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terça-feira, fevereiro 28, 2006

É dose!

Recentemente, li na excelente revista online Seed sobre a tentativa de envenenamento por dioxina do presidente ucraniano acontecida no ano passado. Após um longo período internado, o presidente se recuperou, mas em seu rosto ainda estão as marcas do envenenamento: a pele toda cheia de erupções de cor estranha. No caso dele, o que o salvou foi a pouca quantidade ingerida de veneno colocado em sua comida que, embora tenha sido 1000 vezes acima da dose aceitável, não foi letal. Um susto de dar calafrios a qualquer um.

Aí lembrei de outro fato. Há pouco tempo, foi divulgado um estudo com os níveis de mercúrio na comida americana. O estudo dizia também que tubarões sao os maiores acumuladores de mercúrio do ecossistema. Embora felizmente isso reforce a idéia de que não se deveria jamais comer tubarões (para não se correr o risco desnecessário de intoxicação por mercúrio), eram outros peixes o alvo do estudo.

Nas 2 notícias, entretanto, uma similaridade: a importância da dose. É a dose de mercúrio ou de dioxina que, num período de tempo curto, determina a morte ou não da pessoa. Mercúrio em excesso mata, dioxina mata também. Mas... até água em excesso teoricamente mata.

O conceito de dose parece muito nebuloso na cabeça das pessoas, e em minha opinião, não deveria ser. Basta ver o sucesso dos suplementos alimentares e vitamínicos para constatar isso. Vendem-se por exemplo verdadeiras "bombas" com miligramas - e até gramas - de selênio por cápsula. Selênio é ótimo para a saude, um agente anti-oxidante e regulador da função tiroideana, mas em doses de microgramas. 3 ordens de magnitude acima (miligramas), e você corre o risco de envelhecimento precoce ou de disfunção da tiróide. 6 ordens de magnitude acima (gramas), e você pode ir parar numa emergência de hospital. E não é só o selênio: o mesmo fenomeno acontece com vitaminas, sais minerais, remédios, alimentação em geral, hábitos pessoais. Assume-se que como boa parte das pessoas está mal-nutrida em certo elemento (o que é verdade) que elas estariam também mal-nutridas nos demais, e haja complexo multi-vitamínico.

Para saber o quanto precisamos de cada molécula, os cientistas se esmeram em produzir sempre as chamadas "curvas dose-resposta". Toda nova droga que entra no mercado advinda de pesquisa séria tem uma curva dessas por trás, que representa o valor em uma unidade qualquer de peso ótimo para a ação de um composto/alimento em um certo tempo, indicando o limite entre a dose segura, perigosa e letal. Em geral, as bulas vêm também com os riscos da ingestão excessiva, basta prestar atenção que está lá escrito em letras pequenas, mas claras. Já no universo paralelo dos suplementos alimentares, onde em geral ingerem-se super-doses num piscar de olhos, acredita-se perigosamente na total eliminação do excesso pelo próprio organismo. Para alguns, isso é verdade - a vitamina C, por exemplo - mesmo assim com ressalvas, porque dependendo da dose, o organismo não dá conta de metabolizar em tempo plausível. Para uma boa parte dos suplementos, entretanto, o excesso fica acumulado no organismo, e pode causar problemas, como acontece com a vitamina E.

Saber a dose adequada é um dos conhecimentos mais primordiais que lidamos no dia-a-dia, embora muitas pessoas pareçam não se preocupar muito com isso. Quando um estudo diz: "é importante comer alimento X uma vez por dia", fica claro que não é necessariamente para ingerir X em todas as refeições, muito menos esquecer de comer. Uma vez é o suficiente para te nutrir adequadamente para aquele dia. Não é recomendado assumir nada para cima nem para baixo daquele valor fornecido.

O equilíbrio da dose, nesse caso (e como sempre...), é a chave para uma atitude sensata e uma vida saudável.

Tudo de bom sempre.

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