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quarta-feira, agosto 23, 2006

Os tubarões de Recife

DentesRecife
Ataques de tubarão a humanos se tornaram mais freqüentes em Recife, PE, consequência do desenvolvimento.

A principal via googlística de chegada ao meu bloguinho são, sem dúvida alguma, as fotos de tubarões espalhadas por diferentes posts. De certa forma, gosto quando as pessoas que estão atrás de informações ou fotos de tubarões caem aqui - muitas procurando inclusive por "receita de sopa de barbatana", para meu desespero interno. Se pelo menos uma dessas pessoas passar a entender a grande problemática ambiental que envolve esse assunto, já me darei por satisfeita.

(Independente disso, eu já estava também com comichão: muito tempo sem falar de tubarões, meu animal estimado e de hidrodinâmica tão perfeita. Sempre darei um jeito de comentar sobre ele, não tem jeito.)

A Denise me deixou um link na caixa de comentários de um post passado que eu não conhecia: uma página agregadora de todos os ataques de tubarões a seres humanos em Recife que aconteceram nos últimos anos. Sem dúvida, um site interessantíssimo. À primeira vista constam apenas relatos de ataques, mas se você fuçar mais, verá explicações relevantes com uma análise ecológica e a razão dos ataques em Recife. Mas mesmo assim, a página inicial dá essa impressão falsa de "el matador" ao tubarão sem dar um atalho fácil ao link com as devidas razões de por que ele vem se comportando assim especificamente naquela área de Recife - já que em outros lugares do mundo, como nas Bahamas, os tubarões-cabeça-chata não atacam pessoas tão frequentemente. E eis que essas razões estão também explicadas cientificamente num post recente do Divester - post, aliás, advindo de um programa do Discovery Channel sobre Recife, o que significa que em breve espero poder assistir e avaliar por mim mesma o conteúdo.

Tubaroes nas BahamasNaufragio
Tubarões sendo alimentados manualmente nas Bahamas. Ao lado, o naufrágio "Vapor de Baixo", um ponto de mergulho recreacional em Olinda, mais distante do porto de Recife (~5 milhas).

Para entender os freqüentes ataques de tubarão que acontecem em Recife hoje em dia, é preciso voltar no tempo: uns 40 anos, mais ou menos. Nessa época, raros eram os ataques de tubarão por lá: eles habitavam mais ao sul, onde uma região costeira de manguezais fornecia o abrigo ideal para sua reprodução. Mais ou menos nessa época, começou a construção do porto de Suape, em Pernambuco, que iria trazer desenvolvimento e bons negócios ao estado. Pois bem, para tal construção, destruiu-se o manguezal onde os tubarões se reproduziam e de certa forma, se alimentavam. Com o hábitat destruído, os tubarões passaram a nadar mais ao norte, onde a água é mais quente e mais cheia de nutrientes. Onde fica Recife.

Entretanto, os tubarões não perturbariam os recifenses hoje se o fundo do mar e as condições do oceano local fossem diferentes. Nas Bahamas, onde a visibilidade embaixo d'água é fantástica, os tubarões raramente atacam humanos, porque eles, tubarões, os "enxergam" bem - enxergar aqui no sentido de perceber que não são seu alimento. Recife tem um mar de pouca visibilidade porque o rio Capibaribe despeja todo seu leito na região, comprometendo a clareza da água do mar de lá. Além disso, o fundo do mar em Recife é peculiar: um grande penhasco subaquático, que ainda próximo da costa leva a profundezas abissais, onde os tubarões gostam de buscar refúgio, vindo à superfície apenas para... se alimentar.

Num terreno próximo a regiões mais profundas, com água turva e intensa pesca (muitas vezes ainda de arrasto, desequilibrando a cadeia natural do ecossistema), os tubarões não conseguem identificar a presa com tanta clareza. Adicione a isso o fato de que a área onde eles buscavam seu alimento natural foi destruída, e o resultado desse caldeirão são tubarões com fome tentando sobreviver em áreas mais ao norte, próximo à boca de um rio, em baixa visibilidade: a receita perfeita para um "ataque".

Humanos não são parte da dieta de tubarões. Em geral, os ataques são reflexo de uma "petiscada" que o bicho dá em algo se movimentando na superfície da água que ele quer saber se é alimento. O problema é que, quando um animal enorme com uma mandíbula tão poderosa faz uma "provinha" do alimento, essa mordida única já é suficiente para causar sérias hemorragias e até matar um humano. Curiosamente, a maior parte dos ataques são mordidas únicas: ou seja, o tubarão, ao perceber que a carne é humana, larga a presa e não a devora por completo.

É claro, fica nítida a existência de um problema ecológico muito maior por trás de toda essa questão. E a empresa que gerencia o porto de Suape, um dos maiores responsáveis pela destruição do habitat natural dos tubarões em Pernambuco, se desculpa fracamente jogando a culpa na pesca de arrasto e na falta de recursos governamentais para resolver os problemas dos depejos orgânicos no mar. (Para mim, essa desculpa não cola muito.) Enquanto esse jogo de empurra vai rolando, pessoas continuarão a ser atacadas em Recife - principalmente as que mais frequentam o mar, os surfistas.

Há um intenso debate entre estudiosos de comportamento animal que dizem que o surfista em cima da prancha esperando pela onda quando visto por baixo se parece com uma tartaruga ou outro animal qualquer que o tubarão efetivamente atacaria, portanto o tubarão estaria "se confundindo" ao morder o surfista. É verdade que o surfista lembra mesmo uma tartaruga quando olhamos pra cima, e essa pode ser uma boa explicação comportamental de porque eles são "alvos" mais freqüentes, mas ainda acredito que o simples fato de eles estarem mais tempo na água não pode ser desprezado nessa análise: maior probabilidade de encontro com o bicho.

Mas outra percepção que eu gostaria muito que as pessoas tivessem também: o mar é a "casa" do tubarão. Ao decidirmos entrar na água do mar, precisamos estar cientes de que aquele não é o nosso ambiente natural - embora eu às vezes também pense que nasci pro mar, sei que é só uma viagem na maionese pessoal. Deveríamos entrar no mar sabendo que atitudes de respeito e informação são fundamentais para a boa convivência entre nós, humanos, e os demais "donos" daquela casa. Com uma postura assim, é menor a probabilidade de acidentes acontecerem.

Tudo de bom sempre aos tubarões do mundo.

Tubarao pacatoCurioso tubarao
Tubarao-marteloTubarao a passeio
Não são lindos? ;-)

P.S.: Nenhum dos tubarões retratados aqui pertencem às espécies que mais atacam em Recife: o tubarão-tigre e o tubarão-cabeça-chata.

UPDATE: Ainda no tema tubarões, deparei-me hoje com essa notícia: cientistas australianos tentam desesperadamente salvar tubarões e produzem um útero artificial para os animais. O "desesperadamente" não é de minha autoria, como vocês podem perceber no link. ;-)

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