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domingo, abril 16, 2006

De Hilo a Kona: cachoeiras, vales e paisagens lunares

Como falei num post anterior, na volta de Hilo, decidimos vir pelo norte - assim cobriríamos o perímetro quase todo da Big Island do Havaí - só não o cobrimos completamente porque há uma leve "quebrada" para encurtar o caminho, chegando mais rápido em Kona pela rodovia.

(Parênteses: A Horvallis, no comentário do post passado, perguntou pela Saddle Road, uma via precária que corta a ilha - se você olha no mapa, parece a melhor opção para chegar do outro lado, porque é uma hipotenusa. Mas não caia nesse conto: a Saddle Road é uma estrada tortuosa, em muitos trechos de terra batida, difícil de dirigir. Entretanto, dado nosso espírito aventureiro que clamaria por lugares assim, não passamos por lá, infelizmente. Fim do parênteses.)

Antes de sair de Hilo, fomos tomar café da manhã num desses lugares bem havaianos que definem o porquê de tanta diabetes entre os kama'ainas das ilhas: muita gordura, doces e pratos gigantescos, fartura de carboidratos. Como nós estamos sempre numa dieta bem regrada, a indulgência do brunch não foi um grande problema - mas confesso que me espantei com o tamanho do taco que meu marido pediu, porque era igual a uma bacia e recheado de itens engordativos como sour cream e guacamole. Ai meu pâncreas...

Saímos de Hilo debaixo de uma garoa que foi ficando cada vez mais forte. A primeira parada foi no Jardim Botânico por algumas horas, e depois seguimos para as cachoeiras 'Akaka e Kāhūna, que ficam num mesmo parque, o parque estadual de 'Akaka. Pensava que a caminhada até as cachoeiras seria algo "penoso", uma trilha mais radical. Ledo engano: a trilha é literalmente asfaltada, com escadinha para chegar no ponto de observação, o que obviamente atrai muitos turistas. Uma caminhada levíssima, que termina em um visual de sonho: a cachoeira de 'Akaka, um filete de água que cai de uma altura de quase 100m, quase virando fumaça ao fim de tamanha queda. Muito linda. A poucos metros de distância, em trilha paralela, a outra cachoeira do parque: Kahūna. Também no mesmo estilo: altíssima e virando fumaça. A garoa que caía permitiu que um clima meio "Lord of the Rings" ficasse no ar, como se um elfo fosse surgir daquele lago ou um unicórnio voador. Em menos de meia hora, depois dessa paradinha, já estávamos de volta à estrada recortada de vales e penhascos.

Cafe da manhaCachoeira na beira do mar
O café da manhã de domingo de boa parte dos havaianos: muita gordura e carboidratos, essa parece ser a lei. Ao lado, uma das inúmeras cachoeiras que caem no mar na estrada a caminho de Waipio.

Próxima parada, o vale de Waipio. Residência no passado de uma população isolada de mais de 4,000 havaianos, o vale hoje é um lugar cheio de fazendas de inhame, cavalos e um riozinho que deságua no mar. Mas poucos moradores, porque a estrada de acesso é bem complicada, cheia de curvas, e requer também tração nas 4 rodas. O vale de Waipio é onde boa parte das cavalgadas inclusas em pacotes turísticos pela Big Island são realizadas. Do ponto de observação na extremidade do vale, um cenário belíssimo. Olhando para o mar, percebemos uma nuvem enorme, densa e negra se aproximando: tempestade à vista. O espetáculo ficou mais lindo ainda, porque a chuva que chegava ia trazendo uma nuance mágica àquele vale recortado.

Akaka FallsVale de Waipio
Cachoeira de 'Akaka e sua atmosfera mítica. Ao lado, vista do vale de Waipio, com a chuva chegando...

Voltamos para a estrada, dessa vez no meio do caminho para Kona. A estrada passa em pastos enormes, cheias de cones e crateras vulcânicas. De um lado, o Mauna Kea; de outro, o Hualalai, outro vulcão dormente da ilha. No caminho, passamos por Waimea (também chamada Kamuela), uma cidadezinha minúscula e fofa, parecendo de brinquedo, com pastos ao redor. Bucolismo máximo. Um vento gelado e muitas flores na pracinha central típica: com igreja, escola, coreto e banquinhos. Paramos um pouco para admirar o ritmo pacato da cidade, que está a uma altitude considerável.

WaimeaCavalo amigo
A cidadezinha de Waimea é uma fofura no meio do caminho de Hilo a Kona, com seu bucolismo interiorano. Nem parece que estamos no Havaí das praias, vulcões e cachoeiras... Ao lado, um cavalo que se aproximou de nosso carro numa das inúmeras vezes que paramos no acostamento da estrada para tirar fotos. Estava chovendo e o cavalo parecia querer abrigo. Fiquei com dó do bichinho, mas fazer o quê? O arame farpado nos separava...

Já estava entardecendo, e em determinado momento, a estrada ficou mais aberta ainda, e o Mauna Kea claríssimo, com sua cobertura de neve por cima. Carro no acostamento, hora de esperar o espetáculo, que não tardou: o pôr-do-sol com o Mauna Kea ficando amarelado, depois rosado, o Hualalai dourado, e o mar e o céu no horizonte ao longe alaranjado. Que aquarela! A paisagem ao redor era típica de uma cratera lunar, aqueles cones coloridos, gramados de aparência abiótica. Uma viagem total. Um pôr-do-sol delicioso.

Cone vulcanicoCone vulcanico 2
Cones vulcânicos à beira da estrada depois de Waimea, ao entardecer.

Mauna Kea ao entardecerHualalai ao por do sol
Uma visão do Mauna Kea, a maior montanha do mundo (da base submarina até o topo) com a cobertura de neve amarelada pelo pôr do sol. Ao lado, mais um pôr do sol espetáculo, dessa vez olhando para o Hualalai e a paisagem lunar ao seu redor.

A noite caiu, e seguimos direto até Kona, que será a próxima parada desta série de posts havaianos.

Tudo de bom sempre.

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