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domingo, abril 02, 2006

Arredores de Hilo: os rios de fogo do Kilauea

A maioria esmagadora dos turistas que desembarcam em Hilo estão interessadas em visitar um lugar específico: o Parque Nacional dos Vulcões do Havaí. Hilo é a porta de entrada para essa maravilha, o vulcão mais ativo do planeta e o mais perigoso dos EUA na atualidade: Kilauea.

Adoro vulcões. Da primeira vez que estive no Kilauea, em 2002, a lava estava bem próxima da estrada principal na direção do mar, e não precisei andar muito para chegar perto dos rios incandescentes subterrâneos. Verdadeiro delírio vermelho! O calor que saía de dentro da terra era insuportável. Kilauea escorre pro mar, mas em 2002, sua lava não estava sendo vista caindo na praia. Uma pena.

Cratera Kilauea 2002Trilha de lava
Em 2002, na primeira visita à cratera do Kilauea. Ao lado: o terreno da trilha de lava é todo assim, preto, acidentado, sem sombra, num chão novo que se esfarela e corta. Alguém se habilita? ;-)

Mas é o vulcão que escolhe sua passagem, não os humanos como provavelmente gostariam. Em 1990, por exemplo, a lava escorreu na direção do vilarejo de Kalapana, e engoliu tudo - até hoje os moradores da área aguardam indenizações e esperam a reconstrução da cidade, desaparecida sob lava endurecida. Fato é que, a cada dia, a lava do Kilauea está despontando em um lugar diferente - por isso é fundamental que ao chegar no parque, você pergunte a um dos guardinhas onde está a lava naquele dia. Senão pode perder o mais bonito do espetáculo.

Quando visitamos o parque em fevereiro passado, a lava estava há umas 2 milhas do fim da estrada, caindo no mar. Uma oportunidade de ouro para ver um dos maiores espetáculos da Terra. Para quem nunca foi no parque, é preciso explicar: primeiro, a lava que escorre do Kilauea não tem velocidade rápida, ela é lenta e você pode acompanhar à distância seu movimento; segundo, a estrada que leva pros "campos de lava" foi sendo "devorada" pela própria aos poucos. A trilha começa onde a lava cruzou a estrada - e daí pra frente, é tudo um terreno quebradiço feito sucrilhos, afiado. É aconselhável uma boa bota de caminhada e evitar cair no chão, porque qualquer encostada numa pedra pode te cortar. O solo recém-formado é afiado como vidro. Mas isso não desanima ninguém, porque é enorme o número de pessoas fazendo a trilha, inclusive com crianças. Basta ter cuidado, porque a trilha não é difícil, apenas árida.

Chegamos no parque por volta das 2 da tarde, e deu tempo de visitar, no topo da montanha Kilauea, as diferentes crateras, que explodiram em períodos diferentes, muitas delas na década de 70. A maior de todas, onde está a caldeira ativa atual Pu'u'o'o, tem um terreno típico de ficção científica, sem vegetação e de solo árido. Um vento frio cortante, contrastando com a ebulição que sabemos estar embaixo dos nossos pés - afinal, estamos no centro nervoso do hotspot. Uma das sensações mais bizarras e inesquecíveis que já tive, principalmente porque me sinto "em casa" perto de vulcões e andar ao lado das crateras tem uma magia inexplicável. Kilauea é um lugar de sonho para mim.

Depois de percorrer todas as crateras já dormentes, é hora de encarar a lava de verdade. Chegamos no início da trilha por volta das 4 da tarde. A trilha é aberta, não tem uma sombra sequer, e em dias de sol, o calor é escaldante e insuportável. O terreno é empretecido, o que colabora mais ainda pra uma sensação abafada. Pelo menos 2 garrafas de água para cada um para não passar necessidade. E não pense que chover é a melhor saída pro calor: a água da chuva reage com os gases liberados pelo solo, gerando os famosos "vogs" (fogs de vulcão) de ácido clorídrico, que matam se respirados em grande quantidade. Felizmente, estava nublado no dia que visitamos. À medida que fomos caminhando na direção onde a lava estava caindo no mar (basta ver a enorme nuvem tóxica de vapor e fumaça enxofrada ao longe para saber o local exato), começamos a perceber a mudança do terreno: quanto mais nos aproximávamos, mais o chão virava sucrilhos e mais instável. Os guardinhas põem uma corda delimitando a área até onde eles aconselham as pessoas a irem, mas é claro que a maioria (incluindo nós) pula a corda e continua até onde der. Detalhe: a instabilidade do terreno causada pela constante movimentação de lava há alguns meses fez com que uma área enorme caísse no mar, matando uma pessoa. Com essa informação em mente, não foi nada confortável saber que era justo nesse lugar "desaparecido" que a lava estava saindo dessa vez. Mas sabíamos também que a recompensa no final seria emocionante, e nós topamos o desafio.

Nuvem tóxica ao longeRio de lava
Para chegar na lava, basta procurar onde a fumaça está saindo... a foto foi tirada no início da trilha de verdade, que é onde os guardinhas do parque aconselham você a parar. Ao lado, o que nos perderíamos se parássemos lá atrás: o local que determina o fim da trilha real para os lava-junkies, com seu rio de lava escorrendo.

O pôr-do-sol foi chegando, e a nuvem-guia se aproximando. Em determinado momento, vimos um grupo de estudantes da UH-Hilo, admirando o horizonte: olhavam para a lava. Ela escorria feito rio embaixo da gente, a uma distância de menos de 70m, e a área onde estávamos tremia à beça. André teve uma idéia brilhante nesse momento: embora nossa visão estivesse maravilhosa ali em cima do penhasco, se andássemos para uma das laterais, poderíamos ver efetivamente o rio incandescente caindo no mar. Fomos - o terreno ficou melhor, mais estável. E a visão... inacreditável. Várias cachoeiras de lava a 1,140ºC que, ao se encontrarem com as ondas do Pacífico, imediatamente viravam pedra ou explodiam, num verdadeiro show de fogos de artifício natural. Terra nova sendo formada a cada segundo. A ilha crescendo debaixo dos nossos olhos. O planeta se renovando. Emoção sem igual. Delírio inesquecível.

