostrar com todas as lágrimas possíveis.

- Independente dessa história toda, uma coisa une coreanos (do norte e do sul) e chineses: todos têm um ranço de desgosto com o Japão.

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segunda-feira, setembro 19, 2005

Feliz Chuseok!

Hoje foi feriado na Coréia do Sul, dia do Chuseok. Os coreanos traduzem Chuseok como "Thanksgiving", que seria então o dia de Ação de Graças. Mas quando comparado ao Thanksgiving americano, o Chuseok é bem diferente, e por isso eu acho que a tradução não é muito precisa. No dia de Chuseok, celebra-se não só a colheita (como é feito no Thanksgiving), mas também os mortos e antepassados. É um dia de reunião da família coreana para renovação dos laços com seus ancestrais.

Nunca vi um cemitério na Coréia. Se existem, estão bem escondidos. O que vi pelo país são pequenas e reclusas áreas nas montanhas com as devidas covas, cruzes e afins, mas geralmente cheios de simbologia e artefatos orientais. Alguns são templos bonitos, outros mais simples são apenas a demonstração de que ali reside a memória de uma família. Na tradição coreana, os mortos são sempre enterrados em montanhas olhando pros vales, o que deve ter um significado que ignoro. No Chuseok, as famílias viajam às respectivas montanhas onde os ancestrais estão enterrados para homenageá-los. Cada família tem a "sua montanha" e seu "templinho".

Além disso, no Chuseok há uma ceia tradicional, que é preparada apenas pelas mulheres. Elas fazem bolinhos de arroz e comidas tradicionais, e na hora da ceia, vestem seus vestidos típicos.

Para nós, que obviamente não temos nenhum vínculo com essa tradição a não ser o fato de estarmos na Coréia, hoje o dia foi de descanso. Estava tendo um Festival de Luzes no centro comercial de Ansan, onde moramos - não sei se havia alguma relação com o Chuseok. Resolvemos dar uma chegada lá à noite, e foi muito divertido, com apresentações musicais, acrobáticas e barraquinhas de comidas típicas. Ao ver as luzes e aquela réplicas coloridas, apenas um nome veio a minha cabeça: Joãozinho Trinta. Acho que ele ia adorar toda essa iluminação colorida do luxo, talvez o inspirasse pra um carnaval futuro... As fotos ilustram um pouco mais o que vimos por lá.

Vista geral com Torre EiffelLuminárias chinesas
Essa era a vista geral da praça com as luzes do festival. Havia várias "homenagens" a diferentes países, representados por alguns ícones do turismo. Na foto, vê-se a réplica da Torre Eiffel (tinha também réplica do Big Ben de Londres, de um Buda tailandês, do Temple of Heaven de Beijing, do Exército de Terracota da China, um Parque Jurássico - será que era isso que representava os EUA?). Na foto ao lado, no fundo vê-se a réplica do palácio de Gyeongbokgung, em Seul. Em algumas áreas, as passarelas estavam todas enfeitadas com essas luminárias chinesas vermelhas, bem típicas dos festejos do Ano Novo Chinês.

Corredor de luzGalo chinês
Um corredor de luzes coloridas. Ao lado, a réplica de um portal chinês com o símbolo do galo. Estamos no ano do Galo, de acordo com o Horóscopo Chinês.

Templo chinêsColuna do palácio coreano
Uma réplica de um templo chinês lindíssima, e ao lado estou no corredor da réplica do palácio de Gyeongbokgung, onde o tráfego e o vermelho eram intensos - pra dizer o mínimo.

Torre de PisaArvore de Natal de cds
Não só a iluminação chamava a atenção. Os materiais com que as réplicas foram construídas também eram interessantes (papel, madeira, plástico, etc.) e muitas vezes pra lá de inusitados. Na foto acima, a réplica da Torre de Pisa, feita toda com pratos de porcelana - a torre era de uma altura razoável, e estava toda amarrada para manter sua inclinação como a original. Ao lado, uma árvore de Natal (bizarrice fora de época entre tantas) feita toda com CDs. Reciclagem é a palavra-chave, não é mesmo?

Criança no Temple of HeavenRecadinhos de Chuseok
Uma criança posa para foto na réplica do chinês Temple of Heaven - dentro funcionava na realidade, um bar; ao lado, embaixo da árvore de Natal de CDs, vários desses "recadinhos de Chuseok" eram pendurados com desejos e expectativas pro próximo ano.

E eu fiquei agora matutando: será que em algum desses papeizinhos estava escrito um pedido de paz e/ou desmantelamento nuclear da Coréia do Norte? A contar pelo acordo que finalmente foi firmado hoje, se alguém pé-quente altruísta pediu por isso, teve seu desejo prontamente realizado... para felicidade geral da península coreana, que parece cada vez mais próxima da reunificação.

Tudo de bom sempre.

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quinta-feira, setembro 15, 2005

He'enalu 'oe!*

Começou. Ontem bateu o primeiro swell no North Shore do Hawai'i, o vento que traz de muito longe (do Japão, geralmente) a primeira leva de grandes ondas pro mais famoso point de surfe do planeta. Aquele swell que abre a temporada de boas ondas dos grandes campeonatos mundiais do circuito WCT, aquele swell que é o mais aguardado porque é o primeiro depois de um longo e tenebroso verão sem ondas. Afinal, é no inverno que as ondas gigantes perfeitas quebram em Pipeline, Waimea Bay e Sunset Beach - as mecas do surfe mundial, para onde os melhores surfistas profissionais convergem entre novembro e março. Posso imaginar o trânsito complicado na Kamehameha Highway, única via de acesso a essas praias...

