Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

terça-feira, dezembro 27, 2005

De Rondônia a Palau: feliz 2006!

Recebi hoje de manhã o presente da minha amiga secreta, direto de Rondônia, a Flávia. Por coincidência, ela é uma ex-viçosense como eu, e já conhecendo vários dos meus amigos de faculdade, pudemos na realidade estabelecer um laço muito legal de nostalgia e boas recordações. Os presentes que ela enviou foram perfeitos; aliás, mais-que-perfeitos. Primeiro, porque eles contribuem para uma causa ambiental, o que por si só já diz muito de uma pessoa - e a Flávia soube captar esse aspecto da minha personalidade de maneira afiada. Segundo, porque me enviou uma frasqueira laranja (uma cor que eu adoro!). Parece até que ela adivinhou que minha frasqueira "velha-de-guerra" (tem 20 anos de viagens a coitada!) está com mais furos que peneira, precisando de aposentadoria urgente. Já estou estreando o presente, que embarca comigo amanhã. Em terceiro, um ultra-hiper-original colar de sementes de açaí veio junto - e eu adoro colares rústicos! Em quarto lugar, porque, numa prova de carinho inesquecível, a Flávia me enviou um gibi do Chico Bento. Eu, que sou fã confessa do Maurício de Souza, tive vontade de chorar quando vi a revistinha. Voltei à infância, aos meus doces 7 anos de idade, embalados nas brincadeiras do Zé Lelé e da Rosinha.

Por último, quero deixar um muitíssimo obrigada para a minha amiga secreta Flávia, e dizer que você capturou exatamente o espírito da brincadeira da Denise: fazer laços agradáveis, independente de tempo ou distância, por esse ambiente virtual que compartilhamos via blogs. Pelas boas recordações que trouxe consigo (das cervejadas no Recanto das Cigarras às aventuras do Piteco) e pela causa ecológica especialíssima que colaborou ao escolher meu presente, eu só tenho a dizer que você foi MAGISTRAL. Obrigada do fundo do coração, amiga.

Presentes Amigo Secreto
Os presentes...

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Em outro amigo secreto, do blog da Maitê, o Marfil me tirou e escreveu um post sobre Fernando Meirelles em minha homenagem. Eu adorei, li avidamente e achei um brinco a história desse filme. Valeu, Marfil!

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... E está na hora de eu ir aprender Sonsorol. Se bem que, estando apenas nos arredores da capital Koror, devo mesmo é pescar só um pouco de Palauense. Ou não, já que o inglês domina cada ilhota do país.

Estarei na estrada (ou melhor dizendo, no mar) por poucos dias. Volto depois do Ano Novo. Aproveitem a virada da melhor forma possível - eu estarei aproveitando de uma forma diferente, novidade para mim. Relatos das prezepadas e micos a partir de 02/janeiro, nesse mesmo bat-blog.

Desejo um 2006 de muita paz, tranqüilidade e bom-senso a todos. Muitas caminhadas ao ar livre, muitas risadas gostosas, aventuras e saúde, principalmente. E muitas viagens em todos os sentidos, que assim os percalços da vida são amenizados e a caminhada fica mais divertida!

Tudo de bom sempre em 2006, de Rondônia a Palau, para todos os povos do mundo.

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sábado, dezembro 24, 2005

Foi Natal

Hoje já é dia 25/dezembro, a ceia de Natal já foi degustada e estou agora curtindo o dia seguinte, com muita preguiça.

O Natal por aqui foi branco. A neve está por todo o país, devido à tempestade intermitente da semana. Muito frio. O coreano em si não tem nenhuma tradição específica de Natal - aliás, nem é feriado aqui. Mas uma boa parte deles vai às igrejas cristãs, onde um festival de atividades litúrgico-sociais acontece. Perguntei à minha vizinha sobre "comidas típicas" do Natal coreano, e a resposta foi um insosso "não tem nada especial". É extremamente interessante que apenas o lado mercantilista do Natal tenha sido absorvido pela cultura asiática. Em todas as lojas há árvores de Natal, musiquinhas natalinas, etc. mas não há o "espírito de Natal". Sem dúvida, estranho.

E no meio dessa estranheza toda, os brasileiros se reuniram na semana passada para uma comemoração de Natal em Seul, organizada primorosamente (como sempre...) pela Associação Brasil-Coréia. Num restaurante estilo bufê, demos risadas e desejos de um feliz Ano Novo a esses companheiros de pátria também perdidos pelo mundo de Confúcio. Uma tribo curiosa.

Curiosa também é essa semana entre Natal e Ano Novo, quando as pessoas ficam nessa intensa expectativa, nada se resolve, e tudo se desmancha em festejos. Réveillon é um de meus feriados prediletos, principalmente por causa da tradição do vestuário branco, que causa emoção a qualquer um que veja. Aliás, uma menina havaiana que conheci havia passado um Ano Novo em Salvador, e disse que a coisa mais emocionante que presenciou foi o Ano Novo com todos de branco, um espetáculo simbolizando a paz. É realmente muito bonito.

Meu Réveillon perfeito sempre foi e sempre será numa praia. Já passei Ano Novo em Boston (2000-2001), vendo esculturas de gelo - e congelando a mão - , já passei no Pantanal (2003-2004), comendo a melhor costela da minha vida, mas nada se compara à festividade ouvindo o barulho das ondas, sentindo o cheiro da água salgada ao redor, com os sapatos (ou chinelas) sujos de areia. Nessa lista pelas praias, já passei festas memoráveis. A virada do milênio em Arraial d'Ajuda. A passagem de 2002-2003 em Waikiki. A loucura lotada de Copacabana (1996-1997). Os vários Réveillons simples e emocionantes na praia em que cresci, por vários anos não-consecutivos - um festejo que sempre acabava na casa de algum dos meus amigos de infância até o sol raiar. Essa virada também será na praia, o que já me dá uma ponta de certeza de que a festa não decepcionará.

Espero que todos que venham a ler essas linhas mal-traçadas tenham aproveitado o Natal, refletido sobre o ano de 2005 que está dando seus últimos suspiros, e que comece a se preparar para a bonança que virá junto com o novo ano. Prepare suas roupas brancas e seus pedidos a Iemanjá. E principalmente, prepare o coração para as novas emoções que o mundo com certeza trará.

Tudo de bom sempre nesse Natal (que já foi) e nesse 2006 que vem por aí, novinho em folha, para todos os que passam por aqui viajando comigo.

