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sexta-feira, janeiro 13, 2006

Por que Palau? Palau por quê?

Palau é isso aí

Minha amiga e companheira de profissão Alline revelou em seu comentário ao post passado:

"(...) até poucos dias atrás eu nem sabia da existência de Palau (...)"

Alline, até algum tempo atrás eu também era assim. Já tinha visto no mapa - mas isso porque eu tenho mania de ficar lendo Atlas. Nunca realmente me liguei sobre o país em si. E o que me fez despertar esse interesse repentino? A resposta é muito simples: mergulho.

Palau é a meca do mergulho. Qualquer praticante da atividade já ouviu essa frase em algum barco ou diveshop, leu numa revista especializada ou pela internet em algum dos inúmeros sites (ou comunidades do orkut) dedicadas ao mergulho. É na região das Filipinas que há a maior biodiversidade marinha do mundo - e Palau está próximo, meio que pegando a "rebarba" dessa diversidade - mas é peculiarmente em Palau que três correntes marinhas se encontram, trazendo uma vasta quantidade de nutrientes para regiões rasas, atraindo muitos peixes e assegurando alimento para a chamada "megafauna" (a fauna de animais grandes, como baleias, tubarões, crocodilos de água salgada e afins). Se nas Filipinas todo o charme do mergulho é ir fuçar buraquinhos no recife de coral para achar os pequenos invertebrados escondidos ou miméticos, em Palau a aventura é mais exuberante e grandiosa: o charme é apreciar o comportamento de tubarões, tartarugas, raias, barracudas, atuns e tudo o mais de enorme que você com certeza verá num mergulho. É participar de um filme de ação, onde os "grandes bichos" são os atores principais, sem interferência humana.

Tubarao cacandoCardume no canal
Um tubarão passando na frente de um cardume de barracudas: estaria ele caçando? Ao lado, o cardume de olhões (Priacanthus hamrur) em que me infiltrei para sentir o que é ser um peixe...

Não houve um só mergulho lá em que não tenhamos nos deliciado. Os locais de mergulho são inúmeros, e fica difícil, numa viagem de poucos dias, escolher qual o melhor para ir. Todos são excelentes e diferentes. (Meu namorado, com uma lista de quase 500 mergulhos nos melhores e mais remotos points do mundo, disse que depois de mergulhar em Palau, qualquer um fica "spoiled", porque não são muitos outros lugares acessíveis do planeta onde você encontra tal atividade marinha intensa natural.) Talvez a experiência mais gratificante seja o mergulho no Blue Corner, um lugar consagrado mundialmente até entre os mergulhadores mais cri-cris como a meca das mecas. Para muitos, o melhor dive site do planeta. E eu, humilde e apaixonadamente, com toda minha inexperiência embaixo d'água, só posso concordar.

O Blue Corner é um grande paredão coberto por recifes de corais cujo topo está a 12 m de profundidade, e sua parede vai até as profundezas mais profundas (pleonasmo maravilhoso!) imagináveis - sim, porque Palau está situado entre as fossas Marianas (a mais profunda do mundo) e a fossa de Yap, que também não deixa a desejar. Os grandes animais gostam de estar onde há correntes marinhas, onde os peixes menores passam em cardumes, e o Blue Corner é uma verdadeira televisão ao vivo: você se ancora com um gancho nas pedras a 12m de profundidade e não precisa nem nadar, fica lá boiando, seguro pelo anzol, vendo a super-telona azul na sua frente, o mar aberto. E como você não está se mexendo (apenas soltando bolhas de ar), os animais se aproximam inacreditavelmente. Você passa a ser parte do ambiente, por 45 minutos, e vê tubarões caçando, barracudas passeando, atuns se alimentando, tudo acontecendo ao mesmo tempo, ao seu redor. É uma sensação indescritível, alucinante, única, e que embaixo d'água, me fez chorar de emoção e encantamento.

Ancorada ao topo do recife, vendo a caravana passarBlue Corner
Aí estou eu, ancorada ao topo do recife, à beira do precipício, observando a "caravana" ao lado passar... Ação total (por parte dos peixes) no Blue Corner.