PipelinePipeline
Momentos em Pipeline: Ondas quebrando no início da temporada de surf com a cena típica da galera se preparando pra enfrentar as ondas enormes. Reparem nas placas avisando para não entrar na água - em dias de surfe alto, apenas pessoas com prancha são permitidas na água. Nada de banhistas valentões, expressamente proibido.

Para sorte dos surfistas kama'ainas (nativos ou locais) e dos haoles (os de fora) que lá estão nessa temporada, o South Shore também foi agraciado com belas formações no mesmo dia devido a tempestades formadas no Pacífico sul que terminaram por engrandecer as ondas em Waikiki, Makaha, Kaiser (ou Ala Moana Bowls) e Sandy Beach, points menos conhecidos do mundo mas altamente mitificados pela moçada kama'aina. North e South shore batendo forte: o sonho dourado da galera das ondas, a combinação que garante uma grande festa do surfe na ilha de O'ahu. A contar por esse primeiro dia, a temporada promete.

Essa notícia me deu saudade. Saudade do despojamento da galera surfista. Saudade de ver o "surf report" na primeira página do jornal todos os dias. Saudade de quando tinha aulas de havaiano - num dia como ontem, provavelmente as aulas seriam suspensas, já que meu professor era uma das lendas locais do pranchão, e vários dos colegas de sala eram também surfistas. Afinal, numa universidade cujo website tem uma página dedicada à previsão do surfe, nada mais "normal" que desencanar de uma aula no inverno para se jogar nas ondas.

Cresci na beira da praia, e tinha amigas e amigos que surfavam ou bodyboardeavam por diversão. Entretanto, surfar era meio que visto como "coisa de vagabundo", na percepção da maioria. E os pais logo tratavam de arrumar algo pro filho surfista-de-fim-de-tarde fazer, algo que o tirasse "daquela vida". E, embora sempre tenha apreciado o surfe, sempre tenha ficado embasbacada com aquelas fotos de Sunset Beach, nunca declarei abertamente minha admiração total por ele como esporte enquanto era adolescente.

No Havaí, muito mais que esporte, surfe é uma tradição, quase uma filosofia de vida. O bom surfista é respeitado na comunidade e dedica-se muito à apreciação das ondas do mar - basta ler a biografia de Eddie Aikau, considerado o melhor surfista havaiano de todos os tempos, para perceber que dedicação e entendimento empírico da dinâmica da onda são parte fundamental do ato de surfar e principalmente da cultura havaiana. (A emocionante vida de Eddie Aikau aliás merece um post futuro.) É preciso literalmente ralar (no coral, veja bem) para ser um cidadão do "Reino do Havaí" - sim, ainda existe um movimento separatista que sonha em libertar-se das garras americanas e reinstaurar a monarquia nas ilhas, e eu, lunática como sempre, uma vez caí "de pára-quedas" numa reunião deles num café em Honolulu. (Confesso que foi divertido assistir àquela discussão romântica, embora meu maior interesse ali naquele momento fosse cafeína.)

O surfe nasceu no Havaí, como todos devem imaginar. Era uma forma de mostrar supremacia de alguém perante a sociedade - o que explica porque fazia parte das atividades de honra entre os membros da família real havaiana. Dominar uma onda mostrava agilidade, força, poder e principalmente, capacidade de comando. Surfar era um ritual nobre. É a idéia da nobreza do esporte que explica em parte porque até hoje o surfe é uma atividade tão disseminada na cabeça dos havaianos - e é claro, acrescente a isso hoje o lado mercantilista da situação: o surfe traz muito dinheiro em turismo e afins pras ilhas. A casualidade da natureza bem-explorada turisticamente como só o povo americano sabe fazer.

Surf em Makapuu, East shorePipeline Mallificado
Locais (kama'ainas) surfando em Makapu'u, praia do lado leste famosa entre os havaianos como point de bodyboarding; ao lado, uma Malla em Pipeline. Esse foi o mais próximo que cheguei a uma prancha por lá, a do salva-vidas.

Hoje em dia também o esporte atingiu um nível de profissionalismo fantástico. Com o auxílio da Internet, os surfistas ficam de olho em websites conectados a estações meteorológicas cujas bóias de detecção no oceano informam exatamente o traçado da onda que passa e onde ela vai estourar num intervalo de até 5 dias. Eu ouvi casos de gente que, ao ver que um bom swell estava pra chegar no North Shore, saía da Austrália ou de onde estivesse no mundo para chegar até Pipeline no momento certo. Haja dinheiro, haja disposição, haja entusiasmo pelo esporte, haja mar no coração.

No Havaí, respira-se surfe. Mesmo alguém que não surfe, como eu, não tem como não admirar a dedicação que os havaianos mostram com as belas formações de água. Shape da prancha, momento certo de descer na onda, o melhor horário: a perfeição hidrodinâmica acima de tudo. A adrenalina explodindo. E junte a isso a sensação (real) de distanciamento do mundo que já expliquei anteriormente, mais a comercialização do esporte - em qualquer lugar há pranchas ou lojas de roupas, acessórios e afins - e eis que a admiração saudosa dos havaianos desabrocha em mim totalmente, com Jack Johnson, "Brodda" Iz ou P.O.D. de fundo musical.

