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segunda-feira, julho 10, 2006

Casamento na Índia

Tem 2 indianos na empresa que trabalho. Um deles é hinduísta, morava na Finlândia antes de vir parar na Coréia do Sul, e casou-se com outra hinduísta da mesma casta antes de aceitar a proposta de emprego aqui. Vivem como um casal moderno hindu. O outro indiano é da região próxima a Caxemira (fronteira com o Paquistão), muçulmano e vegetariano, nunca saíra da Índia antes e chegou na Coréia em 2004 solteiro. Eu sou uma pessoa bastante calma, mas esse indiano muçulmano me vence por anos-luz: é o ser mais tranquilo que já conheci na vida, sempre de bom humor e sorridente. Logo o apelidamos de "Gandhi", por seu temperamento sempre plácido. E é esse indiano que tem uma história que me faz refletir constantemente sobre diferenças culturais.

A Índia, como bem mostra essa ótima análise do New York Times, está fadada à contradição, e a meu ver pode entrar numa enorme crise cultural caso algumas tradições não se modifiquem depois de tanta mudança econômica que o país vem sofrendo nos últimos anos. Veja bem, por mais que eu seja favorável à manutenção da diversidade de culturas, uma cultura é por si só intrinsicamente dinâmica para chegar num ponto em que um povo se adequa a novos parâmetros, a uma nova realidade, ao novo mundo que o cerca. O maior exemplo disso para mim é o Japão com sua comilança de carne de baleia: na hora que as baleias acabarem, eles vão continuar mantendo essa tradição? Claro que não, adaptar-se-ão ao novo mundo - e a grande questão nesse caso que os grupos ambientais tanto insistem é "por que não se adaptam desde já", papo para longas discussões que não interessam aqui. O que quero dizer é: haverá uma mudança cultural inevitável na sociedade japonesa quanto ao hábito de comer baleias, e nem por isso a cultura japonesa será ofendida ou minimizada. Apenas terá se modificado com o passar do tempo e com a nova condição de não-existência do mamífero.

Mas voltemos a Índia e ao indiano que trabalha comigo.

O indiano chegou solteiro na Coréia. Até aí, nada de mais. Em suas primeiras férias de volta à Índia (depois de mais ou menos um ano aqui), eis que seu casamento começa a ser arranjado: o pai havia selecionado anteriormente uma série de candidatas "plausíveis" à vaga de noiva. Não são muitas aparentemente as moçoilas disponíveis por aquelas bandas, como mostra esse artigo, portanto nosso amigo considerou-se afortunado de poder escolher.

(Parênteses: Eu imagino que meu colega de trabalho indiano faça parte de uma casta social elevada, caso contrário não haveria estudado em boa escola e não haveria tanta preocupação com a escolha da sua noiva, mas isso pode ser apenas viagem minha de desconhecedora da cultura indiana. Fecha parênteses.)

E o indiano foi apresentado a uma lista de pretendentes - e sem nunca ter visto nenhuma delas ao vivo e a cores. Como a maioria dos indianos, eis que ele "se decidiu" - entre aspas porque significou basicamente o aceite da escolha que os pais já haviam feito - por uma das moçoilas muçulmanas e começou então o planejamento do grande dia.

Nesse meio-tempo, suas férias acabaram. Como seu aceite da pretendente foi muito próximo da data de voltar pra Coréia e sua noiva não era da mesma cidade que ele, seu noivado foi realizado apenas alguns meses depois: ele aqui e ela lá. Para celebrar o noivado à distância, ele nos mostrou umas foto-montagens representativas que os parentes fizeram, com ele e ela recortados de fotos separadas e colocados não-photoshopicamente abraçados, como se estivessem juntos naquele momento tão importante. Uma colagem pueril, mas engraçadinha. Até então, ele não havia trocado sequer uma palavra com a escolhida, mas já era noivo dela.

De acordo com a tradição indiana, os casamentos são festas enormes e fartas, que duram uma semana inteira: a celebração final de um contrato social bem-sucedido entre famílias, que se apresentam umas às outras - uma das "cerimônias" do evento é a entrega oficial do dote da noiva, prática comum que os ocidentais consideram muito controversa. Afinal, muitos abortos seletivos são realizados no país como efeito da existência de tal tradição, pois as famílias não querem ter filhas mulheres, já que elas significam apenas despesas futuras. Com isso, a proporção desigual de mulheres para homens é escandalosa em alguns recantos do país. Os grupos de direitos humanos estão sempre rondando a Índia (não sem razão...) vigiando a quantas anda o preconceito à mulher e às pessoas de diferentes castas.

