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quinta-feira, abril 20, 2006

Dokdo ou Takeshima?

Nunca fui ao Japão. Apesar de estar praticamente aqui do lado, o máximo que fiz foram algumas conexões para vôos no aeroporto de Narita, nas redondezas de Tóquio. Ou seja, já pisei em solo japonês, mas não "senti" a cultura japonesa de perto. Aliás, tenho muita curiosidade de vivenciá-la direito, principalmente visitar Okinawa, que todos dizem ser muito bonito. Entretanto, algumas atitudes japonesas me deixam com cara de ponto de interrogação, mesmo não tendo visitado o Japão. São as chamadas "sensações internacionais".

Os jornais coreanos não param há alguns dias de noticiar a mesma tecla: o envio pelo governo japonês de navios oceanográficos para uma suposta "pesquisa" ou mapeamento do solo na região conhecida como "Zona Econômica Exclusiva" (EEZ) entre Japão e Coréia, no mar do Japão - que os coreanos só chamam de Mar do Leste. Pois bem, nos limites da EEZ está a tão disputada ilha de Dokdo - que os japoneses só chamam de Takeshima.

Eu já havia comentado sobre essa confusão em Dokdo anteriormente. Estivemos lá em 2004, e desde então o turismo na região aumentou ferozmente. Afinal, os coreanos querem realmente mostrar que Dokdo é deles. E é, legalmente falando.

Dokdo são rochas estrategicamente localizadas a meio caminho dos 2 países - mais pro lado do Japão se levarmos em conta a geografia, é verdade. Desde que a Coréia se estabeleceu como país, livre da dominação japonesa, a ilha pertence a Coréia. No entanto, os japoneses, que têm um problema grave de espaço no arquipélago deles e mantém disputas por ilhotas com virtualmente todos os demaisa países do nordeste da Ásia - incluindo a Rússia - começaram recentemente a clamar que Dokdo - desculpem, Takeshima, para eles - é território japonês. Fizeram da maneira mais sutil: mudaram livros didáticos e criaram no município japonês de Shimane (a qual supostamente peretence a ilha de Dokdo) o "dia de Takeshima". Claro, os coreanos se revoltaram e queriam explicações do governo japonês, que obviamente não as deu.

É preciso entender que coreanos e japoneses possuem uma "rixa" que jamais lembra a dos brasileiros com os argentinos, que é baseada em futebol e "gracinhas". A rixa aqui é muito mais séria e grave. O Japão dominou a Coréia e parte da China num período recente, formavam o império japonês, e as marcas dessa dominação estão frescas na cabeça dos coreanos mais velhos principalmente, que sofreram com estupros em massa, assassinatos desmedidos, trabalhos forçados em sua própria terra. Num país onde passar a experiência para as gerações seguintes é mais que tradição, é a própria marca da cultura, tais memórias são difíceis de serem apagadas. Para se ter uma idéia, já houve desconforto na cidade onde moro porque as ruas são arborizadas com cerejeiras, que é a árvore nacional do Japão, e os coreanos mais antigos só de ouvirem a palavra "Ilbon" (Japão, em coreano) têm calafrios na espinha.

Só que agora o Japão quer usar uma estratégia diferente para clamar Dokdo. Se no ano passado, restringiu-se ao seu território, dessa vez está enviando navios - de pesquisa, entenda bem. (Não sei porquê, mas essa história de "navio de pesquisa" no oceano me lembra outra engambelação japonesa recente...) De acordo com os japoneses, eles vão apenas "atualizar os mapas geológicos da região". Que fique claro que eles são os responsáveis pelo mapeamento geográfico da zona K, segundo a ONU, que engloba a Coréia. Ou seja, são os japoneses que fazem os mapas da Ásia que se espalham pelo mundo, e vem daí porque todos conhecem o mar do Japão como tal, e não com o nome de Mar do Leste.

Mas Dokdo pertence a Coréia, e não há "disputa" alguma na cabeça de coreanos. A ilha é deles, apoiada por vários documentos internacionais de pós-guerra. A estratégia atual do Japão que vem sendo estraçalhada pela mídia coreana é a de plantar a sementinha da dúvida na imprensa e nos governos de outros países de que existe uma disputa real acontecendo, de que a soberania coreana sobre Dokdo não é aceita. Isso é apenas um esperto movimento estratégico japonês para tomar o território para si. Está dando certo, porque EUA e Inglaterra já insinuaram estar a favor do Japão nessa empreitada (o que gera mais "imbroglio" pros coreanos, que têm parte do exército americano estacionado aqui devido aos conflitos com a Coréia do Norte), e até a Al Jazeera, que para mim tem um jornalismo excelente, já comprou essa idéia da "disputa territorial".

E claro, assim que os ânimos começam a esquentar na península em questões de soberania nacionalista, os coreanos fazem seus tradicionais protestos: um coreano já tentou suicidar-se por causa da disputa de Dokdo. Enquanto isso, o governo coreano envia navios para a região, e o Japão prepara-se para enviar seus navios "de pesquisa". De acordo com o irônico Robert do blog Marmot's Hole (imprescindível nesses tempos de conflito entre os dois países), o Japão deu ordem a seus capitães de darem meia-volta caso a Coréia se manifeste - o que permitiria depois que o Japão clamasse que não pode fazer a "pesquisa" porque a Coréia não permitiu que ele entrasse em seu próprio território.

A confusão está armada. O que mais me impressiona nessa história toda é: Dokdo são uns pedaços de pedra no meio do mar. Os países estão se comportando como num pré-guerra porque a soberania nacional está em jogo, muito mais que os recursos da região (pesca e gás natural). A soberania por pedaços de pedra.

DokdoIsso é Dokdo

É torcer para que nem Coréia nem Japão resolvam definitivamente jogar a diplomacia pro espaço.

Tudo de cautela sempre.

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P.S.: O Marmot's Hole juntou vários links nesse outro post, que está uma profusão de informação muito boa. Para se inteirar mais do assunto, aconselho lê-lo.

- Lembrando que amanhã, 22 de abril, é o dia da Terra, e convido a uma reflexão geral dos blogs sobre o tema. Quem postar sobre o assunto, me avise por email ou na caixa de comentários, para eu adicionar à linkania desvairada que espero fazer amanhã. Por uma causa nobre: a nossa casa.

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