Maika'i mau i po'e. Ou... tudo de bom sempre.

Pranchas empilhadas em WaikikiMonumento ao surf em Waikiki
A cultura do surfe: Cena comum em Waikiki, onde pranchas empilham-se na praia; ao lado, um monumento ao surfe, também em Waikiki.

Mais viagens na crista da onda maionesal...

- Em 2 dos apartamentos que morei no Havaí, havia vaga para prancha no prédio - você alugava o apartamento e tinha direito a uma vaga de carro na garagem e duas vagas para pranchas. Isso que é surfe na veia...

- Se você não surfa, mas quer curtir um mergulho no North Shore, vá ao Havaí durante o verão. Nessa época, o North Shore é uma verdadeira piscina, sem onda alguma. Não deixava de ser divertido ver alguns turistas surfistas desavisados chegando com suas pranchas para curtirem a meca do surfe e perceberem com desapontamento que Sunset Beach em julho é o paraíso das crianças com boinhas de patinho.

- Assisti a uma etapa do WCT em Sunset Beach. O brasileiro Victor Ribas fez bonito, mas não tem pra ninguém quando o havaiano Andy Irons sobe na prancha... É o surfe-arte, maximizado também por Kelly Slater.

- É claro, não são todos os havaianos que surfam. Uma boa parte, entretanto. Mas mesmo os não-surfistas são permeados pela cultura ao esporte. Algo como o brasileiro e sua relação com o futebol.


*He'enalu 'oe! = Vamos surfar!, em língua havaiana.

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segunda-feira, setembro 12, 2005

Pimenta na calçada dos outros é kimchi!

... e o verão no hemisfério norte vai se aproximando do fim. Tem dado seus últimos suspiros, e uma leve brisa mais fresca já páira nas manhãs e fins de tarde, contrastando com o calor manauense que sentíamos há 1 mês.

Com o fim do verão, começa também a pipocar pelas ruas uma das tradições mais interessantes da Coréia, e marca registrada dessa cultura: a secagem da pimenta.

No início da primavera, mais ou menos em abril, as ajumás começam as plantações de tudo pelas ruas do país, incluindo é lógico, as ruas da cidade onde moro. Não sobra um buraquinho de terra, nem na beira do trilho do metrô, sem plantação, nem que seja de girassóis. Num país onde espaço é limitante (apenas 22% do território coreano é arável), é realmente necessário aproveitar cada centímetro quadrado. O verão vai-se, e nessa época em que estamos agora, é hora de colher vários dos vegetais plantados, incluindo a pimenta.

Depois de colhida, a pimenta é colocada em geral para secar, e aí que entra a parte interessante da história: é a calçada das ruas que se torna a área de secagem. Não há pudor algum em espalhar um mundo de pimenta pelo chão. Ninguém rouba, ninguém come, fica lá, dias e dias, secando, aquele mar vermelho no chão. É esteticamente muito bonito. E é claro, os coreanos têm noção de que não podem fazer isso em lugares movimentados, então são geralmente as calçadas mais "esquecidas" que ganham o tapete vermelho de enfeite.

Após a secagem, a pimenta é devidamente processada para virar kimchi, a comida nacional tradicional por excelência. O kimchi é produzido a partir da fermentação de alguma verdura ou legume (em geral, usa-se acelga) em enormes potes de barro especiais mergulhados em molhos de pimenta e sal, no quintal das casas. Os potes ficam fermentando por um longo tempo, muitas vezes até o fim do inverno. No passado, essa era a única forma de se estocar comida pro inverno, através de adição de sal - que os coreanos aprimoraram e juntaram com pimenta. Cada família tem sua receita de kimchi própria, guardada com muito segredo e passada para as gerações seguintes. E a cada ano, esse processo de plantio, colheita, secagem e kimchização da pimenta se repete.

A pimenta é nutricionalmente muito rica, e adicionada ao vegetal que está fermentando no pote, torna o kimchi um dos grandes segredos da boa saúde dos coreanos. É a presença de capsaicina na parte carnuda da pimenta que a faz ser picante, e diferentes variedades da planta têm diferentes níveis de capsaicina. O nível que agrada ao paladar coreano é o "ready-to-die" (ou, "pronto-pra-morrer": dei esse nome em homenagem a um pó de pimenta homônimo fortíssimo que tinha na república em que morava em Boston, que era um concentrado das 20 espécies de pimenta mais picantes do planeta juntas num pote minúsculo. Toda vez que um fariseu abria aquele pote na cozinha, eu lá do outro lado da casa começava a espirrar).

A Coréia do Sul precisa produzir e/ou importar quantidades abissais de pimenta, para suprir a demanda infinita da cultura culinária vigente. Consome-se pimenta de manhã, de tarde e de noite - e se acordar de madrugada com "aquela" fominha, pode ter certeza que algo apimentado será devidamente traçado da geladeira. Não se cogita uma refeição sequer sem pimenta, soa tão inconcebível quanto um brasileiro que não sabe o que é futebol.

