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segunda-feira, novembro 28, 2005

Batismo de mergulho

Já há algum tempo, o Divester começou uma "brincadeira" de internet em que cada pessoa contaria como foi seu primeiro mergulho com equipamento autônomo. Achei uma idéia divertida e decidi fazer a minha descrição.

Sempre quis fazer curso de mergulho. Desde pré-adolescente, lia as revistas de mergulho e me deliciava com as fotos, os animais, a vida marinha, a aventura. Morando na beira da praia, o contato diário íntimo com o mar, parecia uma conseqüência natural que me interessasse pelo esporte.

Da primeira vez que me matriculei num curso de mergulho, tinha 12 anos. Morava numa cidade pequena, e o curso dependia de quórum mínimo porque o professor vinha do Rio de Janeiro para ministrá-lo. Não teve quórum. O curso foi cancelado - e eu já com pé-de-pato e máscara compradas. O cancelamento jogou um balde de água fria nas minhas aspirações com o mar, e eu me acomodei, não mais procurei cursos. O mar era um amigo misterioso que parecia não querer ser descoberto.

Mas o mundo dá voltas, fiz meu curso de Biologia bem longe da praia, e 16 anos depois, me vi morando no Havaí. Para muitos, um lugar perfeito para mergulhos. Para mim, a certeza de praia todo fim de semana. E aí, o bichinho do mergulho começou a coçar de novo.

Eu digo que mergulho é um vírus "do bem". Só que uma vez que ele entra no seu corpo, ele tem dificuldades sérias para sair. Eu ainda não mergulhava em Honolulu, mas só de estar rodeada de muitas pessoas que gastavam horas e horas do fim de semana naquele lazer, comecei a sentir a vontade de aprender crescendo dentro de mim de novo.

Mas curso de mergulho é caro. No Havaí, então, nem se fala: é muuuito mais caro. (Os descontos para moradores da ilha não adiantavam muito.) Era 2003, e eu estava de passagem marcada pro Brasil. 3 semanas de férias. Resolvi acoplar um curso que sonhava há tanto tempo - tinha tempo suficiente. E, como de 16 anos para cá, a cidade cresceu bastante, já havia operadoras na cidade. Inscrevi-me num curso, finalmente.

Primeira aula: só teoria de mergulho. Importância de manter sua flutuabilidade neutra, como evitar problemas com a pressão dentro d'água, etc. Só mais um aluno no curso, praticamente aula particular, que maravilha. Segunda aula: primeiro contato com a água, numa piscina de 3m de profundidade. Não é muita coisa, mas para iniciantes, era o suficiente. Confesso que tive um certo medo no início de ficar respirando com o regulador na boca, aquele ar estranho. Muitos apetrechos, muita coisa para pensar ao mesmo tempo. Não conseguia ficar quieta embaixo d'água. Tentava prestar atenção nos sinais que o instrutor dava, e principalmente nos exercícios: tira e põe regulador da boca, tira a máscara e recoloca, alonga a perna para não ter cãimbra... Mas estava nervosa com duas coisas: 1) o fato de não estar mais boiando - para quem não sabe, quando a gente mergulha, coloca pesos de chumbo na cintura, para que você afunde um pouco, equilibre seu peso em relação à gravidade e tenha flutuabilidade neutra, como os peixes têm; 2) o barulho ensurdecedor que vinha da minha propria respiração - embaixo d'água, o som parece que reverbera dentro do ouvido, e o meu auto-som ficava muito alto. Bebi muita água nesse primeiro contato em azulejo submerso.

Tive outra aula na piscina, em que me senti mais relaxada - mas não muito. Finda a segunda aula, haveria nossos testes em oceano: iríamos efetivamente mergulhar, e fazer todos aqueles exercícios aprendidos na piscina, só que agora a 15m de profundidade. Os cursos mais conhecidos (PADI, SSI...) requerem que você faça 4 mergulhos no mar ("batismos") durante o curso para mergulhador autônomo de lazer. E foi nessa hora que um problema apareceu.

Posêidon parecia não querer colaborar, e o mar entrou numa ressaca daquelas. E o dia da minha volta pros EUA chegando... resultado: tive que voltar com uma carta especial, dizendo que tinha realizado todas as práticas de piscina e teoria, só faltavam os mergulhos no mar.

Levei um tempo procurando uma operadora de mergulho em Honolulu que não quisesse meter a faca no meu bolso para um batismo. Achei uma nos fundos de uma casa em Waikiki, indo pros lados de Ala Moana. Pequena, modesta, com um bom preço. E o primeiro mergulho foi finalmente marcado: domingo, em Electric Beach (lado oeste da ilha), saindo direto do shore.

No sábado, não consegui dormir à noite. Rolava para um lado, rolava pro outro. Ansiedade, medo, nervosismo, excitação. Tudo ao mesmo tempo. De manhã, não consegui comer nada. Já tinha meu equipamento próprio a essa altura do campeonato, e como nunca havia utilizado o mesmo no mar, ainda não sabia ajustá-lo. Por causa das várias camadas de roupa de neoprene, a instrutora calculou que eu deveria colocar 10 kg de chumbo na cintura, além dos sei lá quantos quilos do tanque de ar nas costas - precisávamos andar da área de arrumação até a praia, uma descida de morrinho com todo aquele peso. Eu não estava acostumada, e penei muito para chegar na beira da praia. Um instrutor me ajudou a entrar na água com toda aquela parafernália pulando as ondas que já quebravam. Caldos e mais caldos. Eram mais de 10 alunos (a maioria militares musculosos) para 2 instrutores.

Gear up!Chuveirada prévia
O instrutor me ajudando a pôr o equipamento pela primeira vez na vida, para meu primeiro mergulho, o batismo em Electric Beach, Havaí. Ao lado, uma chuveirada básica antes de descer para a praia.

O mergulho começou. Como esse era o primeiro, não teríamos exercício algum lá embaixo, apenas uma aclimatação com o ambiente subaquático. Logo na descida, avistei uma moréia passeando livremente - que maravilhosa! Mas eram tantas outras coisas que passavam pela minha cabeça naqueles minutos, que não aproveitei quase nada. Não conseguia manter flutuabilidade neutra: estava muito pesada, e sem experiência alguma, nem pensei em tirar um pouco do chumbo e passá-lo para o instrutor. Fiquei gastando minhas energias com pernadas tentando me manter na profundidade requerida. Ao terminar o mergulho, estava simplesmente exausta como nunca havia estado antes na vida.

Entrando no mar para o primeiro mergulhoCaldão
O instrutor me auxiliando na entrada no mar: de nada adiantou. Tomei vários caldos e bebi água do mesmo jeito. A inexperiência me venceu, não tinha habilidade ainda para controlar tanto peso fora da água.

Haveria um segundo mergulho no mesmo dia, onde começariam os exercícios e a avaliação dos instrutores. Eu e uma outra mulher com estatura física similar a minha desistimos de fazê-lo. Ela também estava super-cansada, e conversamos com os instrutores. Nosso segundo mergulho ficaria para a quinta, em Magic Island - praticamente no píer de Ala Moana.

E lá fui eu. Dessa vez, éramos apenas 3 pessoas para 2 instrutores. Foi excelente. Embora a visibilidade não estivesse tão boa, ainda vimos alguns peixinhos coloridos em meio aos exercícios com bússola. E mesmo nadando bastante, não me senti tão cansada mais. E me sentia totalmente preparada pros 2 últimos mergulhos do batismo.

Domingo, sol e céu lindíssimos, píer de Hawaii Kai. Lá vou eu de novo, dessa vez num barco e com meu namorado me acompanhando embaixo d'água também. De novo, um grupo enorme de pessoas para 2 instrutores. Dessa vez, fui com 9 kg de chumbo - ainda um exagero, hoje em dia eu mergulho com 5 kg. Os mergulhos foram bem gostosos, mas em dado momento do exercício, me embananei com o regulador e bebi muita água. Lembrei logo do que meu instrutor brasileiro Tarcísio repetia exaustivamente: "Problemas de fundo se resolvem no fundo". 10 metros de água acima de mim. Mantive a calma, e refiz tudo na medida do possível. Ainda deu no final do mergulho para ficar observando peixes e corais da área. Uma tartaruga apareceu. Ao emergir, estava certificada! Finalmente a realização de um sonho de adolescente: era uma mergulhadora autônoma de lazer.

Batismo - 4o mergulhoMais confortável hoje
Durante meu quarto mergulho de batismo, ainda estranhando o ambiente ao redor. Ao lado, já totalmente confortável dentro d'água, e fazendo gracinhas para a câmera.

Depois do batismo, comecei a mergulhar com mais freqüência, e hoje, mais de 50 mergulhos de lazer depois, me sinto muito mais confortável embaixo d'água. A estranheza inicial foi-se, e até o som da minha respiração me é agradável. Sumiu a sensação claustrofóbica. Meu equipamento está todo personalizado, ajustado, e tento cuidar dele com o máximo de carinho. Já até comprei uns acessórios legais, como um apontador de metal (para chamar a atenção para bichos interessantes que eu veja passando) e uma bandana que segure minha juba embaixo d'água. Mas confesso que ainda não me apeteço por mergulhos saídos da areia. Prefiro andar de barco, e mergulhar fora da costa.

E o vírus do mergulho... esse me pegou de vez! Talvez só quem já tenha sentido a delícia de estar embaixo d'agua, nadando como os peixes explorando os mistérios da vida marinha, para entender a sensação de liberdade e paz que essa outra dimensão, o mundo subaquático, oferece.

Tudo de bom sempre, com muitos mergulhos pela frente.

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*Para quem quiser viajar um pouco mais...

- Esse artigo conta a surpreendente tentativa de um cego que quer bater o recorde de mergulho em profundidade. Antes de ficar cego, ele já era mergulhador, e não permitiu que a inabilidade visual o proibisse da sensação indescritível que só a água do mar te dá.