Um mundo a ser conquistado de presente para todos!
Reciclagem de Natal: o cartão foi originalmente feito no ano passado, para o álbum do blog da Denise, e estou reciclando-o para esse ano, com os mesmos votos de muitas viagens a todos em 2006! Temos um mundo a ser conquistado pela frente, esse é o maior presente de Papai Noel! Aproveitem!

P.S.: Feliz aniversário, DaniCast! Sua surrealidade é uma das delícias do mundo virtual!

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quarta-feira, dezembro 21, 2005

Malas da Malla

Se as malas falassem, o que diriam?

Malas, mochilas, bolsas e afins viajam com você para todos os cantos do planeta, e se pudessem falar, provavelmente contariam histórias engraçadas sobre diferentes linhas aéreas, porta-malas de carros e viajantes "mala". Eu tento cuidar bem das minhas companheiras de viagem, pois confio a elas uma parte da responsabilidade de sucesso numa jornada turística. Se as malas não quebram ou desaparecem, sinto-me tranquila para encarar os desafios do caminho.

Muitas histórias. Já tive mala que saiu de Honolulu com destino a Vitória (ES) e que foi parar em Singapura. Já presenciei uma mala ser aberta e seu dono (meu tio) ficar estupefato ao ver que haviam trocado a sua de roupas por outra que só tinha livros e enciclopédias dentro - numa viagem de férias a Aracaju, isso custou aos meus tios o uso de roupas de parentes por 30 dias. Já vi uma mulher desconhecida pegando por engano a minha mala na esteira do Galeão e saindo na boa - se não fosse eu gritando igual uma louca que aquela mala era minha, teria perdido a danada. Já vi minha mala sendo a primeira e a última a sair na esteira. Já tive que comprar mochila de última hora numa cidade desconhecida porque minhas "comprinhas" super-lotaram a mala primária. Já viajei com um gato como "bagagem", que foi despachado e chegou na esteira, zonzo de ficar rodando. Já perdi as contas de quantas vezes tive que abrir mala, mochila ou bolsa para alfândega - e nunca me esquecerei de que perdi minha preciosa garrafa de vinho tinto de Macau para um policial do Mao da alfândega em Beijing. E o pior de tudo: já ganhei uma mala acreana sem alça verde-abacate de um professor da faculdade, num amigo secreto de presentes de sacanagem. Posso dizer que tenho em casa a legítima mala-sem-alça-sem-rodinhas-de-zíper-quebrado. Verdadeira viagem de Malla com malas.

Tive uma mala bege, tamanho "médio a grande", da Primicia (uma marca que sempre associei à adorada Turma da Mônica), que durou 6 duros anos, mas não suportou a vida de viajante pós-11 de setembro, e sucumbiu aos percalços da imigração americana no verão de 2003. Estava um desconsolo já: as rodinhas travavam a qualquer movimento, o zíper quebrado na parte da frente, o forro totalmente amassado, quase a ponto de precisar ser amarrada com uma corda para fechar. Era hora de aposentá-la, e em 2003, saí à procura de uma nova companheira de viagem.

Estava no Brasil no Natal de 2003, e uma das missões a que me incumbi foi comprar uma mala decente para mim que juntasse os três "B"s fundamentais: boa, bonita e barata. Queria uma mala grande, que coubesse bastante coisa, que comportasse 32 kg de bagagem sem problemas, e principalmente, que fosse fácil de carregar. Geralmente não viajo com 32 kg de bagagem, sou muito compacta ao preparar uma mala, mas como esse é o limite das companhias aéreas, é esse valor máximo que uso como parâmetro. Depois de rodar por várias lojas no Espírito Santo, consegui achar uma que se adequasse aos meus sonhos, e comprei: cinza, grande e de largas rodinhas.

Malas são objetos inexplicavelmente caros. Não acho que custe muito dinheiro para produzir uma mala numa fábrica chinesa da vida, mas posso estar errada. Afinal, nunca conversei com um fabricante de malas nem sei as dificuldades do mercado malístico. Enfim, ao encontrar essa mala cinza, estava disposta a pagar um valor X não muito alto, e a cinza, barata, foi algo como "amor ao primeiro orçamento". Paguei.

Essa mala cinza me acompanhou em quase todas as aventuras de maior duração que fiz nesses 2 anos (menos para a Nova Zelândia, quando levei minha excelente mochila alemã "pau-pra-toda-obra" de 50 L, adquirida em 1997 por míseros 10 dólares). Na última viagem de volta das Filipinas, a mala cinza chegou em Seul com o puxador arrebentado e o forro amassado (o zíper já estava quebrado de uma viagem anterior). E eu nunca tenho tempo suficiente para reivindicações com a polícia imigratória; então deixei pra lá, e fui para casa. Mas a mala ficou inutilizável, e hoje, saí para comprar outra.

Escolher mala é difícil. As grandes são desajeitadas, mas cabem tudo que você quer. As pequenas... bem, fica aquela dúvida cruel de que elas serão insuficientes para viagens mais longas. (Eu geralmente começo a viajar na maionese na loja delirando coisas tipo "e se aparecer uma viagem pra Antárctica de última hora?") Tem as malas de tecido impermeável, que são mais flexíveis, cheias de compartimentos, mas também podem amassar e rasgar. Tem as duronas, de metal ou fibra, que não aumentam um centímetro de tamanho mas pelo menos não estragam tão facilmente. Nunca tive uma dessas malas duronas, então não sei bem as vantagens e desvantagens desse sistema. Depois, tem a decisão do tipo de zíper - que eu nunca consigo sacar qual é o melhor. E por fim, a decisão mais supérflua e mais importante: a cor. Vi uma amarela que me fascinou, mas era minúscula, para bagagem de mão, e eu precisava comprar uma grande, e óbvio que não tinha dinheiro para as duas. Devolvi a mala amarela para a prateleira com dor no coração.

Após muita divagação na loja, arrebatei uma mala preta, de tecido, cheia de bolsos e compartimentos. Rodinhas supimpa. Tem um lugarzinho especial até para um cabide! Agora é começar o exercício de colocar coisas dentro dela e principalmente, ver se parte dos equipamentos de mergulho podem ser compactados dentro. Viajar com equipamentos de mergulho é complicado, porque na volta, muitas coisas ainda estão meio úmidas, e meu sonho de consumo um dia é ter uma daquelas malas perfeitas que cabem todos os apetrechos molhados mais as minhas roupas secas, sapatos, cremes e bobajadas, sem mistura de cheiros, e por um preço razoável. Será que existe?

Tudo de bom sempre.

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segunda-feira, dezembro 19, 2005

Malla versão 3.1

Hora de fazer o upgrade do software, de novo. Mal me acostumei com a versão 3.0, e já está na hora de encarar a nova versão 3.1. Um ano passa rápido.