Acredito que para um estrangeiro como eu que mora aqui na Coréia, toda essa cultura da pimenta, essa tradição milenar artesanal, essa riqueza culinária, é uma experiência muito interessante de se vivenciar e que não deve ser deixada de lado.

Só tem um pequeno detalhe: eu sou alérgica à pimenta. :-)

Pés de pimentaPotes de barro para estocagem de pimenta
Ajumás com pimentasPimentas na calçada
Pés de pimenta na horta do pátio de uma igreja evangélica perto do condomínio: cada espacinho arável deve ser aproveitado na plantação daquela que é a "religião culinária nacional". Ao lado, em cima: os potes de barro cheios de kimchi estocados no quintal de uma casa tradicional em Suwon. Embaixo, as ajumás organizando as pimentas na calçada da pracinha do condomínio, e ao lado as pimentas secando em frente ao prédio onde moro, colorindo o passeio.

Tudo de bom sempre - sem pimenta na terra da pimenta.

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quarta-feira, setembro 07, 2005

Independência e corte

Nos na rede - azul

Hoje, dia 07 de setembro, é feriado no Brasil. Dia da Independência. Da tutela portuguesa, entenda-se. Hoje somos República Federativa.

Contraditoriamente, vemos na atualidade um mundo de fronteiras cada vez mais frouxas para aquisição de conhecimento. Cada vez mais dependemos de um mundo de informações para tomada de decisões em geral, e boa parte dessas informações é de fácil alcance na internet. A ciência não é uma exceção nesse caso.

Em minha opinião, o Brasil está numa situação peculiar no campo científico. É detentor de biodiversidade, possui uma boa formação de recursos humanos para a pesquisa, investe uma quantia até razoável do PIB em projetos grandiosos (eu sei que isso soa estranhíssimo e surreal, mas quando comparado a maioria dos demais países, investimos um valor razoável em ciência, sim), mas produz um número de patentes e publicações pífio. (Todos os dados estão claramente dispostos no link "Indicadores" do site do Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil. Por exemplo, lá está que 1% do PIB do país vai para projetos na área de ciência e tecnologia.) O Brasil tem tudo para ser mais independente, mas não o é. O que acontece?

Gasto em ciencia e tecnologia no mundo
Gasto percentual em ciência e tecnologia no Brasil e no mundo, em relação ao PIB do país.

Producao cientifica no mundo
Produção científica brasileira percentual em comparação a alguns países do mundo, medida pelo número de publicações em revistas indexadas pela ISI.

patentes
Número de patentes depositadas no ano de 2000 por diferentes países ao escritorio de patentes americano.

Em primeiro lugar, ciência no Brasil é basicamente uma atividade mantida pelo governo. Enquanto nos EUA, Europa e Japão, uma parcela considerável (nos EUA, mais de 65%) dos investimentos na ciência vêm de capital privado - que claramente requerem lucro como contrapartida -, no Brasil o predomínio do capital público é claro - e caro. Por outro lado, não há bons incentivos fiscais para empresas privadas adotarem uma política de investimento maciço. Além do mais, fazer ciência é intrinsecamente uma atividade cara e de retorno a longo prazo - o que talvez explicaria por que o governo é o único investidor no país. Para conquistar o capital privado para tal, é necessário ser bem pragmático e pensar longe. Fornecer uma garantia pelo menos mínima de que o investimento trará bom retorno.

E é aí que entra o problema maior. O cientista brasileiro não é, em geral, treinado para lidar com o lado econômico da ciência. É uma falha da nossa educação científica. Não falo só em fazer pesquisa aplicada. Você pode muito bem estudar uma pergunta altamente básica, que aparentemente não trará retorno imediato ao sistema, mas ainda pode nessa mesma pesquisa vislumbrar uma utilização clara daquele conhecimento que sirva de "menina-dos-olhos" para algum investidor. Esse é o exercício que boa parte dos cientistas brasileiros não fazem. Somos tímidos. E é em cima dessa estratégia básica que a pesquisa anda nos países desenvolvidos: mesmo estudando algo aparentemente inócuo, os pesquisadores sabem "vender seu peixe", de forma a angariar fundos, gerar o conhecimento básico e potencialmente gerar também lucros para a empresa financiadora - em última análise, pro país. A ciência pode muito bem ser materializada em uma das moedas vigentes no mercado do conhecimento: patentes, tecnologias ou publicações. E isso traz um poder de barganha muito grande frente às demais nações.

Por outro lado, existe uma dificuldade econômica mais-que-real na produção de ciência no Brasil e atende pelo nome de imposto. Custa quase o dobro para se fazer ciência em terras tupiniquins quando comparado com outras paragens, porque boa parte dos equipamentos e materiais essenciais para o trabalho são importados, sendo portanto altamente taxados. Além disso, dependem de uma burocracia inacreditável para entrarem no país - eu conheço casos de equipamentos que ficam sentados em portos brasileiros por muitos meses antes de serem liberados pela alfandega fiscal. E a burocracia também permeia com vigor a máquina acadêmica, atravancando a aquisição até de coisas simples, como consertos elétricos básicos. Em face desse problema, o cientista brasileiro é praticamente levado a ser criativo, a improvisar em boa parte do tempo, ou a ter um senso de planejamento muito além do que as instáveis leis econômicas do governo permitem. Aí vem outra questão interessante: poderíamos ser criativos e produzir alguns dos materiais e equipamentos. E somos. Mas há limites. E quando esses limites chegam (até nos países desenvolvidos existe uma interdependência muito grande de tecnologia e equipamentos estrangeiros), quando efetivamente precisamos de algo importado, é necessário que seja feito um investimento com retorno - a ciência de saber "vender o peixe" entra aqui, mais uma vez. O diálogo entre investidor e cientista precisa deixar clara as possibilidades de lucro em cima das descobertas e avanços que o investidor vai fazer. Uma bola de neve que passa pela educação financeira do pesquisador.