- Existe uma ONG, a International Association for Handicapped Divers, especializada em informações, organização e auxílio a mergulhadores deficientes físicos. Embaixo d'água com material de mergulho, a sensação de gravidade para todas as pessoas desaparece por causa da neutralidade do peso, e muitos deficientes relatam se sentirem melhor numa condição onde eles são simplesmente iguais a todos os demais ao redor. Se mergulho já é terapia anti-stress normalmente, para essas pessoas deve ter um significado mais especial ainda. Acho isso valiosíssimo: aumenta a auto-estima das pessoas de forma divertida!

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sexta-feira, novembro 25, 2005

O futuro em Dubai

Confesso que da primeira vez que ouvi falar em Dubai num programa de fofocas de celebridades na TV, não sabia direito onde ficava. Sabia que era no Oriente Médio, mas exatamente onde, necas. Fui até meu livro predileto - o Atlas - procurar o local, e saciando minha ignorância geográfica, descobri que ficava nos Emirados Árabes Unidos. Mais precisamente, no litoral do Golfo Pérsico. No programa de TV, citavam que David Beckham estava em negociação para adquirir propriedades num complexo residencial de super-ultra-hiper-high-luxo chamado "The Palm", e que Michael Jackson não só havia comprado também uma propriedade, como pensa seriamente em se mudar para lá em definitivo. Achei essa frivolidade da vida de 2 astros fascinante. O que as celebridades estariam vendo num país desconhecido? Comecei a buscar mais informações. E me espantei com o que encontrei.

Dubai atualmente é um mega-canteiro de obras. Uma cidade que era deserto até pouco tempo atrás, está agora investindo quantidades nababescas de dinheiro para construir um pólo turístico, de negócios, de divertimento e principalmente da elite. Dubai sonha grande, e quer ser a porta de entrada do Golfo para todos os povos do mundo. Para adaptar-se ao estilo ocidental de vida, uma verdadeira revolução futurística vem acontecendo por lá. Dubai é um califado islâmico, uma democracia sem voto popular - por mais estranho que isso soe, é como eles se definem. Todo poder está nas mãos do Sheik Al Maktoum, que esperta e diferentemente dos seus vizinhos donos de petróleo, resolveu investir a fortuna que o ouro negro traz não em armas, mas em construção civil que gere rendas, lucros e desenvolvimento à região. Inteligente, sem dúvida.

Para "ocidentalizar" e atrair pessoas para Dubai, várias obras faraônicas estão sendo feitas - entre elas uma nova cidade. Também já está em construção um gigantesco ski resort no meio do deserto - isso porque a cidade está praticamente em cima do Trópico de Câncer, com um calor tropical típico durante todo o ano. Além de inúmeros prédios de corporações pra lá de modernos. Com a atual linha de lucros das empresas imobiliárias por lá instaladas em torno de 380% ao ano, não é difícil imaginar porque até Donald "You're fired" Trump já abraçou a idéia do Sheik. Mas das obras atualmente em andamento, nenhuma me impressiona mais que "The World".

A propaganda da página de abertura do "The World" (e a foto aérea do lugar!!!!) já dá uma idéia da megalomania de tudo:

"The Palm put Dubai on the map; The World puts the map on Dubai."

The World é um complexo de 300 ilhas particulares artificialmente construídas no formato... do mapa-múndi. Cada ilha é a representação de um país ou região específica, e já estão à venda - aliás, o nosso querido artilheiro Ronaldo já adquiriu a sua. A ilha "Inglaterra" foi recentemente vendida para investidores do Kwait, e por aí vai. A infra-estrutura do projeto é inacreditável, e conta inclusive com a construção de recifes de corais artificiais para o lazer mergulhístico e iatístico dos ilustríssimos clientes VIP - e é claro que os ecologistas já reclamaram da destruição natural da área. Reclamações aos ventos: o desenvolvimento de Dubai não pára. A mesma empresa holandesa que está construindo o The World já conseguiu o contrato para a construção de uma outra ilha no estilo The Palm.

Outros empreendimentos já existentes também deixam o queixo caído. Em Dubai está um único dos poucos hotéis 6 estrelas do mundo, e os hotéis da região dos Emirados Árabes em geral impressionam até gente milionária acostumada ao luxo, como os jogadores da elite da nossa seleção canarinho, que se disseram espantados com tantas mordomias. O aeroporto atual está em processo de mega-expansão para atender um potencial público de 40 milhões de viajantes, e é patrocinado pela empresa local, a Emirates - que no início dessa semana anunciou estar comprando mais 42 Boeings top de linha para sua frota.

O dinheiro parece jorrar junto ao petróleo, e alguns países mais espertos, enxergando a oportunidade de ouro, já estão se apressando em fazer negócios e assinar alianças comerciais com o califado. Uma boa estratégia, sem dúvida, já que entre os homens de negócio, o assunto Dubai desponta muito otimismo.

Mas... nem tudo são flores, e como qualquer coisa na vida, há aspectos positivos e negativos nessa pretensão de "cidade do mundo" de Dubai.

Basta dar uma passeada rápida pelo site dos Repórteres sem Fronteiras para constatar os problemas básicos: a liberdade de expressão e de imprensa é quase inexistente. A Internet é 100% vigiada pelo governo, e todas as notícias que saem no jornal local, passam primeiro pelo crivo estatal. Paulo Coelho esteve autografando seu novo livro em Dubai, mas não sem antes passar pelos censores locais, para averiguar se algum preceito básico do islamismo não seria "quebrado". E, até hoje, a prática de retenção do passaporte de estrangeiros pelos empregadores locais é comum, mesmo ilegal, o que gera uma série de problemas na imigração do país.

E a situação da mulher, num sistema islã totalmente vigiado, não é das melhores, como se pode imaginar dados os exemplos que temos. O governo dos Emirados Árabes tem uma página oficial em que comenta sobre a vida das mulheres por lá - sobre a visão de governantes homens, entenda-se bem. O mais interessante desse site oficial é que ele cita diversas atividades diferentes que as mulheres fazem por lá - a princípio, a falsa impressão de que tudo é permitido é forte. Mas basta ler com cuidado, e perceber que todas as diferentes "atividades" são feitas pela mesma mulher - e uma busca mais acurada me mostrou que Sheika Latifa é a mulher de Sua Alteza o Sheik do país, portanto uma mulher poderosa na hierarquia por si só. Então, me perguntei: "Como é a real situação da mulher em Dubai?"

Apesar de aparentar ser a única lutadora pelo direito das mulheres, Sheika Latifa não é a única: é apenas a mais evidente. Como os Emirados Árabes são uma junção de 7 califados, cada um com seu Sheik, suas respectivas esposas se uniram à Sheika Latifa. E elas vêm lutando de muitas outras formas pela melhoria dos direitos da mulheres nos Emirados Árabes. Em Dubai, por exemplo, as mulheres não podem por lei frequentar universidades públicas, reservadas apenas aos homens; mas há poucos anos, graças à pressão da esposa do Sheik, foi inaugurada uma faculdade particular feminina, que já formou várias profissionais nas mais diversas áreas. O site oficial do Ministério da Informação e Cultura faz questão de estampar todos os desenvolvimentos na área de direitos das mulheres com mais exemplos de liberdade individual, e recentemente, a BBC fez uma série de reportagens sobre jovens do Oriente Médio, e contou o exemplo positivo de uma mulher de Dubai, como prova de que outras mulheres do mundo islâmico estão também levantando a voz e entrando na luta do dia-a-dia por uma carreira profissional, por melhores condições de vida - tudo no maior respeito religioso, é claro. Por causa do boom econômico, elas estão sendo rapidamente absorvidas pelo mercado de trabalho, o que é bom sinal. (Vale a pena ler também os comentários feitos pelos leitores dessa reportagem da BBC, para uma visão mais equilibrada da situação.) Já se criou uma associação de mulheres de negócios - a Business Woman Network Dubai - que tem colaborado para interação com mulheres ocidentais, experiências diferentes, que, com certeza, enriquecem e aumentam a necessidade interna das mulheres de Dubai a lutarem por condições mais equivalentes no mercado de trabalho dominadamente masculino.

Mas é uma luta que ainda vai levar um certo tempo. Apenas em 2004 os Emirados Árabes assinaram a Declaração para Direitos das Mulheres da ONU, e ainda não enviaram nenhum relatório dos progressos obtidos na área. Portanto, oficialmente não há dados mostrando como as mulheres de lá estão de verdade. Confiamos em relatos de visitantes e nos inúmeros blogs de expatriados ou de dubaienses que se multiplicam - numa mídia controlada, lembre-se bem. Embora muitos estrangeiros tenham se mudado para Dubai nos últimos anos, e o contato com o mundo ocidental tenha trazido melhoria em alguns aspectos, acho que no quesito "direito das mulheres" ainda há uma estrada longuíssima. Os comentários na reportagem da BBC refletem isso.

Mas eu tenho esperança no mundo. Afinal, nesse ano, um time só de mulheres iranianas (também muito sujeitas à violências e repressões desnecessárias de suas liberdades individuais) escalou o Everest, e o montanhismo - esporte tipicamente "masculino" na visão islã - está sendo incentivado. Tradições à parte, as mulheres não podem ser encarceiradas por trás de um véu em vidas de séculos passados no século presente. Elas devem ser respeitadas e temporalizadas como todas as demais do mundo, terem direito a um futuro justo e principalmente, livre arbítrio para decidirem sobre suas escolhas.

As mulheres de Dubai, em contato direto com tanto desenvolvimento econômico-social, devem estar cientes de seu papel fundamental no que pode ser o início de uma revolução cultural no mundo islâmico. Estão vendo debaixo dos próprios olhos as realidades de um novo mundo. Dubai está servindo como um grande experimento para diversos aspectos humanos, e espero imensamente que a melhoria das condições das mulheres em geral esteja incluída nessa lista.

Um futuro melhor para o Mundo pode começar em Dubai.

Aguardemos, pois.

Tudo de bom sempre.

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* Para viajar mais sobre Dubai...

- O blog One Big Construction conta um pouco o crescimento arquitetônico de Dubai. Alguns posts são bem interessantes.

