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sábado, junho 17, 2006

Coração de girafa

Podem me chamar de maluca, viciada em biologia ou algo do gênero. Sim, eu confesso: a vida natural me intriga e me fascina. E quando eu encontro a resposta para uma dúvida antiga, incômoda, aparentemente simples mas que ainda não tinha resposta ou explicação direito, a satisfação é imediata e muito maior.

Eu adoro girafas. Quando vou ao zoológico, são meus animais prediletos de ver, com toda aquela elegância ao caminhar, aquela pinta de modelo de passarela. E sempre me perguntei como seria o coração de uma girafa para bombear o cérebro, que está tão acima do corpo - às vezes até 5m de altura de diferença - e principalmente, como o coração aguentava a sobrecarga de sangue que deveria escorrer da cabeça quando a girafa levantava a cabeça depois de beber água num rio, por exemplo; afinal, força é a gravidade vezes a altura: quanto mais alto, mais força. Perguntei ao meu professor de zoologia, nos primórdios da faculdade, o mecanismo que auxiliava a girafa a manter-se viva com tantas peculiaridades, sem desmaiar cada vez que levantasse a cabeça. O professor me disse que o coração da girafa era enorme, com cerca de 40 cm, pesava cerca de 12 kg, e que trabalhava muito mais para manter o sangue no cérebro. Aceitei a resposta, mas uma interrogação ainda ficou na minha cabeça. Depois, li que nas veias super-elásticas do pescoço da girafa havia um conjunto de estruturas que funcionavam como "sifões" que não deixavam o sangue ser completamente drenado do cérebro quando ela estava com a cabeça levantada. Procurei mais informações em livros, mas as duas hipóteses sempre apareciam e se embatiam. Como não sou especialista em girafas, no fim das contas, tinha que me contentar com a dúvida que os especialistas também tinham sobre o que estaria certo: um coração enorme e poderoso? Um sistema de sifões super-eficiente no pescoço? Ou ambos? Até então, só as girafas "sabiam" a resposta.

Eis que hoje eu achei um artigo na Science que explica essa questão biológica que eu trazia escondida de todos na caixola: a girafa quando levanta a cabeça aumenta a pressão sanguínea para não desmaiar. A pressão hidrostática chega ao dobro da pressão humana normal, e é provavelmente por constrição da veia jugular e da artéria carótida em sua base, elevando a pressão cerebral e evitando o desmaio. Um mecanismo simples, que depende apenas da eficiência da bomba cardíaca. É o poderoso coração da girafa que a mantém sem desmaiar a toda hora. Até então ninguém tinha resolvido essa dúvida, mas eis que zoólogos da Universidade de Wyoming publicaram no Journal of Experimental Biology a solução encontrada, através da construção de um modelo em laboratório que simula o sistema cardiovascular da girafa, chegando ao fim de mais um quebra-cabeça da vida natural. Em ciência nunca se sabe as novas hipóteses que virão, as novas formas de ver a questão, as novas metodologias que podem fazer uma reviravolta no dia de amanhã, mas por enquanto esse mecanismo parece realmente cobrir todos os "buracos" existentes.

E puseram fim também a uma velha dúvida que gratuitamente me intrigava sobre a fisiologia das girafas.

Girafa do Zoo-San DiegoGirafa zoo
Girafas do Zoológico de San Diego, na Califórnia (EUA).

Tudo de bom sempre a esses seres vivos de grande (e poderoso!) coração.

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*Feliz aniversário, Henrique: obrigada pela amizade de tamanho e força como um coração de girafa!

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