O Brasil tem um potencial científico gigantesco. Pode ser um país central no desenvolvimento de novas fontes de energia (como biodiesel, por exemplo). Pode ser fundamental na criação de tecnologias alternativas sustentáveis. Possui uma reserva de biodiversidade invejável. O mais importante: tem cérebros brilhantes. No entanto, perde boa parte desse futuro-mais-que-perfeito em burocracia e impostos. É necessário que em algum momento demos o grito de independência desse ciclo vicioso, permitindo o corte do cordão umbilical que aliviará essa tensão tão peculiar existente na ciência. E que levará a um desenvolvimento de tecnologias mais consistente e lucrativo pro país como um todo.

Porque o mundo deve ser encarado como muito pequeno para nossas humanas aspirações grandiosas.

Tudo de bom sempre.

*Esse post faz parte da blogagem coletiva sobre o Brasil iniciada pelo grupo denominado Blog-left. Para acessar outros posts de blogs diferentes com a mesma temática, basta visitar o site do Nós na rede. Aguardem um tiquinho de nada.

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domingo, setembro 04, 2005

Perguntas da vida

Dia 03 de setembro, ontem, foi dia do Biólogo. Eu sou bióloga. Eu esqueci da data - a Alline que me lembrou. Vergonhoso esse esquecimento. Mas talvez reflita um pouco minha reticência com tantas datas comemorativas. Elas existem como pausas de um ano para reflexões, e olhando sob essa perspectiva, há muita coisa a refletir no caminho que trilhei da profissão que escolhi. Muita coisa ainda a perguntar.

De maneira bem simplificada, biologia é o estudo da vida. Qualquer vida. Parece super-simples de entender, mas basta você rebater com a pergunta: "E o que é vida?" para a confusão começar. Quando eu estava na escola primária, aprendi que ser vivo é tudo que "nasce, cresce, reproduz, envelhece e morre". Mais tarde, uma resposta mais elaborada e não menos incompleta apareceu. Um ser vivo passou a ser aquele que:

- É composto por uma célula, pelo menos;
- É formado por compostos orgânicos como proteínas, ácidos nucléicos, carboidratos e lipídios;
- Mantém-se em equilíbrio homeostático por um período;
- Possui um metabolismo de consumo, transformação e gasto de energia e matéria, além de uma forma de excretar o que é desnecessário à sobrevivência;
- Sua espécie evoluirá.

(Parênteses: Repare que nessa definição, os vírus e príons, meros agentes infectantes que não têm uma célula delimitada, poderiam ser descartados do mundo "vivo". É claro que não o são, portanto, a definição teve que crescer um pouquinho para abrigar esses parasitas moleculares. Nada que bons virologistas não dêem jeito. E a definição de vida hoje inclui tudo, de príon a nós, humanos. Alguns ainda mais simplistas dizem que vida é tudo aquilo que está "após a concepção e antes da morte". Essa visão não me satisfaz, porque nesse caso, uma estrela também pode ser vida, né não? Fim do parênteses.)

Para chegar nessa compilação do que é um ser vivo, tenha certeza, muitas perguntas foram elaboradas, bem ou mal, por diversos cientistas. Muitas reuniões, congressos, discussões. Muitas questões. A vida não é tão simples assim que caiba numa definição só tão fácil.

Num curso de biologia normal, aprendemos que o estudo da vida pode ser feito em vários níveis: desde moléculas de uma única célula até populações inteiras de animais e plantas. Podemos estudar suas funções. Estudar as interações que os indivíduos fazem uns com os outros, espécies diferentes ou não. Podemos estudar suas características básicas, anatômicas. E mais um sem-fim de campos, para todos os gostos e sabores. Mas aprendemos algo mais valioso ainda num curso de ciência, que não está bem delineado no currículo. Não é uma disciplina que vale A, B ou C. Eu explico com calma.

Desde criança eu adoro ciências. Com meus amiguinhos de rua na infância, tínhamos um "cemitério" no jardim do prédio, onde colocávamos todos os insetos que achávamos mortos, enterrávamos, e depois retirávamos de lá para "examinar". O que teria acontecido com o bicho depois de uma semana enterrado? Exumação de insetos - poderia eu ter sido uma CSI? Além disso, eu morava na beira de uma praia. Todo mês de dezembro, tinham botos (pelo menos a gente achava que era boto...) que passavam por lá. Peixes, ondas e areia fizeram parte fundamental da minha infância. Lembro-me claramente de uma vez que uma baleia encalhou na praia. Uma multidão de gente começou a esfaquear e cortar pedaços da carne para consumir em casa - eram tempos menos ecológicos, definitivamente. Mas tudo que eu me perguntava aos 7 anos era; "por que será que ela encalhou aqui?" Ah, a curiosidade infantil...