- Já o blog Adventures in Dubai reflete as visões de um britânico que mora há bastante tempo na cidade, e tem uma visão bem equilibrada de tudo que está acontecendo na cidade.

- E um exemplo da mídia de Dubai hoje, com todas as notícias controladas pelo governo.

- Esse post faz parte da blogagem coletiva do dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, hoje, 25/novembro. A ação está concentrada no blog da super-Denise, que tem uma lista enorme dos participantes. Vale a pena passear pelos demais blogs! Corre lá.

- Eu "preciso" mencionar que escrevi esse post ouvindo "Crawling", do Linkin Park. "Crawling in my skin/ these wounds they will not heal/fear is how I fall/ confusing what is real". Que as cicatrizes das mulheres oprimidas pelo mundo um dia deixem de existir por completo.

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terça-feira, novembro 22, 2005

Raul Soares

Era uma vez uma cidadezinha. Em Minas Gerais. Tinha um coreto na praça e uma estrada só para chegar até ela. Uma cidade no fim da linha. Uma cidade no início de todas as outras?

Quando cheguei a Raul Soares pela primeira vez, um sino tocou. Não, não foi o sino da igreja. Foi o sino da minha cabeça, avisando que aquele lugar seria especial.

Pessoas pacatas, comendo pastel na feira ou sentados no boteco da esquina jogando conversa fora. Cena mais que comum em qualquer lugar do país, mas ali, o ar interiorano enebriava os sentidos. O constante aceno de todos - eram todos conhecidos, afinal de contas. "Homáley trouxe os amigos para passar o fim de semana aqui em casa", era a frase mais dita pela mãe de nosso amigo que nos hospedava, seguida de um relato preciso de que éramos estudantes de Viçosa, e que alguns de nós estavam ali para participar de um concurso de bandas. Quem já presenciou concurso de bandas em cidade de interior sabe o quanto eles são importantes para animar o local. Geram histórias e mais histórias para muito tempo, imortais nas cadeiras de barbeiro ou nos bancos da praça.

Como é tradição, um grande churrasco nos aguardava na casa do nosso hospedeiro. Éramos 6 jovens, descobrindo as nuances do interior mineiro. Haja pão de queijo para tantos estômagos famintos de aventuras.

Na época, eu era metida a fotografar - hoje eu não fotografo, apenas me distraio e registro momentos pessoais. Naquela época, eu levava a fotografia a sério: tinha uma máquina profissional, apetrechos e lentes, além de sacadas interessantes. Adorava captar a delícia de ser mineiro. Adorava a desconfiança das pessoas, que logo era desfeita por um sorriso caloroso e um convite pra um "cafezim". Adorava o cheiro das montanhas e do leite fresco que ia virar queijo. Adorava o mistério mineiro.

Raul Soares não tem absolutamente nada que desperte a atenção de um guia de viagens - nem precisa. Tem uma ponte antiga por cima de um riozinho qualquer. Tem a certeza do interior em seus paralelepípedos gastos. Tem madrugadas frias e caladas de inverno, e o café quente na manhã seguinte. Tem a tranquilidade do amanhã, carregada em chinelos cheios de barro das ruas secundárias. Um amanhã fruto de um tempo contado em amanheceres e entardeceres no topo de um morrinho qualquer, regados à melancolia do pasto no horizonte.

Num estado com tantas pedras preciosas e ouro, cidades para brilhar e diver(c/s)idade, Raul Soares é apenas um pedaço de pedra de segunda, sem muito brilho, cujo valor não é monetário, e sim o que representa para seu dono, as lembranças únicas que carrega consigo. As risadas, piadas e consternações. As discussões despreocupadas sobre o futuro. A acolhida de coração aberto.

Quando cheguei a Raul Soares pela primeira vez, um sino tocou. Não, não foi o sino da igreja. Foi o sino da minha cabeça, avisando que aquele lugar seria especial. E foi.

Raul Soares foi simples como a vida deve ser.

Tudo de bom sempre.

Raul Soares
Raul Soares em preto e branco.

*Post dedicado ao Guto e à Mônica. Estava gritando dentro de mim pra ser escrito desde que conheci essas 2 figuras maravilhosas de Minas - e que me inspiraram na nostalgia da Zona da Mata mineira que hoje me acometeu ao finalmente reencontrar via orkut uma das minhas grandes amigas desaparecidas pelos acasos da vida.

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quinta-feira, novembro 17, 2005

O que você vai ser quando crescer?

Acho que todos já ouviram essa pergunta alguma vez na vida. Vinda dos pais, parentes, amigos ou conhecidos. Na escola, em casa, ou na festinha de aniversário da vizinha. De alguma forma, o futuro incerto não tem vez: as pessoas precisam de definições. E parece que enquanto você não veste a camisa de uma "profissão" qualquer, as pessoas ao seu redor não sossegam - principalmente, você não sossega. Precisa saber qual xiszinho marcar no formulário de inscrição do vestibular. Expectativas, expectativas.

Para mim, ao terminar o segundo grau na escola, não havia dúvida alguma: eu faria Biologia. Nunca sequer cogitei outro curso ou rumo. Já havia feito vestibular como treineira antes, aprendendo os macetes da prova mais dor-de-cabeça que o sistema educacional criou. No auge dos meus 17 anos, tinha certeza de que queria entender de moléculas, de genes e de plantas. Mas sei que essa decisão toda é algo raro entre aborrescentes, e muitos dos meus amigos calouros de faculdade eram "médicos frustrados" - alguns largaram a Biologia para tentar Medicina de novo, outros se acomodaram, a maioria terminou aprendendo a gostar mais do curso e encarar a Biologia como profissão mesmo (e em geral estão felizes com a decisão).

Se não tive muito medo do vestibular, no último ano de faculdade, comecei a me preocupar de verdade. Afinal, até então, eu tinha absoluta certeza do que gostaria de fazer. O futuro era sempre "certo". Mas depois que você se forma, parece que o futuro depende mais de variáveis que não sabemos controlar - como o mercado de trabalho, por exemplo - e a incerteza brota. Além do mais, fui comodamente estudante a vida toda, e estudar era a única coisa que eu sabia fazer. A formatura representava a entrada em um mundo novo, desconhecido.

Muitos dos meus amigos, ao se formarem, continuaram suas carreiras acadêmicas, entrando no mestrado, depois no doutorado. É, aliás, a sequência lógica. Mas eu não queria naquele momento continuar na academia científica. Tinha uma formiguinha no meu ouvido dizendo: "Vá conhecer o mundo!" Embora todos pensassem que eu, uma apaixonada por biologia desde sempre, tinha como certa a ida pro mestrado, resolvi no último ano surpreender a todos, e começar a me acostumar com as incertezas reais do futuro que estavam por vir.

Primeiro, apareceu uma proposta de emprego numa indústria de alimentos. Dezenas de candidatos para uma vaga. Fui fazer a entrevista em Belo Horizonte, e não passei nem da primeira fase. Claro, estava acostumada com o ritmo da faculdade, não sabia como me portar numa entrevista, responder de forma correta às questões, e principalmente, dancei feio naquelas dinâmicas de grupo psicológicas que até hoje não entendo bem o que analisam. Encarei essa "derrota" como um grande aprendizado: precisaria me esforçar mais para garantir minha vaga, entender melhor as regras do jogo. Comecei então a olhar em anúncios de emprego o que eles pediam mais, e esbarrei no óbvio: inglês fluente. Estudei inglês desde meus 9 anos de idade, mas sempre soube que fluência você só adquire quando submerge na cultura da língua estrangeira, dormindo e acordando com pessoas ao redor falando a língua a ser apre(e)ndida. Foi aí que veio a segunda oportunidade.

Li em algum lugar (não me lembro onde) sobre um programa de estágios no exterior, para estudantes em final de curso. Era tudo que eu queria naquele momento. O programa (chamado IAESTE) baseava-se em pontuação, e o candidato adquiria os pontos através de uma prova básica de inglês, de seu currículo e da oferta de um estágio e/ou alojamento no Brasil a um estrangeiro - era um programa de reciprocidade. Não consegui oferecer estágio nem alojamento algum (o que me fez perder pontos), mas não desisti. Fiz a prova de inglês, e aguardei o resultado ansiosamente. Eis que alguns dias antes da minha formatura, veio a resposta: eu estava selecionada, e tinha 3 opções de estágio - Alemanha, Croácia e Argentina. Só um problema: na época, eu trabalhava com genética de plantas. Na hora de preencher o formulário, eu tinha "simplificado" as coisas, e coloquei apenas "biologia de eucariotos", que engloba praticamente tudo em biologia exceto bactérias e vírus. E as opções que vieram nada tinham a ver com plantas. Escolhi um laboratório de tecido adiposo na Alemanha pela razão mais patética possível: queria conhecer Berlim que, desde a queda do muro em 1989, tinha se tornado um sonho adolescente. Ou seja, minha escolha nada tinha a ver com biologia em si.

Mas o alívio foi inacreditável. Fui para a formatura sabendo que em breve, estaria saindo do país pela primeira vez, realizando um sonho e estagiando temporariamente num laboratório, meu hábitat. Não estava empregada efetivamente, mas estaria aprendendo um pouquinho - na época, achava que era só um pouquinho, hoje vejo que foi simplesmente fundamental para meu crescimento profissional e pessoal. Fui para o estágio sem muita expectativa, porque todas minhas expectativas estavam no fundo resumidas em andar por Alexanderplatz ou atravessar o portão de Brandemburgo.

Formatura UFVPortao de Brandemburgo, Berlim
Momento de alegria, a formatura também é um momento de transição e inseguranças. Nessas horas, correr atrás de uma boa oportunidade foi a melhor opção: realizei o sonho de atravessar o Portão de Brandemburgo, em Berlim. (A foto foi tirada do lado ex-oriental, em frente a embaixada da Hungria, às 7 da manhã. Repare no guindaste à direita: Berlim era um grande canteiro de obras quando lá estive. Immer Baustelle.)

