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segunda-feira, julho 17, 2006

A ciência da beleza

Há algum tempo houve um editorial do New York Times sobre marketing nas campanhas para produtos de beleza - principalmente de cremes e loções anti-celulite. Muito interessante, principalmente no que tange... à ciência da beleza.

Não sigo nem leio muito publicações dermatológicas sobre testes científicos de produtos de beleza, nunca tive curiosidade para tal. Adoro um creme, uso os mais variados e cheirosos possíveis, e não resisto ao passar em frente a um Bodyshop - eis aí minha fraqueza suprema. Potes de loções desnecessárias amontoam-se no meu banheiro, e tenho alguns em embalagens especiais para viagem. Quando viajo, sou prática, econômica, compacta, etc. mas para meus cremes, sempre dou um jeito de driblar o excesso de bagagem e carregá-los comigo.

Entretanto, ao ler a reportagem do NYTimes, comecei a pensar sobre a ciência existente por trás dos cosméticos, e fui atrás de literatura científica geral sobre o assunto. E me deparei com uma situação bastante indigesta. Praticamente, existe zero de informação sobre cremes para celulite, e muito pouca informação sobre a real eficácia da maioria dos cosméticos anti-envelhecimento. Talvez a única certeza no meio dermatológico parece ser a eficácia do uso de protetor solar para evitar problemas de pele e envelhecimento precoce - mas até aí, isso é uma ínfima parte do que a indústria de cosméticos marketeia. Quase tudo que vemos nas prateleiras das lojas de produtos de beleza não passa de estelionato dermatológico. E até o Greenpeace já se incomodou o suficiente com essa situação a ponto de emitir um guia "ecológico" de cosméticos.

Uma das características que mais me incomodou ao procurar por informações claras de como os agentes químicos que dizem existir nos tubos de creme funcionam foi o fato de as pesquisas serem em sua maioria feitas pelas próprias indústrias de cosméticos. Até aí, alguém poderia dizer, a indústria farmacêutica também faz suas próprias pesquisas. Correto, mas existe uma regulamentação governamental no fim da linha. Para a indústria de cosméticos, não. Além disso, quando olhadas com o devido rigor científico, em muitos estudos sobre cosméticos a metodologia adotada não responde a questões básicas de segurança. Se compararmos com a indústria farmacêutica de remédios, onde o FDA fica marcando em cima para saber tudo sobre qualquer droga nova que entra no mercado, perceberemos que o mercado de cosméticos é muito mais "volátil". O FDA, aliás, tem também uma certa dificuldade em entender boa parte do que a indústria de cosméticos diz oferecer nos produtos. Não há uma regulamentação tão clara, e em geral, o produto só é testado efetivamente quando já está no mercado, para os consumidores. Nós somos as cobaias, de maneira geral. Mesmo as regulamentações que existem, como na Europa, ainda não são tão rigorosas quanto as de drogas medicamentosas. Sendo o mercado de cosméticos basicamente dependente da vaidade humana, e o de remédios da necessidade de sobrevivência, poderia-se até argumentar a favor dessa volatilidade maior. Entretanto, essa linha tênue de importância torna-se incômoda quando olhamos os números da indústria cosmética.

Cosméticos movimentam um mercado de algumas dezenas de bilhões de dólares - a indústria farmacêutica, em contrapartida, movimenta cerca de 550 bilhões de dólares, não descontados os gastos com pesquisa e regulamentação reforçada, de que a indústria cosmética carece. Só a marca Estée Lauder, uma das líderes do mercado, possui um valor estimado de mercado de 10 bilhões de dólares, o mesmo que o mercado dos produtos cosméticos ditos "orgânicos" gira e quase metade de todo o mercado americano de produtos de beleza. Em apenas 5 países da Ásia (China, Coréia do Sul, Singapura, Taiwan e Malásia),
o mercado girava em 2002 cerca de 10 bilhões de dólares - hoje esse número é quase o que um único país, a Coréia do Sul, gasta com cosméticos. Aliás, só com Botox, gasta-se 10 milhões de dólares por ano em terras coreanas. E com o crescimento acelerado da China, é para lá que as indústrias de cosméticos estão migrando o foco de suas propagandas. Adicione-se a isso que cremes e produtos de beleza agora não são exclusividade feminina, e você terá vários investidores da vaidade felizes com seus portfolios no mercado de ações.

De acordo com algumas previsões, o Brasil se tornará o terceiro mercado mundial de produtos cosméticos em 2007, atrás apenas dos EUA e do Japão. Isso não me soa novidade: é uma consequência de vivermos na sociedade da super-glamourização da aparência eternamente jovem. Envelhecer tornou-se um problema dos mais temidos. Será que é para ser assim? Afinal, biologicamente falando, nascemos, crescemos, nos reproduzimos, envelhecemos e morremos - é o ciclo da vida, para qualquer ser vivo que anda nesse nosso planetinha. Às vezes tenho a impressão ao ver todas as zilhões de propagandas de cremes, loções e afins na TV de que o Homo sapiens parece ter esquecido que envelhecer faz parte do processo. Enfim.

Apesar de saber de tudo isso, eu sou contraditória nesse aspecto: continuo passando cremes, loções e afins todos os dias, dando lucros infelizmente a uma indústria desregulamentada. Mesmo sabendo que quase todos os cremes são iguais: um combinado de glicerina com algum óleo qualquer que apenas lubrificam a pele e os cabelos. Mesmo sabendo que são puro engodo. Pelo menos deixam a pele e os cabelos mais cheirosos (qual o parâmetro olfativo??), e isso, na minha relutância em aceitar o óbvio, me basta. Por enquanto.

Tudo de bom sempre.

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Duas viagens sobre produtos de beleza interessantes...

- No Biotech Blog, um post sobre o uso do botox na medicina, para auxílio em certas patologias. Um exemplo de que às vezes um produto pesquisado e/ou desenvolvido por um motivo frívolo pode ter um efeito benéfico em uma área completamente diferente. Legal essa interface.

- Diferente do Brasil e dos EUA - onde o look bronzeada domina o mercado - aqui na Ásia, quanto mais branco, melhor. Dada essa diferença, um dos grandes hits de venda em qualquer loja de produtos de beleza são os cremes de esbranquiçamento (os "whitening creams"). Uma reportagem de alguns meses atrás do NYTimes sobre os problemas que esses cremes podem trazer à pele das mulheres mostra, entretanto, um lado perverso desse traço cultural.

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