Um ano cheio de histórias, viagens e divagações. Um ano de palavras, risadas e silêncio. Um ano em que algumas células morreram, outras nasceram, nesse vai-e-vem de reciclagem metabólica que é a vida. Um ano para ser sempre lembrado, como aliás todos os demais anos o são. Envelhecer é isso aí: um acúmulo de experiências positivas e negativas que trarão (espera-se...) melhor discernimento do indivíduo. Se é verdade ou não, não sei, mas vou levando a vida desse jeito, absorvendo tudo ao meu redor, a cada ano que passa.

Muito biologicamente, feliz aniversário para mim - e para Richard Leakey. ;-)

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Tenho uma eterna lista de presentes que os amigos queridos podem conferir. É claro, cada um dá o que pode, e ninguém é obrigado a nada, mas eis aqui, aos interessados, a minha "listinha":

- Viaje sempre que puder. Não deixe que restrições orçamentárias, comodismo ou desânimo se tornem empecilhos para uma boa viagem. Mesmo no bairro do lado, há sempres coisas novas a serem descobertas, fatos acontecendo, vida passando. Viajar é viver.

- Não perca sua capacidade de "maravilhamento". Existem coisas fantásticas no mundo, e a capacidade humana de encantar-se com as mesmas é única no reino animal. Aproveite essa possibilidade que a evolução te deu, e haja positivamente. Mantenha o brilho nos olhos ao falar das coisas de que gosta; as pessoas sentem, sabem que vem do coração. Elogios, incentivos e bom senso fazem parte desse pacote também.

- Faça algo pelo ambiente hoje: tente minimizar o consumo de qualquer animal que não é criado especificamente para abate ou animais cuja existência está ameaçada (tubarões são os primeiros de uma longa lista); ou não ande de carro hoje (use o transporte público ou seus pés), para evitar geração de monóxido de carbono.

- Regue sua plantinha da sala, pois ela também é um ser vivo que precisa de água para viver, embora não fale nem emita opiniões. Ela também merece ser feliz.

- Jogue o lixo no lixo - e se possível, recicle o que puder.

- Leia um livro bom, que te abra a cabeça e faça você pensar melhor sobre nosso futuro, nossa vida e nossa existência. Ou ouça o disco ao vivo do Yamandú Costa com Thiago do Espírito Santo no baixo e Edu Ribeiro na batera. E lembre-se de abrir o coração para músicas "da alma". Se ao final do cd, você der um sorriso (ou chorar de felicidade, para os mais emotivos como eu), já me presenteou.

- Se possível, colabore com uma entidade qualquer de defesa de direitos humanos, de defesa do ambiente ou que lute por causas sociais interessantes à humanidade (esse presente é difícil, eu sei). Se não puder ajudar, pelo menos não atrapalhe.

- Encare desafios. Eles norteam e dão emoção à vida. Mesmo que o desafio pareça patético. Encher um copo d'água e bebê-lo sem ajuda de ninguém já é um bom desafio do dia-a-dia. E se você acha que sua vida está muito "chata" e sem sentido, visite um hospital e veja quantas pessoas lutam para ter de volta esses pequenos desafios pessoais. Sinta-se desafiado 24h por dia: a vida fica muito mais valorosa e empolgante dessa forma.

- Pare de reclamar. Faça algo pelo seu problema, sem achar que seu problema é maior que o do outro. Catalise seus esforços para atitudes que levarão pra frente, não para trás. Mandar uma mensagem positiva para as pessoas nos faz bem, e no final ajuda a ultrapassar os problemas. Se você cumprimentar seu vizinho de maneira cordial, já me presenteou por hoje.

- Faça uma piadinha - mesmo sem graça - para alguém. Rir é o melhor remédio para qualquer hora.

- Sorria. E dê risadas de si mesmo. Todos nós erramos, mas é a forma como encaramos esses nossos erros e deslizes que faz a diferença. Um sorriso no rosto abre portas e mundos para viagens deliciosas.

Mas se isso tudo estiver fora do seu alcance... um beijo e um abraço já são excelente alternativa.

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O presente que vou me dar mesmo vem na semana que vem, e eu não vejo a hora dele chegar. Paciência, Lucia Malla... Mais um sonho em breve se realizará, e isso é gratificante. Enquanto o presente não chega, vou lá comer meu pedaço de bolo. A festa já vai começar.

Tudo de bom sempre para mim, Lucia Malla, em mais um ano de vida que se inicia.

Lucia Malla - 1 ano

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domingo, dezembro 18, 2005

Viagem de véspera

O que Lucia Malla e Richard Leakey (o grande paleontólogo/arqueólogo) têm em comum?

Resposta amanhã.

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sábado, dezembro 17, 2005

Coréia em choque

Desde ontem, a Coréia do Sul está em estado de choque, boquiaberta, decepcionada.

Quando anteontem à noite, li em primeira mão a notícia pelo OhMyNews de que o aclamado e adorado (pelos coreanos, entenda-se) prof. Hwang havia confessado sua farsa das células-tronco, eu também fiquei atônita. Verdadeira bomba.

Logo a notícia já tinha cruzado o mundo e reportagens começaram a pipocar mais e mais, e o que parecia até então inacreditável, foi tomando ares de realidade: Hwang confessou inacurácias em sua pesquisa com clonagem de linhagens celulares para uso terapêutico.

Antes de mais nada, é necessário clarear o impacto que o desenvolvimento de células-tronco trazem à ciência em geral. Essas células, pluripotentes (ou seja, capazes de se desenvolverem em qualquer outro tipo celular do organismo), são potencialmente detentoras da capacidade única de reconstrução de órgãos e da substituição de um tecido doente por outro saudável. Significando basicamente a cura para por exemplo, doenças auto-imunes e diabetes, entre outras. Dominar a tecnologia de células-tronco é algo como o santo graal da ciência biomédica atual. Laboratórios do mundo inteiro tentam clonar uma linhagem sequer - e quando o grupo de Hwang, em seu primeiro artigo na Science, mostrou que havia realizado esse sonho, o mundo parou para assistir e discutir a perspicácia coreana. E Hwang fez mais: um ano depois, apresentou o primeiro cão clonado ("Snuppy") e, o mais surpreendente de todos, um artigo onde afirmava ter desenvolvido 11 linhagens celulares diferentes feitas a partir de células da pele de pessoas adultas, pacientes com enfermidades diversas, cujos núcleos foram inseridos em óvulos doados. Com essa tecnologia, tornava-se realidade um sonho: as pessoas poderiam num futuro muito próximo ter suas células-tronco feitas sob medida, abrindo espaço para uma nova estratégia terapêutica sem precedentes até então. Nessa dimensão, toda a ciência aplaudiu o feito, merecidamente.