Fui. O estágio era em Potsdam, a inacreditáveis 30 minutos de Berlim. Fiz vários amigos na Alemanha, e pelo menos 5 foram depois me visitar no Brasil. Ainda mantenho contato com a maioria. Vi de perto a dinâmica de um laboratório no exterior, experiência que por si só já veio de bônus para meu currículo, mas principalmente vi a dinâmica da vida num país diferente. Vi o comportamento de outra cultura. A primeira vez em que se é estrangeiro é inesquecível, sempre. Os choques culturais, as dificuldades, as pequenas alegrias, as grandes conquistas do dia-a-dia. A Alemanha, por questão de oportunidade, foi a minha porta de entrada para uma nova visão da realidade, um outro lado da moeda.

Quando voltei pro Brasil, veio a insegurança de novo: "E agora, o que fazer?" O medo de não conseguir emprego, a dificuldade para se inserir no mercado de trabalho, de ter perdido o pique de estudo (estava em ritmo de mochilagem pela Europa, dormindo no meu saco de dormir por quase 6 meses...), tudo isso passou pela minha cabeça. E o acaso me trouxe mais um obstáculo: uma doença grave na família. Larguei tudo, por mais um ano. Não pensava na minha carreira objetivamente, não lia jornais científicos, mas continuava estudando por conta própria o que passava pela frente. Nos intervalos da fisioterapia, sempre estava lendo um livro ou tentando entender o que se passava com o organismo naquele momento difícil. Discutia com o médico, aprendia um pouco de neurologia na prática. Converti um tempo "perdido" em tempo ganho de conhecimento que, embora naquele momento não enxergasse, me ajudou a trilhar os meandros da ciência com mais sutileza.

Quando a situação se estabilizou, percebi que era hora de voltar a focar na minha carreira, e voltou a pergunta: "O que fazer?" Eu já estava há quase 2 anos fora do mercado de trabalho tradicional - na realidade, nunca havia me inserido nele direito. Mas tinha alguma experiência de vida - "mas isso todos nós temos, de um jeito ou de outro", pensava. Resolvi arriscar o mestrado num campo novo, numa cidade nova, com pessoas que nunca tinha visto na vida. Recomeçar de novo - mas não do zero, e sim a partir da experiência acumulada no período em que para muitos eu parecia ter "perdido tempo". E deu certo.

Sair do país foi para mim a melhor experiência possível, porque, muito mais que aprender inglês (meu objetivo inicial), foi o contato com uma nova realidade, com comportamentos e hábitos novos, sentindo tudo na pele, ao vivo. Mas foi principalmente a realização de um sonho pessoal. Cada um constrói seu futuro com as suas experiências pessoais, com seus pequenos sonhos. Cada um tem uma história para contar. Olhando para trás, agora, vejo que as oportunidades aparecem na vida da gente - e se não aparecem, a gente as cria. Saber aproveitá-las, e principalmente, saber transformar eventos negativos em resultados positivos depende de cada um, da sua forma de encarar o mundo, do seu jogo de cintura perante as dificuldades. Críticas e elogios fazem parte do jogo, mas o xeque-mate, quem arquiteta e planeja é somente você. Choose life, always.

Tudo de bom sempre.

*Maitê, espero que esse texto tenha respondido a sua pergunta... ;-)

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domingo, novembro 13, 2005

Algumas colocações sobre diabetes e afins

Hoje, 14 de novembro, é o dia mundial da Diabetes, data criada pela Organização Mundial de Saúde para reflexão sobre a patologia, nos mais diversos âmbitos.

Diabetes nunca foi um tema científico que tenha enchido meus olhos. Mas, depois que me vi "obrigada" a estudar o assunto, a escarafunchar as revistas e entender as nuances da informação sobre a condição do diabético, confesso que o tema passou a ter outra "vida" no meu ser. Mas também devo confessar: minha linda e querida prima Danielle, diagnosticada com diabetes há pouco mais de 2 anos, contribuiu muito para esse interesse repentino. Afinal, nada como ter a experiência perto de você - e olha que fisicamente eu nem estou tão perto assim... enfim, boa parte do que sei hoje sobre a doença vem dessa tentativa de me informar ao máximo para ajudar a prima mais doce que eu tenho.

Atrás de informações sobre diabetes, terminei caindo na comunidade Diabetes Brasil, do Orkut, e foi lá que li os depoimentos mais interessantes de diversas pessoas (muitas delas, tornaram-se amigos meus) sobre o dia-a-dia de um diabético. Injeções, medidores de glicose, a escolha da melhor insulina para cada caso, hipoglicemia e hipoglicemiantes, etc. está tudo no Orkut. Ou na lista de discussão do Yahoo, a qual também faço parte. Mas melhor que isso, está tudo na experiência de vida desse grupo maravilhoso de pessoas doces que são os diabéticos - parece que o excesso de glicose no sangue extravaza para o caráter, e os diabéticos são realmente uns doces de amigos. Poucas vezes encontrei pessoas com tanta gana de viver bem. A eles, diabéticos, hoje eu dou uma salva de palmas de pé, pelo exemplo de bela luta pela sobrevivência e pela qualidade de vida que são.

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Minha prima Danielle tem diabetes tipo 1. A diabetes tipo 1 aparece por causas até hoje não muito bem entendidas pela ciência. Trata-se de uma doença auto-imune, ou seja, o organismo, de uma hora pra outra, começa a produzir anticorpos contra as próprias células do pâncreas que produzem a insulina (células beta), entrando num processo de rejeição do próprio órgão. As células beta vão sendo então destruídas, e em pouco tempo (semanas às vezes), já se foram todas, e a pessoa se torna dependente de insulina exógena pro resto da vida. Uma das soluções efetivas existentes hoje aos diabéticos tipo 1 é o transplante de pâncreas - há a promessa interessantíssima das células-tronco também. (O que desengata esse processo de auto-destruição ainda é uma incógnita, e estudos recentes puxam para o lado neurológico - stress, depressão, etc.) O diabético tipo 1 tem que tomar insulina todos os dias, sem falta. Os casos de tipo 1 são aproximadamente 10% de todos os casos de diabetes no mundo, e geralmente aparecem na infância ou juventude. É muito raro alguém se tornar diabético tipo 1 depois dos 50 anos de idade.

Já a diabetes tipo 2 (o mais comum) leva muitos anos se desenvolvendo no organismo. Em geral, aparece em pessoas com idade mais avançada - embora cada vez mais frequentemente pessoas jovens e até crianças e adolescentes estejam manifestando seus sintomas. Basicamente, os tecidos que mais dependem da insulina no nosso corpo (os músculos, o fígado e o tecido adiposo, entre outros) começam a não responder de forma adequada à insulina, ou seja, a insulina produzida não consegue iniciar seus efeitos como deveria - gerando um problema grave no abastecimento de glicose para as células, que entendem que não há insulina, e não permitem a entrada da glicose. Sem glicose, não há geração de ATP, a molécula de energia, e sem energia, a célula degringola. Esse processo chama-se resistência à insulina, e se não tratado, culminará num quadro de diabetes tipo 2. Entretanto, as nuances da diabetes tipo 2 são muitas. A patologia é um reflexo direto do nosso estilo de vida moderno, cheio de confortos e regalias, pouco exercício e muitas calorias. Uma dieta rica em açúcar, mesmo se você não é diabético, NÃO é saudável; ela pode já estar iniciando um processo de resistência à insulina que, não-tratada, culminará na diabetes. Mas não só o açúcar em excesso gera toda essa cascata de eventos: os estudos mostram que uma dieta rica em gorduras também pode desencadear diabetes tipo 2. Ou seja: nada de torresmo com batata frita e quindim de sobremesa.

Se diagnosticada numa etapa inicial, quando as células estão no início da resistência à insulina, a diabetes tipo 2 tem um tratamento simples: exercícios e melhoria de dieta. A pessoa não precisa nem cortar de vez o açúcar, basta moderá-lo. Pode também tomar hipoglicemiantes orais, comprimidos, sem necessidade das injeções diárias de insulina - ao contrário da diabetes tipo 1, onde a insulina diária é essencial.

Se não tratada devidamente, a diabetes pode gerar complicações graves, nos rins, na retina, nos ovários, na circulação periférica (como nos pés) e principalmente, no coração. Uma vez ouvi de um médico num seminário que fui a seguinte frase: "Todo paciente diabético é um paciente cardiovascular." Ou seja, a condição "diabético" traz junto um potencial problema cardiovascular - e diabético que é esperto, faz sempre exames para ver como está o coração. Outro problema grave é na circulação periférica, e de acordo com a Organização Mundial de Saúde, de cada 10 amputações que ocorrem no mundo, 7 são resultado de complicações da diabetes. Os diabéticos espertos também cuidam do pé, fazendo massagens, passando cremes, usando sapatos confortáveis (nada de saltos altos!) e evitando calos - qualquer machucado num diabético demora mais para cicatrizar, e corre maior risco de infeccionar. Boa parte das amputações diabéticas começam com infecções "simples" em machucados que nunca fecham. Existem hoje uns adesivos que detectam neuropatias do pé através da medição do suor - o adesivo muda de cor de acordo com alguam molécula indicadora que é liberada no suor da pessoa. Ainda está sob investigação mais criteriosa se funciona ou não (não sei se está no mercado, vi isso num stand de Congresso recente), mas, caso funcione, pode ser uma ajuda no futuro.

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Nos últimos anos, uma nova terminologia científica apareceu: a síndrome metabólica. Ela engloba várias patologias que alteram o metabolismo do organismo como um todo, e entre essas patologias está a diabetes tipo 2. Muita discussão sobre o termo "síndrome metabólica" ainda ocorre, o conceito em si ainda não está maduro. Sexta passada fui num Congresso de Diabetes em Seul, e discutia-se, entre outras mil coisas, esse conceito, que hoje parece definir a seguinte sequência de desenvolvimento:

1) A pessoa tem um índice de massa corpórea (IMC) alto.