Não bastasse os tubarões (que eu amo fervorosamente), num dos mergulhos eu estava bem na minha, assistindo à TV "Mar aberto", quando olho pro lado e me deparo com um peixe Napoleão - aquele mesmo que eu alertei por estar seriamente ameaçado de extinção - olhando para mim com a maior cara de curiosidade. Acenei pro bicho, dando tchauzinho. Ele estava parado, e mexeu a nadadeira como a dizer "oi!", e parou de novo. Dei outro tchau, ele repetiu o movimento também, olhando fundo nos meus olhos atrás da máscara. De novo. Mais uma vez. Eu relutava e não acreditava: estava me comunicando literalmente com um peixe Napoleão! E cada vez mais, ele se aproximava de mim, a ponto de encostar na minha nadadeira. Minha vontade era de abraçá-lo, mas sei que isso é impossível porque ele é arisco - além de poder dar bandeira pros demais mergulhadores do quão delirante e em êxtase eu estava naquele momento.

Peixe napoleaoTubarao
O lindíssimo e amigo peixe Napoleão (Cheilinus undulatus), com quem mantive contatos imediatos de enésimo grau, e ao lado, uma visita de um dos reis dos mares - no caso, um tubarão de recife, espécie do Pacífico (Carcharhinus amblyrhinchos).

O peixe Napoleão não foi o único a dar as caras. Nesse mesmo mergulho, vimos ainda um grupo de budiões enormes. Num outro mergulho, em um canal na costa oeste, entrei dentro de um cardume de xaréus, que se posicionavam contra a maré. E lá, de dentro do imenso cardume, pude sentir a chegada de um tubarão galha-branca, patrulhando o recife. Eu estava 100% integrada ao ambiente, apesar da minha aparência exótica (com um tanque nas costas e soltando bolhas) para os demais ao redor. Eu era parte do ecossistema marinho - porque do terrestre, já somos todos, a todo momento.

Não bastasse essas maravilhas do mergulho, Palau também tem um cenário e geografia únicos. Por estar situado entre as duas fossas mencionadas acima, e suas ilhas serem na realidade o topo de cadeias montanhosas subaquáticas, essas ilhotas são extremamente entrecortadas, gerando um emaranhado de lagoas de água salgada, muitas vezes com uma só entrada. (Parênteses: Para entender melhor esse conceito, veja a foto deste site, que mostra um pedaço das Rock Islands, uma área de preservação ambiental. Palau é inteiro assim.) Se embaixo d'água, as ilhas são cadeias montanhosas, acima, corroídas em sua base pela ação do mar, elas adquirem formato de cogumelos gigantes e psicodélicos, e o país parece um monte de "montinhos" verdes. Pra lá de exótico. Vem daí a estranheza exuberante de se estar num lago de água salgada, rodeado por mata verdinha por todos os lados, como no Disneylake ou no Mandarinfish Lake, locais entre os mais bonitos e mágicos que já visitei na vida. O Disneylake, acessível por caiaque até sua entrada numa caverna/reentrância na pedra (caverna essa onde habitam 2 tubarõezinhos galha-branca fofos), de onde se pega o snorkel e atravessa para um mundo surreal, se não fosse real: ao sair da caverna, nos deparamos com um lago raso, de fundo de corais inacreditavelmente diversos e coloridos. Fora os inúmeros peixinhos do recife, que, estando ali dentro de um "lago", fazem a gente imaginar que está alucinando.

Lagoa em PalauEntrada para o Disneylake
O guia do barco snorkelando no Mandarinfish Lake - dá uma sacada nessa lagoa de água salgada!!! Ao lado, estou snorkelando em uma dessas lagoas salgadas, onde a diversidade dos corais é simplesmente inacreditável.

CaiacandoSiaes Tunnel

Palau é um filme de ação e aventura típico das grandes bilheterias de Hollywood, dirigido e produzido pela natureza. Ou um delírio dalíniano, em cima e embaixo d'água, prestes a reencontrar nossa única Gaia Terra.

Tudo de bom sempre.

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Algumas viagens na maionese antes que eu me esqueça...

- A menção a Dalí não é à toa: o próximo post de Palau será um grande delírio. Aguardem. Ou melhor, preparem-se. Melhor ainda, viajem.

- Para um mapa engraçadinho do Pacífico localizando Palau, veja aqui.

- Alguns dos maiores nomes da blogosfera de ciência mundial - incluindo meus prediletos Pharyngula, Grrl Scientist, Afarensis, Evolgen e Chris Mooney - estão agora todos num domínio só, o Scienceblogs. Cada um com seu estilo, é claro. A agregação é bem-vinda: agora como blogueiros profissionais, é provável que os bons posts se multipliquem mais e mais. Verdadeiro carnaval da ciência.

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