E aí vem a história que estamos presenciando se desenrolar.

Tudo começou aqui na Coréia quando, durante uma entrevista, um dos colaboradores, Dr. Roh, afirmou que Dr. Hwang havia criado os dados sobre as células-tronco e que elas não existiam. Há menos de um mês, a história do laboratório de Hwang já estava sob suspeita quando descobriu-se que uma de suas estudantes havia doado óvulos para a obtenção da primeira linhagem de células-tronco, tema do primeiro artigo da Science de 2004. A infração bioética começou a gerar suspeitas de conduta por parte da equipe, mas como legislação sobre células-tronco ainda é um campo cheio de incertezas, o deslize ético foi encarado apenas como... deslize. Prof. Hwang, aparentando arrependido, pediu afastamento de todas as obrigações no que seria o Centro Internacional de Células-tronco a ser construído na Coréia. E os coreanos não só entenderam o deslize, como aumentaram ainda mais o apoio ao pesquisador - ao ponto de formarem um fã-clube chamado "I love Hwang Woo-suk". Assisti a esse depoimento quando fui a Seul em meados de novembro para uma consulta periódica, e no hospital em que me encontrava, todos os televisores estavam ligados na mesma entrevista, todos os olhos grudados. Parecia final de Copa do Mundo no Brasil, aquele silêncio só quebrado pela TV. As pessoas sentadas na sala de espera do consultório pareciam muito tristes. But life goes on, e, com o afastamento, aparentemente um clima de "ele tomou a atitude certa" foi predominando.

Mas o "deslize" repetiu-se: pouco tempo depois, Dr. Schatten, colaborador americano, pediu para retirar seu nome do segundo artigo da Science, de 2005, onde o grupo de Hwang clamava ter feito 11 linhagens celulares. Uma descoberta que trazia na cola a esperança de tratamento para várias patologias complexas, como Alzheimer, diabetes, Parkinson. O motivo do pedido do Dr. Schatten: uma das figuras do artigo, onde supostamente estavam fotografadas as 11 linhagens, continha erros, e apenas 2 células estavam fotografadas, em posições diferentes.

A Science, revista de reputação elevada, não aceitou o pedido do Dr. Schatten, alegando que ele deveria ter pensado e revisado melhor o próprio artigo. Para quem não sabe, nos artigos científicos indexados, é de praxe que o primeiro autor do artigo seja a pessoa que realizou o projeto (o trabalho braçal) e o último autor em geral é o chefe do laboratório ou o idealizador intelectual do mesmo. Dr. Schatten é o último autor e Hwang o primeiro, portanto, a responsabilidade maior intelectual tecnicamente é de Schatten - embora a lógica me diga que Hwang não era o trabalhador braçal, e sim seus estudantes. Tudo isso rendeu uma discussão acalorada na sociedade coreana sobre os limites da imprensa, pois a rede de televisão responsável pelos furos de toda essa história começou a ser acusada de perseguição a - até então - um ídolo nacional.

Foi então que começaram rumores anônimos (postados num fórum de discussão de biologia em coreano) sobre a inexistência completa das linhagens. Aparentemente, estava sendo postada por um (ex-?)estudante de Hwang, ou alguém que tinha acesso ao laboratório, pois a informação tinha detalhes precisos. A Universidade Nacional de Seul, onde fica o laboratório de Hwang, começou então um processo administrativo para investigar o caso. E anteontem, essa história teve o twist mais depressivo que poderia ter: o segundo autor do artigo de 2005 confessando a inexistência de 9 das 11 linhagens celulares. Já não era mais deslize: era falsificação descarada.

Como cientista e moradora temporária da Coréia do Sul, estou acompanhando esse caso de (muito) perto, por todos os lados, conversando com as pessoas que trabalham comigo, amigos, vendo noticiários de TV e lendo muitos jornais. E tenho algumas considerações a colocar. De forma alguma, Hwang está certo. Ele errou, e feio, ao inventar dados. A ciência, essa quase-instituição da sociedade humana, não pode sustentar uma mentira. A política sustenta, o futebol sustenta mentiras, mas a ciência não sustenta, é de sua natureza intrínseca discutir atrás de bom-senso, lógica: o racionalismo inquisitivo. Espera-se que a idoneidade e reputação manchadas para um cientista signifiquem praticamente o fim de sua carreira. Como Hwang falsificou dados, é óbvio que será punido, de alguma forma - não sei qual, mas será.

Entretanto, há aspectos interessantes nessa história toda. Antes de mais nada, a forma como a Nature (revista concorrente da Science) entrou de corpo e alma na difamação do cientista Hwang. Desde muito antes desse escândalo todo surgir, a Nature vem dando o benefício da dúvida, insinuando que algo não cheirava bem. Eles estavam certos, mas a atitude exacerbada, para mim, revela que há muito mais inveja entre 2 jornais de divulgação científica que sonha nossa vã filosofia.

O segundo aspecto é o choque entre os coreanos. Peculiarmente, é bem fácil para mim, como estrangeira, perceber que a Coréia tem um sentimento nacionalista exacerbado. Talvez advindo de seu passado, onde foi constantemente conquistada e oprimida pelos vizinhos chineses, japoneses, entre outros. Talvez pela sensação de mais fraca que essa opressão trouxe - e a competição atual econômica e tecnológica que provavelmente é derivada disso tudo. Tenho a impressão de que o coreano está sempre querendo mostrar o melhor possível não para ele mesmo, mas para os vizinhos asiáticos, principalmente os japoneses. Freud deve explicar esse complexo de inferioridade no inconsciente coletivo. E, com uma sociedade sedenta por heróis nacionais, o desenvolvimento de uma tecnologia única no mundo, que poderia "salvar a humanidade" e colocar a Coréia numa posição de liderança intelectual do mundo, foi abraçada com todas as forças por essa mesma sociedade. As maiores empresas coreanas passaram a financiar o laboratório (e as idéias) de Hwang - ao ponto do mercado de ações cair vertiginosamente ontem, depois da confissão da farsa. O governo coreano entregou toda esperança nessa possível liderança nas mãos de Hwang. Para hoje, depois da descoberta da fraude, todos estarrecidos e incrédulos, se perguntarem: o que eles fizeram de errado?

O OhMynews trouxe a seguinte "resposta" a essa questão:

"The reason given by sources published in the media here, for Hwang's faking of data in the Science article, was that he felt pressurized by the science community to get results, since his team had used several hundred donated ova for the research."

