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sábado, agosto 19, 2006

Educação científica: pela divulgação eficaz

Gosto muito dos ScienceBlogs, uma iniciativa americana de blogs profissionais voltados apenas para o tópico "ciência", que abriga o blog de ciência mais lido do planeta, o Pharyngula. São 48 blogs (e crescendo...) nos assuntos mais diversos, de evolução a astronomia. Os ScienceBlogs estão agora entre os 100 mais populares do índice Technorati, e isso, para um assunto árido para muitos como ciência, pode ser considerado uma vitória.

Não temos uma iniciativa (mesmo amadora) como o ScienceBlogs na blogosfera lusófona - não tínhamos, melhor dizendo. Porque desde o início do mês está funcionando a ótima idéia agregadora da Ana: o "Roda de Ciência", um blog coletivo com contribuição de cientistas, jornalistas de ciência e interessados no tema, do Brasil e de Portugal. É o nosso cantinho virtual na língua de Camões para discutir assuntos da ciência. A proposta é: cada mês, um tema. E o tema desse mês de agosto é divulgação da ciência.

Interessantemente, há alguns dias li um post exatamente sobre esse tema no ScienceBlog da Janet Dr. FreeRide. Ela comentava lá sobre alguns problemas que a divulgação da ciência para não-cientistas apresenta, problemas que sem dúvida colaboram na transformação da ciência de assunto divertido (como eu vejo) para assunto chatérrimo e de nerd (como a maioria das pessoas vê).

O primeiro problema que ela vê (e eu concordo) é a passividade da audiência; para mim um reflexo direto da ausência de educação científica nas pessoas em geral. Nós simplesmente não aprendemos a pensar cientificamente na escola. Falo por experiência própria: minhas aulas de química, física e biologia restringiam-se a conteúdo, nunca à elaboração da hipótese, à experimentação para validação, a executar o método científico. E pior: apenas no meu último ano de faculdade fui exposta a ele, numa aula formal (disciplina optativa, ainda por cima!). Ou seja, corri o sério risco de me formar cientista sem saber o que era o método científico a fundo, praticando-o a esmo. Até eu me choco quando lembro disso.

E me choco mais ainda porque depois de perceber o que o "método" é (por favor, não confunda com o "método" de Marlon Brando para atuar!), percebi que já o usava há tempos para tudo na vida - não só para ciência. A Janet cita um exemplo muito legal de fazer um bolo na cozinha: você experimenta quantos ovos, quanto de açúcar, quanto de chocolate pôr na massa. Se o bolo fica gostoso, você chegou num resultado satisfatório. Se ainda não está bom, você continua testando, modificando variáveis: mais ou menos farinha? Menos açúcar? E por aí vai, até ficar do jeito que você quer. Com a ciência, é o mesmo: você testa diferentes variáveis de um sistema (o seu "problema" científico) até chegar no resultado satisfatório.

Mas em geral, as pessoas não entendem esse tipo de lógica experimentativa da "vida real" como parte da ciência. E aí, quando ouvem um cientista de verdade (de preferência de jaleco branco-Omo) falando (de preferência com um discurso bem hermético), intimidam-se e acreditam piamente no que ele fala, sem questionamento algum. As pessoas acreditam demais. Aí está o erro.

Quando qualquer pessoa fala - sobre política, por exemplo - quem está do outro lado da linha em geral ouve, e acrescenta intervenções, questionamentos, dúvidas, etc. Isso chama-se diálogo. "Ora, por que usar essa estratégia na campanha do fulano pra deputado?" E assim a conversa flui, a informação se difunde, é discutida e formam-se opiniões. Confesso que discutir ciência requer um pouco de conhecimento prévio básico, mas não tanto assim que impeça ao cientista de se esforçar para estimular a mesma reação no ouvinte/leitor que um assunto como política ou futebol suscita. Por que somos todos "técnicos de futebol" no Brasil, e não somos todos "cientistas"? Por que travamos um dílogo e não um diálogo com o não-cientista? Não no sentido "ir ao laboratório fazer o experimento e analisá-lo", mas no sentido entender a lógica por trás da notícia científica, de como o pesquisador atacou um problema, como resolveu, e as consequências de tal resultado para uma amplitude maior: a sociedade. É isso que eu sinto falta na divulgação: pessoas usando o próprio pensar científico como base do questionamento. Os cientistas não incentivam isso, os jornalistas de ciência parecem querer meramente narrar resultados sem incitar discussão, as pessoas não se educam a perguntar, e ficamos nesse jogo de zero a zero infinito.

Talvez devêssemos incentivar isso em nossas crianças, e colher os frutos de uma melhor divulgação daqui a alguns anos. A curto prazo, a solução ainda é a mesma: cabe ao cientista/divulgador da ciência tornar o assunto palatável aos olhos de um público que não foi educado cientificamente. Trabalho difícil, mas não impossível, que blogs como toda a leva dos ScienceBlogs (e espero nosso projetinho Roda de Ciência) mostram diariamente ser possível fazer.

Que venham mais blogs de ciência, que venham mais discussões científicas!

O futuro agradece.

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Amigos, esse é um cross-post: se quiserem comentar e entrar na roda de discussão da ciência, deixem seus comentários lá no Roda, não aqui na minha caixinha, ok? :-)

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