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domingo, janeiro 08, 2006

A história nas águas de Palau

Meu grande amigo Gabriel, ao comentar o post passado, lembrou-se de um fato curioso sobre Palau:

"(...) A única referência que eu conhecia sobre Palau era do documentário do Michael Moore de 2004... "The republic of... Palau" na "Coalition of the willing" (...)"

Dei muitas risadas relembrando esse fato, Gabriel. É verdade! Palau foi um dos países que primeiro se aliou aos EUA na malfadada coalisão contra o terrorismo mundial que veio subsequentemente a invadir o Iraque como prezepada final. Palau, Costa Rica, Islândia, Romênia, Marrocos e Afeganistão. Reassisti ontem "Fahrenheit 911" para confirmar essa hilária lista.

Faz sentido Palau ter se aliado aos EUA na guerra do Iraque. Embora oficialmente seja um país independente, Palau está sob intensa influência americana - refletidos na prática pelo fato do dólar americano ser a moeda oficial, e a língua oficial, além do tradicional palauano, ser o inglês (exceto em uma das ilhas, onde o japonês é a língua oficial). Desde a década de 50, os EUA são o país mais presente nas ilhas palauanas, um pouco como acontece com as Ilhas Marshall e nas demais ilhas micronésias. Consequências da Segunda Guerra Mundial - porque até então, Palau havia funcionado como território espanhol, alemão no século 19 e território japonês desde 1914 - a bandeira de Palau reflete claramente a influência nipônica, apenas com uma "tropicalização" das cores. Vale ressaltar também que o período de dominação japonesa trouxe progresso e modernidade à população, sendo até hoje um dos momentos de maior desenvolvimento econômico experimentado pelo país. Em troca de uma paragem para seus militares, o Japão investiu muito no país.

Pela localização geográfica no Pacífico, Palau também foi palco de batalhas da Segunda Guerra, principalmente entre Japão e EUA. O reflexo disso são os inúmeros naufrágios de aviões e navios que abundam as águas ao redor do país. São mais de 60 disponíveis para mergulho, e mais um monte ainda inacessível. Existe até um navio afundado pelo ex-presidente George Bush Pai, em seus tempos de marinha americana. Muitos naufrágios estão a profundidade máxima de 3m, facilmente acessíveis para snorkelar, como os 2 aviões japoneses Zero que vimos e um americano B-25: os 3 estão dentro de lagoas marinhas de águas calmas e pristinas. Os 3 aviões bem pequenos, com capacidade e espaço para algumas bombas. (Os Zeros foram, aliás, os aviões usados pelos japoneses para os ataques kamikaze a Pearl Harbor.) Num mergulho noturno, exploramos a fuselagem de um terceiro avião Zero japonês, cujo naufrágio foi batizado hoje de Jake's seaplane. Um avião que foi bombardeado assim que levantou vôo da pista do aeroporto, caindo no mar próximo à costa, e parando a meros 13m de profundidade. É uma viagem total ficar vendo aquele monte de coral e vida no meio de hélices e afins corroídos pelo tempo.

Zero no rasinhoFuselagem do Zero 2
Do barco, a gente já consegue ver a silhueta do aviãozinho Zero no fundo raso. Ao lado, um pedaço do motor de outro Zero, separado de seu corpo durante a queda na lagoa.

Zero japones 2Zero japones 1
Como o motor do Zero está raso, um pedaço da hélice ainda é visto na superfície - um pedaço que de longe parece um galho saindo da lagoa, exceto pelo brilho reluzente com o bater do sol. Ao lado, Lucia Malla investiga snorkellando um dos Zeros naufragados em área rasa de Palau.

Além desses 3 aviões que visitamos apenas com máscara, pé-de-pato e animação, também tive a oportunidade de me aventurar mergulhando num navio japonês chamado Iro Maru. O Iro, um navio de apoio da frota de guerra, está localizado a 36m de profundidade, é um navio enorme e naufragou por força de um torpedo em 1944, repousando no fundo de areia em uma posição inclinada, com o deque e salas de comando a profundidade de 20m e as torres de aço a menos de 15m da superfície. O mergulho no Iro foi inacreditável. A visibilidade da água não estava muito boa, mas a sensação de estar em cima do deque de um navio de guerra afundado, poder passar no meio de suas colunas, olhar para um monstro de 145m de extensão virando substrato para todas aquelas formas de vida... sensacional.

Iro MaruEscada do Iro
Visitando o navio de apoio japonês Iro Maru, afundado por um torpedo em 1944. Ao lado, vê-se uma das escadas de acesso ao deque superior.

Todas as ilhotas do Pacífico que o Japão se apoderou durante o período das guerras foram repassadas depois da derrota japonesa aos EUA, que criou o chamado "Território das Ilhas do Pacífico". Esse território foi incentivado a se tornar país em 1979, e em 1981 quando os Estados Federados da Micronésia se juntaram para formar um país, convidaram também Palau e Ilhas Marshall para participar, e ambos recusaram a oferta. Os povos de cada arquipélago não queriam ser estados apenas de uma nação maior. Preferiram ser independentes dos demais micronésios, com suas próprias leis e organização. E assim, após quase uma década de transição e discussão sobre a situação política, surgiu a República de Palau, em 1994.

Independente, mas nem tanto. No ano seguinte, o governo de Palau assinou um Pacto de Livre Associação com o governo americano, ditando que a defesa territorial palauana seria responsabilidade americana nos próximos 50 anos. O que torna muito fácil entender o porquê da rápida entrada de Palau na coalisão pró-Iraque. Como Palau não tem exército, foi algo como o exército americano em Palau entra na coalisão com... ele próprio. Hilário.

A influência americana trouxe não só a defesa militar como o estilo de vida. E hoje, 50 anos depois da introdução do junk food em Palau, vemos o surgimento da epidemia de diabetes tipo 2 tão comum à modernidade sedentária e super-calórica. 1 em cada 4 habitantes da ilha tem diabetes, um número alarmante.

Palau vive do turismo. Um lugar tropical, cheio de maravilhas marinhas naturais, usou bem o recurso que tinha. Além do turismo, a exportação de côco e a pesca são outras fontes de renda para seus 18,000 habitantes. E a ajuda americana constante, é claro. Em troca de uma paragem para seus militares, os EUA investem muito no país. Os palauanos ainda dependem do dinheiro americano para sobreviver como nação, uma situação longe de terminar.

O tesouro de Palau é sua riqueza marinha, e a solução para aumentar a receita do país claramente passa por um incentivo ao turismo, mais precisamente ao ecoturismo. Isso já está sendo feito, mas ainda requer mais divulgação. Palau, com toda a exuberância e história escondida sob as suas águas, merece definitivamente ser conhecido pelo mundo.

Guia palauano pilotandoNaufragio Palau
Nosso guia palauano em mais um momento de diversão subaquática, "pilotando" o Zero na cabine em pedaços. Ao lado, uma visão lateral da cabine em que ele está sentado na foto anterior.

Tudo de bom sempre.

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