Mas aí chegou a sexta série. E com ela o estudo da categorização das espécies do mundo animal. E foi nessa série que eu me apaixonei pela vida. "Como surgiram os jacarés?" Lembro-me de perguntar isso inúmeras vezes ao meu professor de ciências, que sempre me enrolava com uma resposta light com receio de me confundir mais ainda. Afinal, eu era uma criança. Os anos foram passando, e já no segundo grau, num daqueles testes vocacionais típicos de adolescência baratinada, meu resultado deu de cabo a rabo, profissões da área biológica. E eu já estava mais que certa da carreira a seguir, muito antes do teste - na verdade, lembro-me de uns dias antes ter procurado - em vão - em revistas algo que dissesse como responder a testes vocacionais de forma a darem o resultado que a gente quer. Eu não queria ver estampado no meu teste vocacional algo como "historiadora" ou "artista plástica" de jeito nenhum, porque na minha ingênua cabeça infantil, achava que o resultado do teste vocacional era definitivo. Ele ia fazer pressão na minha cabeça. Era ele que mandava em mim, e não eu nele - quanta bobeira. Mas acho que respondi "direitinho", porque lá estava no meu resultado: "bióloga" ou "oceanógrafa". Ufa.

Estudei muito pro vestibular de Biologia. Muitas pessoas me perguntavam por que eu, que era "tão esforçada, tinha tanto potencial" (quanta afirmação vazia...) não fazia logo vestibular para Medicina - na época, eu dizia que não gostava de lidar com gente doente, o que em parte é verdade dado meu coração de manteiga, mas no fundinho lá dentro eu sabia que a Medicina não ia satisfazer minha curiosidade intrínseca por todos os aspectos da vida, não só a humana. Fiz prova para Biologia na Unicamp, na UFRJ e em Viçosa (MG). Meu sonho era a Unicamp e seu curso com ênfase na área molecular - sim, naquela época eu já tinha me caído de amores pelo DNA. A tristeza se abateu em mim quando saiu o resultado e eu não havia passado. Chorei muito, muito, por dias e dias. Mas as outras provas vieram, e eu as fiz (meio sem esperanças, mas fiz). Passei nas 2. Podia escolher entre o Rio e Minas - e fiquei com Minas, pela tranquilidade da cidade, pelo novo ambiente, pela aventura do desconhecido, desde sempre na veia. Pelas perguntas que eu fazia a mim mesma em nome do conhecimento de uma nova vida.

UFV 92UFV CVivencias 92
Partes do campus que me abrigou por 5 anos: Universidade Federal de Viçosa. O início de uma caminhada pelas perguntas da vida.

Eu tinha 17 anos, e fui morar sozinha longe de casa numa cidade que eu não conhecia nem nunca tinha ido antes. Por sorte, no primeiro dia de aula, apareceu um amigo meu de longa data na mesma turma, o Rafaelo Galvão, o que me deu um pouco mais de segurança para enfrentar a nova empreitada da vida. (Ele havia estudado comigo desde a primeira série primária, e continuamos estudando juntos na faculdade, até a colação de grau. Hoje, ironicamente, ele também é um biólogo molecular como eu - só que ele estuda plantas.) Tudo era novo, um grande desafio. Mas foi quando eu comecei a visitar os laboratórios da universidade, ter aulas mais profundas de todas as amplitudes que o estudo da vida engloba, ter contato com professores que mais indagavam que respondiam, que percebi que eu tinha realmente nascido para ser bióloga. Não cabia em mim outra profissão: perguntador profissional.

O aprendizado dos mecanismos que definem o que é a VIDA é simplesmente encantador. Mas mais encantadora ainda é a oportunidade que temos de aprender a perguntar. Tudo, para todos. A atividade exclusivamente humana chamada ciência é moldada a partir de perguntas. Einstein (?) dizia que "as perguntas mais difíceis de responder são as mais simples" - e é verdade. "O que é vida?" é um bom exemplo. E tantas outras. Perguntar só se aprende perguntando. Questionar, questionar. Exercer um ceticismo contínuo, buscar as informações da forma mais clara possível, sem vergonha mesmo, sem medo de errar. Investigar as referências, analisar com lógica. Perguntar, perguntar.

Eu sempre me questionei muito, sobre tudo e mais um pouco. E perguntava aos meus pais, amigos, professores, que tinham que aguentar todos os meus "por quês" com uma paciência de anjo. Mas foi na faculdade de biologia que aprendi que a pergunta enriquecedora é aquela que te possibilita outro questionamento na resposta. Um aprendizado que carreguei comigo para todos os aspectos da minha vivência.

Hoje, após um diploma debaixo do braço, uma pós-graduação difícil e muitas perguntas intrigantes, eu percebo que ser biólogo é uma árdua profissão de 24h/dia, 7 dias/semana, 365 dias/ano. A vida, nosso objeto de estudo, acontece a todo momento, naturalmente, e a cada um desses momentos, ela imprime uma nova perspectiva, um novo fato é adicionado, uma nova experiência é compartilhada, um novo aspecto surge. E uma nova pergunta emerge. E eis que para mim a carreira do biólogo envolve esse contínuo buscar da próxima pergunta que nos deixará embasbacados com a maravilha que é viver.

Tudo de bom sempre para nós, biólogos, eternos perguntadores da vida natural.