Eu acrescentaria à pressão interna da comunidade científica, a pressão política, econômica e principalmente, social. Assisti a uma palestra de Hwang no Congresso Coreano de Biologia Molecular em Seul no ano passado, quando sua reputação ainda era a de semi-deus. Sala entupida de gente, todos fotografando. A palestra em si? Okzinha, ele nada explicou do seu trabalho e ficou boa parte dos 50 minutos que tinha mostrando slides "engraçadinhos", que descontaíam muito mais que informavam. Mas nutrindo a cada frase "engraçadinha" que proferia o sonho coreano da superioridade tecnológica, do domínio intelectual de técnica tão áurea.

Além de tudo, a pressão pessoal. Uma vez bem-sucedido, com reputação nas alturas, o poder pessoal de Hwang alcançou níveis estratosféricos. Imagino o quanto isso o ludibriou os olhos, e em dado momento, deve ter sido o responsável por seu delsize pessoal. Esse comportamento acontece na maior parte das pessoas - basta lembrar a amarelada de Ronaldo na final da Copa de 1998 para termos uma idéia clara do quanto uma situação de extremo poder acarreta peso pessoal. Hwang era o Ronaldo dos coreanos, num campo que a Coréia pretende ser elite, a ciência. Mas seu primeiro artigo ainda é um marco, e sobre ele aparentemente não pousam dúvidas. Assim como os gols de Ronaldo no Barcelona que não podem ser esquecidos, a falha pessoal de Hwang no seu último artigo não pode desmerecer tudo que veio de seu laboratório até então - mesmo porque é muito mais plausível que a natureza humana seja iludida pela fama e poder do que pelo desconhecimento. Muito menos desmerecer o que muitos coreanos acham que virá pela frente: toda a ciência coreana sendo vista como uma fraude, o que é claro, não é.

Na semana do aniversário da morte de John Lennon, é irônico perceber na Coréia o quão contemporâneo ele ainda é: o sonho acabou. Anteontem, de forma nada glamourosa. Mas... desencanar de células-tronco? Acho que não é por aí. Uma tecnologia que merece e muito ser buscada, porque ela retém a esperança de muitos benefícios. O fracasso pessoal de Hwang não pode, não deve ofuscar o seu campo de pesquisa, em que milhares de outros biólogos, químicos e médicos dedicam suas vidas. Agora, para todos, é acordar para a realidade, trabalhar mais e recuperar o tempo que foi gasto dormindo.

Tudo de bom sempre.

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*Viagens clonadas:

- Na Scientific American e no blog da revista, estão os textos mais contundentes que encontrei sobre o assunto. Foram os textos que mais me fizeram refletir sobre toda essa panacéia.

- Esbarrei nessa reportagem sobre o assunto (copy-paste) do site Terra. O último parágrafo é simplesmente hilário.

- A Science liberou todos os artigos e reportagens sobre o assunto para todos os leitores (comumente, seriam apenas para assinantes). Inclusive, um editorial com o posicionamento da revista. Uma boa iniciativa, visto que a reputação da revista e seus revisores, de certa forma, está na berlinda - embora saibamos que revisores trabalham assumindo que o artigo não é mentiroso.

- Uma triste charge coreana sobre o tema...


UDPATE: O incansável e incrível Pharyngula já expôs sua opinião, com um link pra um excelente artigo de bioética.

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quarta-feira, dezembro 14, 2005

Pequenas anotações de viagens virtuais 9

1) Uma notícia para ser pensada e refletida: nessa semana, de acordo com uma nota da ONU, uma comunidade da ilha de Tegua, em Vanuatu (Melanésia) foi a primeira a efetivamente ter que ser relocada por causa... da elevação do nível do mar. Os habitantes não podiam mais ficar em suas casas porque o mar invadiu a região costeira onde as mesmas estavam. 2 ilhas desabitadas do atol de Kiribati, no Pacífico, já haviam submergido em 1999, mas essa é a primeira vez que uma população precisa sair de seu local de origem. É o aquecimento global passando de hipótese num futuro distante para realidade preocupante da nossa era atual.

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2) Falando em oceano, vocês lembram do que escrevi aqui sobre biodiversidade marinha mundial? Pois é, a Scientific American recentemente publicou uma reportagem sobre o mesmo tema, só que agora com ênfase na biodiversidade brasileira. Pelo que está escrito lá, somos mais biodiversos em nossa lasca de oceano do que se imaginava antes - mas vale ressaltar, ainda não se compara à biodiversidade filipina.

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3) O blog do Greenpeace está fazendo uma boa narrativa dos acontecimentos na reunião da Organização Mundial do Comércio, em Hong Kong. Muitos protestos, palestras e discussões. Mas o post mais divertido sobre esse evento veio do Sérgio Leo, correspondente do Valor Econômico Online, sobre suas experiências com a culinária asiática.

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4) Está na moda ser pesquisador forense. Pelo menos, nos EUA, em decorrência do sucesso da série "CSI" - que eu particularmente adoro. A série fez aumentar o número de cursos de Ciência Forênsica nas faculdades do país inteiro, ao apresentar aos jovens um lado da prática científica bem empolgante, o da investigação de crimes; mas muito mais que só isso, "CSI" faz o espectador refletir sobre a necessidade de olharmos os fatos, de forma isolada, racionalmente. As evidências falam por si só, e os achismos não levam a nada durante o processo investigativo. O dado é o dado, e ele é mais forte que todo o resto. Apesar dos exageros - ninguém consegue fazer uma espectrometria de massa naquela velocidade... - considero o programa louvável como seriado. Longa vida a Grissom, Horatio, Mac e suas trupes de jaleco branco e distintivos.

(Minha amiga Leila já está cansada da série, o que é altamente compreensível. Eu só comecei a assistir "CSI" recentemente, e talvez daqui a alguns meses, quem sabe, eu me junte ao enorme time dos saturados... Por enquanto, estou em lua-de-mel com a TV. Vamos ver até quando.)

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5) Um projeto divertido: método Macgyver de extração de DNA. Será que é assim que eles fazem para ensinar os atores do CSI? Brincadeiras à parte, a idéia é excelente para crianças de séries avançadas - vislumbro que caia como uma luva para a 8a série. Se algum professor de plantão quiser testar e me contar, ficarei imensamente grata por satisfazer minha curiosidade.

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6) Duas vezes por mês, a blogosfera em inglês de ciência se aglomera em torno do Tangled Bank, uma iniciativa fantástica de blogagem coletiva científica. Eu adoro o Tangled Bank, que me traz entretenimento de alto nível. A cada round, um blog se propõe a ser o vice-organizador - sim, porque o organizador-mor é o incrível PZ Meyers. A experiência só tem melhorado desde que comecei a ler, com cada vez mais blogs participando. Simplesmente delicioso. Nessa 43a edição, há dois posts que me chamaram a atenção: um sobre menstruação e outro que mostra até onde vai o narcisismo cômico de um cientista.