Eis que meu colega de trabalho ano passado vai então de férias para a Índia, dessa vez para seu casamento, que já estava todo organizado pelas partes contratuais. Pela primeira vez, ele conversa com a noiva, num ponto em que já não é possível mais voltar atrás na decisão da escolha. Mas, como plácido Gandhi que é, aceitou de bom grado a moça escolhida pela família. Ocorre a enorme festa de casamento, famílias felizes confraternizando, uma semana de comilança e festejos típicos de Bollywood. E depois de uma semana, eles voltaram casados para a Coréia.

Não somos muito amigos, mas é claro, sou curiosa de culturas diferentes. E várias perguntas me passaram pela cabeça ao saber do casamento indiano finalmente efetivado depois de um noivado sem conhecer a noiva - perguntas tipicamente ocidentais, do tamanho da minha ignorância da cultura indiana. Será que a moça sabe que vai morar na Coréia? Será que ela está preparada pra esse choque cultural que é morar num outro país (e logo num país tão diferente de tudo)? Será que ela pode trabalhar? Será que ela se adapta à alimentação? E se ela não suportar o frio? (Eles chegaram aqui no auge do inverno.) E se adoecer de tristeza e saudade da família?

Coincidentemente, na primeira semana dela aqui, houve uma festa de aniversário da filha de uma colega de trabalho, e fomos todos prestigiar o bolinho. Tive a oportunidade de conhecer a moça e minha língua coçou para perguntar tudo que queria, mas por polidez, deixei que ela falasse mais - o que significou quase nada, pois ela parecia muito envergonhada e não respondeu nenhuma das minhas perguntas mentais. A atitude complacente/submissa da moça me chocou num primeiro momento, mas logo percebi que estava assistindo a mais um exemplo da diversidade cultural do mundo ainda vigente. Depois dessa festinha, nunca mais vimos a moça, mas ao que tudo indica ela está bem, (sobre)vivendo em terras coreanas. E eu continuo com minhas dúvidas culturais não-respondidas.

Essa é a dicotomia de casamento que a Índia me serve diariamente: um contrato meramente social de um lado, e do outro (o indiano hindu) um casamento moderno, em pouco diferente do que os ocidentais experimentam. Para o casamento tipo contrato social, fica o mote: nada de amor nem nóias. O que vale é seguir à risca as regras contratuais.

Eis que, no meio de todos esses devaneios enquanto escrevo esse post, sem querer me pego olhando profunda e placidamente pro meu marido, que está compenetrado em seus afazeres na mesa ao lado, inocente às minhas divagações viajantes do momento. E me pergunto mentalmente: será que as mulheres indianas são felizes, nesse mundo moderno e cheio de novos desafios, sem a possibilidade de escolha do companheiro para compartilhar seus momentos? O quanto essa não-escolha pode afetar o futuro econômico da nação?

Mais dúvidas a serem não-respondidas.

Tudo de bom sempre.

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Para refletir mais sobre a Índia...

- Uma perspectiva interessante sobre as consequências culturais da tradição hindu dos casamentos arranjados.

- Uma narrativa pessoal sobre casamentos indianos, num blog bastante delicado.

- O lado negro do sistema de castas: os indianos estão alugando suas mulheres e vendendo suas filhas, por causa da pressão econômica do dote.

- Uma sociedade com seus preconceitos arraigados. Eis que o príncipe de uma das regiões indianas foi deserdado por sua família. Seu crime? Assumir sua homossexualidade.

- A Denise tem uma série de posts bem ricos e informativos sobre a Índia, escritos durante sua passagem pelo país. Vale a pena conferir.

- Essa história de dote e perseguição às filhas mulheres, embora choque boa parte dos ocidentais, existe em várias culturas ainda, principalmente na Ásia. Aqui na Coréia, por exemplo, o resquício dessa tradição está nos consultórios de obstetras: é proibido por lei revelar o sexo do bebê durante o ultra-som de uma mulher grávida - uma tentativa (vitoriosa) do governo já na década de 90 para diminuir os abortos seletivos de meninas.

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