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quinta-feira, setembro 01, 2005

Esbranquiçamento de corais e aquecimento global

Há algum tempo o Der Spiegel é meu jornal favorito. Antes de mais nada, boa parte dos jornais no mundo tem como fonte "básica" da informação jornais americanos ou outros de língua inglesa. No final das contas, sinto um pouco como se a informação chegasse meio "tendenciosa". Resolvi buscar pontos-de-vista um pouco menos "americanizados" de qualquer coisa, e para tal enchi meu Bloglines de jornais estrangeiros que tenham páginas de língua inglesa (já que não sou proficiente em muitas línguas). O Bloglines facilita a organização e o processo de filtragem da informação que realmente interessa.

Além disso, como morei na Alemanha, e tenho ainda amigos por aquelas bandas, sei bem o quão politizado o alemão médio é quando comparado ao americano médio, por exemplo. Melhor dizendo, comparado a maior parte dos povos. Acrescente a isso também o fato de que os alemães são um povo ultra-organizado e que sempre tenta ver "os dois lados da moeda" (jornalistas inatos) e o fato de que a Alemanha impressiona como "nação verde" - debatível é essa mentalidade ter surgido após a destruição quase maciça do ambiente natural deles, etc. mas enfim, fato é que hoje eles são bem preocupados com a questão ambiental.

Pois bem, desde que o Katrina passou por New Orleans e deixou o berço do jazz em cacarecos, assim como boa parte da costa do Golfo americana, a mídia alemã tem sido muito contundente em ligar os pontos de que o aquecimento global tem aumentado a probabilidade de catástrofes como o Katrina, e que de certa forma, a postura da política bushista de negligenciar o Protocolo de Kyoto - protocolo este que trata de medidas para a redução da emissão de CO2, principalmente - está comprometendo toda a situação ambiental do planeta. Além do mais, todo o desvio de verbas que seriam para infra-estrutura nos estados afetados e que se tornou combustível para tropas no Iraque é também motivos de críticas pelos alemães. O governo Bush não tem muitas cartas na manga a seu favor, nesse momento.

Entretanto, é muito perigoso estabelecer uma relação de causa-efeito para o assunto do furacão - porque o Katrina foi um desastre natural, não existe culpa de fulano ou de ciclano nesse fato. Existe o evento, ponto. De qualquer forma, acho muito importante a oportunidade que temos agora de discutir pela mídia afora sobre aquecimento global de forma séria. Independente do que aconteceu em New Orleans.

A Terra já se aqueceu em períodos históricos passados muitas vezes - em geral, entrecortados por eras glaciais - por causas unicamente naturais. O que em geral tratamos na atualidade ao se falar "aquecimento global" é na verdade o aumento da temperatura atmosférica e da temperatura dos oceanos advindos da intervenção humana sobre o planeta. Sabe-se que um certo aquecimento pode ser considerado normal pela ciência, resultado de outras interações naturais. Entretanto, o que muitos estudos mostram é que a velocidade com que a Terra está se aquecendo está fora da normalidade, se medidos com equipamentos mais precisos.

Esses estudos são feitos com diferentes tecnologias, metodologias e abordam diferentes aspectos do problema. Quando os cientistas falam que a Terra está se aquecendo, em geral estão falando de dados compilados por diversos estudos que chegam à conclusões semelhantes sobre o assunto. Como não entendo nada de climatologia, meus conhecimentos de meteorologia são fracos e eu acompanho a literatura da área em geral apenas quando envolve análises biológicas, não me sinto confortável para escrever sobre estudos que envolvem esses aspectos da análise. Não dá para eu comentar profundamente sobre a diminuição da camada de gelo no solo da Antárctica ou sobre a elevação do nível dos oceanos - eu só sei as conclusões do estudo, não conseguiria fazer uma análise muito crítica do jeito que eu gosto. Entretanto, uma das provas cabais que os cientistas usam para argumentar em prol da existência do aquecimento global é o fenômeno do esbranquiçamento de corais ("coral bleaching", em inglês). E sobre ele eu posso falar um pouquinho com mais tranquilidade.

Corais são animais cnidários, que vivem agregados em colônias associados a algas zooxantelas e acumulam carbonato de cálcio - o que nos dá aquela falsa impressão de que são apenas "pedras no fundo do mar" (não são! Estão vivos!). Corais dependem para sobreviver das zooxantelas: é delas que vem boa parte da energia e do alimento para a sobrevivência do coral em si. O que a alga ganha com isso? Um substrato para existir. Quando os corais estão agregados em longas extensões, formam o que chamamos de recifes de corais. Os recifes de corais são um substrato riquíssimo para que muitas outras espécies animais e vegetais interajam, formando um dos ecossistemas mais ricos do planeta.

O bleaching é o fenômeno que ocorre quando as algas associadas aos corais morrem ou são expelidas. Como são essas algas que dão a cor ao coral, quando elas se vão, o coral fica esbranquiçado - apenas sua matriz calcária resta ali. Mas não está morto. Se sua capacidade para buscar alimentos e energia não for sanada pelos pólipos que ele tem, aí sim o coral termina morrendo. Morto, ele deixa de ser substrato e abrigo para outras espécies do ecossistema - eis que mais um recife de corais se vai. E boa parte da teia alimentar vai junto, o que pode gerar prejuízos para populações que dependem de pesca para viver, por exemplo.