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7) Já houve a dieta de Atkins e a dieta de South Beach - e quantas outras incontáveis. Mas, após uma ida ao barbeiro, Widson Reis resolveu criar a dieta termodinâmica. Hilário e divertido. E não, isso não é uma mensagem subliminar: é direta mesmo.

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8) Depois que o Marmota publicou esse post, não consigo mais parar de fazer elocubrações sobre a Copa de 2006. Aliás, já entrei em clima de Copa, e quero mais que ela comece amanhã. Hexacampeão!!

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9) Foi o Biajoni quem lançou a campanha e fica aqui a lembrança: os calendários do Hospital Boldrini estão à venda aí no Brasil. Ao comprá-los para dar de presente de Natal, as pessoas estarão contribuindo para um hospital que é referência mundial no tratamento de câncer pediátrico. Minha grande amiga Valéria é médica desses baixinhos, e conta sempre o quão difícil está a situação monetária da instituição. Quem puder (e quiser) contribuir, é uma boa escolha. As crianças, com certeza, agradecem.

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10) E há um projeto em andamento, a reconstrução da cidade submersa de Atlantis, sendo realizado nesse momento nas ilhas Cayman. Um investimento turístico pra lá de maluco. Já estou viajando na maionese num post futuro: "Malla perdida em Atlantis". Só falta o financiamento, porque o sonho já se instalou na caixola.

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11) Descobri sem querer o blog de uma amiga do Rio, que nem sabe ainda que a leio. Ela é pesquisadora perspicaz, mas vamos ver quanto tempo levará para descobrir que eu a encontrei na internet.

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Tudo de bom sempre para os que vivem sem rótulos, nessa geléia geral da vida globalizada.

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domingo, dezembro 11, 2005

Passaporte novo pelo mundo

Semana passada fui à embaixada brasileira em Seul, renovar meu passaporte. Pela primeira vez em solo estrangeiro, entrei nesse pedaço de território brasileiro fora dos limites do país. A visita merece um pequeno comentário.

Passaporte é o documento mais fundamental de um viajante. Sem ele, você simplesmente não passa por nenhuma alfândega. Desde meu primeiro passaporte - tirado para uma prometida viagem a Disney que nunca veio - o documento me fascina. Acho que é o fato dele não ter o mesmo tamanho de um cartão de crédito, e ter que ser carregado de forma "diferente" de todos os outros. Mas acho também que é principalmente o sonho acoplado a ele, o que o passaporte motiva, a aventura das viagens por fronteiras novas. E eu sempre prezei meu passaporte como a um filho. Afinal, ele me representa oficialmente.

Sempre renovei meu passaporte na cidade em que morei por mais de 17 anos de vida, no ES. Aproveitava uma ida ao Brasil de férias e arrumava um tempinho para pegar meu documento novo. Ele vale por 5 anos, então nada complicado fazer isso. Mas precisava fazê-lo agora, nesse momento, então tive que renovar em Seul mesmo.

A embaixada brasileira em Seul tem uma das vistas mais privilegiadas da cidade, no bairro das embaixadas, com visão panorâmica do palácio Gyeongbokgung e do Museu Nacional de História Coreana, 2 palácios lindíssimos encrustados no centro da cidade. Não tem um website, fato um pouco estranho em terras coreanas. Poucas pessoas trabalham no escritório, vi apenas 3, entre elas a cônsul, uma mulher simpática com seus 30 e poucos anos e jeito carioca de ser. Mas um fato me incomodou um pouco.

Vista da janela da embaixada
Vista da janela da embaixada brasileira em Seul.

Aqui na Coréia, toda e qualquer transação é feita eletronicamente. O país é ligado na Internet para tudo, os sistemas de segurança são incríveis - os bancos têm uma forma de evitar fraude eletrônica super-eficiente e simples, através de múltiplas senhas para uma transação, onde só a pessoa detentora do cartão sabe quais são as mesmas. E, melhor de tudo, essas múltiplas senhas não precisam ser decoradas, estão num cartão simples. As pessoas mal andam com dinheiro na carteira: até a tarifa do metrô é descontada direto do celular ou de um cartão de crédito qualquer. Há tempos para pagar contas eu não sei o que é ir a um banco - tudo sai do virtual para o virtual.

Aí eu me deparo na embaixada brasileira com a prática mais retrógrada de uma nação burocratizada: o boleto bancário. Eu nem sabia que era possível ter boleto aqui na Coréia, pra ser sincera. E há tanto tempo afastada desse cotidiano tão tupiniquim, tive vontade de dar risadas ao ver a moça escrevendo num papelzinho informações totalmente desnecessárias. Tenho a sensação de que o boleto bancário baseia-se na premissa de que o serviço precisa ser vigiado, e precisa de uma confirmação do trajeto do dinheiro dele para esse serviço. É um reflexo da inacessibilidade digital de um país. Que é exatamente o oposto do que acontece aqui: somos todos cidadãos reais e virtuais. Quando entrei no banco para pagar a taxa do passaporte, a atendente me olhou com uma cara misto de "papel?" com "de que planeta essa menina veio?". Talvez ela até tenha achado vintage a idéia do boleto, quem sabe. Cobrou, paguei e voltei à embaixada para levar o comprovante de que havia efetivado a tal transação bancária.

Ao mostrar o boleto, a cônsul me disse então que em uma semana o passaporte estaria pronto. Fiquei mais uma vez perturbada. "Uma semana? Para quê tanto tempo para fazer um documento simples? Somos menos de 300 brasileiros no país inteiro, quantos destes renovam passaporte por mês?", foi o que veio na minha cabeça, mas nada falei com ela, que era tão simpática. Perguntei de leve o que ela faria com os documentos: uma cópia vai pro Ministério das Relações Exteriores no Brasil, uma fica na embaixada e outra... assumi que seria a minha cópia. Em dado momento, ela disse que precisava mandar por correio convencional (ou mala diplomática, talvez) o formulário para o Brasil, ou seja literalmente a documentação. Que gasto de papel. Numa sociedade digitalizada, formulários são preenchidos em documentos pela rede (tipo pdf), e os estoques dos mesmos são armazenados em discos rígidos no servidor. Fico imaginando se toda embaixada tiver que ficar enviando cartinha para eles mesmos para cada passaporte que expedido. Haja árvore. Espero imensamente que com o novo passaporte brasileiro que vem por aí a partir do ano que vem essa burocracia melhore.