2) A pessoa apresenta uma gordura visceral e subcutânea elevada - o que significa uma cintura maior que um valor X variável de país para país. Nos EUA, é 102 cm; no Japão é 90 cm; no Brasil, é 102 cm para os homens e 80 cm para as mulheres.

3) A pessoa começa a desenvolver hiperinsulinemia, ou seja, um excesso de produção de insulina que leva a um excesso de insulina circulando no sangue. Esse é o alerta médico de que algo não está funcionando direito no corpo. A razão da produção exagerada de insulina é uma leve resposta inadequada dos tecidos que dependem de insulina (os tecidos-alvo que já citei acima: músculos, fígado, células de gordura). A partir do momento em que há hiperinsulinemia associada a uma das 2 características anteriores, os médicos já consideram o paciente como portador de "síndrome metabólica".

4) A hiperinsulinemia leva à resistência crônica dos tecidos à insulina.

Em geral, a pessoa com síndrome metabólica é aconselhada por um médico a começar um tratamento que consiste em: dieta regrada, exercícios físicos, e muitas vezes agentes hipoglicemiantes orais, que são remédios que permitem a ação da insulina nas células-alvo, facilitando a entrada de glicose. A pessoa nesse estágio pode não desenvolver diabetes tipo 2, é apenas um "diabético em potencial". Caso faça exercícios e tenha uma dieta regrada, pode haver uma estabilidade do quadro. Exames constantes da glicose no sangue são suficientes para uma pessoa se precaver e estar atenta a esse problema.

Entretanto, boa parte das pessoas infelizmente não descobre a síndrome a tempo, e quando vai ao médico, descobre que seu pâncreas já está comprometido: de tanto produzir insulina em excesso e esta não funcionar adequadamente, o pâncreas diminui (ou cessa) a produção de insulina. Ou seja, a pessoa tem um comprometimento do pâncreas, e com isso vai precisar, como o diabético tipo 1, de tomar doses diárias de insulina para metabolizar sua glicose.

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Existem diversos tipos de insulina no mercado, e há pouco tempo a insulina nasal foi aprovada pelo FDA americano, finalmente. Sem dúvida, um dos maiores avanços para os diabéticos no mundo, já que é bastante incômodo tomar injeções diárias de insulina. Um desses avanços para serem aplaudidos de pé por horas a fio.

O governo brasileiro é obrigado, por lei, a fornecer gratuitamente insulina e seringas a todos os diabéticos do país. Caso a pessoa entre com um pedido especial, pode inclusive receber também as fitas de medição de glicose e diferentes tipos de insulina. Aparentemente, o processo é simples em alguns lugares. Um amigo meu de Brasília, por exemplo, recebe tudo que precisa, inclusive a insulina de ação lenta, que aumenta o espaço entre uma injeção e outra. Entretanto, minha prima do Rio de Janeiro mal recebe a insulina comum - parece que o processo no Rio é um tanto quanto "complexo", se é que vocês me corruptendem, e depende de fortes "QIs".

Na próxima vez que for votar, eu vou olhar no programa de governo dos candidatos o que cada um pretende fazer pelos diabéticos. É uma forma de ajudar a causa, escolhendo políticos que possam se preocupar com o assunto. (Eu sei, em tempos de mensalão é mais fácil acreditar em Papai Noel ou no Coelhinho da Páscoa, mas não quero perder as esperanças tanto assim.)

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Uma pessoa que tem um IMC alto e possui elevada circunferência abdominal é uma pessoa gordinha, e pode ser obesa. Nem todo obeso tem síndrome metabólica ou diabetes tipo 2, mas todo obeso PODE vir a ser um diabético. É esse PODE que faz a diferença. A prevenção básica passa por uma dieta e por exercícios físicos, ou seja, redução da gordura corpórea, de alguma forma. Entretanto, deve-se encarar a obesidade não simplesmente como um "mal-hábito" pessoal, mas sim como uma patologia crônica, séria e complexa. Afinal, a obesidade não tem preconceito algum: é presente em todas as etnias, sem distinção de sexo ou religião. Além disso, a obesidade já é a segunda causa de aparecimento de cânceres que podem ser prevenidos - a primeira continua sendo o cigarro. Obesidade é um problema de saúde pública dos mais graves no mundo de hoje.

(Parênteses: Um estudo de 2004 sugere que a obesidade seja encarada na realidade como um caso de tumor endócrino das células de gordura. Discussões mil ferveram na área por conta dessa idéia, mas por enquanto, é apenas especulação.)

Evolutivamente, nós, Homo sapiens, somos animais que estocam energia na forma de gordura, para momentos em que a alimentação fique escassa. A glicose extra que ingerimos na dieta é armazenada no tecido adiposo como gordura. Por milhares de anos foi assim. O advento tecnológico que tantos avanços e melhorias propiciou, trouxe como efeito colateral um excesso de conforto, um sedentarismo inerente, que, de acordo com muitos estudiosos da obesidade, culminou com a situação alarmante que vivemos: 300 milhões de pessoas no mundo obesas e cerca de 1.1 bilhão acima do peso - ou seja, já com uma das características potenciais para desenvolvimento da síndrome metabólica. Não somos animais para viver sentados em escritórios ou comer em excesso. Nosso organismo não está preparado para isso. Ele responde da forma como respondeu desde sempre: ao ver excesso de comida, ele armazena - o futuro é incerto. Com uma dieta crônica hiper-calórica e pouco exercício, esse excesso de gordura armazenada é entendido pelo corpo como um sinal de que várias moléculas (hormônios inclusive) devem parar de ser produzidas, enquanto outras devem começar a ser produzidas. Veja bem, é uma resposta evolutiva NORMAL do organismo. O que está errado não é o nosso organismo: é o nosso excesso alimentar.

Num post antigo, eu comentei o que aconteceu na pequena ilha de Nauru, no Pacífico. Como uma epidemia de diabetes tipo 2 se alastrou em reflexo a uma pequena mudança no estilo de vida dos habitantes. Nauru é um pequeno mundo dentro do nosso mundo. Mais simples de se analisar, talvez. O mundo que temos ao nosso redor é cheio de outros fatores mais complexos que podem fazer a diferença.

Entre esses outros fatores, um deles chama-se ciência.

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No mundo da diabetes, fala-se sempre em bilhões. A diabetes é uma patologia que movimenta um mercado de aproximadamente 26.7 bilhões de dólares por ano, e que continua crescendo. Toda grande empresa farmacêutica tem pelo menos um departamento ou instituto dedicado a pesquisas com diabetes - seja para melhorar a qualidade de vida do diabético (desenvolvimento de medidores de glicose mais eficientes, por exemplo), seja para procurar compostos que tragam uma possível cura (drogas novas derivadas de muitos anos de pesquisa científica). A indústria farmacêutica lucra apenas com venda de insulina, cerca de 5 bilhões de dólares por ano. Só a Roche tem no momento 10 drogas em fases diferentes de testes em seu pipeline. Isso sem falar no que vem sendo pesquisado pelas outras empresas ou pelas universidades mundo a fora. É simplesmente inacreditável.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o Brasil gasta por ano 3.9 bilhões de dólares com tratamento para diabéticos. Isso em custo direto, fora custos indiretos. Não é muita coisa, comparada com os 44 bilhões de dólares que os EUA gastam. A diabetes custa caro, e tira muitos dias de trabalho de pessoas economicamente ativas, elevando o custo com saúde, e gerando uma série de gastos indiretos ao sistema.

Já ouvi várias vezes o discurso de que "a cura da diabetes já existe, as indústrias é que não querem perder os lucros que têm com um paciente crônico". Como disse acima, num mundo de mensalão isso pode até ser provável, mas no mundo dos negócios, a realidade é outra. As grandes empresas não gastariam bilhões de seu orçamento para pesquisar uma patologia da qual já ganham muito dinheiro se não vissem a possibilidade de lucro ainda maior com uma possível cura. Seria muito melhor deixar como está, não? É claro que se elas investem em buscar melhorias, é porque elas sabem que há uma galinha dos ovos de ouro nessa área.

Em meu trabalho, lido diariamente com os mais diversos aspectos da pesquisa em diabetes - nem que seja apenas através de relatórios. Nunca li ou ouvi uma grande empresa, por mais necessitada de cortar orçamento que esteja, dizendo que deixará de pesquisar diabetes tipo 2. Outras "doenças" saem muito mais fácil da "linha de produção" da indústria farmacêutica. Pela simples razão de que o mercado consumidor para a diabetes tipo 2 não pára de crescer.

E a lei do mercado é mais forte que qualquer outro interesse altruístico, no mundo em que vivemos, (in?)felizmente.

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Se você tentar acompanhar o campo da diabetes ou da obesidade em tudo que ele contém, você fica louco. É muita informação. Praticamente todos os dias aparece uma notícia que diga respeito a diabetes (ou a obesidade), seja uma nova droga, uma nova perspectiva de tratamento, ou um rumor qualquer. Boa parte dos pesquisadores biomédicos tenta "flertar" com a temática detentora de tanto dinheiro para pesquisa. Nesse mar de informações e pesquisa, algumas são efêmeras, outras são etéreas, outras ainda são uma viagem na maionese que pode dar certo, e uma pequena parcela é realmente validada.

Um dos grandes paradigmas quebrados na biologia nas duas últimas décadas foi a da função do tecido adiposo, em parte esse paradigma foi quebrado por cientistas querendo resolver questões da diabetes. Antigamente, o tecido adiposo era um mero acumulador de gordura, estoque energético do corpo. Hoje, sabemos que é um tecido altamente dinâmico, importante produtor de uma série de hormônios (leptina, resistina, TNFalfa, adiponectina, e o mais recente de todos, a obstatina) que regulam desde a sensação de apetite até funções cardiovasculares. Além disso, o tecido adiposo é peça-chave para manutenção do equilíbrio térmico e metabólico dos animais vertebrados. Muito mais que apenas associá-lo à patologia e problemas, devemos associá-lo às benesses que seu bom funcionamento traz. Muito mais que incentivar o look esquelético da moda, devemos pensar em manter um organismo saudável, sempre.