Lava escorrendo no marRio de fogo ao mar
O momento da emoção máxima: a lava escorrendo no mar. À noite fica mais lindo ainda.

Havíamos levado uns sanduíches, e jantamos ali, com a lava escorrendo ao fundo, em mais um momento mágico da nossa lua-de-mel aventuresca. Poucas pessoas ao redor. Já era noite alta quando encaramos a trilha de volta. Aos poucos, a luz incandescente do fenômeno ficou pra trás e nossas lanternas dominaram o caminho. O mais interessante foi perceber a quantidade de pessoas que vai para essa trilha contemplar a lava à noite, quando a iluminação vermelha-fogo daquele rio caudaloso fica ainda mais linda. Impressionante.

Rodovia Aerial lava field
Uma rodovia próxima a Kalapana que a lava do Kilauea engoliu. Ao lado, vista aérea do campo de lava que no dia anterior nós desbravamos. Repare nas cores que o mar ganha quando se mistura com lava fresca.

Mas o Kilauea não havia acabado ainda para a gente. Na manhã seguinte, sobrevoamos de helicóptero a área do vulcão - dessa vez para ter noção da dimensão do que é um vulcão em erupção. O helicóptero sobrevoou primeiro a engolida cidade de Kalapana, e a gente vê casas "ilhadas" por um mar de lava ao redor, além de cenas bizarras como uma placa de "stop" no meio da lava, resquício de uma estrada que se foi. Depois o helicóptero começa a sobrevoar o atual campo de lava, que escorre feito calda de chocolate da montanha-bolo, chegando até o mar, no mesmo local onde estávamos no dia anterior. Só que de cima, a nuvem sulfurosa é mais perigosa ainda, pois o helicóptero passa muito próximo dela. A cena de cima não tem tanto a beleza de quando vimos no dia anterior, bem de perto, com todo o vermelho iluminado. Mas vale a visão, porque nos dá a exata noção do quanto a água do mar naquela área é influenciada pela lava - medições mostram que a temperatura do mar ali é de quase 100ºC. E para terminar o passeio com chave de ouro, eis que o momento mais esperado chega: quando a gente vê de cima a caldeira Pu'u'o'o, ativa, gerando lava. Que cena!!!! Aqueles borbulhos de fogo, que ao invés de serem expelidos em explosões no local, vão por tubos de lava subterrâneos e terminam no mar. Melhor visão, impossível.

Luz de lavaCaldeira Pu'u'o'o
Luz da lava à noite, imbatível. Ao lado, sobrevoando a caldeira Pu'u'o'o, de onde emerge toda a lava que escorre hoje no Havaí.

Depois de tanta experiência mágica com o Kilauea, dá para entender perfeitamente porque o vulcão é o ponto turístico mais famoso para quem vai a Hilo. A força da natureza em ação é inigualável.

Tudo de bom sempre.

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Para viajar na maionese dos vulcões...

- No Havaí, existe toda uma mitologia por trás de cada vulcão. Existe a deusa dos vulcões, que mora no Kilauea. De acordo com a tradição, seu nome não deve ser pronunciado à toa, apenas quando estritamente necessário. Nesse link há uma boa explicação sobre todo o mito. Outro exemplo mitológico: dizem que se um turista carrega um pedacinho de lava que seja para casa, a vida dele entra numa espiral de problemas sem fim. Há inclusive um local de envio das pedras que são devolvidas pelas pessoas infortunadas. Mas, por lei, nenhum pedaço de vulcão pode sair do parque nacional dos vulcões do Havaí, sob pena de multa e apreensão. O mito nesse caso veio bem a calhar...

- Existe uma hipótese de que os vulcões na realidade beneficiem o planeta, controlando principalmente a temperatura do mar. Em tempos de aquecimento global, essa é uma notícia interessante para adicionar ao repertório das discussões, principalmente para desbancar aqueles mais "céticos" sobre o assunto, que insistem que a influência humana é mínima.

- O Havaí fica em cima de um chamado "hotspot", um lugar onde o magma flui com mais facilidade por um buraco da crosta devido a anomalias térmicas. Existem cerca de 50 hotspots no mundo, o mais estudado é o havaiano (porque gerou as ilhas), mas recentemente foi descoberto um outro: em Samoa.

- O parque de Yellowstone (para mim, eternamente a "casa" do Zé Colméia) também está num hotspot, e é considerado na realidade um super-vulcão, que pode acordar a qualquer momento.

- Os jornais estão sempre noticiando vulcões que entram em erupção. Visto que o magma está sempre bem ativo dentro do planeta, não é uma novidade que de vez em quando haja erupções. Recentemente, o vulcão Karimski, um dos maiores do Kamchatka, acordou. Para quem não sabe, o Kamchatka é uma área no nordeste da Rússia com uma das maiores atividades vulcânicas do planeta, e um dos meus destinos-sonhos de viagem.

- Acho que eu já comentei nesse blog que morei em Honolulu na beira da cratera do Punchbowl. Dentro da cratera fica um memorial aos soldados veteranos de guerra. Para matar as saudades do visual da janela de casa (ou quase), achei essa visão panorâmica de dentro do memorial da cratera. Um lugar que me trouxe muitas alegrias e alohas. Aproveitem o link e dêem uma olhada em Hanauma Bay, a praia dentro de uma das crateras do vulcão Koko Head.

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