(Parênteses: Sei que se você perde um passaporte nos EUA, por exemplo, e precisa de um novo, você entra num website do governo, preenche o formulário em pdf, manda por email, transfere o dinheiro para a conta bancária do governo, e o passaporte chega na sua casa pelo correio, sem problemas. Você não sai de casa para nenhuma dessas atividades. Todas as informações dos cidadãos e estrangeiros no país estão digitalizadas nos arquivos do governo,o que gera a situação sensacional e perturbadora que aconteceu com minha prima: quando ela foi pedir visto americano há dois anos e disse que iria aos EUA para me visitar, a mulher mostrou minha foto e todo meu arquivo para ela, para confirmar se era eu mesma, sem eu nem tomar conhecimento. Eles realmente sabem tudo de nossas vidas... Enfim, com tanto problema para ser resolvido pelo mundo, a última coisa que os funcionários de qualquer repartição séria querem é perder tempo com formulários, boletos e afins. Fim do parênteses.)

É engraçado tudo isso, porque eu convivi com essa realidade de boletos, carnês e cia. ltda. por toda minha vida no Brasil. Mas eu acredito que costumes ruins a gente logo se desacostuma e prefere esquecer, deve ser algum mecanismo cerebral de adaptação ao mais simples e eficiente. A vida precisa ser agilizada, não complicada. O processo burocrático embutido na simples emissão de um passaporte para um brasileiro reflete essa complicação, que, em minha opinião, só atravanca a máquina logística do governo.

Mas entendo o lado das autoridades brasileiras. Antes de mais nada, para digitalizar-se, o Brasil precisa mudar. Precisa que seus cidadãos tenham acesso fácil e bem disseminado à Internet. Precisa modernizar a máquina estatal. Precisa garantir acesso a educação digital a todos. Num país onde muitos ainda não têm o que comer, isso soa hipotético, quiçá ilusório. Mas basta eu me lembrar que moro na Coréia, um lugar que a 30 anos atrás era um país pobre, onde muitos também morriam de fome, e que hoje, essa mesma sociedade se transformou e se digitalizou por completo, para renovar minhas esperanças de que um dia quem sabe o Brasil também será mais eficiente. Basta profunda e efetivamente querer - e começar ontem.

Tudo de bom sempre.

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*Duas viagens coreanas fora de contexto que preciso comentar:

- Acompanhei torcendo o sorteio dos grupos para a Copa do Mundo de 2006 pela TV. Brasil e Japão vai ser um jogo interessante, veremos o que o Zico anda aprontando pelas terras nipônicas. Durante a transmissão do sorteio aqui, ao ver que o Japão estaria no grupo do Brasil, os coreanos foram à loucura e comemoraram bastante. Afinal, o Brasil mete medo, e para um país que tem rixas e mais rixas históricas com o Japão, saber que eles vão encarar um gigante eliminatório é motivo de festa. Dá-lhe Daehanminguk! (Coréia do Sul, em coreano.) E Brasil hexa, que ninguém é de ferro.

- Toda essa confusão em torno do pesquisador coreano das células-tronco e as rasteiras éticas que vêm se falando pela mídia mundial estão tendo um impacto negativo no país. É simplesmente inacreditável o estado de "feeding frenzy" em que alguns jornalistas entraram - a Nature, inclusive. (Claro, afinal o artigo tão comentado foi publicado por sua rival americana, a Science.) O pesquisador errou, não há dúvidas disso, mas a tempestade em copo d'água que saiu de toda essa experiência é simplesmente inacreditável. Comprometer a ciência como um todo não é nunca uma boa alternativa para um futuro melhor. Acho que o caso mostra bem que não é nada vantajoso estar contra uma rede de televisão. O Brasil, com seus fartos exemplos de influência global, que o diga.

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terça-feira, dezembro 06, 2005

Que frio!

Tem feito bastante frio por aqui. Parece que o inverno chegou com força, sem mais se confundir com o outono que, insistente, ainda pede para ser lembrado nas últimas folhas vermelhas das árvores. De acordo com minha chefe, esse será o inverno mais frio de todos os tempos na Coréia - previsões do serviço meteorológico coreano. Prefiro nem pensar no que vem pela frente.

Não gosto de frio. Acho a neve lindíssima, aquele tapete branco fofo homogêneo, mas o que acompanha a neve é que me desagrada: frio, lama de sal na rua para estragar os sapatos, ruas escorregadias como pistas de patinação no gelo - perigo sério pros mais idosos -, dias curtos, desânimo. Como sinto mais frio que a maioria dos mortais (ou pelo menos sou menos resistente a esse gelo), caminhar na rua é uma atividade que passa a requerer adereços típicos de quem vai passar férias num acampamento-base no Himalaia: luvas grossas, calça dupla, sapato térmico, coleira e chapéu de fleece, cobertor de orelha também de fleece - eu daria sem pensar duas vezes o Nobel da Paz para quem inventou o fleece, esse material leve e maravilhoso que suaviza o sofrimento dos hipotérmicos! Muitas camadas de roupa. Um visual colorido de pingüim urbano.

Mas, vinda de uma região tropical - na cidade onde cresci, inverno rigoroso era quando o "vento sul" batia e trazia escandalosos 15 graus positivos pro termômetro -, ainda me admiro com a vida no inverno das regiões temperadas ou túndricas (acabei de inventar essa palavra, caso não exista). Ou com as adaptações que as pessoas fazem para sobreviver ao frio. Admiração misturada com curiosidade.

Aqui na Coréia, por exemplo, existe um sistema de aquecimento das casas muito peculiar, chamado ondol. Acredita-se que o ondol foi criado no ano de 37 A.C., ainda durante a época da dinastia Koguryo. O sistema consiste em tornar todo o chão da casa um imenso irradiador de calor, através do aquecimento (por lenha no passado; hoje em dia por gás) embaixo... do próprio chão! Ao entrar numa casa coreana e tirar os sapatos, logo se percebe o quão quentinho é o chão - que sensação aconchegante! O que deve explicar também porque os coreanos adoram sentar no chão das casas. O ondol permite que a casa toda seja aquecida de forma uniforme e eficiente. Afinal, o calor sobe naturalmente e o chão vira um mega-irradiador para todos os ambientes. Ah, como eu adoro o ondol... Dá vontade de ficar deitada no chão o tempo todo, e permite andar descalça pela casa, algo impensável com o aquecedor que eu tinha em casa em Boston. Deitar no chão quentinho, aliás, é o que meu gato faz o dia inteiro, para sorte dele, que não precisa sair de casa para trabalhar ou comprar víveres.