Porque, como já dizia o famoso bordão da TV: saúde é o que interessa, o resto não tem pressa.

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Tudo de bom sempre aos diabéticos do mundo. Em especial, Danielle, os olhos verdes mais doces do mundo.

Danielle reveillon 04-05

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*Aos que desejam viajar mais...

- Uma boa pedida é o site da Sociedade Brasileira de Diabetes. Em inglês, o da American Diabetes Association é excelente também. E se quiser ler um blog atualizado sobre o assunto, o Diabetes Blog é a dica.

- Esse post é parte de uma mini-blogagem coletiva organizada por mim, que faço "lobby" pela diabetes o tempo todo nos bastidores da vida. Entretanto, o desafio de discutir a diabetes não é nada fácil, e poucos blogs encararam a fera. O Flávio Prada e a Elenara aceitaram, e vale a pena conferir. Valeu, galera, pela força!

UPDATE: A super-Denise e a Christiana Nóvoa também participaram da mini-blogagem de maneira supimpa!

UPDATE 2: A Cynthia Semíramis também escreveu sobre a experiência dela com problemas glicêmicos. O amigo Chico lembrou da data numa profusão de links interessantes. Dr. Cláudio também deu uma dica de saúde mental para diabéticos, e o Bia falou um pouco de medicina alternativa. E o Smart lembrou da data em sua maneira usual: com um trocadilho certeiro.

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Gabriel e Cyntia

Num intervalo de apenas 2 dias, 2 das pessoas mais queridas com quem tive o prazer de compartilhar momentos fazem aniversário. Essa quase-coincidência de datas é fascinante. Ambos biólogos, ambos nota 1000.

Hoje, 13/nov, é aniversário do Gabriel. Dia 15/nov, terça, é aniversário da Cyntia.

Sou filha única, e me convencionei a considerar os amigos mais próximos, de quem tenho mais afinidade, como irmãos. Tenho vários, uma felicidade só, e eles são na minha ilusão mental, uma grande família. Na falta dos irmãos biológicos, adquiri vários "adotivos" pela vida a fora.

Gabriel é um dos meus melhores amigos. Cientista de mente aberta, biólogo das perguntas certas, inquisidor inato. Nada cético - ou cético demais, talvez. Um amigo de quem sinto falta aqui do outro lado do mundo, para ouvir jazz, para discutir evolução, para simplesmente jogar conversa fora, dar risadas e viajar na maionese. O mundo girou, muita água rolou, mas a nossa velha amizade de calça jeans puída e camiseta com furinhos de traça em nada mudou. Cada vez mais amigo, cada vez mais irmão. Feliz aniversário, Gabriel!

(By the way, Lucy never leaves... she's often in the sky with music!)

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A Cyntia. Ah, a Cyntia. Se ela soubesse o quanto ela faz falta...! O quanto eu fico saudosa só de lembrar das nossas risadas no lab, dos açaís na tigela, das aventuras bostonianas. Do ombro amigo nos momentos mais difíceis. Da amizade que não cessa. Da alegria italiana de ser.

Faço mil planos infalíveis e mirabolantes diariamente de viagens (talvez seja influência do Cebolinha, meu personagem adorado da infância). Boa parte desses planos inalcançáveis incluem uma possível parada em um lugar onde a Cyntia esteja, para que eu possa rever minha amiga do coração. Vamos ver se algum dia esses planos se concretizam, enfim. Enquanto o sonho do encontro não vem, resta desejar um super-hiper-feliz aniversário, Cyntia!

Gabriel e Cyntia, sintam-se abraçados por mim, do fundo do coração. Vocês são a certeza de que o Milton Nasciemnto acertou em cheio quando compôs:

"(...) mesmo que o tempo e a distância digam não/ mesmo esquecendo a canção/ o que importa é ouvir a voz que vem do coração/ seja o que quiser/ venha o que vier/ qualquer dia, amigo eu volto a te encontrar/ qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar!"

Qualquer dia desses, sem falta.

Tudo de bom sempre, Gabriel e Cyntia, amigos mais amigos, amigos mais irmãos.

GabrielCyntia

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* Amanhã, dia 14/novembro, é o dia Mundial da Diabetes. Estarei postando sobre o assunto, e gostaria de convidar quem quiser a postar sobre diabetes também. Caso você se interesse em escrever também, me avise aqui na caixa de comentários ou por email (no rodapé da página). Reflexão por uma boa causa, num dia especial.

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quinta-feira, novembro 10, 2005

O coreano e o inglês

Recentemente, um jornal coreano comentava uma gafe em um monumento recém-inaugurado em Seul. A gafe em questão estava numa pedra: uma frase entalhada que continha um erro gramatical de inglês. A pedra está num lugar onde será vista por inúmeros turistas estrangeiros que passam por Seul, e o jornal reclamava do absurdo do texto não ter passado por uma revisão da língua inglesa mais cautelosa, antes de ser gravado "para sempre" numa pedra. Ou pelo menos do descaso de toda a confusão.

Faz sentido. Um ponto turístico é na maioria das vezes a imagem de um país que o estrangeiro de passagem leva para casa. Mais do que justo que se espere do governo (ou de sei lá quem construiu o monumento) um esmero maior na hora de apresentar o local para o mundo. Principalmente se extrapolarmos um pouquinho o que diz o artigo e lembrarmos de que há uma intenção clara da Coréia do Sul em entrar de cabeça no mercado mundial, em tornar Seul uma cidade totalmente internacional, em ser um grande "hub" para a Ásia, etc. etc. I'm sorry to break the news, mas no mundo de hoje, uma cidade internacional, convergência de diversas culturas, precisa encarar o inglês sem preconceitos. E falar razoavelmente bem. Nem Paris com seu protecionismo francofônico consegue se isolar da língua anglo-saxônica, que dirá os demais lugares do mundo. Beijing, por exemplo, parece estar andando a passos mais largos que Seul nesse sentido. Acho que a última coisa que os coreanos querem é ser motivo de chacota por turistas estrangeiros.

Por outro lado, achei de certa forma engraçada a preocupação da reportagem. Porque, veja bem, qualquer pessoa que visite a Coréia e não fale coreano ou chinês, logo perceberá que o nível do inglês da maior parte da população deixa a desejar - e muito. Aliás, de qualquer outra língua estrangeira ocidental - eu nunca encontrei um coreano que falasse alemão ou italiano, por exemplo. Deve existir, mas são raros. Basta ver exemplos como esses:

Caixa de boloCapa do caderno

O da esquerda estava na caixa de um bolo que comprei na padaria, e o da direita está na capa do meu caderno de anotações caseiras. São apenas exemplos, ambos ininteligíveis. Se olharmos com rigor para outdoors, lojas, folhetos explicativos, websites... perceberemos deslizes muito piores, mais gritantes. Qualquer estrangeiro mais curioso que por aqui passe vai perceber que a comunicação clara em inglês ainda é um problema grave a ser resolvido pela Coréia - e eles estão tentando resolver de forma efetiva, incentivando cursos de inglês desde a pré-escola, criando colégios de imersão, entre outras táticas. (A qualidade do ensino do inglês é papo para longas discussões, mas enfim, vamos assumir aqui que seja ok.)

Seul já foi sede de Olimpíadas (em 1988) e Copa do Mundo (em 2002). A cidade tem todos os sinais de rua, metrô, ônibus, etc. em duas línguas. Aliás, a maior parte da cidade tem instruções básicas em pelo menos 2 línguas, o que já é um avanço perante vários outros lugares pelo mundo. O problema é mais profundo, sutil, reside na comunicação das pequenas perguntas, das informações pitorescas, questões como "o senhor sabe por gentileza onde fica o correio?" Uma pergunta dessas desaba qualquer coreano independente de classe social ou escolaridade, porque ele simplesmente não entende o que você está falando, por mais devagar que você se expresse. E, traço característico da cultura asiática em geral, dá uma risadinha de vergonha/constrangimento e sai de perto. E você, estrangeiro, fica com a carta na mão. É claro, o meu "se-virômetro" apita na hora, e eu logo tasco uma mímica qualquer para ajudar no entendimento. Mas em geral, é assim que la nave va.

De forma irônica, matutei que o monumento em Seul estava apenas mostrando ao turista uma das principais características culturais não-declaradas em folhetos turísticos da Coréia do Sul: a dificuldade de comunicação com o estrangeiro. No caso, pelo não-domínio da língua inglesa. Que gera a dificuldade de adaptar-se ao novo em que esse país se encontra.

Fiquei pensando se, caso ocorresse no Brasil, nós não daríamos um belo jeitinho na tal pedra...

Tudo de bom sempre.

* Pelo visto, os coreanos não estão sós. Achei no Blog from another dimension (escrito por um americano que mora no Japão) esses dois posts, com exemplos pra lá de divertidos dessa "confusão" lingüística.

** A moçada gente-fina da Verbeat está fazendo uma pesquisa pela blogosfera brasileira, para prospectar e identificar o perfil desse mundo virtual. Para contribuir, é super-fácil: basta responder um questionário. Dizem que levam só 10 minutos para responder. Eu já respondi e levei 6 minutos e 37 segundos, ou seja, é rápido, sem dor e sem choro. No ar até o dia 25/novembro.

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terça-feira, novembro 08, 2005

Extinto (ou quase)

Este post não deveria ser escrito. Aliás, não seria, se vivêssemos no meu mundo ideal utópico, um mundo onde jamais uma espécie seria levada à extinção pela ação humana desenfreada.

Mas infelizmente, o meu mundo ideal utópico é apenas isso: utópico. No mundo real, o primeiro mamífero cetáceo foi nessa semana declarado praticamente extinto: os golfinhos do Rio Yangtze na China. Nome da espécie: Lipotes vexillifer. Foi-se. (Fotos aqui.)

(Parênteses: Digo praticamente extinto porque se acredita que ainda exista uma meia dúzia de indivíduos pingados por lá, sendo procurados por pesquisadores chineses. Mas qualquer biólogo sabe que número tão reduzido de população é a característica primária de uma espécie fadada à extinção. Não dá para se reerguer. Infelizmente. Fim do parênteses.)

