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sábado, janeiro 28, 2006

Insulina nasal no mercado

Ontem, depois de alguns meses na pendência, o Food and Drug Administration (conhecido pela sigla FDA), órgão americano que regulamenta medicamentos e afins, finalmente concedeu a Pfizer o direito de comercializar a insulina nasal. A Comunidade Européia já havia aprovado dias antes.

Marketeada como Exubera, será a tão sonhada independência das injeções diárias que os diabéticos tipo 1 sonharam por tanto tempo - e os diabéticos tipo 2 que fazem uso de insulina também. No ano passado, o painel de aconselhamento do FDA já havia dado um parecer favorável, mas aguardava ainda a decisão final. Entretanto, passar por esse painel já era considerado uma vitória, e a aprovação final agora reitera o que a indústria farmacêutica já vislumbrava como certo.

A insulina nasal é na verdade insulina em pó, inalada por um aparelho especial que propicia o ajuste da dose (não é um mero nebulizador, pelo que entendi). Mas ainda há ressalvas: é contra-indicada para pessoas fumantes e/ou com problemas de pulmão, assim como para crianças. E como não houve um estudo a longuíssimo prazo sobre os efeitos do uso contínuo da insulina nasal, não se sabe ao certo todas as contra-indicações.

E eu me perguntei, assim que soube dessa notícia: "Como o FDA aprovou um medicamento que não possui um estudo a longo-prazo determinando os riscos?" Depois do fiasco do Vioxx, um medicamento da Merck para artrite que teve que ser retirado do mercado depois de aprovado pelo FDA porque acelerava graves problemas cardíacos nos usuários, esperava-se que o FDA ficasse bem mais rígido. Entretanto, acho que a resposta para minha pergunta é muito simples.

Quando você tem uma doença como a diabetes, em proporções epidêmicas no mundo inteiro e cujo tratamento para muitos depende de incômodas injeções diárias, você sabe que qualquer ajuda para que as pessoas enquadrem o tratamento em seu dia-a-dia é válida. Acrescente a isso o potencial mercado consumidor gigante que uma empresa pode ter acesso com uma tecnologia inovadora. Acho que boa parte do lobby pró-insulina nasal vem desses fatos: melhoria na aceitação do tratamento e pressão econômica.

De qualquer forma, é um grande avanço, mesmo que não pareça, mesmo que não saibamos ainda tudo sobre como a insulina nasal age a longo-prazo - é esperar para ver. É provável que agora os diabéticos tipo 2 que se recusam a levar injeções possam aceitar com mais facilidade tomar insulina - essa é a grande esperança por trás da indústria farmacêutica, aliás, visto que apenas 10% dos diabéticos são tipo 1, insulino-dependentes. A fatia grossa do lucro de tratamento da diabetes vem sem dúvida da diabetes tipo 2.

A diabetes tipo 2 não é uma doença "barata" - uma certa contradição, pois sua prevenção é das mais baratas possíveis: exercício físico e dieta balanceada são suficientes. Mas, uma vez instalada, o ônus monetário é grande para todo o sistema, desde o indivíduo até o governo. E se analisarmos mais criticamente ainda, perceberemos que os aumentos gritantes no número de casos de diabetes tipo 2 geram lucros para empresas seguradoras, hospitais e médicos. Uma faca de 2 gumes: você prefere uma sociedade mais saudável perdendo a fatia de mercado consumidor que os milhões de diabéticos representam, ou prefere mantê-los gastando e doentes? Infelizmente, a resposta para muitos não é tão simples como esperaríamos.

Recentemente, o New York Times, fez uma série de reportagens sobre diabetes em Nova Iorque, uma cidade que já foi considerada das mais "magras" dos EUA, e hoje encara uma tragédia silenciosa prestes a explodir. Nessas reportagens, fica claro que a doença atravessou qualquer tipo de fronteira geográfica: latinos, asiáticos, europeus... não há mais uma população claramente "mais suscetível" que a outra. Frente à mudança do nosso comportamento alimentar e nosso sedentarismo, somos todos quase iguais perante a diabetes. E a diabetes tipo 2 na maioria dos casos é uma consequência da obesidade, que por sua vez nos últimos anos tem sido uma consequência do grupo social em que você está. A tendência que vemos hoje em dia é: onde há pobreza, há mais obesos. Parece contraditório, mas a comida mais barata, mais rápida de ser preparada, mais cômoda é a que mais engorda, e famílias sem muito dinheiro e/ou sem tempo para investir em boa alimentação tendem portanto a comer mal. Essa tendência se espalhou pelo mundo - inclusive no Brasil - e requer um profundo repensar da sociedade como um todo. Como iremos diminuir as diferenças sociais, como melhorar as condições de vida dos que não tem acesso à boa alimentação, saudável, diversificada, nutritiva?

A insulina nasal é um grande avanço no tratamento. Mas muito maior avanço e impacto para a contenção da doença no mundo seria conseguido com a conscientização das pessoas por um estilo de vida mais saudável.

Tudo de bom sempre.

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P.S.: Duas notícias tristes relacionadas ao tema: uma criança diabética tipo 1 que morreu em São Paulo por incompetência de 3 pediatras (médicos de plano de saúde!) em reconhecer os sintomas da doença; e um adolescente britânico de 20 anos que se alimentou a vida inteira de batatas fritas e feijão em lata apenas, e morreu semana passada, com problemas graves no fígado e no sangue. Apesar de tristes, os dois casos nos fazem pensar sobre a importância da boa alimentação e dos bons profissionais no sistema de saúde de qualquer nação.

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