Ondol tradicionalCrianca fazendo bola de neve
Uma vista do ondol de uma residência tradicional coreana: repare embaixo da casa uma abertura para colocar a madeira que será queimada para o aquecimento. Ao lado, a alegria das crianças com a neve para fazer bonecos de neve no condomínio em que moro.

Empacotada para neveCatupiry na neve
Meu "empacotamento" pro inverno, ou melhor, como eu me finjo de pingüim azul pelas ruas da Coréia. Ao lado, o debut de Catupiry na neve nesse último domingo: ele não curtiu muito a patinha gelada e já estava fugindo pra mureta. Repare que ainda tem folhas coloridas de outono pelo chão! Acho que o inverno chegou antes da hora por aqui...

O corpo humano definitivamente não é adaptado ao frio. Precisamos desses "acessórios" (roupas e afins) para manter a temperatura ideal, para não morrermos de hipotermia. O que me leva a refletir sobre o nível de loucura e risco dessa aventura: um sul-africano, puxando o limite do corpo em relação ao frio, está querendo bater o recorde de distância à nado na Antárctica - usando apenas roupas de banho. Nada de dry suit, ou roupa aquecida: é só sunga de praia mesmo. Temperatura da água = abaixo de zero, suficiente para fazer um ser humano normal parar de respirar em poucos minutos. O sul-africano já é detentor do recorde de nado mais ao Norte do planeta, numa região da Noruega próxima ao Ártico. Caso consiga nadar 1 km (!!!!) na Antárctica nesse verão, será a única pessoa a ter enfrentado a água fria nos dois pólos de corpo aberto. Haja coragem.

E ele é um sul-africano. O que me leva a pensar que nem sempre o fato de você ter nascido nos trópicos conta para sua adaptação (ou falta de) ao frio. Outro exemplo? Os brasileiros biólogos que pesquisam no Alasca, que mesclam seus trabalhos a tempestades de gelo, icebergs e muito vento congelante. E adoram essa fria. Aliás, o Alasca deve ser um lugar incrível para se passear, um ecossistema único com uma população nativa interessante, os esquimós. Valeria a pena um dia fazer uma visita a um iglu de verdade; já pensou, uma Malla num iglu? Não, nem eu imagino tal aventura de alto risco. O que me lembra um amigo meu de Belo Horizonte que fez intercâmbio quando adolescente em Fairbanks, e o primeiro presente que ganhou assim que chegou lá foi um snowmobile. Exótico para um belorizontino, sem dúvida.

E para terminar esse post abaixo de zero, deixo um link delicioso, que já mora na minha lista aí da direita há algum tempo: o Antarctica Blog. Depois de um tempo viajando pelo mundo, eis que Luke está de volta ao extremo sul do planeta, e conta todos os problemas logísticos de uma expedição ao ponto mais inóspito do planeta. Vale a pena ver a foto desse post, tirada à meia-noite na Antárctica. Minha conclusão é a de sempre: esse mundo é mesmo uma maravilha de experiências diferentes, com recantos para todos os gostos e viagens...

(Agora deixa eu voltar rapidinho pra debaixo do cobertor...)

Tudo de bom sempre.

*Hoje é a estréia do Flávio Prada no condomínio Verbeat. Ele também entrou na mesma viagem gelada, e encheu o blog de fotos de neve na Itália. Para visitá-lo, aconselho um casaco.

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sexta-feira, dezembro 02, 2005

Estaria o Taipei 101 causando terremotos?

Li hoje uma reportagem do Guardian Unlimited que me deixou intrigada. A reportagem falava que desde o início da construção do Taipei 101, o maior edifício do mundo, a constância de terremotos em Taipei tem aumentado significativamente. E mais: que o peso exercido pelo prédio e sua estrutura teriam possibilitado a reabertura de uma falha tectônica do terreno em Taipei. Para concluir, 2 terremotos recentes de intensidade alta teriam acontecido por causa do Taipei 101.

Toda essa idéia baseia-se nos estudos de um geologista da Universidade Nacional Normal de Taiwan, em Taipei. Dr. Lin calculou a pressão que o prédio exerce no terreno, e leva em consideração o fato de que a técnica usada para fazer a fundação foi bem diferente da maioria utilizada pelo mundo: uma estrutura híbrida de concreto e aço, resistente a terremotos e incêndio. O prédio é equilibrado em seu eixo por uma esfera metálica que foi motivo de documentário da National Geographic: uma mega-estrutura de aço que pesa quase 1000 toneladas, no alto do prédio.

Eu vi essa estrutura. É assustadoramente enorme, e o fato dela sustentar de certa forma o prédio é simplesmente impressionante. Eu era uma formiga do lado de um elefante. Confesso que fiquei de boca aberta com a tecnologia empregada, a idéia engenhosa. Uma respeitosa viagem na maionese que deu certo.

Estrutura metalica - Taipei 101Taipei 101 de dia
A esfera metálica central do prédio, responsável pela segurança do prédio contra ventos fortes. Ao lado, o Taipei 101 visto da rua.

Mas é claro, essa idéia de que o prédio esteja reabrindo uma falha tectônica em Taipei é contestada. Alguns engenheiros e cientistas já levantaram a voz para esse dado, afirmando que a força que o prédio exerce em um único ponto do solo não é suficiente para iniciar terremotos - que começam, para quem não sabe, a mais de 10 km abaixo da superfície terrestre, muito longe da fundação do arranha-céu. De acordo com esses cientistas, o que realmente afeta a crosta terrestre a ponto de causar terremotos é atividade de mineração e construção de grandes reservatórios de água ou lixo no subsolo.

Taipei 101 a noiteEntardecer em Taipei
Iluminação noturna do Taipei 101 em arco-íris! Ao lado, um entardecer em Taipei...

Não sei quem está certo. Fato é: o Taipei 101 é uma obra-prima da engenharia moderna. É lindíssimo, iluminado à noite por um arco-íris de cores, que dão charme a cidade. Do alto de seus 101 andares de vidro com o design leve de um bambuzeiro (nada mais asiático...), é mais que um ponto turístico: é para mim uma das 100 maravilhas do mundo moderno. Uma obra de arte imponente, poderosa. E singela, com aquela poesia que tenuamente separa a arquitetura da arte.

Tudo de bom sempre.

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UPDATE: A reportagem da Al Jazeera sobre o mesmo assunto vale a pena ser lida. Em dado momento, o pesquisador taiwanês que levantou a questão afirma que "é difícil provar essa teoria cientificamente, mas também é difícil desprová-la." Safe, isn't it? ;-)

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