Coral vivoCoral bleached
À esquerda, vemos um coral-estrela das Ilhas Marshall em suas cores normais de amarelo. O coral está muito saudável. Ao lado, vemos um pequeno peixinho em cima de um coral-estrela nas Filipinas já totalmente esbranquiçado. Não dá para saber pela foto se o coral já morreu ou não.

Corais são organismos muito sensíveis a pequenas variações estressantes de temperatura, salinidade, toxinas e até luz. Quando sentem esse tipo de estresse, em geral eles começam a esbranquiçar. Mas podem voltar a sua normalidade em alguns meses ou anos - basta o elemento gerador do estresse desaparecer. O que vemos quando entra o fator "aquecimento global" na equação, é que largas extensões de recifes de corais ficam esbranquiçadas, e esse fenômeno se associa lado a lado com medições de altas temperaturas das águas oceânicas onde os corais estão. Uma evidência contundente de que o bleaching advém de uma causa maior. Mas mais contundente ainda é quando você verifica bleaching em atóis e ilhas remotas do planeta, ou então desabitadas, sem intervenção direta do homem - é aí que a palavra "aquecimento global" grita mais alto ainda.

Coral em esbranquicamento, Atol de NamuO que você NAO deve fazer num coral
Um cabeço de coral no atol remotíssimo de Namu (Ilhas Marshall) em estado de esbranquiçamento; ao lado, outra razão para estresse do coral: intervenção direta do homem - no caso, um asiático se debruçando na maior cara-de-pau num cabeço de coral para fotografar sei lá eu o quê. Simplesmente ridículo.

Na história desde que se começou a medir o fenômeno (1963), três eventos de bleaching são tidos como clássicos: um em 82/83, que se estendeu por todo o Caribe, outro em 98, quando a Grande Barreira de Corais na Austrália foi profundamente atingida em diversos de seus recifes, e um terceiro em 2002, também na Grande Barreira. Nos três eventos, milhares de quilômetros quadrados (adicionado depois) de corais foram perdidos. Para sempre. Nesse momento, por exemplo, está havendo uma epidemia de esbranquiçamento na região Pacífica da América Centro-sul (Panamá e Colômbia) - a severidade do evento ainda é desconhecida. Veja o mapa abaixo (retirado da página do Reefbase) que mostra bem em que pé está o esbranquiçamento de corais hoje, 01 de setembro, no mundo (quanto mais preto, mais problemática a área):

Esbranquiçamento de corais 2005

E aqui, os recifes de corais mais ameaçados (quanto mais vermelho, mais ameaçada a área):

Corais ameaçados

Mas lembrem-se sempre: o esbranquiçamento de corais é apenas um dos muitos indícios de que o planeta está se aquecendo mesmo. Dados mais lindos e precisos ainda podem ser encontrados em medições na Antárctica, em análises epidemiológicas de vírus que se espalham mais rapidamente em áreas quentes, e até em análises econômicas de ski resorts suíços onde a problemática do aquecimento tambem eh citada.

O aquecimento global é verdade. Só não encara o problema de frente quem não quer. As soluções para ele envolvem uma mudança profunda no comportamento humano. Não é só deixar de andar de carro; é necessário investimento maciço na busca de fontes alternativas de energia, combustíveis híbridos e limpos, de novas tecnologias que não precisem da queima de combustíveis fósseis para existir. E uma política imediata de diminuição das emissões de gás carbônico, como o protocolo de Kyoto sugere.

Porque meu sonho é que as gerações futuras possam ver, compartilhar as belezas e principalmente terem a possibilidade de amar os corais das Ilhas Marshall, das Filipinas, e outras ilhotas pelo mundo com suas riquezas marinhas como eu os amo. Em todas as tonalidades de cores.

Tudo de bom sempre.

Malla e os corais filipinos
Entre corais saudáveis filipinos... :-)

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Viajando mais um pouco no aquecimento global...

- Quem quiser saber mais sobre outras influências do aquecimento global pelo mundo afora, essa página vinculada à ONU tem listada alguns artigos sobre o assunto.

- O blog Real Climate está desde sempre na minha lista ali do lado e é uma fonte segura de informações sobre o aquecimento global. Quem escreve são grandes nomes da climatologia mundial. São visões de quem entende (bem) do assunto. Posts que mais parecem artigos científicos, de tão detalhados e bem-elaborados. Um dos meus posts favoritos é esse aqui. Um brinco de blog.

- E esse post (também do Real Climate) traz boas evidências de por que devemos considerar as mudanças do oceano no cálculo do aquecimento global.

- Quem quiser analisar a problemática econômica em cima de tudo isso, o excelente blog Becker-Posner (Gary Becker foi agraciado com o Prêmio Nobel de Economia em 1992) tem dois posts interessantíssimos de dezembro/2004 sobre o assunto.

- E a blogosfera brasileira já está ecoando o assunto do aquecimento global. A Leila, o Smart, o Idelber... todos citando aspectos diferentes do tema. Passeiem por lá e leiam as discussões das caixas de comentários, que em geral estão muito interessantes.


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UPDATE: Um excelente post (quase um artigo, a meu ver), explicando sobre a conexão "aquecimento global e furacões", escrito por um cientista que entende do assunto profundamente. A visão imparcial, científica e factual do assunto. Do Real Climate, of course.

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