O golfinho de Yangtze não foi a primeira espécie a ser extinta em decorrência da intervenção humana em seu hábitat. Nem provavelmente será a última. A lista de animais que vimos se extinguir (ou criticamente ameaçados) sob nossos olhos tem outros mais, mas sendo esta a primeira espécie de cetáceo - ordem que eu particularmente admiro - cabe aqui o triste epitáfio.

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Depois de ler a reportagem citada acima, não resisti e fiquei aqui em casa fuçando atrás de fotos de espécies que estão na lista vermelha de extinção. Será que nossa pequena coleção fotográfica caseira teria algum desses animais? Achei não algumas, mas várias espécies ameaçadas entre as fotos. Escolhi as fotos abaixo por serem animais grandes das quais temos alguma história para contar, mas com certeza ficaram de fora vários invertebrados, plantas e afins. Segue também o status de cada uma dessas espécies ameaçadas.

GuitarfishGuitarfish
O tubarão-raia (ou peixe-guitarra) está na lista como "vulnerável". Quando vimos esse animal "jogado" embaixo de uma barraquinha de rua em Suao (Taiwan), logo nossos olhos arregalaram. Não porque sabíamos de sua situação delicada de risco, mas porque aquele era um bicho muito diferente de todos os outros que estavam ali à venda. André achou que era um peixe de profundidade, eu achei que era um peixe raro. Hipotetizamos, fotografamos e em casa, já com o nome da espécie em mãos, descobrimos que era um animal ameaçado pelo excessivo comércio de sua carne e barbatanas na Ásia. Ironia ou não, foi exatamente num mercado que encontramos o bicho, já morto. Triste constatação da realidade.

Foca havaiana
A foca-havaiana (ou Hawaiian monk seal) é endêmica das ilhas havaianas, e está ameaçada pela destruição do seu ambiente natural. Essa da foto estava na ilha de Kauai, onde um grupo delas vive. O tamanho da população restante nas ilhas é indeterminado, mas projetos de proteção da espécie já existem pelo mundo.

Sagui-da-cara-branca
O sagüi-da-cara-branca é um pequeno primata, endêmico da floresta Atlântica brasileira. Vimos esse aí num quintal próximo da casa dos meus pais, no ES. A maior ameaça à sua existência é a destruição da mata Atlântica, seu hábitat. Não se sabe ao certo quantos sagüis ainda existem pelo sudeste brasileiro, mas vê-lo tão próximo de casa me deu um certo alívio. Temporário, mas alívio.

Thresher shark
Vimos o tubarão thresher (ou thresher shark) em Malapascua, nas Filipinas, num mergulho às 6 da manhã, e ele passou beeeeeem longe da gente. É um tubarão de profundidade, cuja principal característica é essa enorme nadadeira caudal. Não existem dados sobre o tamanho de sua população no mundo - acredita-se que venha diminuindo pela pesca acidental.

Celacanto
O celacanto é um animal que se acreditava extinto há milhares de anos, até que no início do século XX uma pesquisadora sul-africana encontrou exemplares do animal vivos na África do Sul. Desde então, a população de celacantos comecou a ser contada, e sabe-se que sua sobrevivência está criticamente ameaçada - o número de indivíduos é muito baixo. A história do celacanto merece um post inteiro que espero escrever um dia. Me cobrem.

Peixe-napoleao
O peixe-Napoleão é um peixe que nada com toda a calma do mundo próximo a corais. É um peixe tímido e arredio. E enorme (chega fácil a 200 kg). Sua carne é apetitosa. Ou seja, é a pesca perfeita para alimentar muita gente (o que significa bom comércio...), e vem sendo tão pescado que hoje está na lista dos ameaçados de extinção. (*Errata: Nos mercados pela Ásia, principalmente em Hong Kong, o peixe-Napoleão é vendido a preços exorbitantes (vários milhares de dólares) para ser consumido como delicatessen em restaurantes finos. Há relatos de que os peixes-Napoleão no comércio tem diminuído de tamanho - ou seja, são mais juvenis. Meu namorado presenciou um leilão em Tóquio no mercado central onde um peixe-Napoleão atum inteiro era negociado por ~10,000 dólares.) Explica-se o valor pela raridade de se pescá-lo hoje em dia. Tivemos a oportunidade de ver 4 peixes-Napoleão nadando juntos na Ilha de Apo, tranquilamente. Por quanto tempo mais? - é a pergunta que não quer calar.

Baleia jubarte
A sustentabilidade da população de baleias jubarte é um exemplo de trabalho de conservação bem realizado. Estava listada como ameaçada até 1990, quando passou para o status de "vulnerável" - o que significa que sua população aumentou nos últimos anos. Mas mesmo assim, sua situação ainda é extremamente delicada, porque a caça abusiva para consumo de sua carne continua pelos mares do mundo (mesmo sendo ilegal), e, sendo uma espécie com ciclo de vida muito longo, é fácil chegar a níveis críticos de novo. No Brasil, o Projeto Jubarte se desdobra na tentativa de estimar e manter os níveis populacionais que chegam à costa brasileira. Um trabalho árduo, necessário e lindo.

Tartaruga verdeTartaruga oliva
Todas as tartarugas marinhas estão de alguma forma na lista vermelha de ameaçadas de extinção. Criticamente ameaçadas são a tartaruga-de-couro e a tartaruga-de-pente. A tartaruga verde (foto à esquerda) e a tartaruga-oliva (foto à direita) encontram-se "apenas" ameaçadas. Todas desovam em áreas específicas do litoral brasileiro, e nesse sentido, o Projeto TAMAR faz um trabalho belíssimo na tentativa de conservação das espécies, com coleta de ovos para maximização da prole e soltura assistida em praias.

Voluntaria do TAMARTartaruguinhas ao mar
O trabalho glorioso do TAMAR ajuda na preservação e conservação das espécies de tartaruga marinha ameaçadas que desovam no litoral brasileiro. Na foto, soltura na Praia do Forte, BA.

Vou parar por aqui a lista. São muitos animais ameaçados de extinção. Restringi-me aos maiores, apenas, mas de nenhuma forma os outros são menos importantes, pelo contrário. No jogo da conservação, não existe mais nem menos importante: existe o equilíbrio do ecossistema como um todo, existe a possibilidade de um ciclo de vida completo, para o animal e da espécie. Existe a diversidade, existe o endemismo. Existe a prioridade de conservação. E existe o mecanismo básico da evolução, que, em meu mundo utópico, deveria ser o único responsável por extinções naturais.

Espero que essas fotos sejam apenas um lembrete a todos da diversidade da vida que ainda não conhecemos por completo - e que talvez não tenhamos a chance de conhecer. Infelizmente.

Nada podemos fazer pelo golfinho chinês que se foi. A solução, agora, é focar esforços e ações de conservação das espécies que ainda estão aí, nadando contra a maré da extinção aos trancos e barrancos. Para que não sejamos responsáveis por mais extinções além das que já ocorreram.

Tudo de bom sempre pros seres vivos ameaçados do mundo. Inclusive, indiretamente, nós.

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P.S.: Os homens têm mais poder de destruição que um tsunami - pelo menos para os recifes de corais de Banda Aceh, na Indonésia pós-tsunami... Ler uma notícia dessa dá o que pensar, não?

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UPDATE: E o que se espera do futuro das especies quando a gente lê isso? O Japão e seu discurso esfarrapado de "baleias para pesquisa" me desconsertam como cientista, principalmente quando todos sabem que o objetivo real deles é mesmo comer carne de baleia e manter a cultura alimentar, a despeito do bom-senso do raciocínio de que os tempos são outros, e as baleias já não são mais tão numerosas quanto outrora...

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sexta-feira, novembro 04, 2005

Pequenas anotações de viagens virtuais 8 - A ciência de informar a ciência

1) Eis um dos grandes dilemas educacionais na ciência, explicado para a Biologia pela Grrrl Scientist:

"(...)But this discussion raises an important issue that is facing biology today; this national trend to sacrifice a broadly-based biological knowledge in our relentless pursuit of increasing specialization. On one hand, specialization is a powerful advantage because it allows scientists to focus their energies and funds more productively than ever before, to push back the boundaries of humanity's ignorance and to make astonishing discoveries almost daily. But we as a society are so bedazzled by the resulting smorgasbord of discovery and innovation that we seem to have forgotten that specialization has its limits, too; it can lead to alienation between the fields and a lack of vision tempered by reality among our scientists. If we isolate biology into competitive subdisciplines that rarely communicate or collaborate with each other, we will lose the ability to see, to understand and to successfully deal with the larger biological challenges that we will be faced with; problems that we can address only if we possess an expansive knowledge of and appreciation for all living things."

Bem-dito. Aliás, em tempos de gripe aviária, é nesse blog que eu vou atrás de informações - ela é ornitóloga, e publica toda semana um apanhado geral de informações sobre pássaros que sobrevoaram pela mídia.

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2) E não é que já tem uma espécie de coral mole do Pacífico no litoral do Brasil? Um grupo de invertebrados restrito a uma região que aparece em outra. É a diversidade marinha literalmente entrando de gaiata no navio.

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3) Opiniões do Carl Zimmer sobre divulgação científica na blogosfera, com comentários interessantes. O Zimmer é meu jornalista científico predileto, by the way.

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4) Prêmio pior correlação entre duas premissas: Tipo sanguíneo e escolha de cartão de crédito. Quer dizer que se meu sangue é AB eu uso Visa básico e se eu tenho sangue O prefiro o maior número de benefícios possíveis no Credicard??? É para dar uma sonora gargalhada! Alguém por favor ensine lógica formal pras figuras que conduziram essa pseudo-pesquisa.

(E esse último link veio da SkepticWiki, a enciclopédia do ceticismo (!?!?!) que acabou de ser lançada.)

