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domingo, abril 09, 2006

De Kona a Hilo: duas praias diferentes

Embora os últimos posts tenham dado referência a Hilo e seus arredores, devo confessar que quando estivemos na Big Island em fevereiro passado, nossa "base" de ação foi Kona, a cidade do outro lado da ilha. Fomos a Hilo por poucos dias apenas, e em Kona ficamos mais tempo. Como as 2 cidades são geograficamente opostas - cada uma de um lado da ilha - o que nós fizemos foi ir de Kona a Hilo passando pelo sul, e na volta de Hilo a Kona, dirigimos pelo norte. Assim, quase todo o perímetro da ilha foi coberto.

A estrada de Kona a Hilo é muito tranquila, passa por umas cidadezinhas 100% havaianas, e possui uns encantos dignos de nota. Após bons quilômetros em vilarejos, pegamos uma estrada secundária que terminava num píer: o lugar mais ao sul dos EUA. Praias lindíssimas, de rochedos vulcânicos e mar bravio. Aliás, a violência do mar é clara ao vermos uma parte da estrada desmoronada, sem saída no momento. De acordo com um pessoal que estava lá mergulhando, foi uma tempestade forte. Não quero nem imaginar quão forte, porque a destruição era considerável.

Fim da estradaExtremo-sul dos EUA
O fim da estrada secundária próxima ao extremo-sul dos EUA: a estrada caiu depois de uma tempestade. Ao lado, a praia no extremo-sul, com suas rochas vulcânicas. O litoral dessa região é lindíssimo, e vale muito a visita, principalmente se você não quer ver muitas pessoas por perto.

Um pouco mais atrás, o tal píer. A partir dele, um verdadeiro enduro que requer carro com tração nas 4 rodas para ser vencido. A recompensa, depois de comer muita areia e pó numa estrada cheia de pedregulho e valetas lunares por uns 40 minutos, é fantástica: a praia da Areia Verde (Green Sand Beach, em inglês).

Como o próprio nome diz, a areia da praia é esverdeada, devido à sua composição mineral, e no mundo todo, apenas 2 praias de areia verde existem: a do Havaí e outra em Guam. No Havaí, a lava que escorreu do Mauna Loa pelo cone Pu'u Mahana era rica em cristais de olivina, um mineral rico em ferro e magnésio e de coloração esverdeada. A olivina é um mineral denso, dificilmente carregado pelo vento. À medida que eram erodidos pelo mar, os cristais foram se quebrando em partículas menores, que geraram a areia que hoje está lá.

Green Sand Beach, HawaiiGreen Sand Beach
A Praia de Areia Verde, dentro de um cone vulcânico: parece um sonho de esmeralda no mar e na areia. Ao lado, a impressionante visão de quando estamos próximos à água. A praia é totalmente reclusa e protegida. Fantástico!

A chegada na praia é inesquecível. Primeiro a gente só vê a pontinha da pedra do paredão principal, e nunca imagina o que está lá embaixo nos aguardando. Eu, aliás, achei que não teria surpresa alguma. Mas uma vez que você está na beira do penhasco, e percebe aquela mini-baía de água esverdeada e areia mais verde ainda, é que se dá conta do tamanho da viagem transcendental que é o local. Nunca tinha visto algo do gênero. A praia é lindíssima, isolada, difícil de chegar, dentro de um cone vulcânico e um mar de cor exuberante. Ao encostarmos o carro para descer pelo paredão de areia verde, notamos um grupo de 5 americanos de Montana empolgados. Para nossa surpresa, mal chegaram na praia, tiraram suas roupas e foram nadar, completamente nus, totalmente desencanados da vida, sem preocupar-se com os demais turistas que ali estavam. Alguns havaianos davam risadinhas, mas nós não nos abalamos, até conversamos um pouco com uma das meninas, que queria um band-aid emprestado. Continuamos nosso passeio normalmente. Fotografamos a praia, e foi difícil dizer tchau às areias verdes, mas precisávamos continuar o road trip.

De volta à rodovia, seguimos até Punalu'u Beach, também conhecida como Praia de Areia Preta (Black Sand Beach, em inglês). Há várias praias de areia preta no Havaí, mas a de Punalu'u parece ser a mais "famosa". Cresci no Espírito Santo, que também tem uma praia de Areia Preta em Guarapari, e aqui vale ressaltar a diferença entre as duas. Em Guarapari, a areia preta é resultado da presença de monazita, um mineral raro e radioativo derivado do tório - sim, as praias de Guarapari são levemente radioativas e talvez por isso haja todo esse bafafá em torno de suas características medicinais para artrite e problemas ósseos - mas ao comentar sobre as benesses, as pessoas esquecem de verificar que o ES tem uma estimativa de alto índice de casos de câncer dado o tamanho de sua população. (Coincidência ou não, fato é que não há nenhum estudo correlacionando os dois fatos, e por enquanto fica no terreno das especulações.) No Havaí, a areia preta é resultado da erosão de rocha vulcânica riquíssima em ferro, não-radioativa e densa, formada por basalto.

Praia da Areia Preta - GuarapariTartarugas em Punalu'u
A Praia da Areia Preta, em Guarapari (ES), com seus "rajados" pretos de monazita; ao lado, a Praia da Areia Preta do Havaí, com 2 tartarugas-verde descansando na beirada.

A Praia de Areia Preta da Big Island é bastante visitada, está em qualquer roteiro turístico, pois fica à beira da estrada, facílimo acesso. Placas enormes na entrada da praia avisam que é proibido levar areia como "recordação" e principalmente, é proibido incomodar ou encostar nas tartarugas que por lá descansam. Quando chegamos 2 tartarugas-verde estavam sob o sol, "lagartixando" - melhor dizendo, tartarugando. Logo depois, outra apareceu, e ficaram as 3 espalhadas pelas areias pretas. Como havia muitos turistas, a distância das tartarugas era preservada, embora as máquinas fotográficas não parassem de trabalhar. Ao longe, percebemos um grupo de crianças se aproximando de uma das tartarugas. Ah! A curiosidade infantil! Ficamos afastados mas com a máquina e a lente zoom a postos, de olho em um dos meninos que parecia o mais peralta do grupo. Não precisamos esperar muito: o menino olhou pra um lado, olhou pro outro, achou que ninguém estava vendo, e - voilá! - matou a curiosidade encostando a mão na cabeça da tartaruga. Criança não tem censura mesmo, e a cara de satisfação dele depois da peraltice foi impagável.

Traquinagem 2Traquinagem 1
Traquinagem 3Traquinagem 4
Criança tem cada uma: sequência de fotos mostrando a traquinagem do moleque. Primeiro, ele olha curiosamente pra tartaruga (já tinha se aprochegado mais do que o permitido), aí olha pros lados para verificar se não tem ninguém vigiando. Realiza seu desejo de encostar a mão no bicho - e depois faz aquela carinha vencedora de quem fez uma peraltice e ninguém percebeu. "Criança é um bicho curioso", já dizia minha vó.

Já era tardinha quando aproximamo-nos de Hilo. Nossa aventura de estrada chegava ao fim naquele sábado de fevereiro, e estávamos prontos para as novas aventuras que viriam pela frente.

Tudo de bom sempre.

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