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5) Momento malla-sem-alça: onde fica a ilha francesa de Reunião? Aos que responderam corretamente no oceano Índico, por favor, expliquem isso também a esse amigo do Estadão, que quis "enriquecer" o título de sua reportagem colada da agência de notícias EFE, e terminou gerando uma confusão geográfica.

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6) Momento malla-sem-alça 2: Um outro amigo quis enfirular essa reportagem sobre o furacão Wilma no México (também requentada da EFE), e terminou cometendo uma gafe biológica ao escrever:

"(...) durante os meses de julho e agosto chegam à região para ver o tubarão-baleia, um pacífico mamífero que assiste à aproximação dos visitantes sem reagir."

Tubarão-baleia é peixe, não mamífero.

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7) Um menino de 8 anos foi aceito como estudante no curso de Física da Universidade de Inha, aqui na Coréia. Os pais utilizaram um método completamente não-convencional para educá-lo desde pequeno. Mas... não sei se acho essa notícia boa ou ruim. Um pedagogo de crianças super-dotadas teria melhor opinião a respeito, com certeza.

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8) Não é sobre ciência, mas vale a visita. Para os retardatários como eu, que não leram as opiniões de um americano visitando a Coréia do Norte, acesse e reflita com as boas histórias e fotos valiosas. Sim, o país mais fechado do mundo recebeu turistas ianques no mês de outubro para uma festividade especial, o Arirang Festival. O preço do pacote saindo de Beijing era exorbitante (aproximadamente 1800 dólares por 3 dias). É, manter um regime totalmente fechado não sai barato... Vale muitíssimo ler o que o moço escreveu. E depois ler o que o Der Spiegel diz do assunto.

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Tudo de bom sempre.

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terça-feira, novembro 01, 2005

Meus 18 anos

O Alex postou sobre as histórias dele aos 18 anos. Achei a idéia muito legal, e resolvi contar também um pouco das aventuras e desventuras que passei quando tinha a mesma idade - não foram muitas, e em geral ligadas à faculdade... Farei no mesmo formato do Alex: pequenos trechos de um ano de vida. Eis um "tiquim" dos meus 18 anos.

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Pouco viajei. É engraçado isso, porque viajar é algo que eu adoro fazer desde sempre. Talvez poucas oportunidades, talvez porque eu estava focada nos estudos, descobrindo os meandros da Biologia, me apaixonando cada vez mais pelo DNA. Fato é que fiquei a maior parte desse ano num lugar só.

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Meu aniversário de 18 anos foi em Vila Velha (ES), com meus amigos de rua. Um bolo delicioso, e uma roupa que não gosto de lembrar, de tão brega que era - e que, por ironia, é a lembrança mais viva que tenho daquele dia. Credo.

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Aos 18 anos, cursei o 3º e o 4º período da faculdade de Biologia. Estava em Viçosa (MG), na UFV. A matéria que tirou meu sono na época foi Biologia das Plantas Inferiores (algas, musgos, samambaias e afins), com uma professora bem cri-cri. Lembro de virar várias noites à base de café, pipoca, palha italiana e pão de queijo, estudando para a bendita disciplina. Embora adorasse os fungos, acho que fiquei meio traumatizada com tanto nome de espécie, gênero, família, etc. que a professora nos obrigava a decorar.

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Também nunca fiquei tão maluca num final de semestre na faculdade quanto o 3º. Na última semana de aula, eu tive 9 provas, 2 seminários e 1 trabalho escrito pra entregar. "Isso é desumano", pensava eu na época. Lembro que fui para a última prova - de Zoologia dos Invertebrados 2 (artrópodes e afins) - sem estudar absolutamente nada, porque já estava exausta intelectualmente. Nem sei o que escrevi na prova, só sei que passei.

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Aos 17 anos, eu morei sozinha numa quitinete. Então, aos 18, decidi que era hora de experimentar morar numa república de estudantes. A oportunidade apareceu com umas meninas que não conhecia direito, mas topei pela novidade. Na rua dos Estudantes. Eram mais 3 meninas, uma mais diferente que a outra, e dividiríamos um apartamento de 4 quartos (cada um com o seu). Não deu certo. Dois motivos que me lembro:

1) Uma das meninas catava minhas roupas do guarda-roupa sem avisar, usava, mandava lavar e recolocava no meu armário de volta sem eu saber de nada disso (quem me alertou foi a lavadeira). Por que não pedia - eu emprestava sem problemas? Mas pegar sem pedir? É muito feio esse comportamento. E na época, isso me estressou. (Hoje talvez eu abstraísse...)

2) Eu fazia aulas de Genética às 7 da manhã, às terças e sextas. Genética era a minha paixão no currículo inteiro do curso, minha menina-dos-olhos (como eu era uma iludida...). Nem precisa dizer que na quinta à noite sempre havia uma mini-festa lá em casa, né? Em geral, eu abria a porta de casa e me deparava com mais de 10 pessoas na sala, vendo filme, conversando alto ou jogando baralho. Uma bagunça. Numa véspera de prova, a festa foi até às 4 e tanta da matina, e eu tive que estudar com aquela barulhada na sala. Prometi a mim mesma que teria que sair daquela casa se quisesse me dedicar de verdade às disciplinas que me interessavam. No dia seguinte, comecei a procurar outro apartamento.

Foi uma bela lição: jamais morar com pessoas com quem não tem afinidade.

(Apesar da bagunça, passei em Genética com nota máxima. Milagres acontecem.)

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Entrei pro Programa Especial de Treinamento (PET) da Biologia - UFV aos 18. Recebi nele meu primeiro "salário" (na realidade, uma bolsa de estudos de valor praticamente simbólico, mas para mim era como um salário de marajá). Participava fazendo seminários pro curso, apresentando discussões para interessados, escrevendo no jornalzinho da Bio, etc. No PET, fiz vários amigos, e conheci minha futura roomate Rute, que compartilhou o mesmo teto comigo por mais 4 divertidos anos. Foi nesse ano no PET também que entrei em contato pela primeira vez com o professor Lucio, tutor que virou uma referência em Evolução que virou um amigão.

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Fui morar com a Rute, num apartamento de 2 quartos. Um dos apês mais legais que morei na vida. Não sei, mas o lugar tinha uma atmosfera boa. E era de tábua corrida, um tipo de chão que eu acho lindíssimo até hoje.

Comecei a estagiar num laboratório de Biologia Molecular de Plantas, no recém-inaugurado Bioagro. Meu primeiro projetinho era purificar uma proteína de uma bactéria que era resistente ao calor. O protocolo para purificação já existia, eu apenas fazia a parte mais ralação do procedimento - e principalmente, lavava vidraria. Lavei muito béquer e erlenmeyer nesse ano. Fiz muita solução para os estudantes de mestrado e doutorado. E fiz também meu primeiro PCR - para um biólogo molecular, "o primeiro PCR a gente não esquece.

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Numa das festas de Natal que fui nesse ano, uma professora de Bioquímica bebeu demais, e derrubou uma árvore de Natal enorme (uns 3 metros de altura, pelo menos) que estava no canto da sala. Voou bola de Natal quebrada pra tudo quanto é lado. E eu fotografei imediatamente a cena: mico alheio guardado para sempre. (Não sei por quê essa cena ficou gravada em minha memória de forma tão clara, mas ficou.)

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Fui ao meu primeiro congresso, de Virologia, no Hotel Glória, Rio de Janeiro. Na época, achei que seria interessante ir só para ver a dinâmica de um congresso - e foi uma experiência boa. Mas a virologia não me fez a cabeça, e deixei de lado.

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Aos 18 anos, passei meu Carnaval com a família inteira (pais, vós, tios, primas e afins) numa casa - 3 quartos, dormindo mais de 30 pessoas (!) na praia do Farol, Campos dos Goytacazes (RJ). Desculpa ao pessoal de Campos, mas eu detestei essa praia. A água do mar é marrom, por causa da foz do rio Paraíba do Sul nas proximidades. Uma enoooorme extensão de areia, cansativa, despersonalizada. Além do mais, o mar de lá é ultra-violento, não dá para nadar nem nada. É só aquela revolta desmedida, sem sentido. O Carnaval valeu mais pela bagunça familiar. Levei uma rede já pensando que não haveria espaço para dormir (e eu teria que apenas achar uma árvore decente onde amarraria a mesma). Para surpresa, quando cheguei na casa, a "vaga" da rede já estava ocupada. Sobrou o carro do meu pai - e foi lá que eu e ele dormimos por todo o Carnaval. No último dia, nossas colunas em miúdos, implorei por uma vaguinha num colchão, que não apareceu. Acho que nunca valorizei tanto uma cama quanto depois desse carnaval.

Farol de Campos
A praia de Farol, em Campos...

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Fiz minha primeira excursão de campo em Biologia. Disciplina de Zoologia de Vertebrados 1 (peixes, anfíbios e répteis), fomos para o Parque do Rio Doce, perto de Ipatinga (MG). O professor nos deu uma aula na beira de uma lagoa à noite, uma escuridão sem fim, e descobrimos logo que estávamos cercados de jacarés por todos os lados. Muitos, muitos. Só víamos os olhos brilhando quando apontávamos a lanterna para qualquer direção. Senti medo de verdade.

Nessa mesma viagem, nadei numa lagoa cheia de piranhas. Sem medo.

E também nessa viagem, tive a oportunidade de passar a mão nas costas de uma onça pintada adulta, que estava anestesiada. A textura do pêlo do animal é indescritível. Magnífico.

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Visitei uma fazenda de rosas em Jequeri (MG), dos pais da minha amiga Tereza. Além da beleza intrínseca das rosas, a alimentação foi um capítulo à parte: mataram um porco (foi a primeira vez que vi um porco sendo morto), e fizeram uma feijoada "fresquinha", do jeito que eu gosto. Prosa e mais prosa. Fora o café delicioso, e o pão de queijo... hmmm, me deu água na boca. Rituais nostálgicos de fazenda.

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Relendo essas linhas, fiquei com um pingo de saudade da pequena nerd que fui na flor dos 18 anos.

Tudo de bom sempre.

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